20 de jul. de 2012

Dor no Peito

Dor no peito nunca é um bom sinal. Seu comportamento também não era dos melhores, já há alguns meses andava acompanhado de uma garrafinha (tão bonita, pequenita!), onde guardava sua amada pinga. Cigarro atrás de cigarro, e dos que mais pesam no pulmão (cravo maldito), sem contar as drogas ilícitas. Não importa quão autodestrutivo você seja, dor no peito não é algo que você encara com alegria.

Vestiu a camisa, botão a botão, como se pregasse o próprio caixão. Sua imagem no espelho mantinha-se embaçada, mesmo depois que todo o vapor do banheiro se foi. Não penteou os cabelos negros, gostava deles assim, e a barba era algo com que se incomodava mensalmente (benção!). Chaves, isqueiro, carteira, mochila. Saiu. Voltou pra pegar o celular. Saiu.

Lá fora nem o sol parecia contente. Aparecia tímido entre as nuvens, só de vez em quando, iluminando o cimento frio daquela rua. Como tudo parece cinza quando se acha que vai morrer. Já fora confrontado com sua própria mortalidade antes, mas era sempre uma situação rápida: uma queda, um quase-atropelamento, um exagero. Nada que não esquecesse no dia seguinte. Mas como conviver com a dor, com a lembrança constante de que logo começaria a definhar?

Sorriu o dia todo, ao menor sinal de graça. Queria uma distração, se sentir bem pra variar. Acendia um cigarro e esquecia do peito, só pra lembrar-se segundos depois. Mas o vício era maior que o medo, e a fumaça descia bem com uma pinga. Comeu ignorando o sabor, conversou ignorando o assunto, caminhou ignorando o destino.

Sentou-se numa praça qualquer, perto de um velho que fumava haxixe. O cheiro dominava o lugar, talvez o motivo pra estar tão vazio. Foi oferecido um trago, aceitou, sentiu seu mundo se apagando. Estranhou a potência da droga, pensou ter sido enganado, por um segundo temeu por si mesmo. Mas não lhe fizeram mal algum. Despediu-se e voltou pra casa, cansado de tudo e cansado de nada.

Acendeu a luz do quarto e fechou os olhos à bagunça. Chutou as coisas jogadas no chão, adicionando mais algumas ao labirinto enquanto esvaziava o conteúdo da mochila. Jogou os tênis longe, nem fez questão de tirar as meias. Encarando-se no espelho despiu a camisa devagar. Sobre o peito esquerdo, uma pequena queimadura de cigarro doía como um ferrão. Suspirou em alívio, não conseguiu conter o riso.

1 comentários:

  1. Eu é que queria ter umas dores no peito que fossem só por avarias físicas externas...
    Apreciei a gradação: "Comeu ignorando o sabor, conversou ignorando o assunto, caminhou ignorando o destino.". Identifiquei-me.

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