31 de jul. de 2012
Num Parquinho Qualquer
O banco da praça era o lugar mais confortável do mundo. Podia sentar-se como queria, deitar-se se tivesse vontade, sempre com o jornal e um bom livro em mãos e alguma coisa pra beber. Chá, café, refrigerante, dependendo do clima e do livro, ou de seus ossos cansados. Gostava dessa vida, de ler sob o sol, olhando as outras pessoas passarem. Gostava de adivinhar sua história, o seu destino, julgá-las pelas roupas e pelo que carregavam - mas não de maneira ruim, mal olhado nunca!, só gostava de criar histórias.
O barulho das crianças ao fundo lhe confortava os ouvidos, e abstraía as conversas fúteis enquanto recitava mentalmente os seus romances. Lia um sobre um assassino que matava assassinos, e sempre que via alguém mais suspeito, com uma boina que não combinava com seu rosto ou um casaco grande demais pro seu fino corpo, levantava uma sobrancelha e observava, imaginando que vinha da cena do crime e se dirigia ao esconderijo. Uma semana durou o livro, uma semana duraram os homens gatunos, que olhavam pros lados sem mexer a cabeça e, como se possuíssem um retrovisor ou um olho em sua nuca, aceleravam o passo ao serem seguidos.
Na outra já lia um livro de crônicas que achou jogado num dos cantos do quarto. E ria do homem de paletó que pisava na poça, pensando em como aquilo poderia ser uma crítica a sociedade, acompanhada de um desenho cartunesco dum homem que pisa na água dos pombos e reclama. "Pelo menos você não vai ter que beber!", respondem eles. Haha, refletia exatamente o mundo. Terminou o livro rapidamente, atento as situações mais banais e absorto em seus próprios escritos mentais.
Cruzou as pernas e virou a página, trouxera consigo de casa um livro de sua mãe, um tal de "O Amor Venceu". Já torceu o nariz à capa feia, mas o pegou mesmo assim, a curiosidade era maior que o preconceito. A história confusa, entediante e cheia e enfeites literários só agradáveis aos olhos de uma leitora de banca de jornal lhe dava nos nervos, a única coisa lhe impedindo de arremessar o livro na pequena fonte sendo o casal que começou a notar.
Ele sempre calçava chinelos e tinha no rosto as sobrancelhas levantadas de quem não trabalha (reconhecia a própria feição no garoto). Ela levava na cabeça uma tiara cor-de-rosa que removia pra sacudir os cabelos, cobrindo o rosto esbranquiçado Estavam ali toda terça-feira, desde o cantar dos pássaros no café da manhã até os sussurros contidos dos namorados ao cair da noite.
Deduzia que não tinham idade pra beber. Jogavam-se no banco, revezando quem deitava sobre o colo do outro, trocando olharem e sorrisos enquanto conversavam e faziam graça. Um mimo. Tinha saudade disso em seus relacionamentos, daquele brilho no olhar, de não relaxar os músculos da face um segundo sequer. Caretas, mordidas, gritos, nunca estavam quietos. Odiava o livro por não entretê-lo, era obrigado a assisti-los com mais interesse do que pretendia.
- Que crianças barulhentas, - disse baixinho a tiara cor-de-rosa - Aposto que não tem mãe, se fosse minha já tinha levado uma na cara.
- Fala isso porque sua mãe é louca , - respondeu rindo. - Acho que ela quer me matar.
- Exagero, ela só odeia seus chinelos. Lembro que ela costumava me trazer aqui.
- Aqui?
- É, a gente morava duas ruas pra baixo. Eu costumava brincar naquele gira gira, ela me empurrava e eu gritava, abria os braços, já até girei de pé. Estranho né?
- O quê?
- Como as coisas mudam...A minha escola ficava logo ali, e sempre passávamos pela praça a caminho de casa. E eu sempre girava. Era tão fácil...sem esforço, parecia que giraria pra sempre.
Ele limpava os óculos na camisa e por um momento nem percebeu que ela levantava, sacudindo a poeira da calça enquanto se aproximava do gira gira. Tocou-o, admirando suas cores, o contraste daquele amarelo desgastado pela chuva e pelo sol com o vermelho enferrujado da base do brinquedo. Pegou impulso e empurrou a roda, sentando-se rapidamente e estendendo a cabeça pra trás, sem notar a tiara que voava de sua cabeça. Fechou os olhos e girou mais vezes do que imaginou possível, dada a força que colocara no empurrão. Quando o brinquedo finalmente parou, abriu os olhos e sorriu sem surpresa ao ver o rosto cansado do namorado, que arfava com as mãos nos joelhos pelo cansaço e pelo sedentarismo.. Ela continuou, como se nunca tivesse pausado:
- Daí eu cresci. Comecei a ir pra casa sozinha. Um dia eu estava triste, chorando, nem lembro por quê. Alguma menina deve ter sido má comigo na escola, não importa. Mas eu vim correndo e vi esse gira-gira... E empurrei, empurrei o máximo que podia...e enquanto ele girava eu era feliz. Mas meus pés cansavam e por mais que ele girasse, eu sabia que um dia acabaria...eu teria que voltar pra realidade, colocá-los no chão outra vez...
Nenhum deles falou por um instante. Sentia-se num filme, enquadrando a cena, escolhendo os sons...o vento passava quieto, só mexia as folhas sem denunciar sua presença; as crianças brincavam em silêncio, estavam distraídas com algum achado que uma delas dizia ser um tesouro. As mães cochichavam fofocas. Ele lia.
- Você precisa de movimento perpétuo, - respondeu.
- Movimento perpétuo?
- É, de alguma coisa que te mova pra sempre, sem gastar a energia do sistema. É contra as leis da física, mas a gente arranja.
- Nerd. E onde você vai arranjar isso?
Sem responder nada, descalçou os chinelos e voltou a empurrar a roda.
Ao cair da noite as luzes da praça se iluminavam, percebeu que ainda podia ler tranquilamente. O cenário parecia mais aconchegante a pouca luz, com a primavera anunciando sua chegada em flores de cores escuras recortadas sobre a sombra das árvores, pétalas na água da fonte brincavam como barquinhos que se batiam e rodopiavam a comando do vento.
Um observador mais atento poderia dizer que prolongava o livro só para continuar a observá-los. Que tinha na cabeça a ideia de que o que lia afetava sua visão da realidade, temendo assim, ao final do livro, perder as conversas e as brincadeiras de seus melhores amigos que não o conheciam. Justificava aos pombos de olhar perfurante, que o julgavam, "maldito livro insuportável! história ridícula, cena ridícula!", mas já lera livros ruins antes.
- Ainda tem coca?
- Acabou amor.
- Droga. E que história é essa de amor, tá apaixonada? - A menina corou de imediato, podia ver dali, a lua lhe iluminava o rosto.
- Foi só um momento, não pode? - respondeu virando o rosto.
- Não de terça feira.
- Não sabia que tinha dia pra isso.
- Tem. Tem dia pra tudo. Dia do Índio, Dia da Árvore, Dia do Amigo.
- Dia do Orgasmo.
- Dia do Funcionário Público.
- E qual é meu dia?
- Quarta-feira.
- Essa ou toda quarta-feira?
- Toda. Acho que é o jeito que você me olha de quarta, o jeito que anda...terei que vê-la amanhã.
Não conseguiu ouvir o resto da conversa, uma mulher sentada ao seu lado falava alto ao celular, jurava que naquele tom o interlocutor podia ouvi-la de qualquer lugar do mundo sem precisar do aparelho. Enfiou a cara no livro e tentou se distrair. Quando deu por si já tinham ido embora outra vez, sem se despedir. Naquela noite terminou o livro, por um segundo distraído pelo barulho de uma freada brusca, logo no clímax. Mas não importava, o final já era ruim sem ajuda externa.
Na outra terça feira tinha feito uma pesquisa de campo. Pergunta a amigos próximos de confiança se alguém conhecia uma boa história de amor escrita. Recebeu respostas negativas em maioria, ouvindo as sinopses de um ou outro que balançava com a cabeça em recusa. Por fim, como recomendação de uma amiga, trouxe Razão e Sentimento da Jane Austen.
O dia inteiro esperou por eles, reparando em casais que vinham de mãos dadas e conversavam baixo ou alto, riam ou choravam (e algumas vezes discutiam bobagens), sempre apressados, sempre saindo de um lugar e se dirigindo a outro. Não tinham o mesmo clima, a mesma liberdade e paz que aquele casal demonstrava. Caiu a noite, vieram outros, que se tocavam no escuro murmurando palavras em sussurros só pros seus parceiros. De vez em quando se ouvia um gemido mais alto, um grito, um perturbo, que sumia entre os sons das árvores e da cidade.
Os casais iam embora e só sobrava ele naquele praça. Todo dia lia, toda terça esperava. Ansiava, até. E nada. Terminou o livro e terminaram suas esperanças, voltando a encher sua coleção. Em suas mãos tinha um Sherlock Holmes, era apaixonado pelos livros na adolescência e sentia certa nostalgia em reler aquelas histórias. Olhava pros sapatos sujos de terra do homem alto e deduzia que vinha de uma construção ali perto...
Numa quarta-feira qualquer, lia uma história de fantasmas. Nunca fora apaixonado por suspense, mas esse era tão bem escrito que lhe envolvia a ponto de perder a hora de ir pra casa. Os casais já tinham ido embora e logo os ônibus acabariam, então resolveu que só terminaria aquele capítulo. Na praça vazia, ouviu um som metálico vindo do parquinho, acompanhado do que pareciam ser risos. Levantou os olhos curioso e não viu nada, convencendo-se de que era coisa de sua cabeça.
Sentia frio, até tremia um pouco, seu banco de leitura parecia mais escuro que o habitual. Talvez fosse o livro. Novamente ouviu vozes, um riso e uma conversa, levantou os olhos depressa e por um momento sentiu seu coração parar. O gira gira se movimentava, ora sozinho, ora empurrado por um menino descalço que nunca tirava os olhos da menina de tiara que sorria pra ele. Respirou fundo, fechou o livro e foi pra casa. Já tinha o final que queria.
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