19 de jul. de 2012

Osso do Pai


Há quanto tempo se encontravam pra tomar vinho no cemitério? Nenhum deles se recordava ao certo, mas o encontro semanal já era uma tradição que durava meses. Todos sabiam que sexta a noite era dia de se reunirem pra brincar com os espíritos, e nenhum planejamento era necessário - as ligações e desculpas de última hora foram trocadas por uma certeza que os guiava até o local de encontro. Fossem duas ou dez pessoas, sabiam que seria divertido.

Naquela noite eram três. William foi o primeiro a chegar, ansioso, munido de um livro de exorcismo e um endereço. Não dormira na noite anterior, a seguinte prometia demais. Carlos chegou pouco tempo depois, cumprimentando o amigo e acendendo um cigarro. Trazia garrafinhas de refrigerante e um sanduíche que não ofereceu - não que o outro se importasse, mas estava faminto. Conversavam sobre a semana e coisas mundanas, seus estudos (trabalho), seus empregos (trabalho), namoradas (trabalho) e noites mal dormidas (mais trabalho).

Juliana chegou trajando suas roupas de sexta-feira a noite: calça moletom, uma camiseta branquinha de malha e a blusa de lã bege que dizia ser perfeita, nem fria nem quente, e carregava pra todo lugar obstante o estado que estivesse (de conversação ou de sujeira). Dizia ter se cansado de estragar roupas caras nos passeios que organizavam, mas na verdade sentia-se mais confortável assim, largada e de boina. Roxa.

Esperaram mais um tempo, jogando fora palavras sem importância. Findado o coral de sinos da igreja, decidiram ser o suficiente e passaram a planejar a noite. William, tomado por uma animação fora de seu comum, já tão entediado com as sessões de ouija e invasões a domicílio que sempre terminavam da mesma forma, mostrava algumas páginas do livro que falavam sobre múltiplas assombrações e como espíritos vingativos se comportavam em bando. "Pedaço de bolo", disse Carlos, acendendo outro cigarro.

Ela sempre ria das traduções ao pé da letra do amigo. Wiliam tinha certo ciúmes, e o silêncio que se sucedeu provava isso. Limpando a garganta, continuou sua exposição:
- Essa casa...Deus, essa casa tem de tudo. Era uma igreja, conhecida por trocar perdões divinos por crianças, filhos e filhas de escravos, bastardas ou polêmicas, aquelas que deviam sumir. Não perguntavam da onde vinha a criança, nem queriam saber, o que lhes interessava era a carne. E as consumiam, de todo jeito que você imaginar.
Juliana parecia incomodada, principalmente com o tom alegre com que William explicava tudo. Percebendo, tentou parecer mais fúnebre.
- Err, então...Os corpos das crianças nunca foram achados, dizem que estão enterrados no lugar. Mas isso não é o pior! - e voltava a ficar animado - Anos depois derrubaram tudo, e construíram esse casarão. Nela morava um tal de Doutor Esteban, pioneiro em cirurgias plásticas, que reza a lenda era amante do ocultismo e realizava rituais no sótão, dos quais participavam suas amantes e filhas. Um dia a casa pegou fogo, dezenove corpos, todos femininos. Nunca encontraram o doutor.
- E você acha que ele continua lá?
- Acho? Eu sei! Tem tanta gente nessa casa que ela parece a Índia. Eu já entrei, é de dar calafrios.
- Mas se você já foi lá, por que...
- Por que voltar? - interrompeu com gosto. - O segundo andar, é claro! O clima é tão pesado que não consegui subir sozinho, juro, temi por minha vida.
Um sorriso cobriu o rosto de Carlos, a fumaça escapando alegre entre suas narinas.
- Ótimo, então estamos de acordo.

Percorriam o caminho até a casa discutindo histórias locais e a aventura da semana passada, da qual Carlos não havia participado. Pararam num barzinho de esquina, aqueles bem de bairro que continuam abertos enquanto as biqueiras também estiverem, onde compraram seu tradicional vinho de sexta. "O mais barato", pediram rindo, recebendo em troca uma fabulosa garrafa plástica cujo conteúdo alcoólico lembrava o sabor de um vinho. Só Juliana parecia apreensiva, precisando beber mais que os outros pra finalmente relaxar, suas bochechas brancas já coradas denunciando sua leve embriaguez.

À cerca de madeira que anunciava os portões da casa, checaram seus pertences. William carregava o livro e um saquinho de pano, presente da Mãe Ana (também quem lhe avisou sobre o lugar), cujo conteúdo só sabia ser capaz de purificar locais assombrados - água benta e sal grosso constavam na mistura, mas o cheiro dava certeza de que outras coisas, mais (ou menos) vivas, também. "Você deve mordê-lo e espalhar nos dedos, assim", mostrou a mãe-de-santo. Carlos trazia seu tradicional amuleto, um osso de seu pai pendurado ao pescoço, o qual ocasionalmente ralava para fins ritualísticos. Juliana há alguns anos tatuara nas costas uma runa de proteção, presente de aniversário de sua querida madrasta, que não tinha ressalvas quanto a ser chamada de bruxa. Seu conhecimento, herança dos antepassados, passava à enteada - sua única filha morreu jovem, e o amor que tinha pela adotada era verdadeiro. Todos carregavam lanternas.

Cruzaram o portão, sentindo a mudança brusca de temperatura. O ar, antes úmido, secara como num deserto, e arranhava um pouco suas narinas quando respiravam. Avançaram firme, sem se importar com os cachorros que latiam (só fingiam ser donos do lugar, mas não atacavam ninguém), e William bateu na porta principal. Knock knock. Os outros riram, ele se pôs a empurrá-la.
- Droga, eu deixei uma pedra aqui, algum trombadinha deve ter tirado. - Carlos tentou abri-la algumas vezes, sem sucesso, até que decidiram derrubá-la juntos. Um chute e o trinco se foi, mais pela ferrugem que pela força, e viram seu caminho livre. - Meh, seria mais legal se a porta tivesse caído!

Lá dentro os fantasmas perdiam todo o senso de decoro. Na escuridão, vultos caminhavam lentamente, meio físicos, meio não, sem dar atenção aos visitantes. Contaram três, quatro com o que se escondia atrás da cômoda (devia ser uma criança). Podiam ver a cozinha, onde uma mulher sentada a mesa chorava baixinho, cortando sua garganta. Mal sangrava e a cena toda se repetia, como uma GIF num loop infinito. Juliana levou as mãos a boca.
- Ignore-a, já tentei conversar com ela. Não segue nunca, nem com magia. Tinha TOC, passava horas acendendo e apagando as luzes, era odiada por isso e se matou. O marido era policial, chegou bem na hora, assistiu a cena e não aguentou a culpa; atirou na própria cabeça. Condenaram-se, sem saber, a reviver tudo eternamente. - Curiosa, Juliana adentrou a cozinha, assistindo ao espetáculo do homem que, com lágrimas nos olhos dominados pela loucura, atirava na própria cabeça, só pra depois repetir o ato outra e outra vez.

Carlos já subia as escadas, ao passo que os amigos o acompanharam. Ignoraram o primeiro andar da casa, a outra expedição de William revelara pouca coisa interessante. A gravidade parecia aumentar a cada passo, não sabiam se suas cabeças ou corações ficavam mais pesados, mas sentiam que qualquer tropeço e atravessariam o chão. No segundo, os quartos abertos revelavam ecos piores; crianças choravam e imploravam, queriam ir pra qualquer lugar longe dali; padres e maridos gritavam, nada além de ódio em seus corações, enquanto perseguiam suas esposas e vítimas.
- Imaginem que eu já fiz uma limpeza no lugar. Tirei quem eu consegui, umas crianças que ainda mantinham esperança, uns que tentaram morar aqui quando ainda era habitável e enlouqueceram. Aqui em cima...é só tristeza e terror...

A primeira porta fechada que encontraram era um banheiro, que ora revelava um homem que rasgava sua pele com gilete, ora enchia a banheira de corpos. Voltava a esvaziar-se. Carlos tentou aproximar-se, mas foi impedido pela garota, que fechou a porta com uma batida.
- É muito, Carlos. O que a gente vai fazer ali?
- Eu não sei, explorar talvez? - Acendeu outro cigarro. - Fazer umas perguntas, recitar uns poemas, o que a gente faz.
- Esse lugar não é normal. Não estamos acostumados com isso. - continuava, insistindo que haviam cometido um erro. William assistia a tudo impassível, queria continuar mas concordava que estavam num lugar pior do que imaginavam.
- Aquele quarto ali. - disse Carlos, apontando a porta ao fim do corredor - Nós entramos, fazemos um círculo, conversamos um pouco e vamos embora, ok?
Juliana se aproximou devagar, encostando a orelha a fresta aberta afim de ouvir alguma coisa. Satisfeita com o silêncio, concordou, afastando-se pra que os outros entrassem primeiro.

Com a lanterna, William iluminou a porta entreaberta. Nela podia-se ler, em letras garrafais riscadas a faca e levemente tingidas de vermelho: "gravo aqui as palavras que me disseram os tolos que seguiram adiante antes de mim: deixe aqui o que carregas, inclusive seus demônios, e vá embora sem olhar pra trás". Juliana estremeceu.
- Eu não quero entrar. Parece demais, a gente já veio até aqui...chega.
William se adiantou e tocou a madeira da porta com a palma da mão direita. Fechou os olhos e rompeu com os dentes o embrulho que trouxera. O sal grosso tentava disfarçar o gosto azedo da mistura sacra, mas só conseguia piorá-lo. Esfregando-a nos dedos, escorregou-os pela madeira, seus sentidos explodindo pelos murmurios sinestésicos que irrompiam daquele lugar, gritando socorro com suas garras, seu odor, seus corpos imateriais já pútridos como os cadáveres banhados em formol dos,saudosos laboratórios de anatomia. Ah como sentia falta do formol! Não enxergava nada, dentro ou fora de sua cabeça, visões mudando tão rápido que mal as percebia, enquanto sentia que um milhão de facas cortavam toda a extensão de sua pele em uníssono, devagar e sempre.
Acordou com um baque. Juliana agarrava seu braço como se tentasse atravessá-lo.
- Podemos entrar. Eu os ouvi...os vi... eles estão em paz agora.
- Man up. Vamos entrar - disse Carlos, jogando a bituca do cigarro ao chão. Com a mão livre, William tentava tomar o resto do vinho para livrar sua boca daquele gosto imundo. A menina ainda tentava aleijá-lo, até que perdeu as forças e o soltou.
- Vai ficar tudo bem, prometo - assegurou ele.
- Eu não confio - ainda resmungava, recuando passos para trás como se os atraísse pra saída.
- Nós viemos aqui pra isso, não? Entremos.
E ele entrou.
E eles não estavam em paz.

Carlos foi o primeiro. Puxado por uma força que não viam, caiu ao chão, batendo a cabeça na madeira grossa. Foi arremessado prum canto, onde uma sombra brincava sozinha com suas bonecas e seu conjunto de facas. William atirou-se na direção do amigo, mas não conseguiu alcançá-lo - um homem de seus quarenta e tantos, vestindo trajes de médico, lhe segurava os braços. "Vai ficar tudo bem, só a recuperação dói", assegurou-lhe. Não acreditava.

Juliana tentara voltar ao menor sinal de perigo eminente. Agarrou a lateral da porta, que bateu violentamente contra o trinco, prensando sua mão direita. Sentiu um ou dois dedos quebrarem, doíam todos. Abriu os olhos a tempo de retirar o braço, a porta já intencionada a esmagá-la de novo. Por impulso, jogou-se contra o livro de William, abriu as páginas marcadas. Pronunciava palavras que não compreendia, com toda sinceridade que existia em seu coração. Objetos eram atirados contra ela, machucando seu corpo aqui e a li, a runa em suas costas fervia como brasa. William, deitado numa maca ao fim do quarto, ecoava suas palavras, tendo decorado os rituais do livro. As janelas e a porta batiam em protesto, tentando abafar os gritos dos dois com mais gritos, profundos, desesperados, mortos. Silêncio. Nada.

William levantou-se num pulo, correndo até ela e ajudando-a a se levantar. Procuravam Carlos pelo quarto, sem encontrar sinal algum, exceto por uma mancha de sangue onde antes estava seu corpo e o espectro da menina louca. O colar estava perto da porta, desprendeu-se logo na queda, mas o osso do pai sumira. Tentaram abrir a porta, sem sucesso. Socavam-a, chutavam-a, pediam a Deus. Os gritos voltavam, ecoando cada vez mais alto. O doutor reapareceu, sorrindo maliciosamente pra Juliana. William pegou-a pela mão e atirou-se pela janela.

Não sabiam quanto tempo dormiram, mas acordaram com o nascer do sol. Era mais fácil dizer o quanto doía do que onde. Alguns ossos fraturados na queda, mais em William pois amortecera a menina, era um verdadeiro cavalheiro. Juliana sentou-se ao seu lado, respirando devagar, sem palavras pra descrever o que sentia. Ficaram assim em silêncio durante algum tempo, assistindo o sol nascer naquela casa. À luz do dia nem parecia tão terrível, corroída e morta, só exalava tristeza e podridão. Deram as mãos e foram embora quietos, imaginando o que fariam na próxima sexta-feira.

No quarto, uma análise mais minuciosa revelava uma parede falsa. Além dela, imagens de estupro e morte torturavam Carlos dia após dia, fome após fome, sede após sede. Engolira o osso de seu pai para que assim não pudessem tocá-lo, mas nunca o deixariam sair dali.

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