1 de ago. de 2012

Um Lugar Inexplorado

Nem costumava brincar naquele parquinho. Na verdade, nem costumava brincar fora de casa. Talvez fosse a geração, talvez a violência e o medo, talvez só gostasse de outras coisas, mas seus passatempos prediletos eram os próprios brinquedos e o computador.

Um dia diferente, num lugar e com pessoas diferentes, só pra sair da rotina. Sua mãe acompanhava de longe enquanto brincava, atenta ao livro e a criança; um verdadeiro cérebro multitarefado. Na verdade,entre uma vigiada e outra, perdia algumas palavras ou parágrafos, umas descrições longas demais - mas não se arrependia, se divertia assistindo a filha sorrir.

Com as roupas já sujas de terra do parquinho, os cabelos negros soltos e bagunçados, corria do trepa-trepa ao balanço, nanana ao escorregar, sem uma preocupação no mundo. Desatenta, pensou ter ouvido alguém gritar, mas não deu atenção. O som repetia-se, mais alto: "Pega a bolaaaaa!", finalmente compreendeu entre os barulhos da quadra, olhando ao redor em busca do objetivo. Finalmente encontrou-a, não muito distante dali, sinalizando com o polegar que já estava a caminho. Ela correu sobre a grama verde, seus tênis encharcando-se um pouco na água que se acumulava sobre as folhas, sem perceber que as crianças já não gritavam. Por um segundo o mundo ficou em silêncio, estático, e estendia as mãos para alcançar a bola quando, num passo em falso, caiu.

No caminho ralou os joelhos e os cotovelos nas paredes do buraco, deslizando bruscamente enquanto era atingida por pedregulhos mais acentuados e raízes, nada o suficiente para desacelerar ou impedir sua queda. A gravidade parecia odiá-la. Como uma gata, seus pés foram os primeiros a tocar o chão, o que não foi de grande ajuda - sentiu tanta dor nos tornozelos que o grito de dor exclamado quase foi ouvido lá em cima, não fossem as formigas que roubaram sua voz enquanto subia.

Levantou-se com dificuldade, acostumando os olhos à pouca claridade da gruta em que se encontrava- a luz do sol não chegava ali, mantendo-a num eterno brilho azulado. Tinha medo do escuro desde pequena  mas alguma coisa ali a confortava, e não sentia necessidade de se apavorar. Sentia um cheiro forte de construção, talvez pelas pedras, e um barulho não tão distante de água corrente, que aumentava conforme lentamente caminhava na direção de onde vinham sorrateiros aqueles feixes azuis.

Atravessava um corredor deformado, certamente escavado pelo tempo, de paredes e chão úmidos e um teto escuro que não ousava encarar - temia acostumar os olhos e perceber o caminhar das aranhas ou o olhar cigano dos morcegos. Mantinha os olhos fixos em frente, nas curvas inexpressivas que denunciavam um marrom mesmo sob aquele tom gelado. Ao final do corredor encontrou outra gruta, aparentemente vazia fora as estalactites, onde uma rachadura na parede parecia conter uma fonte de luz.

Movia-se devagar e cautelosamente, como se a menor perturbação fosse causar um terremoto. Aproximou o rosto da rachadura, cerrando os olhos que reclamavam da claridade conforme chegava mais perto. Tocou a fresta com as mãos, impulsionando o corpo pra frente de modo que sua cabeça atravessasse. De olhos fechados, sentiu os ossos do crânio se chocarem com algo mais duro.

Levantou o rosto a sua frente e, como numa tela de televisão, podia ver o parquinho. As crianças que corriam jogando bola, outras que brincavam na areia, sua mãe lendo o livro, ela sentada no escorregador. Voltou os olhos assustada ante a visão de si mesma brincando contente, como num espelho que mostrava o passado, e sabia que era o passado pois acabara de ver a bola sendo arremessada próxima ao buraco.

Afastou o rosto depressa e bateu a cabeça no teto do buraco, demorando alguns segundos pra voltar a enxergar. Quando conseguiu, só via a parede, como se tivessem desligado a TV. Aproximou-se novamente da superfície lisa e rochosa, sem desviar o olhar, o brilho azul que emanava dos cristais nas paredes iluminando sua expressão de curiosidade.

De repente se acendeu, mas não via nada. Por sua cabeça passou um pensamento, pensou na escola, teria aula amanhã. Via as colegas de classe. Falavam mal dela, criticavam suas roupas e seu cabelo, seu jeito de andar se vestir, seus gostos e conversas. Afastou a cabeça, nada. Voltou. Viu-se na quadra, a última a ser escolhida pro time, as outras rindo de si a uma distância segura, onde não ouviria. Lá estava na sala, trazia presentes, todas vinham, cercavam-a o dia todo; queriam saber sua vida e o que mais tinha pra dividir. No outro dia voltava a ser ninguém, não queriam falar com ela, afundava em sua cadeira.

Com lágrimas nos olhos, recuou uns passos pra trás. Sentou-se num canto pensando no que via. Retornava ao buraco, espiava outra ocasião, sentia-se mais partida. Só queria ter amigos, por que era tão difícil? O que fazia de tão diferente? Talvez fosse mesmo sua culpa, fosse estranha demais, desinteressante demais. Molhava um pouco mais a camisa pressionando-a contra seu rosto.

Exausta e desidratada, voltou de ombros caídos pelo caminho que seguiu, deixando pra trás o buraco. Queria apagar a luz, mas o azul a perseguia. Nem olhou pro teto ou prestou atenção aos barulhos que a cercavam. Arranjou um jeito de subir, mesmo com dificuldade, e logo a luz do sol já tocava seu rosto.

As crianças brincavam de bola, sua mãe lia o livro, parecia nem ter notado sua ausência. A mãe a viu se aproximando, cabisbaixa, e logo perguntou o que tinha. "Que cara é essa? E onde se sujou tanto? Menina, num segundo olho e não te acho, no outro me aparece assim!" Respondeu qualquer coisa, queria ir pra casa, precisava de um banho.

Naquele dia mal dormiu. Foi a escola, encarou a professora e as outras crianças, sem ânimo pra nada. Perguntavam o que tinham, munidas de seus largos sorrisos falsos, despistava dizendo que estava cansada. Queria voltar ao parquinho, cair de novo, enxergar de novo. Com certeza falariam dela hoje, e amanhã também. Será que podia ver amanhã?

Com a desculpa de que perdera sua tiara, arrastou a mãe de volta ao parquinho. Aproveitou o encontro com uma tia conhecida e saiu correndo na frente, dizendo que já voltava com o acessório, sabia exatamente onde o tinha perdido. Escorreu com mais cuidado mas não conseguiu evitar se machucar um pouco na queda, seus tornozelos sofrendo o maior descuido.

Logo achou estranho que, em meio a luz azul familiar, sombras emanavam do fim do corredor. Correu em direção ao buraco, aquele lugar era seu, o encontrara primeiro! Uma menina não muito maior que si tinha a cabeça enfiada pela parede, seu corpo magro vestindo um uniforme escolar e um pouco dos longos cabelos castanhos vazando pela fresta. Estava prestes a gritar, ordenar que se afastasse dali, quando ela reparou sua presença e se virou com um sorriso.

- Oi! Qual seu nome? - perguntou, encarando-a no rosto. Nem deu tempo que respondesse - Eu não sabia que mais alguém vinha aqui, acabei tropeçando numa pedra e caí de cabeça, tá vendo? - mostrava alguns pontos que recebera no corte - Procurei uma saída por aqui e encontrei esse...buraco...não é legal? Quando contei aos meus pais, disseram que era efeito da batida. Me levaram até no médico! Um dia eu trouxe eles aqui, mas não consegui encontrar a entrada...hoje vim sozinha, e lá estava! Acho que sou mesmo louca. O que você vê?
- Ahn?
- Quando olha lá dentro. O que você vê?
- Eu vejo...minha escola...minhas "amigas" - ressaltando a palavra -, elas... - começou a falar, mas sua garganta já se fechava. Não queria chorar não na frente daquela menina que nem conhecia!
- Você tá bem?
Desabou. Contou tudo o que aconteceu, como encontrara o lugar, como via as outras crianças sendo más com ela, ao mesmo tempo em que soluçava e tremia de leve. A outra ouviu tudo com atenção, sem nunca tirar os olhos dela, sem nunca deixar de ouvi-la. Quando terminou já sentia-se mais calma.
- É só isso?
- ...só... - sabia de seus pais que não era grande coisa. Que logo passaria, que cresceria, que não teria mais que conviver com essas pessoas, mas sentiu-se triste por ouvir de outra criança que seus problemas não eram nada.
- Ei, vai ficar tudo bem...
Apontou em direção ao buraco, gesticulando que entrasse com ela. A parede azulada se acendeu, e ela podia ver tudo.

Viu os dinossauros se enfrentando por comida, a explosão de um vulcão, o olho de um tornado, uma gigantesca tsunami que engolia o continente. Viu o nascimento de seu planeta, e da sua lua. Um cinturão de asteroides, um satélite que percorria o espaço subitamente se choca com um detrito imprevisto. Uma estrela explodia e engolia sua galáxia. As duas compartilhavam o mesmo brilho no olhar.

- ...o universo é um lugar tão grande! Alguém só precisa te mostrar.

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