22 de ago. de 2012

Cedilha

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Um apito incessante ecoava em sua cabeça, batendo nas paredes do seu crânio e se amplificando mais e mais, cobrindo todos os outros sons, lhe prendendo a atenção. Já era a terceira vez que chamavam seu nome quando finalmente atendeu. Respondeu qualquer coisa pois a pergunta não importava. Nada importava.

Assistiu as mãos da esposa servirem o jantar. O tempo e o trabalho desgastaram suas mãos, que já não eram delicadas e macias como antes, e há muito não o tocavam como antes. Parecia haver um quê de automático em suas carícias, e isso o sufocava. Era apaixonado pela imprevisibilidade desde criança, amava demais o próprio livre arbítrio. O garfo movia-se devagar no omelete enquanto previa todos os movimentos da amada.

Vai olhar pro meu prato e perguntar por que não estou comendo. Tai. Vai se levantar pra pegar suco porque não serviu o suficiente da primeira vez, esquecendo que dois meios copos somam um inteiro. Vai perguntar se o menino quer alguma coisa. Aí. Reclamar que a perua está demorando. A buzina. Lá vai ele. Lá vou eu.

Saiu de casa dando passos de gigante. Conhecia aquelas calçadas como conhecia o teto do quarto, suas noites insones lhe garantiam que cada sulco mal iluminado estivesse tatuado em sua cabeça. No canto oposto a cama uma teia era construída depressa, a aranha trabalhava como se fosse ano de eleição. Não via a hora de destruí-la, encontrava um certo conforto em pisar nos sonhos dela.

Atravessou sempre na faixa de pedestres. Parou na sua banca de jornal favorita, comprou balas e um maço de cigarros. Vermelho ou Light, dependendo do dia, a esposa provavelmente nem sabia que ele fumava - tinha uma habilidade natural com o vento e raramente chegava com odor em suas roupas. O maço do dia acabava na rua ou era guardado fundo na maleta.

Cumprimentou os colegas fumantes mas não ficou pra conversar, sentia-se como um cão de rua tendo que manter seus hábitos no meio da avenida. Isso sem contar os preços...quase chorou da última vez que calculou o quanto gastava em nicotina no ano, e isso foi antes do aumento. Pegou o elevador e passou direto pelo seu andar, seguindo pro estacionamento na cobertura.

Sentou-se na beirada, acendeu um Marlboro. Conseguia ver toda a cidade, alta e triste naquele dia cinza. Vasculhou a memória procurando dias ensolarados, mas por algum motivo não se recordava deles. Era sempre cinza lá em cima. Tragava sem batê-lo, girando a bituca entre os dedos sem deixar a cinza cair. Jogou-a lá de cima, torcendo pra que se acertasse alguém do escritório ao lado.

Na entrada do elevador cruzou com um homem de meia idade que vestia preto, realçando o azul de sua gravata e do adorno em seu chapéu. Passou por ele com um aceno de cabeça, respondido com um cumprimento de chapéu. Apertou o 22 e tentou curtir o jazz suave que tocava na viagem, mas sentia um aperto molesto no peito. Talvez fosse o cigarro.

O dia passou num piscar de olhos e antes que desse por si já estava praticamente na rua de casa, o último de seus vícios brilhando suave contra o escuro da calçada mal iluminada, pequena lanterna laranja que quase iluminava sua aliança. Dizia a si mesmo que era por acaso que dava passos menores na viagem de volta. Percorreu em vinte minutos um percurso de cinco e arremessou o filtro até o portão do vizinho, abrindo o portão sem fazer barulho.

Antes de sentir o cheiro da comida já sabia qual era o jantar, preferiu não pensar nisso. Sentou-se a mesa e ouviu o filho falar sobre a escola, havia aprendido hoje que o cedilha dava som de "ça ço çu". O ce e o ci não precisavam de cedinha, explicou com ligeira confusão no olhar. Resolveu morder a isca e perguntou por que, o filho não sabia responder. Sugeriu que perguntasse a professora.

Lembrava de ter tido a mesma conversa com o próprio pai, mas nunca chegou a levar a dúvida adiante. Aceitou que as coisas eram daquele jeito e pronto. A panela de pressão soltou um apito agudo que lembrava uma locomotiva e logo estavam todos servidos. Comeu sem falar mais nada, só ouvia os relatórios da esposa e observava desatento enquanto ela questionava o menino.

Logo lembrou que ele existia. A dispensa já estava quase vazia e precisava comprar comida. O carro precisava de uma revisão. O pequeno precisava de roupas novas, já estava grande demais pras suas, inclusive o uniforme que comprou no começo do ano. Precisava ligar pra sua mãe, os avós são figuras importantes no crescimento de uma criança. Precisava ligar pros seus irmãos, nem era necessário explicar o motivo.

Uma viagem, precisavam de uma viagem. Mudar um pouco a rotina, esquecer o ar poluído da cidade. Não mencionava que passara as três últimas viagens reclamando dos passeios, do comportamento das pessoas, da comida, das compras. "Que lugar feio, que gente mal educada, que comida intragável, que lojas caras!" Era como se a panela de pressão estivesse prestes a explodir.

Continuou listando tudo que havia de consertável no universo enquanto ele focava os olhos na pequena mosca que pousara em seu prato, no canto onde restava uma ou duas colheres de feijão. Lembrou daquela música odiosa, onde ao invés de caldo era uma sopa, jamais sairia de sua cabeça agora. Ela parecia caminhar sobre o líquido, um messias artrópode, mas talvez fosse uma impressão causada pelo prato raso.

O apito continuava a aumentar de volume, e ela continuava a falar. Cansou-se. Levantou num pulo e, questionado sobre seu destino, respondeu sem pensar: "eu vou comprar cigarros". A esposa passou os próximos minutos encarando a porta, como se ele fosse mudar de ideia e voltar sem entender o que havia feito. Ela não entendia. Olhou pro filho, mas ele ainda comia distraído, murmurava "ça ço çu".

Nunca havia saído pra fumar tão tarde da noite, então agora precisava encontrar um lugar pra comprá-los. De preferência um que aceitasse cartão. Ficou mais tranquilo quando achou uma nota de vinte no bolso, suas chances acabavam de ser aumentadas. Virou uma esquina que não conhecia e avistou, de longe, uma luzinha acesa e o que parecia ser uma mesa de sinuca.

O bar mal iluminado tinha poucos fregueses, todos homens. Usavam chapéus negros que combinavam com as gravatas e os paletós, bebiam copos de Whisky cheios até a metade, sem gelo. Um deles, que carregava uma bengala apesar de não aparentar idade, conversava com o barbado sobre o verão de 96, quando conheceu sua esposa. A praia era um lugar magnífico, dizia ele.

Puxou uma cadeira junto ao balcão e pediu uma dose de qualquer coisa, acompanhada de um maço do cigarro mais barato que tivesse. Foi prontamente servido pelo dono de gravata azul, que tossia mais com o pulmão que com a garganta, assobiando a música que tocava no Jukebox. O lugar tinha um Jukebox. Analisava de longe seus contornos dourados sem dar ouvidos ao que lhe era perguntado, até que foi cutucado no ombro.

"Não prefere um charuto? São quase cubanos, só que um e oitenta", perguntou o dono, só desmanchando o sorriso pra tossir. Olhou em volta e viu que todos fumavam ou tinham maços deitados ao lado de seus copos, os cinzeiros transbordando com as bitucas e as conversas que os enchiam. Ninguém fumava charutos, recusou a oferta.

Atravessou o pequeno salão até o Jukebox, namorando seus botões e sua seleção musical. Tateou os bolsos em busca do isqueiro, mas o deixara na maleta. Um jovem sentado ao lado lhe ofereceu o seu, um Zippo de chama acesa. Deu um trago longo e agradeceu, voltando a namorar os títulos, abrindo um sorriso infantil.

Quando era criança tinha uma vitrola que o pai encontrou na rua. Inteira. Trouxe pra casa animado, mas não tinham vinis pra escutar. No outro dia chegou em casa com os olhos brilhando. De dentro da mochila sacou um disco negro, pôde ler o nome "Al Martino". A primeira música que se lembrava de ouvir na vida, saindo daquele objeto estranho e bonito, onde girava o disco, tão suave, tão hipnótico. Se seu pai podia trazer algo tão impressionante pra casa, podia fazer qualquer coisa.

Colocou uma moeda na máquina e pressionou os botões até encontrar o motivo de sua alegria. Selecionou "Here In My Heart", e saiu em direção à calçada ouvindo o som se espalhar pelo barzinho. A fumaça se espalhava pelo caminho. Pela primeira vez em muito tempo se sentia feliz, completo, livre. Podia deixar o tempo passar, ouvir uma boa música, jogar conversa fora. "Here in my heart I'm alone, I'm so lonely ♪"

Ouvia todas as histórias com interesse biográfico. Pedia detalhes, referências, conectava os relatos com os anteriores. O de bengala tinha um problema no joelho, "como aconteceu? quando?", o barbado era judeu. "Hold you so near, ever close to my heart ♪".  Nunca havia conhecido um e perguntava sobre sua crença, dando ouvidos àquelas palavras como um verdadeiro devoto.

O assunto se espalhou e em minuto todos discutiam suas próprias convicções. Admitiam a incerteza, só queriam que aquela vela não se apagasse, a "esperança de um lugar melhor depois desse aqui", nas palavras do jovem com o Zippo. O dono, assim como ele, não acreditava muito em nada. "Say that you care, take these arms I give gladly ♪". Aquela música parecia repetir, mas não se importava, podia ouvi-la pra sempre.

Finalmente estava cansado. A cabeça já pesava com o Whisky e o vinho, e os cantos de sua boca doíam de tanto rir e cantar, como amava aquele lugar. Pegou o paletó e procurou o relógio pra calcular, baseado no tempo em que estivera fora, quão alto a mulher gritaria com ele. Não o encontrou, talvez tivesse o perdido ou guardado junto ao isqueiro. Olhou em volta e não encontrou nenhuma indicação de tempo, saiu pela porta.

"Here in my heart I'm alone, I'm so lonely ♪". A música o envolvia, parecia vir de dentro. Nem se lembrava como havia voltado ali, ou do seu dia, ou de sequer ter estado em casa. Não sabia o que tinha feito no trabalho. Será que tinha trazido dinheiro? Encontrou vinte reais no bolso. Tomava tudo que encontrava na mesa, "o álcool é comunitário", disse um ruivo que não estava lá no dia anterior mas já era companheiro de todos. Também não aceitou o charuto.

Será que a esposa desconfiava do seu comportamento? Não saberia dizer, novamente estava parado em frente ao bar, sem saber onde passara a noite. Devia ter descansado, pois estava revigorado, justificavelmente cansado após mais um dia de trabalho. Que ele também não se lembrava. Tinha vinte reais no bolso, parecia ter virado um costume. "Talvez um alcoólatra se sinta assim", pensou.. "Please be mine and stay here in my heart ♪".  A música era seu lar. Podia ouví-la pra sempre.

Prestou atenção ao sair pela porta, mas não sabia se havia estado em casa. Reparou que vestia as mesmas roupas, mas não expressou sua preocupação a ninguém. Ali era um lugar de sorrisos, de despreocupação, jamais traria problemas pro lugar. Não importava se não conseguia se lembrar do rosto da esposa, ou da última lição que o filho aprendera. Deus, o que era? Cedilha? É, talvez fosse isso. Sentia saudades do filho.

Comprou cigarros e uma dose de qualquer coisa. Al Martino tocava. Um homem parecia confuso e perdido ao entrar pela porta, sentou-se ao seu lado e pediu um maço, o mais barato. Observou enquanto ele namorava a Jukebox e, prevendo a necessidade, lhe ofereceu o isqueiro. Contou-lhe sobre a primavera de 98, quando conheceu sua esposa, os parques eram magníficos, dizia.

A polícia suspendeu as buscas logo na primeira semana. A mulher se recusava a acreditar, mas essa era a história mais velha de todos os tempos. O homem se sente acuado, sai pra comprar cigarros, nunca mais volta. Provavelmente tinha outra ou fugiu, foi viver uma nova vida em outro lugar. Não, ele era diferente. Ele amava o filho, ele a amava. "Desculpe, senhora".

O pequeno mal dormia nos últimos dias, pouco falava. Comia devagar encarando a cadeira vazia, onde sempre depositava seu caderno antes de jantar. Nunca chorava. Procurava palavras pra explicar, queria que ele entendesse, mas ela mesma tinha mais dúvidas que respostas.

Duas semanas se passaram e ela secou as lágrimas rapidamente ao ouvir a buzina da perua. O filho entrou correndo em casa, vestindo um sorriso e com o caderno na mão. Contou sobre seu dia, que tinha uma nova professora de artes, que inventaram uma brincadeira muito legal no pátio. Comeu e subiu pra brincar com seu videogame, esquecendo os materiais largados na cozinha.

Abriu o caderno e foi olhando as lições do filho, ficava orgulhosa com a facilidade que tinha pra aprender. Lia e escrevia muito bem pra sua idade, cometendo os errinhos ocasionais de criança. Encontrou um papel, meio dobrado e meio amassado, guardado entre as folhas da semana anterior. Leu com a garganta em nó.

A "ç", ou cedilha, é um z pequeninho, por isso também podemos chamalo de "zedilha". Tem o som de z suavizado. Hoje só três idiomas usam ela, o português, o francês e o catalão. Lembrar de contar ao papai.
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21 de ago. de 2012

Telemarketing

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Uma incomum mas bem vinda coruja piava lá fora, seus olhos amarelos bem abertos, faróis do céu noturno que iluminavam a janela de madeira. O trinco quebrado pendia molenga, e o vento preguiçoso forçava as dobradiças devagar, abrindo e fechando o portal mágico pro quarto dela. Mal podia encontrá-la em sua cama bagunçada, livros e mais livros, headphones, bichos de pelúcia - podia arrumar o quanto quisesse, em uma semana tudo voltava a fazer parte de seu leito.

Sob o peso dos dois travesseiros dormiam suas sapatilhas - mal se lembrava que existiam e nem as sentia ali, mas eram sempre as primeiras a procurá-la ao cair da noite. Tinham vida própria. Queriam brincar, sentiam-se nostálgicas só de tocar seus dedos em meio a pesadelos conturbados que resultavam em espasmos mentirosos. Voltavam a contentar-se com os próprios sonhos, esperando que também estivessem nos dela.

Não estava tão errada. Em meio as suas mãos pequenas, de unhas pintadas com zelo frente a tela do computador, de olhos bem fechados e enebriada sob o aroma do lençol amaciado, sonhava com tempos mais fáceis. Quando cantava, e seu dia era cantar. Dançava, e seu dia era dançar. Amava mas não dedicava seus dias a tal frivolidade.

Uma traça mais curiosa podia encontrar nas páginas do diário relatos dos mil e um talentos que tinha. Os vizinhos lhe traziam doces pois os alegrava logo de manhã treinando em seu piano. Os amigos não faltavam a nenhuma das suas apresentações nos fins de semana. Os pais rasgavam sorrisos tagarelando a última empreitada da menina que podia fazer tudo, tudo!

Centenas de páginas vazias ainda restavam, pois nem isso levou em frente. Os rabiscos da última falavam sobre como se sentia perdida, como todos ao seu redor pareciam ter lido um manual de instruções que ela não recebeu. Defeito de fabricação. Como explicar que não se sentia completa e feliz em nada, e que se não sabia quem era agora, não poderia decidir quem queria ser o resto da vida?

Mas o diário não se alimentava há anos, vivendo de poeira e o ocasional papel importante que lhe é conferida a tarefa de guardar. Tão importante que acabava esquecido e, sem querer, virava página do caderno, parte da história.O mesmo processo acontecia com os tantos que ela largava jogados, de desenhos ou de partituras, romances que nunca terminou, revistas que não conseguia se desfazer.

Acordou com um barulho cego, procurando os óculos pra verificar o que havia acontecido. Não conseguia encontrá-los e já bufava feroz, jogando as coisas pro lado na crença de que havia adormecido com eles no rosto. De repente lembrou-se que os deixara ao lado da televisão e levantou o corpo com tremendo esforço, tropeçando no edredom lilás e quase atingindo a cômoda com a cabeça.

Suspirando a aventura matinal, correu até a janela semicerrada, encontrando algumas penas cor de mel como seus cabelos sob a luz do sol. Olhou pro chão e encontrou, atônita, uma coruja que mal se movia enquanto afundava as dores na grama baixa. Quem cronometrasse sua viagem chegaria a conclusão de que pulara até lá embaixo.

Com uma toalha envolveu o pássaro, tomando cuidado para não feri-la mais que a batida. Nunca havia visto uma coruja e mal sabia dizer muito sobre elas, mas não imaginava a espécie como o tipo de kamikazear contra janelas. Aninhou o bicho numa caixa de sapatas feita cama de hospital e deixou um bilhete pra sua mãe explicando tudo, junto com vinte reais para despesas alimentícias do convidado.

Colocou qualquer roupa coletada em meio as pilhas no chão (só ela sabia distinguir as limpas das sujas), calçou uma sandália, perfumou-se e saiu apressada. O celular já lhe gritava que eram nove e meia, e ela precisava estar no trabalho as dez. No caminho, a televisão do ônibus exibia seu horóscopo. "Câncer: evite culpar os outros pelos seus problemas. Presságios podem cruzar o seu caminho". Pensou na coruja por um instante, mas uma lombada sacudiu a ideia pra longe, estava mais preocupada em se segurar.

Sentia-se com sorte, fazia muito tempo desde a última vez que vira a Faria Lima livre de trânsito. Entrou dando bom dias expressos e, ardilosamente, contrabandeou uma rosquinha da mesa de café para seu cubículo. Não sobreviveria sem comer e, se parasse ali, ouviria por estar atrasada. Era melhor ouvir por estar trabalhando, dedos doces ou não.

A senha era uma lembrança constante. Um nome seguido de um número. Nunca conseguiu mudá-la, mas não sabia o motivo; o número era randômico. Era, então, obrigada a pausar 5 segundos toda vez que digitava a bendita sequência, duas ou três memórias cada dia mais distantes, mais amarelas. Vestiu o Headset e atendeu uma ligação.

Todo cliente pensa ser único, mas é sempre o mesmo: ou não sabe, ou pensa que sabe. Os graus variam, mas seu comportamento também: estresse agudo, estresse moderado, calmo, aberto a aprendizado, opinativo, "fiz um técnico" e o novo Steve Jobs. Claro que há aquele preocupado, o reclamador, o perguntador, o feliz, o depressivo, o piadista. São eles as chaves .1 a .6, sem ordem, no meio de tantas outras. Apertou o 4.2.3.3, só mais um antes do almoço.

- Cara, cê não tá entendendo. - Era como se seu coração dominasse o ritmo de suas palavras. -  Eu tô sem internet há três dias, eu preciso desse negócio funcionando!
- Senhor, no nosso sistema consta que sua conexão está operando perfeitamente. O senhor já tentou um anti-vi...
- Meu. Computador. Não tem. Vírus. - Disse entre os dentes, em jatos calculados de ar. Ouviu o barulho de um tapa, bem perto do fone. - A minha internet não está funcionando e eu preciso que alguém resolva isso imediatamente!
- Só um minuto senhor.

Apertou o botão de mudo. Respirou fundo, odiava quando era tratada em tons. Verificou o sistema outra vez e tudo parecia estar como deveria, verde como os semáforos a caminho do trabalho. Continuava ouvindo-o resmungar, "caralho que merda, que droga, o que eu faço, o que eu faço". Pressionou o botão rapidamente, "só um minutinho, senhor", e voltou a checar os registros.

Já estava prestes a oferecer a visita de um técnico quando reparou algo estranho. "Senhor, eu vou precisar de cinco minutos para conferir um possível erro no sistema. O senhor aguarda?"  Podia ouvi-lo respirar pausadamente, o pulmão rouco e arranhado fazia-se presente a cada exalada. Acelerou. "Posso, mas rápido", respondeu. Foi rápido.

O seu chefe era um homem estranho. Calvo, bem calvo, do tipo que nasceu pra ser um Globetrotter mas sofreu rápido os efeitos da erosão causada pelo vento, chuva e estresse. Tinha uns tiques que indicavam o uso de algo além da cafeína, mas ela não se importava. Na melhor ou pior das hipóteses o compreendia. Olhou pra ela com as pupilas bem abertas, deitou-as sobre as letras miúdas do papel impresso.

- É...eu não sei o que fazer.
- Como não sabe?
- Esse é caso de polícia. A federal grampeou a casa de um hacker aí, parece que o cara é um gênio. Agorafóbico. Mas é viciado nuns negócios pesados, fez umas dívidas grandes e foi pegando cada vez mais. Chamou atenção. Acho que bloquearam a conexão dele sem perceber, e agora o cara tá ilhado.
- E o que eu...?
- Ai...ai...Ah...diz que vai mandar um técnico, eu vou ver se consigo achar o mandato disso aqui pra avisar alguém.
- Eu mando o técnico?
- Não, não. Claro que não.

Saiu de lá sem saber o que sentir. Por um lado entendia que não podia fazer nada, mas odiava mentiras. Vez ou outra precisou mentir, quem não? Mas chegava a machucar os outros evitando mascarar a verdade. O que podia fazer? Se mandasse o técnico não estaria mentindo, mas não era perigoso enviá-lo pra casa de um viciado?

- Senhor? - Havia esquecido de colocá-lo no mudo e sentia-se feliz por isso, a música que tocava era infernal e ele provavelmente a mataria a essa altura do loop.
- Eu...eu...e aí?
- Senhor...há mesmo um problema com sua internet e nós vamos enviar um técnico...
- E qual é o problema? - perguntou decidido.
- Não entendi, senh...
- Eu perguntei qual é o problema. Qual. É. O. Problema? - sentia que ele apertava o fone com os dedos, como se envolvesse sua cabeça com a voz.
- O problema...err...um dos cabos...
- Eu verifiquei os cabos.
- ...ele não funciona e....
- Eles funcionam.

O mouse tremia enquanto procurava o perfil dele. 4..2.3.3.4, não. 4.2.3.3.6, não. Volta. 4.5.2.2.1.1, ficava nervosa quando mentia. Ainda mais se era pega mentindo. Esqueceu o tempo que gastou fazendo as unhas e roía as da mão esquerda, pedaço a pedaço, cuspindo-as contra o monitor.

- Senhor... - começou, sem saber o que dizer em seguida.
- Olha, foda-se. Manda a porra do técnico, mas arruma essa... - parou ao ouvir barulhos na porta. Ela prestava o máximo de atenção, apertando os fones contra os ouvidos, acreditava que era a polícia.  Ouvi-o abrir a porta devagar, depois de uma vez. Som de algo caindo no chão. Logo alguém choramingava alto, em gritos desafinados que ziguezagueavam entre o apelo e a lamentação.

- Cara, eu vou te pagar! Eu juro! Não fui eu, a porra da operadora zuo minha internet cara, sério! Eu vou te pagar, não é minha culpa! Foi essa vagabunda dessa operadora, que não me ajuda, eu vou te pagar cara! Coruja, cara!

Bang. Bang. Pulou duas vezes na cadeira, pressionando ainda mais o acolchoado contra as orelhas. Bang. Bang. Bang. Silêncio. "Cinco" repetia na sua cabeça como se num coro de torcida. Podia jurar que ouviu passos ao longe, e o doce piar de uma coruja. Tirou o Headset e o depositou na mesa com cuidado. Levantou-se e saiu pra almoçar, sem olhar pra ninguém.

Nunca mais voltou.
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19 de ago. de 2012

Dia de Hoje

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Eu não sei quantos corações acelerados são necessários pra se montar uma orquestra, mas naquele quarto haviam quatro. A loira magrinha chorava no chão, seus braços finos apertados com um punhado de corda. sua boca mordia um pano sujo e molhado. Suava pequenos diamantes de sal e talvez sentisse o gosto das lágrimas se a água suja não atrapalhasse o sabor.

Tinha os olhos fixos num cato mais a frente. Prateado, recentemente polido, na sua cabeça era bem maior do que pensava. Os ponteiros do relógios a perseguiam, tic, tac, ressoavam como tambores num acústico majestosamente infernal. 14:26. Podia explodir a qualquer momento. O cano zumbia, tal qual um bicho no silêncio da árvore pedro no quintal. Seu dono também suava.

"Da onde veio essa porra?" Nem todos percebiam que ele ofegava, a loira certamente não. Estava distraída em seus próprios pensamentos. Ajeitou o cabelo crespo com a mão direita, a outra nem se movia. Mantinha  o indicador no gatilho, a unha mal roída encardida de tabaco e pó. Prensou os dentes, nem os sentia, fechando os olhos por um milésimo de segundo. Respirou fundo, voltou a perguntar. "De onde veio essa porra, caralho?!"

Com um gesto ameaçou atirar. Ela deu um grito abafado. O cachorro lá fora latia com raiva, odiava o cheiro de estranhos. Aqueles tinham um odor amargo, intragável, e ele queria rasgá-los por isso, mas a corrente se recusava a romper. Pulava contra a janela, podia ver claramente uma das fontes do seu ódio e precisava se livrar dele. Imaginava-se arrancando os cabelos da sua nuca, ah que satisfação traria afiar os seus dentes nos ossos daquela cabeça! Que o desafiava com o olhar!

"Seu cachorro é irritante", respondeu com confiança na voz. Encarava o pitbull sem se alterar com seus latidos, "que ladra não morde, não é? Imagino que a corrente aguenta um trator."  Olhou de volta pro dono do cano, ajeitou os óculos caídos. "Essa porra veio da gente, meses de trabalho duro. Muito duro."

"O caralho. Criança não fabrica remédio, guri. Onde tu arranjou esse bagulho?" Levantou a camisa, revelando outro cano, mas esse não era de prata. Pouco importava. "Ou fala ou eu canto pra ela dormir. Depois a cuca lá fora vem pegar o resto". O cachorro pulava agitado a menção de seu nome.

"Eu...eu que fiz, cara" engoliu em seco em resposta ao olhar que recebeu. Algum jogo de futebol acontecia na sala e podia-se ouvi-lo dali, narrado pelo cão e pelo Bueno. Suas mãos pálidas apertavam a mesa em que se recostava, tentava manter uma postura. Parecia acabado, cansado das escadas e do sol ofuscante que parecia refletir  em cada superfície alaranjada.Se corrigiu imediatamente. "mano, irmão", sentia que errava, "senhor, ai caralho". A bombinha deixou na mochila lá fora, seu peito reclamava disso. Uma pontada no pulmão esquerdo lhe impedia de pensar direito. 

"Cara...é, a gente demorou um tempo pra aprender...e depois pra fazer mas...mas é nosso." A loira engasgava, impedida de respirar pela boca e pouco sobrevivendo às custas do que inalava pelo nariz, entupido de areia branca e entorpecido pelo cal e o cheiro de chorume. Passou a palma da mão  por seus cabelos castanhos, "é nosso, a gente não tem porque mentir".

"É nosso" repetiu o outro, sem gaguejar, sem se incomodar com a prata. Acendeu um cigarro despreocupado, a fumaça batia contra seus cachos, pesava o mesmo que o ar na temperatura vulcânica daquela casa que parecia construída a tijolos de lava. "Ele faz, a gente ajuda" apontou com o cigarro na direção do irmão e da menina, afastando as 4700 substancias tóxicas de seus cabelos mais negros que o azul.

 O jeito que o crespo respirava sugeria que não estava convencido. Mordeu o lábio superior impaciente, quem é que morde o lábio superior? Olhou pro chão, pra loira, pro castanho, pro negro. Atirou na parede. "DA ONDE" atirou na parede, "VEIO" atirou na parede. "ESSA" atirou na parede "PORRA?". Quatro buracos pouco acima dela, que já secara de lágrimas e agora recorria a um silêncio mortal, desistido. 

Bateu o cigarro com o indicador. "Eu vou falar pela última vez." Amaldiçoava cada som que tocava seus tímpanos, lhe impediam de pensar. Tentava manter os pés no chão, acreditando fielmente nos dez metros por segundo ao quadrado. Ajeitou os óculos com a mão livre da fumaça. "Ele faz, a gente ajuda. Tem mais dois caras que entram no serviço, cada um do seu jeito. Pesquisa, planejamento, aquisição de material. Ele é o Edu Guedes e a gente lava a louça, os três fazem trabalho de campo. Cê sabe, quem usa conhece."

"Vocês não conhecem nada." Devia ter se cansado da pergunta, finalmente se moveu para a próxima. "O que eu vou querer com isso? Quem vai comprar essa merda?" Deixou de apontar pra loira, o cano agora indicava o saco de lixo na mesa, confortavelmente cheio. A mochila em que veio continuava lá fora atiçando o cão. De sua boca aberta vazavam pedaços de um cristal esbranquiçado, neblinado. Facilmente quebrável, perfeito pra ser inalado ou fumado.

"Quem você quiser que compre." Acenou com a cabeça pro outro, confirmando em silêncio que tinha controle da situação. "Os caras da lojinha empurraram 50 gramas em um dia. A gente te consegue 350 por semana, pra começar. Você vende por cem reais a grama...("ninguém vai pagar cem por essa...")...vão pagar o que você quiser que paguem. Você não tem custo nenhum, recebe da nossa mão, 40% é nosso."

"E depois?" Ainda mantinha a firmeza de quem segura uma arma na voz. "E depois o quê?" O tom de desafio na voz do moleque lhe coçava o dedo. "O branquelo perdeu o medinho, foi?", disse apontando a arma pro seu peito asmático. A loira se debatia no chão, recuperando a vida ao ver a mudança de direção. Antes ela que ele. "Eu, aponta pra mim!", tentou gritar, mas só saíram "hums". 

Bateu o cigarro outra vez. "E depois a gente investe. Aumenta a produção. Trazendo de fora até dá pra distribuir, mas até criar-se um mercado, é mais fácil com o pó. E acho que os caras lá de cima também tão satisfeitos com o jeito que as coisas estão. Mas isso aqui?" Bateu com a brasa num dos cristais em cima da mesa."Isso é feito no quintal de casa. Cê tem que ver, da pra vir de ônibus da onde a gene cozinha. Até o leva e o traz é por nossa conta."

"Eu não confio em criança." Um último trago no cigarro e o arremessou pela janela, quase atingindo o animal. "Confie nos números." O relógio, o cão, a televisão, os quatro corações. Odiava todos os sons. A arma agora era apontada pra sua cabeça e não conseguia tirar os olhos dela. Bem em frente ao seu rosto, podia ouvi-la cantar. Vibra sob cada palpitar do crespo. O dedo a centímetros do seu nariz se mexia, fazia força contra o resto do corpo. Contra o gatilho. Silêncio. "Click".

A mochila largada na sala contava uma boa quantia em dinheiro, um pouco já gasto em favor de licor e cigarros. Algumas outras coisas pra passar a noite em claro. A loira e o castanho sentavam no chão da casa vazia, desmobiliada, abraçados sem dizer nada.O outro preparava um pouco do próprio produto. Já era tarde, quase na parte desinteressante da madrugada, e ainda vestiam as mesmas roupas e a mesma sujeira do resto do dia. Faltavam forças pra se lavar, comer e dormir. 

Ela ainda sentia o gosto de sujeira, mesmo tendo escovado os dentes por quase uma hora. O castanho ainda tremia. O negro não soltara uma palavra desde que desceram o morro, fumando um cigarro após o outro, sua língua já havia se esquecido o que era água. Seu irmão quebrou o silêncio. "E agora?" Deitou o cartão de lado, inalou seu trilho e passou a bandeja. "Agora...agora a gente cozinha".
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9 de ago. de 2012

Sobrevivente

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Sempre fora distraído e meio desligado, mas nunca perigosamente. Naquele dia o ônibus parou fora do ponto, odiava quando faziam isso; teria que atravessar aquele mar de gente pra chegar ao seu destino. Ele próprio não era o mais magro, e tinha um certo problema com pessoas. Era social, claro, mas tinha certa aversão a estranhos. Talvez uma fobia, mas nunca procurou saber, conseguia viver normalmente com uma ou outra mania.

Viu a avenida livre agora que o caixote público já tinha seguido viagem e, sem pensar duas vezes, pulou dos quadradinhos pintados na forma de São Paulo pro asfalto negro e amarelo recém renovado. Ajeitou os headphones com as mãos, soltaram-se um pouco no impacto, caminhou oito ou dez passos e, satisfeito, pulou parte de si de volta pra calçada. A outra parte, sua perna, foi levada pra frente com o impacto do ônibus que vinha sem frear.

De algum jeito conseguiu não cair. Os fones se penduravam em torno de seu pescoço, pesando no capuz vermelho. O veículo ainda buzinava e poderia muito bem ter ouvido um "sai da rua" em câmera lenta, mas não tinha certeza. De nada. Não tinha ar ou sangue em seu corpo. Pensou em si quando era criança, descia as escadas correndo e, pisando num carrinho que deixou jogado, rolou abaixo. A cabeça primeiro. Quantos anos tinha? Quatro, cinco? Dois?

Entre um buzinar e outro tudo voltou ao normal. As nuvens já se mexiam, as pessoas já davam sinal e o farol estava verde pra que ele atravessasse. Marchou numa só velocidade até o portão da escola, o sinal já prestes a tocar, fumou um cigarro enquanto esperava. Trazia-o pra perto dos olhos, examinava a brasa e a fumaça, nunca antes as assistia tão de perto. O fogo parecia tão...fácil. Apagou o cigarro num sopro e o trouxe pra perto dos olhos, "o que falta? Por que não queima...agora?" A brasa voltou a queimar.

Não era de fumar colchão, mas naquele dia merecia. Pisou na bituca e entrou na escola já esperando as reclamações que ouviria da professora de Educação Física. Quem mais no mundo daria tanta importância pra que calças ele usava enquanto jogava qualquer coisa? Basquete, futebol, vôlei, até natação faria com seu jeans azul escuro se lhe permitissem e, é claro, se a escola tivesse uma piscina. 

Passou no banheiro pra lavar as mãos, odiava coçar o nariz e cheirar fumaça, coisa que fazia constantemente. Guardou os fones na mochila e ligou a torneira, deixando a água escorrer entre seus dedos, cada vez mais fria, cada vez mais quente. Fez uma concha e bebeu um pouco, encostando a ponta do nariz na água e criando pequenas ondulações. A fez cair pra cima.

Saiu do banheiro com uma calça esportiva, próprias pro basquete, mas o suficiente mesmo sendo vôlei a prática daquela aula. A professora fez o favor de ignorá-lo o dia inteiro. Naquela manhã jogava melhor que o normal, parecia sempre saber pra onde a bola iria, sempre conseguir alcançá-la... Ao soar o sino trocou de camiseta e se dirigiu ao bebedouro, esperando ao lado da menina mais quieta da sala.

Ela enchia sua garrafinha, rosa como seus cabelos lisos, quase líquidos de tão escorridos. Aproximou-se e, com um cutucão do lado direito do corpo, chamou sua atenção. Pouco piscava enquanto mantinha o olhar fixo naqueles pequenos olhos, que quase se fechavam quando sorria, esperou o suficiente pra que ela se intrigasse. "Sei lá...se eu te oferecesse algo, você aceitaria?", intensificando a interrogação em seu rosto. "Tipo o que?", conseguiu formular em meio a dúvida."Ah, cê sabe, cabular essa aula. A gente vai até o pátio e fica lá até o próximo sinal". Mexia a cabeça conforme ziguezagueava entre as possíveis intenções do garoto, pronunciando algumas silabas enquanto tentava encontrar palavras mas sem saber o que dizer. "Vão nos pegar", finalmente soltou. "Não, não vão", respondeu ele, pegando em sua mão.

Sentaram-se num canto afastado onde dificilmente seriam vistos, ele ainda mudo distraído com os cortes que as unhas dela faziam no vento. Pegou o isqueiro e o maço. "Isso mata, sabia?" Levantou uma sobrancelha e acendeu um cigarro mesmo assim, ela não reclamou. "Hoje..." começou, esperou até confirmar que tinha sua atenção. "...hoje eu quase morri. Atropelado. Claro que eu poderia ter sobrevivido, quebrado umas costelas, o rádio, talvez meu fone quebrasse, minha mochila rasgasse. Mas não, eu senti...", deu um longo trago, ela não desviava os olhos. Soltou a fumaça enquanto falava. "...eu senti que foi a minha hora, sabe? Eu devia ter ido, mas não fui".

Ela riu baixinho com expressa confusão nos olhos orientais. "Não esperava que risse", brincou. "Desculpa, é que sei lá, por um momento eu achei que você tinha me chamado aqui pra sei lá...se declarar, tentar me convencer a ficar com você, qualquer coisa menos isso". Manuseava o cigarro com a mão esquerda pra que a fumaça não chegasse nela. "Quem disse que não é esse meu plano?" Percebendo que ela não o levara a sério, continuou.

"Imagina que, e preciso que você me siga nessa parte", ela concordou com a cabeça, "eu tivesse dado um passo a menos. Estaria completamente a salvo, ignorante da minha condição, certo?" Uhum. "Dois, também, infinitos! Eu nem precisava passar por ali!" Outro trago, outra pausa. "Mas...mas um pra frente, um só, e eu teria me ferido. Ou estaria morto, estrumbicado pelo ônibus". Ela arregalou os olhos momentaneamente e murmurou "um ônibus?" baixinho, mas ele ignorou a intervenção. "Só um! E por quê eu não dei?"

O encarou sem resposta, esperando que continuasse, mas o silêncio se manteve por diversos segundos. Podiam ouvir uma aula de geografia pela janela do andar de cima. Ele jogou o cigarro longe, a bituca apagou-se no ar e caiu no lixo. "Eu não sei", respondeu finalmente cansada de esperar. Voltou a olhá-la, coçando os arredores do nariz com as costas da mão esquerda, visivelmente incomodado com o cheiro de cigarro. Mas a outra já segurava a dela.

"Porque eu sou o certo. Entende? Tô vendo que não... OK, imagina que existe um eu que, sim, deu um passo a menos. E outro que deu um passo a mais". Cada vez menos entendia o rumo da conversa. "Da mesma forma que existe um eu que está morto e outro que está...normal, talvez?" Apontou pra uma movimentação perto da cantina, arrastaram-se um pouco para junto da parede.

 "Não importa... O que acontece é...se eu te beijar agora, existe uma você que vai me bater. Outra que vai me empurrar, uma que vai me odiar pra sempre, ou sair correndo, ou deixar que aconteça. Entende?". Ela tremia desde o "se eu te beijar agora", engoliu em seco. Sem saber de onde e com que coragem, perguntou: "e qual delas eu sou?"

Não sabia como exatamente fora afetado por aquela experiência. Talvez seus olhos estavam abertos e podia fazer o que quisesse, porque a realidade era seu brinquedo. Talvez tivesse tanta confiança em si mesmo que nada mais o afetava. Talvez só acreditava que aquilo acontecia, tudo uma ilusão. Talvez tivesse dado um passo a mais. Só sabia que, certamente, não era mais o mesmo.

"A certa", respondeu, e não precisou dizer mais nada. 
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7 de ago. de 2012

Só Uma Fala

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"A segurança tem um problema que jamais admitirá, pois por mais que tente (e vem tentado desde o início dos tempos), não conseguirá resolvê-lo: a imprevisibilidade. Por quê alguém é assaltado com uma caneta? Espancado com lâmpadas fluorescentes? Morto a tiros no cinema? Não se pode prever o improvável, impedir o inesperado, somos todos reféns da loucura que uma mente perturbadamente criativa dá a luz. (...)".

Não era um de seus melhores dias. Já se cansava de ficar em pé, mantendo a postura, mantendo a feição. "É só pegar a senha, senhora, vai ser chamada num minuto". Só podia ser simpático com as grávidas e os idosos, e mesmo esses abusavam da boa vontade. Se perguntava se devia fazer outra coisa, gostava de biologia mas odiava dar aulas, como havia chego aqui? Ajeitou o chapéu na cabeça e o coldre na cintura. 

Um estouro do lado de fora lhe chamou a atenção. Saiu pela porta, só acenando de cabeça à moça que frequentemente soava o alarme, e não encontrou nada além dos carros estacionados e o tráfego usual de pessoas. Olhou pra baixo e viu uma casca de banana. Sem pensar duas vezes, puxou um lenço do bolso e abaixou-se para pegá-la, caindo de cara sobre seu corpo amarelo podre. 

"Tudo começou com uma bombinha e uma casca de banana. Pode perguntar pro guarda, se é que ele ainda está vivo, não tive tempo ou vontade de ver. Talvez outra pessoa tenha visto. Ele saiu, abaixou pra pegar a banana, bum! Caiu. Nem viu o que o atingiu. Depois foi o vidro, ah essa foi a melhor parte! Ver todo aquele vidro vindo abaixo (...)".

Odiava portas giratórias. Praticamente precisava ficar nua toda vez que entrava em um banco. Celular, chaves, brincos, às vezes até seu salto apitava o alarme. Depositava tudo na caixinha. Dessa vez tinha pressa, não perdeu tempo, "já sei o que fazer" disse ao guarda antes que ele pudesse se oferecer pra ajudar. Jogou a bolsa, o relógio e todos os seus pertences direto na caixa. Já se abaixava pra remover os sapatos, preferia o embaraço que o estresse, quando ouviu dois estalos seguidos do barulho de vidro se quebrando. 

Foi atingida no rosto por estilhaços que explodiram, pequenos mas perfurantes, caindo de costas enquanto reagia de reflexo a dor causada. Bateu a cabeça de leve no chão, mas o suficiente pra deixá-la tonta. Levou a mão à nuca e tremeu de leve ao senti sua palma molhar-se. Desmaiou ao ver o sangue que a banhava, em pouca quantidade, mas ela tinha um histórico.

"(...) de uma vez, pow pow! trim, caiu, a mulher caiu junto. As coisas dela estavam na caixinha, foi abaixo também. A porta não aguentou um, nem precisei girar. Primeiro apontei pra velhinha que retirava a senha, ela olhou estranho pra mim, não tinha ideia do que estava acontecendo. A essa altura acho que nem eu. Pow (...)".

Odiava ir ao banco. Seus filhos pagavam todas as contas pela internet, o que facilitava muito sua vida, e não era inútil a ponto de não saber usar um cartão de débito. Por quê a única cabeleireira que confiava só aceitava dinheiro? Que trabalho. Nenhum caixa eletrônico próximo, precisou ir sacar dinheiro. Iria aproveitar pra conversar com o gerente sobre uns investimentos, queria saber como passá-los aos filhos, já era hora de começar a pensar no que deixaria pra trás. 

Porta giratória. Perguntou ao guarda como poderia conversar com o gerente, aparentemente tudo precisava de senha hoje em dia. De longe avistou um bom lugar pra se sentar, já estava com dor nas costas de ter que caminhar até ali, ainda bem que não trouxera os netos, imagina ter que ficar correndo atrás dos pequenos! Estouros, vidro, abandonou a senha pra se virar e foi atingida por algo na perna. Sentiu sua carne ser atravessada, o o fêmur doía como se tivesse sido atingido por uma bigorna. A máquina de senhas explodiu ao seu lado.

"(...) pow, cai a velha, bum a máquina. Tem três caixas ali naquele horário, certo? Duas mulheres e um homem. Eu aponto pra homem, ele vê além de mim. Me teme mais que todos os outros, olha pra arma como se previsse a morte. É o mais novo ali, só tem alguns meses e só agora está se acostumando. Às vezes ainda deixa cair alguma coisa, nervoso. Parece até coisa de filme, haha. (...)".

Mal conseguia acreditar no que via. Ele era tão comum, calmo, tranquilo... Onde havia conseguido uma arma? E como ousava entrar ali e disparar contra aquelas pessoas? No que estava pensando, o que queria? O guarda, a senhora, queria gritar. Ele falou e reconheceu sua voz, tentava disfarçá-la mas alguém atento certamente a perceberia. Queria gritar seu nome, ordenar que retirasse a mascara e caísse de joelhos, parasse com toda aquela loucura imediatamente. Não conseguia fazer nada.

"Gritei contra ele, cala a boca! Até forcei minha voz na garganta, parecia gutural, sabe? Dava medo. Apontei pra morena, toda bonita com seu brinco e sua maquiagem colorida, seu decote e sua saia todo dia se oferecendo pros clientes burros o suficiente pra acreditar que ela queria alguma coisa. Não percebiam que ela só fazia isso com quem tinha um bom relógio. (...)"

Se sentia anormalmente bonita quando acordou aquela manhã, admirando as próprias curvas no espelho. Vestiu sua melhor roupa social e maquiou-se, teria um encontro logo após o serviço - tinha que ir com a roupa do corpo pois teria que fazer hora extra, culpa da falta de funcionários. O filho de dois anos estava com o pai, finalmente tinha uma semana de sossego sem se preocupar com a criança. Não que fosse uma mãe ruim, mas era bom que o pai cumprisse com suas obrigações de vez em quando.

Estava confusa e não sabia como reagir àqueles baques e gritos, levou as mãos à cabeça e entrou no coro.  Sua língua quase irrompia da boca, Afastou a cadeira pra trás e ia se jogar no chão, como aprendera no treinamento, mas congelou ao encarar a arma. Levantou-se e calou-se como ele mandava, soluçava e tremia, pensava no filho e no ex marido, daria tudo pra estar na sua cama agora, assistindo TV como normalmente faziam todas as tardes antes dela conseguir esse maldito emprego. 

"(...) Gritava como a vagabunda que era. Fiz calar a boca também, ficar de pé, tremia só de me olhar. Nem sabia que eu a odiava por todas as vezes que me ignorou ali, pelo jeito que me desprezava, mas agora ela me via.  A outra putinha ainda gritava. Atirei no vidro dela, pow, trim, calou rapidinho. (...)"

Não via a hora de ir pra faculdade. Cansou-se daquelas pessoas, de gente mal informada e mal humorada. Que custa ler? Que custa ser educado? "O atendimento está demorando um pouquinho mais porque estamos com poucos funcionários, senhor". Sentia-se furiosa por metade das informações que dava estarem completamente disponíveis em folhetos coloridos convenientemente disponíveis em vários cantos daquela sala. Queria um cigarro, talvez uma cerveja, provavelmente mataria aula. Com certeza alguém mais precisava de um descanso, e nada que uns tragos e álcool não ajudem a resolver. 

Imaginava que matérias perderia e orientava um homem que sabia muito bem ler e claramente só tinha preguiça. Tanto dinheiro e nunca precisou suar na vida, sabia pois normalmente ele vinha acompanhado do pai, grande empresário do ramo imobiliário. Diria um Bugatti e ela um Uno, e odiava o universo por isso. De repente só via o cabelo cheio de gel enquanto ele se arremessava da cadeira em resposta ao barulho de tiros. Sua única reação foi gritar. Ouviu a máscara negra gritar duas vezes, pulou quando o vidro logo a sua frente explodiu em pedacinhos, a bala atravessou a mesa e atingiu seu pé, gritou com tanta força que sua voz sumiu. Outro tiro, pensou que estava morta, outro tiro, queria já estar. 

"(...) Pow. Mais um, no playbozinho que se jogou no chão, rastejando devagar com as mãos na cabeça. Certeza que o papai que o ensinou a fazer isso, mas valeu de que? Pow. Mais um, pra aprender. Um na coxa, um nas costas, tomara que viva pra contar a história. (...)"

Chega de ser humilhado, de não alcançar expectativas, de não ser tão inteligente nem tão bonito quanto seu pai queria. Quantas noites virou acordado e não conseguiu boas notas? Chegava em casa e apanhava sob luz fraca e cheiro de whisky. Não conseguiu melhorar, foi punido indo estudar o ensino médio numa escola pública. Curiosamente gostava do lugar, as pessoas eram mais simples, seus problemas menos imbecis e suas personalidades mais interessantes. Um dia o pai o buscou na escola, apanhou porque guardara as roupas caras na mochila, queria se vestir como todo mundo. 

Já adulto ainda mantinha as aparências. Tentou várias vezes sair do negócio da família, mas nascera pra herdar as coisas do pai. Era seu único filho, seu único e melhor legado, e precisava ser o melhor de todos. A vida inteira aguentando os gritos e o alcoolismo de seu progenitor, não mais. Levaria o seu dinheiro embora, fugiria, iria estudar e trabalhar o que quisesse, onde quisesse.  Perguntava a moça caixa como poderia tornar sua conta conjunta uma pessoal, barulho de tiros, lembrou-se do segurança do pai, atirou-se da cadeira com as mãos na cabeça. Nem ouvia nada, seu pensamento gritava mais alto. Hoje não, hoje não, hoje não. Eu vou mudar minha vida, eu vou embora, eu vou ser quem eu quiser, hoje não. Sentiu uma dor aguda na perna e outra no peito, pra depois não sentir mais nada. 

"Mandei o caixa filho da puta calar a boca. Todo aquele trabalho inútil, dia após dia, e o que aprendeu? O que tinha pra oferecer ao mundo? Nada! Pra que se vestia daquele jeito, pra que falava daquele jeito, pra que existia? NADA! Nem precisou dizer nada, eu sabia que queria falar pelo jeito que me me encarava, mas que calasse a boca também!".

Observava tudo com terror nos olhos. Aquela voz não saía da sua cabeça, todos os "cala a boca" grunhidos mais reconhecíveis do que sua música favorita. Precisava mandá-lo parar, precisava entender o motivo de tudo aquilo. Por que matar alguém? Não teve uma infância difícil e não precisava de nada, pra quê a máscara e a violência e os tiros e o sangue? Tentava o máximo que podia exclamar seu nome, mas se sentia inútil, imóvel, incorpóreo. Queria ajudar as pessoas, seus colegas de trabalho, mas era impossível. Outro cala a boca. Meu deus aquela voz.

"Só tinha mais três lá dentro, se encolhiam num canto, juntos como animais fugindo de um trovão. E eu era o trovão, eu era o deus do som, da vida e da morte. Pow pow pow e iriam pro saco, tomar chá com Hades e seus cão de três cabeças, uma pra cada alma. Mas eu só apontava, e eles só tremiam. Um perguntou o que eu queria, disse que eu pegasse o dinheiro e fosse embora logo. (...)"

Fazia tempo que não tinha uma boa oportunidade de sair com os filhos. Claro que se divertiam em casa, jogando videogame ou contando histórias, mas queria levá-los ao zoológico, ao parque, a rua! Criança não foi feita pra ficar presa. Tirou uma folga, seu bom trabalho nos últimos meses agradava ao chefe e lhe permitia algumas mordomias. Acordou cedo e preparou um bom café da manhã, arrumando-os pra percorrerem uma trilha. Os dois irmãos pareciam mais felizes que nunca, ansiosos, perguntavam se chegariam logo. "Logo, só preciso passar no banco", respondeu pelo retrovisor do carro.

Deixou as crianças no carro trancado, o vidro levemente abaixado, voltaria logo. O caixa eletrônico não deixou que sacasse. "Droga!", exclamou, voltando ao carro pra buscar as crianças, não sabia quanto tempo demoraria até que conseguisse falar com alguém que resolvesse seu problema. E agora aquilo, um louco com uma arma e ele agachado, apertando os filhos tão forte que poderia quebrar seus ossos. Mas não importa, os protegeria até o fim da vida, jurava por deus e por tudo que tinha na vida. Por que não ia embora? "Por que não pega o dinheiro e vai!?"

"(...) Pow, pow, pow, eu pensei. Click, click, click, eu ouvi. Acabaram minhas balas. Nem conseguia ver os menores, o maior chorava como um bebê. Virei as costas e fui embora, correndo, sob o olhar chocado do caixa. Ele me conhecia, me olhava mais fundo que todos, queria me seguir e me bater. Mas não iria, porque concordava comigo. Sabia o que eu sabia.

Sabia como se sentiriam. Que quem acordasse amanhã teria o dia mais bonito de sua vida. O primeiro café da manhã teria um sabor melhor que qualquer coisa que já provaram. No fim, acho que era sobre isso, sobre abraçar sua vida, o que você faz, o que é."

Correu pelo buraco onde era a parede de vidro do banco, o barulho de sirenes e a confusão explodia seus ouvidos, ignorava os cacos no chão e os gritos, sabia que a polícia se aproximava. Mas não importava, precisava saber, correu o máximo que seu pulmão aguentava. Seu corpo inteiro tremia. Chegou em casa mais rápido que qualquer outra vez na vida. Atravessou a porta sem falar com a mãe, entrando no quarto quase sem abrir a porta, levou-a com o corpo. Tudo estava no lugar, a cama bem feita, o som, o espelho. Irrompeu-se a gritar. 

"POR QUE? POR QUE?" Berrava, chorava. "Por que você fez isso, quem você pensa que é? Seus pais te deram tudo na vida, sua mãe mais ainda. Nunca chorou por nada a não ser por coração partido. Não é burro, não é feio, não sofreu bullying, NADA! POR QUE?!"

"Eu escrevi essa carta", respondeu. A lia com toda atenção, cada linha, cada parágrafo, meu deus aquela voz. Queria morrer a cada onomatopeia,  não aguentava mais tremer, seu olho esquerdo deixou cair uma lágrima. Quando chegou ao último parágrafo seu coração quase parou. Sentia ódio dele, do mundo, de si mesmo. "Tudo isso...tudo...as pessoas...os tiros...gente morreu...por uma fala de Clube da luta?"

Aquele sorriso irônico foi apagado a base de socos. Nunca colocara tanta força em seus punhos, nunca sentiu tanta dor. A mãe encontrou o filho desacordado, seu rosto amassado a pancadas e coberto de sangue, exceto por seu olho esquerdo que chorava. A cobertura do jornal local acompanhava o trabalho da polícia enquanto buscavam o funcionário do banco que faltou naquele dia. 
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O Cabeleireiro Serial

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Vasculhavam a caixa empoeirada a procura da foto que provaria a coincidência. Ou era mesmo coincidência? Sabiam que não eram os únicos a relatar tal história pois tinham na cabeça o ressoar daquelas palavras, mas não conseguiam estabelecer quem exatamente as dissera, ou se as suas memórias eram só mímicas de histórias alheias mal guardadas em seus cérebros confusos.

Lá estava, no meio de outras dezenas de registros daquele churrasco, a foto que provava o improvável: tinha cabelo liso na infância. Cortado em cuia, como um indiozinho perdido na civilização, vestia uma camisa dos Power Rangers e fazia pose de luta pra câmera. Pedro quase esfregou a foto na cara de Felipe, que já mordia os lábios em contragosto, antes acreditava fielmente que estavam enganados.

Uma semana depois se encontraram novamente, dessa vez era Felipe quem trazia uma fotografia. Não tinha nem seis anos de idade e sentava-se confortável na moto do pai, calçando os reconhecíveis tênis que acendiam pequenas luzes ao contato com o solo. Os cabelos lisos cobriam a testa, não os cortava há meses na época da foto. "Tá vendo, eu não disse!" Mas o que isso significava? Precisavam de mais informações.

O ponto de encontro em suas histórias é que os incomodava. Ambos foram fatalmente afetados por um corte de cabelo em específico, que arruinou suas madeixas pelo resto de suas vidas. Uma amiga de Pedro jurava ter ouvido algo similar de sua mãe, sobre um menino que tinha cabelos lisos na infância, mas após uma tesourada encrespou-se como palha de aço.

Visitaram juntos a casa da menina, ela os recebeu no portão descalça e descabelada. Assim que se sentaram na sala foi repreendida pela mãe, "seja apresentável na frente das visitas! Por isso nunca arruma um namorado". Contou a eles que era seu sobrinho a vítima do corte, e que ele não morava tão longe, poderiam visitá-lo no mesmo dia.

Acompanharam a simpática senhora até a casa de Jorge, que respondeu suas perguntas curioso e animado. Não tinha fotografias, mas jurava de pés juntos que seus cabelos negros e e banhados a "Johnson Para Cabelos Cacheados" um dia foram como os de uma gueixa. Se lembrava de um senhor que cortou seu cabelo, fez um trabalho terrível (ficou feio por meses) e depois disso cresceu completamente diferente. A mesma história que os outros se lembravam.

Agradeceram a senhora e ao rapaz, "você não se lembra de mais nada?" Ele parou um momento, pensativo, e exclamou como se recuperasse a memória do fundo do abismo: "ele não trabalhava lá!" Se entreolharam confusos. "Eu cortava o cabelo ali regularmente, mas aquela foi a única vez que era ele o cabeleireiro". Felipe levou a mão a cabeça num tapa que foi sentido pela sala toda. "Isso mesmo! Eu sempre cortava com uma mulher, ela morava na mesma rua que eu, e naquele dia foi um homem que ela disse ter contratado, mas nunca mais o vi!"

Mas uma coisa não batia: apesar de morarem na Zona Sul de São Paulo, não haviam passado a infância no mesmo lugar. Felipe cresceu ali, Pedro em Foz do Iguaçu e Jorge em Minas Gerais. Mas estavam esperançosos, alguma coisa não cheirava bem e precisavam descobrir o que. Jorge retirou as linguiças do fogo, quase as esquecera queimando no óleo, por pouco não pôs fogo na casa. Se despediram ainda mais confiantes.

Por um mês não tiveram novidades, até que Pedro conseguiu localizar sua antiga cabeleireira. Ainda morava em Foz, então se comunicaram algumas vezes por e-mail,  perguntando sobre alguém que contratara uns 11, 12 anos atrás. Apesar de estranhar as perguntas, respondeu-as assim que pôde, o melhor que sua memória lhe permitia. Não lembrava o nome, mas contratara sim um senhor naquela época que só cortava o cabelo de meninos. Se surpreendera pois ele havia trabalhado em vários salões, quase um nômade dos cortes masculinos.

Conseguiram os telefones e e-mails de alguns dos contratantes do misterioso homem. Todos diziam a mesma coisa, que um dia ele apareceu pedindo um emprego e que mostraria suas habilidades durante sua estada, trabalhando até de graça de fosse necessário. A única condição é que só atenderia crianças, o que ninguém estranhava pois realmente precisavam de alguém que passasse um tempo com as tagarelas.

Cada relato parecia suportar a ideia de que alguém estava viajando o país arruinando cabeças infantis, como um saci que trocou o cachimbo pela tesoura ou um curupira que ao invés de caçadores odiava fios continuamente planos. Conseguiram outros depoimentos e mais fotos pro seu mural da chapinha natural, já organizavam uma verdadeira investigação.

A pista mais valiosa veio na forma de uma ligação, uma mãe procurou sobre mudanças no crescimento capilar infantil num buscador virtual e encontrou citações a sua empreitada. Estava tudo fresquinho na memória, "num salão perto de casa um senhor de meia idade cortou o cabelo do meu filho mais novo, era tão bonito! Castanho claro e escorrido, nem precisava de shampoo! Agora ele mais lembra um pintinho molhado", em suas palavras. "Eu voltei pra reclamar e já não estava lá, mas o chamavam de Tuco".

Ela morava numa cidade próxima, se dirigiram até lá de trem. Nos arredores de Pirituba, procuravam salão a salão por um tal de "Tuco" que cortava cabelos. Os que o conheciam não tinham seu contato, só aparecia, ficava umas semanas e desaparecia como se nunca tivesse existido. Exaustos, pararam num café local pra acalmar seus estômagos. Decidiram que um último salão e voltariam pra casa, poderiam procurar outro dia.

Umas três casas pra baixo, um moradora havia transformado sua garagem, com algumas pias e espelhos e voilá!, cortava cabelos. Baixinha e falante, lhes disse que Tuco devia estar prestes a chegar, começara ali ontem e já estava atrasado. Trocaram um olhar animado e surpreso e, assim que iam se sentando pra esperar, um senhor entrou pela porta.

Seu bigode cobria parcialmente os lábios inchados, meio grisalho assim como seus cabelos. Usava um óculos que aumentava seus olhos exponencialmente, somando ao suéter e sapatos bem engraxados na mistura que lhe dava a aparência de um idoso, fora sua postura ou modo de andar, que se mantinham joviais. Como um túnel do tempo, cada um se lembrava exatamente daquele rosto refletido no espelho quando eram praticamente girinos.

"Em que posso ajudar os rapazes?" Perguntou sereno, indicando que o acompanhassem até os fundos. Sentaram-se num sofá no que as revistas em cima da mesa denunciavam ser uma sala de espera improvisada. Foi Felipe que quebrou o silêncio. "Você...aparentemente você cortou o meu cabelo...em 1996 no meu bairro e...", o outro o olhava numa expressão indecifrável, "e o dele também, não é? Não é Pedro? E nossos cabelos eram lisos e..."

O velho interrompeu seu discurso, "na verdade a maioria das pessoas passam por mudanças hormonais na adolescência e..." Felipe também não deixou que terminasse. "Nós sabemos disso, mas é na adolescência, e os nossos e o de muita gente mudou na infância, bem no início até, e essas coisas realmente só ocorrem na maturação sexual e..."

"Tudo bem, estou convencido. Vocês realmente sabem do que falam, irei contar a verdade. O Universo erra. Nem tudo é criado como deve ser. Vocês já ouviram falar em teoria do caos? Vejo pelas sobrancelhas que já. Um farfalhar de asas de uma borboleta...ok não irei continuar. Mas entendam essa parte: a mínima das coisas é criada diferente do que o pretendido e bum, o Universo pode morrer. Deixar de existir Não me interrompam, já estou chegando lá! Não são só cabelos. Existe gente pra consertar tudo, tudo nesse mundo que pode vir um pouco pra esquerda demais, colorido demais, liso demais. Vocês não nasceram pra ter cabelos lisos, eu consertei. Você brincava com a toalha, fingia que era um fantasma, não é Felipe? E você, Pedro, chorou porque tinha medo de tesouras. Acho que esse detalhe você tinha esquecido".

Alisava o bigode enquanto os encarava, boquiabertos e confusos. Pedro estava maravilhado e mal conseguia desviar o olhar. Felipe ergueu uma sobrancelha. "Espera mesmo que acreditemos nisso?", perguntou em total sinceridade. O velho riu, limpou os óculos com um lenço azul umedecido e ajeitou-se na cadeira. Com um olhar decidido, respondeu: "seja a lenda urbana que você quer ver no mundo."
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O Cão Nosso de Cada Dia

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O sol iluminava seus óculos escuros sem ousar tocar seus olhos. O conforto fazia valer a perda das cores naturais que normalmente via ali, quando as nuvens ou o entardecer lhe protegiam. Mas hoje era dia de luz fervente às 11 da manhã, e naquele campo aberto não havia camada de ozônio que protegesse quem era atingido pela impiedosa estrela.

Convenceu-se de que um dos muros era mais frio e sentou-se contra ele, sem conseguir o mínimo de sombra utilizável. Um brisa fria vinha do sul e tentava balancear a temperatura, mas ao mesmo tempo atrapalhava o manuseio do isqueiro. Alguns tragos e uma queimadura no dedo depois, conseguiu acender o cachimbo e ficou ali admirando o horizonte do ponto mais alto que podia encontrar sem invadir a propriedade alheia.

A pouca circulação o agradava, mas não demorou muito pra se incomodar com a presença de um grupinho a uns 50 metros dele e da fumaça. O observavam curiosos e ele fingia não prestar atenção, mas seus tragos eram mais curtos e menos esporádicos e já nem saboreava o tabaco irlandês. Considerou jogar o resto fora, mas que desperdício seria! Contentou-se com o desconforto.

Semi-satisfeito, pôs-se a caminho de casa. Teve que encontrar-se com o grupo, dois garotos e uma garota de aparência surrada, não aparentavam ser mais velhos que ele próprio. O mais baixo e barbado dos três pediu um cigarro. "Não tenho cigarro", respondeu automaticamente, sem parar sua empreitada. Se perguntava se eram burros, se lhe pedissem o cachimbo não teria recusado, mas cigarro realmente não tinha.

Tendo certeza de estar fora da vista dos três, cheirou as mangas da blusa, torcendo o nariz ao reparar que levava todo o odor do tabaco consigo. Se tivesse tomado banho com o fumo não federia tanto, como entraria em casa cheirando assim? Resolveu tomar um caminho diferente, mais longo, aproveitar o vento e tomar um ar. Respirar. Atravessou a rua sem olhar e seguiu rumo por ruas conhecidas mas pouco frequentadas.

Encontrou uma quadra vazia. Sentou-se atrás do muro, numa curta divisão entre grama molhada e cimento seco, próximo a uma das traves. Se preparava para aproveitar os últimos tragos, feliz em encontrar um raro lugar desocupado, longe de barulho e de olhos, e conferia o cachimbo a procura de resquícios de fumo. Uma quantidade razoável ainda se mantinha, acendeu-o com o isqueiro numa única e longa tragada, de olhos fechados e sorriso no rosto.

Soprou a fumaça assistindo-a dissolver-se no vento, um leve branco poluente em meio ao vasto azul do céu. Recostava a cabeça pra trás e pra esquerda afim de proteger a chama, engasgando e tossindo duas ou três vezes ao ver um enorme cachorro preto que o encarava com a mandíbula aberta, sua língua e baba salvam pra fora penduradas sem sustentação.

Teve que arrumar os óculos que se deslocaram no susto. O canino nem parecia ameaçador, tinha mais cara de abandonado, cansado e faminto, mas sua presença ali alertara seus sentidos. Levantou-se, amargurado, desistindo do cachimbo e da rua, já estava na hora de enfrentar a porta.

Vestiu o capuz enquanto caminhava aquela longa rua ensolarada, de um lado acompanhado de árvores e um córrego, do outro de casinhas que na maré alta inundavam de marrom e lixo. A latinha prateada no bolso balançava, fazendo barulho ao chocar-se com seu conteúdo de madeira, o fornilho constantemente se soltava da piteira e dançava livremente pela lata. Tec tec tec tec tic tec tic tic tec tec. Não reconhecia o tic. Olhou pra trás e viu o corpo negro do cachorro se aproximando, podia jurar que desviava o olhar ao reparar que percebera.

Continuou seu caminho e logo voltou a ouvir o barulhinho. Novamente se virou, dando de cara com o canino que chegara mais perto, quase tocando seu traseiro. "Xô, sai daqui, sai" ordenou, se esforçando pra engrossar a voz, espantando o animal com as mãos - que recuou alguns passos, seguindo na direção contrária. Continuou seu caminho até ouvir o som inconfundível, novamente estava lá o maldito!

"Sai cachorro do caralho", já estava furioso, "se eu pudesse te dava um tiro". Nem sabia de onde vinha tanto ódio, mas aquele bicho que o seguia já lhe corroía os nervos como uma furadeira que nunca é desligada - cansou-se de olhar pra trás, cansou-se do som das patas, cansou-se daquela rua inacabável. O cachorro não latia, não ameaçava, não avançava, mantinha o olhar abatido disfarçado sempre que se via observado, mas o odiava simplesmente por segui-lo.

Aproveitou que um carro saía da garagem para contorná-lo e despistar a sombra negra, acelerando o passo e se contentando em não mais ouvir nada. Seguiu contente até o fim da rua, feliz em poder virar a esquina e dar adeus ao "DESGRAÇADO, VAI TOMAR NO CUUU", lá estava ele de novo, cheirando folhas a três ou quatro passos largos de si. Aparentemente aprendera a disfarçar suas passadas. Cerrando os pulsos, xingou os antepassados do cão e, quase correndo, virou uma esquina e sua vizinha, finalmente livre do perseguidor.

Ainda respirava curto, trotando sem querer, concentrado no barulhinho do cachimbo em seu bolso. Carros, pessoas, vendedores, ouvia cada som na rua e de muito, muito longe já enxergava um grupo de cachorros numa casinha no morro. Já se sentia tranquilo quando ouviu um suspeito "arf arf" próximo. O sangue subiu a cabeça, virou-se pronto pra gritar, espantar o animal aos berros e, se necessário, aos socos e pontapés e mordidas e enfrentaria seus dentes e suas patas nem que saísse ferido nem que fosse pro hospital nem que sangrasse mas meu deus pára pára de vir atrás de mim.

Olhou pra trás e não havia nada.

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3 de ago. de 2012

Aquário

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De todos era o mais bonito e tinha total consciência disso. Um dos menores, mas o intenso vermelho e roxo de suas escamas lhe garantia atenção sempre que alguém se aproximava do vidro. De vez em quando se escondia atrás das pedras ou do baú do tesouro, só pra ouvir perguntarem por ele. "E aquele pequeno, vermelho, onde está? Ele é lindo!" Fazia um pouco mais de cena e entrava dramaticamente, espreguiçando as barbatanas como se acabasse de acordar.

Alguns dos outros o achavam metido, sempre dançante enquanto pegava ração, um exibicionista, mas isso não impedia que continuasse com suas piruetas. Um dia sua vida mudou. O novo tinha pinta de academia, grande, forte e rápido, era como um relâmpago laranja e azul. Suas barbatanas imponentes eram cobertas por listras pretas que lhe aumentavam a impressão de aerodinamismo de seu corpo esguio, só impressão, mas era isso que importava!

Continuava a fazer piruetas e a orquestrar sua dança-do-almoço, mas suas cores já não eram assistidas ou admiradas. Nas perguntas foram substituídas por "laranja, com listras, aquele sim é bonito!" Parecia uma cópia melhorada, com as mesmas danças, fintas e entradas dramáticas, o metido fitava o vidro do aquário por horas, fazendo bolhas perfeitamente esféricas e seguindo os dedos dos espectadores.

Agora que era um deles os outros peixes lhe aceitavam melhor, colocando-o nas conversas e a par das novidades do aquário. Foi um dos primeiros a saber quando chegou uma caveira de plástico para acompanhar o baú, e correu pra avisá-los quando viu sacolinhas de plástico misteriosamente posicionadas do outro lado da mesa. Alarme falso, só limpeza, mas o agradeceram mesmo assim.

Mas seu ego já tinha sido acariciado demais. Sentia falta dos olhares, de brincar com os dedos, de estar nas conversas! Passou dias se preparando, usando as pedras e falsos corais como ginásio. Nadava o mais rápido que podia, subindo e descendo, controlando a respiração. Só teria uma tentativa, se fosse forte o suficiente chegaria até a pia e liberdade! Finalmente conheceria os rios, o mar, os oceanos, tudo que os outros peixes diziam estar além dos canos!

Quando finalmente se sentiu preparado contou seu plano aos outros peixes. Lhe chamaram de louco, os que haviam tentado antes morreram! Jamais conseguiria! Mas estava decidido. Despediu-se e, com uma última abanada de rabo ao metido laranja, tomou distância e pulou em direção ao seu destino. Sentiu o ar tocando suas escamas, cada vez mais devagar enquanto subia e, em seguida, cada vez mais rápido em direção ao chão. Por pouco não alcançou a pia, pouquíssimo!

Atingiu o solo com um "plaft" do impacto e um "ghur" da água sendo expelida de seu corpo. Sabia que era o fim, que as luzes se apagariam e teria que dizer adeus a esse mundo. Nem pulava, não daria essa satisfação aos outros, aceitou as circunstâncias. Já havia perdido as esperanças quando, logo após a escuridão cobri-lo, seu corpo foi outra vez envolto em água. Viu seus antigos companheiros e pensou estar no Maraíso, mas uma olhada ao redor lhe trouxe de volta a realidade. Sua dona o espiava com uma mistura de curiosidade, espanto e riso. "Você tem nadadeira pra nadar, não pra voar! Louquinho, vou ter que prestar mais atenção em você".

E nadou o resto da vida.
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1 de ago. de 2012

Um Lugar Inexplorado

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Nem costumava brincar naquele parquinho. Na verdade, nem costumava brincar fora de casa. Talvez fosse a geração, talvez a violência e o medo, talvez só gostasse de outras coisas, mas seus passatempos prediletos eram os próprios brinquedos e o computador.

Um dia diferente, num lugar e com pessoas diferentes, só pra sair da rotina. Sua mãe acompanhava de longe enquanto brincava, atenta ao livro e a criança; um verdadeiro cérebro multitarefado. Na verdade,entre uma vigiada e outra, perdia algumas palavras ou parágrafos, umas descrições longas demais - mas não se arrependia, se divertia assistindo a filha sorrir.

Com as roupas já sujas de terra do parquinho, os cabelos negros soltos e bagunçados, corria do trepa-trepa ao balanço, nanana ao escorregar, sem uma preocupação no mundo. Desatenta, pensou ter ouvido alguém gritar, mas não deu atenção. O som repetia-se, mais alto: "Pega a bolaaaaa!", finalmente compreendeu entre os barulhos da quadra, olhando ao redor em busca do objetivo. Finalmente encontrou-a, não muito distante dali, sinalizando com o polegar que já estava a caminho. Ela correu sobre a grama verde, seus tênis encharcando-se um pouco na água que se acumulava sobre as folhas, sem perceber que as crianças já não gritavam. Por um segundo o mundo ficou em silêncio, estático, e estendia as mãos para alcançar a bola quando, num passo em falso, caiu.

No caminho ralou os joelhos e os cotovelos nas paredes do buraco, deslizando bruscamente enquanto era atingida por pedregulhos mais acentuados e raízes, nada o suficiente para desacelerar ou impedir sua queda. A gravidade parecia odiá-la. Como uma gata, seus pés foram os primeiros a tocar o chão, o que não foi de grande ajuda - sentiu tanta dor nos tornozelos que o grito de dor exclamado quase foi ouvido lá em cima, não fossem as formigas que roubaram sua voz enquanto subia.

Levantou-se com dificuldade, acostumando os olhos à pouca claridade da gruta em que se encontrava- a luz do sol não chegava ali, mantendo-a num eterno brilho azulado. Tinha medo do escuro desde pequena  mas alguma coisa ali a confortava, e não sentia necessidade de se apavorar. Sentia um cheiro forte de construção, talvez pelas pedras, e um barulho não tão distante de água corrente, que aumentava conforme lentamente caminhava na direção de onde vinham sorrateiros aqueles feixes azuis.

Atravessava um corredor deformado, certamente escavado pelo tempo, de paredes e chão úmidos e um teto escuro que não ousava encarar - temia acostumar os olhos e perceber o caminhar das aranhas ou o olhar cigano dos morcegos. Mantinha os olhos fixos em frente, nas curvas inexpressivas que denunciavam um marrom mesmo sob aquele tom gelado. Ao final do corredor encontrou outra gruta, aparentemente vazia fora as estalactites, onde uma rachadura na parede parecia conter uma fonte de luz.

Movia-se devagar e cautelosamente, como se a menor perturbação fosse causar um terremoto. Aproximou o rosto da rachadura, cerrando os olhos que reclamavam da claridade conforme chegava mais perto. Tocou a fresta com as mãos, impulsionando o corpo pra frente de modo que sua cabeça atravessasse. De olhos fechados, sentiu os ossos do crânio se chocarem com algo mais duro.

Levantou o rosto a sua frente e, como numa tela de televisão, podia ver o parquinho. As crianças que corriam jogando bola, outras que brincavam na areia, sua mãe lendo o livro, ela sentada no escorregador. Voltou os olhos assustada ante a visão de si mesma brincando contente, como num espelho que mostrava o passado, e sabia que era o passado pois acabara de ver a bola sendo arremessada próxima ao buraco.

Afastou o rosto depressa e bateu a cabeça no teto do buraco, demorando alguns segundos pra voltar a enxergar. Quando conseguiu, só via a parede, como se tivessem desligado a TV. Aproximou-se novamente da superfície lisa e rochosa, sem desviar o olhar, o brilho azul que emanava dos cristais nas paredes iluminando sua expressão de curiosidade.

De repente se acendeu, mas não via nada. Por sua cabeça passou um pensamento, pensou na escola, teria aula amanhã. Via as colegas de classe. Falavam mal dela, criticavam suas roupas e seu cabelo, seu jeito de andar se vestir, seus gostos e conversas. Afastou a cabeça, nada. Voltou. Viu-se na quadra, a última a ser escolhida pro time, as outras rindo de si a uma distância segura, onde não ouviria. Lá estava na sala, trazia presentes, todas vinham, cercavam-a o dia todo; queriam saber sua vida e o que mais tinha pra dividir. No outro dia voltava a ser ninguém, não queriam falar com ela, afundava em sua cadeira.

Com lágrimas nos olhos, recuou uns passos pra trás. Sentou-se num canto pensando no que via. Retornava ao buraco, espiava outra ocasião, sentia-se mais partida. Só queria ter amigos, por que era tão difícil? O que fazia de tão diferente? Talvez fosse mesmo sua culpa, fosse estranha demais, desinteressante demais. Molhava um pouco mais a camisa pressionando-a contra seu rosto.

Exausta e desidratada, voltou de ombros caídos pelo caminho que seguiu, deixando pra trás o buraco. Queria apagar a luz, mas o azul a perseguia. Nem olhou pro teto ou prestou atenção aos barulhos que a cercavam. Arranjou um jeito de subir, mesmo com dificuldade, e logo a luz do sol já tocava seu rosto.

As crianças brincavam de bola, sua mãe lia o livro, parecia nem ter notado sua ausência. A mãe a viu se aproximando, cabisbaixa, e logo perguntou o que tinha. "Que cara é essa? E onde se sujou tanto? Menina, num segundo olho e não te acho, no outro me aparece assim!" Respondeu qualquer coisa, queria ir pra casa, precisava de um banho.

Naquele dia mal dormiu. Foi a escola, encarou a professora e as outras crianças, sem ânimo pra nada. Perguntavam o que tinham, munidas de seus largos sorrisos falsos, despistava dizendo que estava cansada. Queria voltar ao parquinho, cair de novo, enxergar de novo. Com certeza falariam dela hoje, e amanhã também. Será que podia ver amanhã?

Com a desculpa de que perdera sua tiara, arrastou a mãe de volta ao parquinho. Aproveitou o encontro com uma tia conhecida e saiu correndo na frente, dizendo que já voltava com o acessório, sabia exatamente onde o tinha perdido. Escorreu com mais cuidado mas não conseguiu evitar se machucar um pouco na queda, seus tornozelos sofrendo o maior descuido.

Logo achou estranho que, em meio a luz azul familiar, sombras emanavam do fim do corredor. Correu em direção ao buraco, aquele lugar era seu, o encontrara primeiro! Uma menina não muito maior que si tinha a cabeça enfiada pela parede, seu corpo magro vestindo um uniforme escolar e um pouco dos longos cabelos castanhos vazando pela fresta. Estava prestes a gritar, ordenar que se afastasse dali, quando ela reparou sua presença e se virou com um sorriso.

- Oi! Qual seu nome? - perguntou, encarando-a no rosto. Nem deu tempo que respondesse - Eu não sabia que mais alguém vinha aqui, acabei tropeçando numa pedra e caí de cabeça, tá vendo? - mostrava alguns pontos que recebera no corte - Procurei uma saída por aqui e encontrei esse...buraco...não é legal? Quando contei aos meus pais, disseram que era efeito da batida. Me levaram até no médico! Um dia eu trouxe eles aqui, mas não consegui encontrar a entrada...hoje vim sozinha, e lá estava! Acho que sou mesmo louca. O que você vê?
- Ahn?
- Quando olha lá dentro. O que você vê?
- Eu vejo...minha escola...minhas "amigas" - ressaltando a palavra -, elas... - começou a falar, mas sua garganta já se fechava. Não queria chorar não na frente daquela menina que nem conhecia!
- Você tá bem?
Desabou. Contou tudo o que aconteceu, como encontrara o lugar, como via as outras crianças sendo más com ela, ao mesmo tempo em que soluçava e tremia de leve. A outra ouviu tudo com atenção, sem nunca tirar os olhos dela, sem nunca deixar de ouvi-la. Quando terminou já sentia-se mais calma.
- É só isso?
- ...só... - sabia de seus pais que não era grande coisa. Que logo passaria, que cresceria, que não teria mais que conviver com essas pessoas, mas sentiu-se triste por ouvir de outra criança que seus problemas não eram nada.
- Ei, vai ficar tudo bem...
Apontou em direção ao buraco, gesticulando que entrasse com ela. A parede azulada se acendeu, e ela podia ver tudo.

Viu os dinossauros se enfrentando por comida, a explosão de um vulcão, o olho de um tornado, uma gigantesca tsunami que engolia o continente. Viu o nascimento de seu planeta, e da sua lua. Um cinturão de asteroides, um satélite que percorria o espaço subitamente se choca com um detrito imprevisto. Uma estrela explodia e engolia sua galáxia. As duas compartilhavam o mesmo brilho no olhar.

- ...o universo é um lugar tão grande! Alguém só precisa te mostrar.
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