15 de jul. de 2012

Quatro Dias de Penas


Segunda-feira. Jazia estático na cama já há algumas horas, meio acordado, meio preguiçoso. A cama de casal vazia lhe dava amplo espaço para seus braços e pernas, de modo que os mantinha abertos, como se imitasse uma estrela ou tentasse fazer anjos de neve no lençol amarrotado. Cansou-se do cheiro de suor noturno e resolveu se levantar, interrompendo o curto caminho até o chuveiro para admirar-se no espelho. Já se considerara bonito um dia, e outros compartilhavam tal opinião, mas a barba crescida se encontrava com seus cabelos desgrenhados e juntos lhe davam o aspecto de um neandertal em trajes de dormir. 


Suas unhas só não alcançavam o metro pois as roía incansavelmente ao menor sinal de tédio ou ansiedade. Por vezes sentia certo nojo ao lembrar-se que não as higienizava com tanta frequência, mas logo esquecia e voltava a devorá-las, provando inúteis as inúmeras tentativas empregadas por sua mãe de afastá-lo do vício logo na infância. As broncas, as chineladas e a pimenta hoje eram só uma vaga lembrança em sua mente entorpecida e vazia. "Flácido" era a palavra que melhor o descrevia, e sentia-se mal por isso; jamais fora atlético, mas o incomodava ter se deixado largar de tal maneira. Odiou seu reflexo mais um pouco e finalmente foi cumprir sua promessa de limpar-se.


A água quente escorrendo por seus cabelos sempre lhe abria os pensamentos, e dessa vez não foi diferente. Pensou na adolescência, nas oportunidades que perdera seguindo suas crenças e o desapontamento que trouxe a todos ao seu redor. O rosto de seus pais, "você não pode, não tem capacidade. não nasceu pra isso". O sorriso sem graça dos amigos, "é...legal...já pensou em fazer outra coisa?" As aulas que pagou com seu emprego na lanchonete, "talvez não se aprenda a escrever, meu filho". Mas gostava tanto, tinha tantas idéias! Talvez não tivesse o dom, mas buscava, Deus como buscava!

Secou-se, pegou pão na cozinha e recomeçou a rotina diária de encarar a tela do computador. Piscou algumas vezes frente a tela clara. Seus olhos já não eram mais os mesmos e logo teria que trocar de óculos, mas não tinha ideia de onde tiraria o dinheiro. Mal sabia se comeria no dia seguinte, se limitando a viver de pão, miojo e alguns temperos baratos pra atiçar o sabor. Se dizia fanático pra não admitir ser pobre.
A casa que herdara dos pais já fedia a ausência de sol e até pensava em abrir as janelas, mas tinha medo de que os vizinhos o encarassem.

No escuro, comia com uma mão e com a outra navegava a internet a procura de alguma inspiração, algo que o levasse a escrever mais uma de suas terríveis obras. A webcam caída de lado, o teclado oleoso, lia as notícias, lia as opiniões, lia sobre tudo e queria muito escrever também. Nada. Onde estava aquela força que lhe mantinha de pé anos atrás, que lhe fez lutar pelo diploma, lutar pra ser publicado, lutar pra viver do seu trabalho? Não tinha, não tinha nada. Não tinha admiradores, nem família, nem amigos, só a preguiça obesa e a solidão que a vergonha trouxe para dormir em casa. Levantou-se, realmente era hora de abrir as janelas. Já não aguentava mais o calor que fazia ali dentro e uma brisa não faria mal algum. Cortinas, trinco, ar.

Lá fora fazia um lindo dia ensolarado, o céu azul limpinho se enfeitava de algumas nuvens de algodão que apostavam corrida rumo ao norte. "Frente fria se aproximando", dizia a página do jornal local, "sol com poucas nuvens mas sensação térmica de 13° Celsius". Tinha lido em algum lugar que a expressão "sensação térmica" é utilizada errado, mas desconfiava da informação, pois realmente fazia um friozinho não compatível com a imponência de Rah sobre sua casa. No quintal, a árvore já seca até parecia ganhar um pouco mais de vida, um pouco mais marrom, um pouco mais verde, alguns assobios.

 Reconheceu o som como provindo de um ninho improvisado num dos buracos da anciã já morta. Anormalmente pretos pro tipo assobiador, e não achava uma árvore morta o melhor lugar pra se morar (mas também não era um expert em pássaros). Não deu importância e estava prestes a virar as costas quando percebeu que um deles parecia gordo demais. Nem mesmo se mexia, sua barriga inchada como se fosse explodir. O outro pulava em torno do maior, cantando, e voava trazendo consigo algum pedaço de fruta ou inseto. Ouviu um barulho na cozinha e virou-se rapidamente pra verificar, encontrando nada além de escuridão total.

Acordou com o corpo duro como se não se movesse há horas. Meio zonzo, meio preguiço, seus braços e pernas abertas de modo que imitavam uma estrela, ou um anjo de neve no lençol amarrotado. Cheirava a suor noturno, não se lembrava de nada do dia anterior. "Me olhei no espelho, tomei um banho..." sim... Deus, que calor deve ter feito, estava banhado em suor. E por que as janelas estavam fechadas? "Comi... Abri a porra das janelas, fiquei olhando os pássaros..." Levantou-se e olhou pra fora,  coçou os olhos pois o sol brilhava, aquecendo-lhe enquanto uma brisa fria adentrava o quarto. Os dois continuavam lá, o maior parecendo uma balão e o menor quieto, como se esperasse.  "O que eu fiz o resto do dia?"

Voltou pro espelho, fedia. Parecia mais imundo que no dia anterior e não se lembrava de nada além do barulho na cozinha. "A cozinha". Foi até lá verificar. Nada diferente, o saco de pão aberto do jeitinho que havia deixado. Será que sua pressão caiu e desmaiou? Será que o tempo não passou? O computador continuava ligado, mexeu o mouse pra que a tela se iluminasse.13:41, terça feira. Dormiu praticamente um dia todo? Impossível. Sentou-se e voltou a rotina de checar os sites e blogs que acompanhava, dessa vez ligando a TV pra que tivesse uma distração sonora. Colocou a webcam de pé, sentia-se torto com suas coisas tortas.

"Desabou. Dois jovens são condenados pela morte do estudante assassinado no estacionamento da Universidade de São Paulo no ano passado." Já não era sem tempo, pensava. Nada de interessante na internet, nada na tv,  pássaros. Só conseguia pensar em penas. "Você sabia que as infecções respiratórias podem causar problemas do coração?" Bom, sabia que as infecções podem causar problemas, claro. Colocou a cabeça pra fora da janela, ainda ouvindo o jornal com um certo ruído de barulho da vizinhança. "Nove pessoas foram baleadas, oito morreram". O menor havia trazido comida, mais fruta, mais inseto. O maior ia explodir. Reparou que atrás dele, reluziam as carcaças de um único ovo quebrado. Imaginou que o grande fosse a mãe e o pequeno, seu filho. Mas cresceu tão rápido? Já tem as penas negras e é forte a ponto de buscar comida...e voa..."Essa mulher ouviu os tiros, mas não percebeu que era um crime. Para a polícia a intenção dos bandidos era aproveitar o barulho dos". Silêncio. Sua TV se desligou com um "tsiu", olhou pra verificar e só viu escuridão.

Duro. Zonzo. Braços e pernas abertos, cheiro de suor. Seu pescoço e barriga doíam, um por rigidez, o outro parecia mais agudo, mais afiado. Quando conseguiu se mexer verificou o local da dor a luz da televisão, um corte retilíneo descia alguns centímetros começando logo abaixo do seu peito. Comprido, um pouco fundo, mas não sagrava e parecia completamente limpo. Acendeu o abajur, podia ver um pouco de vermelho, mas além da dor não parecia ter mais com o que se preocupar além do fato de que não sabia como ganhara o corte ou deitou novamente na cama. Ou fechou as janelas, "essas janelas, puta que pariu". Abriu-as. O sol brilhava, céu com nuvens, brisa fria. Dois pássaros. Olhou no espelho, imundo, faminto. Foi a cozinha fazer um chá, comeu o pão duro que ficou novinho após um tempo na grelha. Sentou-se frente ao computador, totalmente alheio ao barulho da televisão, o chá preto o aquecia por dentro. "Quarta-feira", pescou entre as palavras do apresentador. Pesquisou sobre desmaios, perda de memória, cortes. Assombrações, múltiplas personalidades, câncer. "Tudo é sintoma de câncer", pensou. Na TV uma reportagem sobre comer frutas e legumes, mas não achava que sua alimentação era motivo para alarme. "Deve haver alguma explicação", mentiu pra si mesmo. Um bom escritor é sempre um bom mentiroso.

No fundo não se sentia tão nervoso, o que devia temer? Não faria falta alguma, a ninguém! Quem noticiaria que adoecera ou morrera. "Não seja tão pessimista", pensava observando o pássaro gordo, "o outro deve ter saído pra caçar comida". Enquanto não voltava, a barriga da provável mãe se mexia, pequenas protuberâncias caminhando sob sua pele. As penas se moviam como ondas e ela gemia e miava, chamado que trouxe a atenção do filho. Não tinha comida dessa vez e parecia desesperado, assobiando cada vez mais alto enquanto pulava e batia as asas. O coro dos pássaros já lhe dava nos nervos, queria destruí-los por roubar seus preciosos dias, quando de súbito só se ouvia o menor. Segundos depois irrompeu em silêncio, como se também percebesse que era agora o único a cantar. A mãe permanecia gorda, estática, mantendo os olhos abertos enquanto fitava o nada. O pássaro sabia, ele sabia, só o pássaro cantava - voltou a assobiar um som triste e a pular em volta do defunto. Sentiu-se culpado por desejá-los a morte, essa nunca era algo bonito de ver. Estava oco, vazio, só conseguia assistir aquela cena e imaginar que o filho chorava enquanto assistia seus irmãos morrerem dentro da mãe sem nunca terem conhecido o mundo. Precisava fazer uma coisa, virou-se pra correr até a árvore e ajudar, mas nem saiu do lugar.

Dronzo. Brapernas, chuor. Sua cabeça pesava uma tonelada, mal conseguia pensar, mal conseguia se mexer. Sua barriga ardia uma dor que nunca sentira antes, funda, cortante, constante, descia até o umbigo. Enxergando nada, tateou em busca do abajur e ficou horrorizado assim que seus olhos se acomodaram a luz. O corte descera, mais fundo, maior, queriam rasgá-lo em dois. Penas e sangue cobriam o lençol e o chão, furos como bicadas cobriam seu corpo, pequenos socos pontudos que doíam em hematoma e carne. "O pássaro, o pássaro filho da puta". Ignorou o computador, abriu a janela, era noite. Forçou a vista e o encontrou a beira do ninho, coberto de sangue e parecendo machucado, ou exausto.

"Eu sabia", pensou, "o pássaro, foi ele o tempo todo!" Novamente queria rasgá-lo, matá-lo, destruí-lo, mas ainda pensava no dia anterior, em como por um momento sentiu por ele. Queria enxergar a mãe mas a escuridão o impedia, a luz da janela só iluminava o filho em luto. Procurou a lanterna que guardava na última gaveta da cômoda, só encontrou meias. "Talvez embaixo da cama", e lá estava bendita. Apontou para o ninho e observou, chocado, os restos mortais da mãe, sua barriga rasgada (certamente a bicadas) enquanto os sete ovos que caíam sobre o ninho (exceto um...), se quebravam, livres pra revelar as criaturas dentro de si. Seis pequenos irmãos recém nascidos, direto do forno da barriga materna, um parto digno de um mamífero. O mais velho assobiava orgulhoso, seu trabalho enfim concluído, o sacrifício de sua mãe ganhando propósito. O último ovo jazia quieto na gruta da carcaça materna, mas tinha esperança de que também se libertasse. Suspirou.

Nunca havia presenciado cena tão incomum. Queria escrever sobre aquele pássaro tão belo que, com todas as forças, abriu a bicadas a barriga da mãe buscando salvar seus semelhantes não-nascidos. Correu pro computador e foi engolido pela escuridão, pra nunca mais acordar.


No dia seguinte seu nome era conhecido em toda a internet. Seus três vídeos, onde relatava seus dias e a comovente história de dois pássaros que se instalaram em seu quintal, ficaram famosos quando, na quinta-feira a noite, uma exibição ao vivo terminou em tragédia. Proclamando estar dando a luz a maior obra de arte já feita, cortou seu tórax a navalha, assobiando sem nunca demonstrar dor enquanto se rasgava de fora pra dentro. 


Por Rodrigo Neflin.

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