17 de nov. de 2014

Ladrões!

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Os dois belgas já tinham os rostos colados ao muro antes que o soldado alemão descesse a rua aos berros.
- Aufhören! Arrêtez!
O homem de bigode e chapéu coco se deu apenas a virar o rosto. Murmurou um som quase inaudível e não obteve resposta alguma de seu companheiro de boina. Este nem se mexia, mas suava sob o sol da manhã dominical. 
O soldado os alcançou a passos largos. Sem pronunciar palavra revistou-lhes os bolsos e a virilha, mas não encontrou nada além de suas carteiras. Verificou suas identidades e questionou em tom de ameaça:
-  O que fazem aqui os vagabundos? 
- Meu amigo e eu pegamos uma sombra. O calor está assassino. 
- Sombra! Me pensam estúpido? O sol das 11 lhes queima as costas e a nuca, sem nenhuma cobertura do lado de cá. Estivessem atrás do muro! 
- Pois me perdoe o gracejo - iniciou o bigodudo -, somos arquitetos. Procuramos rachaduras nessa estrutura. 
- Mentem! São novíssimos os muros do teatro municipal! Que esquema planejam? - bravejou o soldado já rubro. 
- Estava certo de que tal desculpa jamais enganaria um homem culto como o senhor. Revelo a verdade: somos homens honestos, não esquematizamos nada. 
- E o que fazem na rua deserta? É mudo o seu amigo? 
- Coloquei-o de castigo. Tem sido um homem traquina. 
- Traquina! De certo é um meliante! Coloque-se a falar, ou os levo algemados à força!
O bigodudo suspirou vencido. Acenando ao companheiro, recebeu de volta duas piscadelas. 
- Pois bem. Vê que este homem leva o rosto liso e macio, como se aparasse os pelos todas as manhãs. Nada é o que aparenta. Tens, na verdade, um bigode grosso e imponente como o seu. 
Os beiços e o queixo do soldado se moveram em contento com o elogio, sem deixar sumir a inquietação em seu rosto.
- E onde está o tal bigode que não vejo? 
- Pois acredite, mesmo que é certo que resista. Seu bigode é passa-paredes. Ao encostar a cabeça para lamentar-se de um infortúnio, fugiu-lhe o tapete pra dentro do teatro. 
- Ainda me prega peças! Não sabe com quem falas!
- Jamais, pois imagino bem. Não é de baixa patente soldado de tão majestosa e lustra penugem. Lhe digo que posso provar meu conto, e ainda, se me permitir, requisitar tua ajuda. Talvez se aproximar o rosto do muro ao lado de meu companheiro, a presença de teu bigode acalme o dele e o faça voltar de sua fuga precipitada.
Hesitante, o soldado se aproximou. Os olhos inquietos não perdiam de vista os suspeitos. Suas ventas abriam e fechavam devagar, fazendo balançar os pelos sobre os lábios. Segurou forte o coldre e encostou o rosto no muro.
Quase pulou de susto! O homem de boina lhe pregou um beijo molhado, sugando-lhe os lábios com um barulho de chupada. Antes que reagisse, fugiram os dois, correndo como crianças. Secando a baba do rosto com as mangas do uniforme, estranhou a lisura do rosto. Por minutos tateou em vão: não lhe restava mais bigode algum. Havia sido furtado.
- Ladrões, ladrões de bigode! - gritou aos quatro ventos, sem alcançar os ouvidos de ninguém. 
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20 de jul. de 2014

Memória Fotográfica

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"Dos momentos mais felizes não tenho registro algum", disse gentilmente à moça do caixa, apontando a câmera fotográfica que descansava no vidro transparente. Ao lado dela haviam outras, das mais bonitas e poderosas, que podiam captar seus poros a um quilômetro se fosse necessário, lhe explicoou a boa moça. "Quando isso é necessário?", perguntou com rispidez. Não foi a intenção, mas aprendera que intenções não importavam, só as consequências de suas ações; aqui as maçãs rubras da mulher que agora evitava os olhos de sua cliente, ainda que caso os encontrassem talvez descobrisse seu real conteúdo.

Elenira não era, por jamais, uma mulher grosseira. Quem dera! A grosseria é qualidade de gente presumida e cheia de si, e ela só estava cabisbaixa e em busca de uma câmera. Devia dizer a atendente que ela não devia se preocupar, que só estava emburrada.

"Todo mundo é meio babaca", lhe escapou o pensamento à boca, constrangendo ainda mais a pobre atendente que só queria mesmo uma comissão e um bom frappé a caminho de casa, estavam em fim de tarde e este era obviamente mais um daqueles dias em que ninguém compra nada mas fazem muitas perguntas.

A culpa não era de nenhuma delas, mas das circunstâncias. Estivesse Elenira em sua juventude, encantada com as novas tecnologias e possibilidades infinitas da fotografia, não teria incomodado a atendente com sua tristeza intimidadora. Ou a intimidado com sua tristeza incômoda.

Verdade é, percebeu Elenira, que se afastava da loja deixando-se entrar em piloto automático no caminho do Shopping para casa, que pouca gente sabia realmente reagir a tristeza dos outros. É necessário um certo nível de tato, de abnegação talvez? Algumas pessoas devem nascer sabendo. Lembrou-se da amiga que teve lá longe, quando professores a encaravam de cima; uma menina de cabelos crespos e o perfume mais cheiroso do mundo, que mascava chicletes em sala de aula mesmo quando a repreendiam e que tinha permissão dos pais para atravessar a rua em frente à escola e comprar ela mesma seus geladinhos - coisa que só as crianças do ginásio podiam fazer! Como era seu nome? Forçou a memória até encontrar um J, mas J poderia muito bem ser a professora. O sentimento já havia lhe escapado os dedos, mas o momento ainda lhe era vívido: Elenira encolhida no último degrau de uma escada que não levava a lugar nenhum, exceto um quartinho escuro onde guardavam os livros e as baratas conhecidas da escola. Sentia o rosto salgado e grudento e tinha medo de ser vista ali, mas as lágrimas não paravam de cair.

Por que você chora, Elenira? - perguntou a si mesma, física em sua própria e vaga memória, agachando-se ao lado de seu eu criança e passando a mão nos cabelos acastanhados que oscilavam entre possíveis cortes que poderia ter na época. A pequena não respondia, incapaz de manter o fôlego, nem mesmo expressou surpresa ao ouvir os passos na escada. J nasceu sabendo, estava há muito procurando pela amiga e pressentia que havia algo de errado. Elenira não tinha nem certeza se chegou a confidenciar à amiga o motivo de tantas lágrimas. Só lembra do beijo que recebeu em sua bochecha úmida e todo o tempo desprendido ali, em silêncio, deixando-se sentir o choro e a companhia.

"Que boa memória! Se pudesse a guardaria numa caixa!" pensou, e abraçou fortemente a lembrança de modo a mantê-la consigo tempo suficiente até que finalmente, dessa e só dessa vez, encontrasse a tempo uma fonte de tinta e qualquer papel, ou lhe passasse pela cabeça escrever em seu celular!

Por muito, muito pouco, não bateu de cara com um poste.

Era uma esquina totalmente reconhecível e refeita milhares de vezes sem nenhum empecilho. No susto, ainda saiu-lhe da boca um pequeno grito. "Ah!" Tarde demais. Elenira tinha problemas sinápticos que ela mesma não compreendia. Como se nunca tivesse existido, já não estava mais lá a memória. Em que mesmo estava pensando? Tinha algo a ver com grosseria. Fora rude hoje mais cedo, mas só estava triste, pois dos momentos mais felizes não tinha registro algum, e sentia que mais uma vez havia se esquecido de algo muito importante à ela.

Conseguia se lembrar perfeitamente do jantar de ontem, mas não conseguia distinguir entre seus livros quem presenteou o que. Exercia sua profissão com admirável competência mas não tinha certeza se a última festa do escritório havia sido uma comemoração de aniversário ou a despedida de um colega. Em verdade, nesse momento, nem se lembrava mais que existira uma festa, onde vários convidados - até mesmo os embriagados - poderiam jurar que ela se divertiu.

Já ouvira chamarem sua condição de memória seletiva, mas gostaria muito de conhecer quem estava selecionando por ela e dar-lhe uma boa demissão e uns sopapos!

Não alarmava especialista algum, pelo contrário! Todos acreditavam ter a solução. "Se alimente melhor, tome esses remédios, bastante água e seja mais de bem com a vida pelo amor de deus!" O problema nunca foi esse, doutores! O cérebro de Elenira apaga as memórias felizes! "Codeína é a solução, a dor é a fonte de seus problemas!"

Nem era tão doída assim. Sabia muito bem disfarçar sua condição, rindo a cada referência àquele churrasco de amigos onde o João pulou na piscina vestido e, como esperado do João, puxou-a junto! A visão da Elenira lá, toda molhada, num misto de vergonha e riso, isso foi marcante!

Mas Elenira não lembra de riso, água ou churrasco, mas nesses muitos anos de convivência social aprendeu a interpretar o papel perfeitamente. Era sempre colocada em apuros, quando lhe pediam para que repetisse uma anedota ou que nomeasse quem mais estava naquele glorioso passeio de barco do noivado de Clarissa. "Poxa, mas e a Clarissa ein, como anda?" Era esguia, Elenira!

Mas hoje acordou bundada. Uma insatisfação entorpecente condicionada por vários anos dessas pequenas perdas e saudades sem nome. Conhecia esses dias, nele assumia uma cara de bunda inegável e rastejava pela cidade meio zumbi, meio decidida, já que em sua viagem tentava ao menos buscar uma cura ou solução, frequentando aqueles doutores chatos ou bares também chatos mas onde podia fingir que não se lembrava de nada por motivos ébrios. "Eu não acredito que te venci na sinuca!", exclamava com verídica surpresa, quando lhe contavam suas simples façanhas noturnas. Todos riam, "é, você disse mesmo que estava muito bêbada".

Estava mesmo? Ou só procurava um álibi prum encontro como esse?

Mas sempre ficava feliz quando a reconheciam. Prometeu ligar pro moreno tatuado e pro irmão dele também, mas nunca soube que eram parentes - e nem eles souberam dela. Nem cairia mal um pouquinho de romance. Tinha algumas relações desgostosas e poderia falar horas sobre elas, e nem se perdendo nelas conseguia resgatar alguma lembrança alegre e viva. Caíam todas antes de chegar ao consciente.

Comprou uma câmera uma vez, parecia uma solução ideal. Mas quando revelava as fotos só se sentia triste de não reconhecer os sorrisos, as danças e os abraços que aparecia distribuindo. Passou a fotografar só os outros, mas aí nem reconhecia aqueles quadros como os seus. Repetia-se então de quando em quando, procurando um recomeço através de lentes melhores e mais poderosas, mas agora nem nisso encontrava sentido. Hoje estava realmente bundada.

Que pessimista é essa Elenira, diziam em dias assim. Não queria nem pensar em quando tentou filmar sua vida toda.

"Ei! Ei! Senhora!" Elenira já estava quase em casa mas não reconheceu o ambulante que gritava por ela. "Senhora! Venha cá!"

Elenira se aproximou desanimada, quase arrastando as mãos no chão. Reconhecia algumas quinquilharias sobre o balcão do homem, capas e carregadores de celular, lanternas e isqueiros, chaveiros e abridores de garrafas. Esperava outro reencontro, será que fora ao bar noite passada? Isso explicaria muito. O álcool deprime. Não deprime?

"Eu não sei senhora, mas posso te ajudar!" disse o ambulante. Elenira arregalou os olhos! Estivera recitando tudo que pensava? Não parecia sair som algum de sua boca! "Calma, calma minha senhora!" E ela não conseguia responder, mais arregalada e sem palavras! Um leitor de mentes, seria possível? "Jamais minha cara, essas coisas não existem! Eu sou só um exímio praticante de uma arte muito boa em vendas e festas universitárias. Eu pratico a arte de ler rostos!"

Elenira ficou imediatamente mais calma, já que seu rosto era, ao seu ver, um livro aberto.

"E realmente é!", continuou o vendedor, "mas não é pra falar disso que a chamei hoje! A senhora me parece ter problemas para se recordar de boas memórias. E vou além! Diria que dos momentos mais felizes você não tem registro algum."

Concordava com a cabeça, realmente um livro aberto.

"Eu tenho a solução dos seus problemas minha senhora, a oportunidade de negócios que lhe trará felicidade e boas lembranças pro resto da vida."

Nesse ponto ela já estava conquistada e mal conseguia conter sua ansiedade. Será que os céus sorririam para ela?

"Pois estão sorrindo, minha senhora, pois eu tenho aqui...memória fotográfica!" O vendedor tirou uma caixa por detrás do balcão, to tamanho exato das caixas de câmeras fotográficas que possuía, mas de papelão e com "Memória Fotográfica" escrito de canetinha. Ele abriu a tampa e retirou de dentro...uma câmera fotográfica.

Elenira mal conseguia conter sua decepção.

"Minha senhora, essa câmera faz fotos, filmes, toca mp3, acessa a internet e o mais importante...tem uma bateria de carga infinita!"

Muita decepção. Já sabia onde ele queria chegar. Balançava a cabeça negativamente ouvindo o vendedor descrever os megapixels e a memória interna com expansão por cartão de memória.

"E a senhora poderá filmar o tempo todo! Memória Fotográfica! Lembrança constante a distância de um play!" Elenira podia ver onde, na câmera, havia um Tecpix riscado e o Memória Fotográfica escrito embaixo, em letras tortas, também de canetinha.

"Me desculpe senhor, mas você não leu minha cara muito bem. Eu estava tentando não pensar nisso agorinha. Eu já tentei filmar o tempo todo e sim, trocar e bateria toda hora é desgastante e até aí você teria ganho a venda, mas nada é tão desgastante quanto as pessoas me tachando de maluca."

O vendedor, cuja face Elenira não conseguia ler, mas que assumia uma expressão descontente, não se demorou a iluminar-se de novo num sorriso. "Mas se você gostar disso, minha senhora, nem irá se lembrar!"

~~

Só por essa câmera Elenira precisava pagar um real por dia pelo resto de sua vida, sem contar os gastos com cartões de memórias e suas outras armazenagens. Tinha um quarto só de rolos de película. Todas as outras máquinas também tinham baterias de longuíssima duração, e seus nomes riscados substituídos por "Memória Fotográfica", nas mesmas letras tortas e na mesma tinta, pois as comprava com o ambulante leitor de rostos.

Não escondia a natureza de seu hábito, nem o que sacrificava pra mantê-lo, e não costumava discutir com os olhares ou perguntas que surgiam das pessoas aparentemente incomodadas com sua filmagem incessante. Ao final de dias bundados, deitava-se de qualquer jeito no sofá, uma câmera ligada apoiada num tripé, e assistia a sua vida passar. Depois se assistia asisstindo. E se assistia assistindo a ela assistir. Mas era sempre bom ver-se de novo, ver-se feliz de novo e reconhecer-se ali.

De vez em quando encontrava, nas filmagens de um show ou evento qualquer, um mal amado exclamando aos ouvidos em volta o quanto essa sociedade boboca não conseguia aproveitar o momento, e que ela estava obviamente "perdendo a vida atrás da câmera". "O problema é todo meu", dizia sua voz no vídeo, e Elenira concordava e ria de si mesma.

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26 de jul. de 2013

Planos

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Quatro amigos estão sentados num bar. Acabaram de sair da formatura do Colégio São Pedro. São eles Caio, William, Arthur e Mura. Discutem suas ambições e planos agora que se formaram e se tornaram, finalmente, adultos. Caio diz que deseja se tornar um grande escritor, mas acabou de descobrir que sua namorada está grávida. William conta sobre como quer se tornar um publicitário de sucesso, começando seu curso de graduação na ESPM daqui a alguns meses. Arthur sempre teve habilidade com pintura, mas anda sofrendo pressão dos pais para conseguir um emprego. Conheceu há algum tempo a cocaína, que diz ajudar sua criatividade. Mura é o único que ainda não se encontrou. Sem certeza das suas habilidades, não tem perspectiva de futuro, sendo alvo de piadas do grupo. Eles bebem a última rodada de cerveja juntos, fazendo um brinde ao que ainda está por vir.

Flashfoward para dez anos depois.

Há uma festa de dez anos da formatura da turma de 2004 do Colégio São Pedro. Após uma noite de muita música e bebida, Caio, William e Arthur se dirigem ao bar costumeiro, decididos a relembrar os velhos tempos. Juntos, bebendo cerveja, relembram como eram sonhadores da última vez que estiveram naquele bar. Caio diz, fingindo felicidade, que alcançou o que queria. Após ter se mudado de casa com Jasmine, sua namorada, para criar a filha Luiza, trabalhou durante anos num supermercado de modo a sustentar a família, quase perdendo o sonho de escrever.

William pergunta sobre a filha. Caio se mostra incomodado. Vemos, num flashback, a menina ser atropelada aos 7 anos de idade, na rua em frente a escola. O motorista foge acelerando. Ele conta como isso causou uma ruptura em seu casamento, e que por meses sofreu com a perda até reerguer-se escrevendo seu livro. Resigna-se na cadeira, pedindo uma cachaça pro garçom. Pergunta a William como anda a carreira.

William diz que está tudo muito bem. Anda se mantendo como freelancer e vai se casar no fim do ano com Clarice, que conheceu há alguns meses. Arthur pergunta por que ele retornou ao Brasil, se tinha ouvido falar que ele estava muito bem na Inglaterra. William conta que conseguiu um estágio após a graduação que o ajudava a se manter, mas dois anos atrás teve que retornar pra casa após a falência da empresa de segurança do pai. Vemos num flashback William entrando em casa e descobrindo o corpo da mãe na cozinha. Espantado, corre até os quartos, onde encontra seu pai caído com um revólver na mão, morto com um tiro na cabeça. No presente, William repete que está tudo bem e que está feliz.

Arthur, tremendo um pouco, vai até o banheiro. Retorna com o nariz escorrendo, que limpa com um lenço. Os amigos lhe perguntam se ainda pinta. Ele diz que sim, de vez em quando, fungando. Conta que logo após a formatura começou a pintar como um louco, mas teve uma overdose e foi internado numa clínica de reabilitação. Ao retornar, os pais lhe ajudaram a montar uma galeria, da qual sentia-se orgulhoso. Foi um sucesso por um tempo, mas perdeu-se com o tempo. Hoje trabalha numa loja de eletrônicos. Quando William pergunta o que deu errado, vemos um flashback de Arthur. Ele está dando uma festa de lançamento de um novo lote de pinturas. Uma voz, cujo dono não conseguimos ver, o chama para o banheiro. Lá, lhe oferecem cocaína. Ele diz que isso já não faz parte da sua vida, ao passo que a voz insiste, afirmando que é um dia de comemoração. Ele cede. No presente, ele responde a William que não sabe o que deu errado, limpando novamente o nariz.

Os três pedem mais uma rodada de cervejas. William pergunta "Alguém sabe do Mura?" Todos se mantém em silêncio por um tempo. Arthur diz que chegou a vê-lo alguns anos antes, mas que não mantiveram contato. Brincam que ele deve estar em alguma sarjeta, fazendo um bico qualquer durante o dia.

Na frente do bar, pára um Porsche. A janela abaixa. Vemos Mura, envelhecido, olhando os antigos amigos pelo vidro do bar. Vemos uma sequência de flashbacks. Vemos Mura dirigindo o mesmo Porsche, atropelando a filha de Caio. O vemos vendendo ao pai de William a arma que estava em sua mão. Na festa de Arthur, ele é revelado como dono da voz que o chama para o banheiro. Mura respira fundo, ainda encarando os amigos. Sobe o vidro do carro. A tela escurece.

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23 de mai. de 2013

Sentido Barata

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Ficou conhecida como A Guerra dos Onze Anos

Debaixo da madeira mofada vivia o exército de busca e recuperação das baratas, cuja única e maior missão era conquistar tesouros pro reino. Se reuniam todas as quintas feiras para planejar ou orquestrar um roubo, sempre durante o crepúsculo, que só sabiam estar acontecendo pois recebiam uma mensagem  das repugnantes mas úteis habitantes do reino do esgoto, destino das exiladas e de muitas desertoras de combate, onde alguns feixes de luz entravam e iam morrendo conforme chegavam as trevas.

Era pra onde Isabella, herdeira daquela madeira mofada onde se protegia da chuva e outras coisas que a vida joga na sua cabeça, como a noite, esperava que fossem as malditas que ela se livrava pela descarga desconfiando que ainda estivessem vivas, ou que afugentava até o ralo mais próximo se certificando de tampá-lo por alguns dias, ou deixando correr água por um tempo que lhe parecesse o suficiente, como um tobogã sem escadinha pra voltar.

Mas elas sempre voltavam.

Em verdade não eram as mesmas. É fato que poucas vezes em sua extrema longevidade Isabella viu a mesma barata. Uma soldada teve o desprazer de encontrá-la cinco, cinco!!! vezes em sua vida, escapando de todo o tipo de armamento pesado como tamancos, vassouras e o temido inseticida. Antes dos dois anos de idade voltou ao ninho com dificuldade, mal movendo suas patas e de vez em quando batendo as asas em espasmos convulsivos. Suas últimas palavras foram sobre um monolito negro, onde havia comida, mas...

Nunca terminou.

Seu corpo foi depositado na privada, para que a assassina observasse seu crime e também pra que ele fosse levado ao esgoto, impedindo que contaminasse o povo saudável do reino da madeira mofada, que as vezes se rendiam a prática ancestral terrível do canibalismo. Os do esgoto já eram contaminados em espírito, imundos como as religiosas da igreja ao lado, como diziam elas, "o que é uma antena pra quem já está aleijado".

Corriam boatos de que aquela monstra ainda sorriu ao ver o corpo, deu a descarga cantarolando. Maldita! Era um ato declarado de guerra, uma afronta ao reino, mesmo que ninguém soubesse quem exatamente presenciou tal coisa.

Pra Isabella a guerra começou com Nabokov. O livro nem era seu e ela rapidamente se apaixonou por sua capinha azulada, sempre lia algumas páginas antes de dormir. Um dia, como mágica, desapareceu de sua cabeceira. Procurou embaixo da cama, entre as outras dezenas de livros, na mochila e até perguntou se não tinha, num deslize de atenção, emprestado a alguém. Pediu mil desculpas pro dono e tentou esquecê-lo, sem nunca tê-lo terminado, mas assistiu o filme.

Estamos falando de Lolita, que o exército roubou porque corria um boato de que se tratava de ninfetas, e do relacionamento de um ser humano de meia idade com uma delas. Isso era a coisa mais insana, mais suja, mais bizarra, mais frenética que elas já haviam ouvido de um humano, quase um pornô de Joe e as Baratas.

Apesar de decepcionadas por ninfetas serem humanas, e não ninfas de abdome avantajado e antenas dançantes, apreciaram o conteúdo e planejaram o próximo roubo.

Isabella nem devia estar lendo Nabokov aos 13 anos, alguns diriam, e eu concordaria por moralismo mesmo. As baratas não roubaram Cristiane F. As baratas não roubaram O Diário de Anne Frank.

O pior era fazer algum trabalho de literatura. Pegar livros da biblioteca era perigoso se os esquecesse fora da mochila, o zíper fechado até o último clique. Chegou a pedir pra mãe um cadeado, sendo perguntada se as crianças da escola estavam roubando suas coisas. Disse que sim e houve um alvoroço, uma reunião com a diretora e a professora, "o que te roubaram querida?" Como responderia livros? Que criança rouba livros?

As baratas não roubaram A Menina que Roubava Livros, mas ouviram falar bem.

Teve que mentir, disse que seus lápis coloridos desapareceram ("você deve tê-los perdido") e suas borrachas fofinhas e alguns dos seus bottoms favoritos. A primeira coisa que fez ao estar sozinha sem a mãe foi jogar tudo fora, junto com o lixo do banheiro. Nessa perdeu Dom Casmurro, Quincas Borba e O Cortiço. O último reapareceu. Não eram crianças roubando seus livros, nem era na escola, era em casa! Ao vencedor, os livros! As batatas continuavam no lugar.

Até desconfiou da mãe.
Vê, esqueci de dizer que até esse ponto Isabella não sabia que eram as baratas. Já havia visto algumas pela casa, jogado uns chinelos, gritado pela mãe, se defendido com raid e inalado aquela coisa horrível mas era sempre perto de comida. Pedia em suas preces que quem estivesse com os livros os devolvesse ou, claro, fosse condenado ao inferno como o ladrão repugnante que era.

As baratas não acreditavam em inferno, não leram a Bíblia e mal ousavam pisar no templo ao lado, apesar de todo o pão.

As missões de busca dos tesouros eram planejadas com meses de antecedência! Tinham que ser seletivas quanto aos rumores, um pouco traumatizadas pela decepção do caso Nabokov. Leram O Bigode, do Carreré, porque havia um ralo na capa e de alguma forma aquilo era hipnotizante. E uns pêlos, ou talvez várias perninhas de barata (corriam os rumores, mas ninguém acreditava mesmo).

Isabella criou um sistema.

Sempre, sempre sem exceção, sempre sem intervalos de tempo, devia saber onde estavam suas coisas. Não todas, era impossível saber todas, mas as importantes: celular, isqueiro, carteira, bilhete único, chave. Tinha a memória curta ruim, a longa até que sobrevivia bem obrigado. E os livros.

Droga, os livros.

Estavam no sistema mas viviam desaparecendo, estavam ali na cabeceira! Ao lado da televisão! Em cima do guarda roupa! Chegava a considerá-los armadilhas, tinha tanta certeza de seu posicionamento que conseguiria pegar o bandido no ato. Desconfiou de seu pai falecidoAntes desconfiou da empregada, mas eles sumiam durante a noite, então tinha que ser o defunto espectral.

Até O Amor Venceu.

O caso O Amor Venceu  foi a primeira grande derrota do exército de busca e recuperação, pois era ele em cima do guarda roupa. Ninguém sabe se foram as cores esquizofrênicas da capa, ou as baratas românticas, ou todo aquele climão egípcio (vai que tinham baratas egípcias!).

Ah, se as baratas tivessem um iPad, nada disso teria acontecido. Se Isabella tivesse um talvez elas o teriam roubado, então na verdade dá na mesma, mas não importa, naquela época eles ainda não existiam.

Eram muitas pois, porra, o livro era pesado. O plano era empurrá-lo ao chão para que pudessem arrastá-lo até o Reino da Madeira Mofada, pouco a pouco, no espaço de uma noite. Lá em cima era a parte supimpa, só uma leve queda no que era uma pilha de roupas, lençóis, edredons, travesseiros e tudo mais que ela espalhava pelo quarto antes de dormir e jurava arrumar quando acordasse.

Ela cumpria vez ou outra, mais outra que vez.

As baratas não leram livros de física! Ou matemática! Mal eram conscientes do zumbido latejante que faziam quando voavam, se atirando do armário da cozinha ou do lustre. Uma vez, numa noite em que O Ladrão de Sonhos alugado estava dentro do videocassete e Isa se lembrava até do barulho da fita girando e mais ainda das legendas amarelas, primeiras e precoces, não podia ter mais que oito anos!, uma barata kamikaze saltou detrás da televisão e fez um voo rasante que terminou com um pouso acidental em sua face.

Nunca tivera medo delas antes disso. Depois estava sempre a uma distância segura.

Mas naquela noite tudo piorou! Já tinha seus 17 e se sentia cheia de si, pronta para mudar o mundo, quando o barulho não calculado do livro batendo numa parte meio vazia de panos macios despertou-a às duas da madrugada, abrindo seus olhos pra ver primeiro a luz da lua, e o depois o enxame de baratas que fugia pelo rota de fuga da operação falha: o teto. Seu corpo inteiro se mexeu e de repente ela estava coberta da cabeça aos pés pelo edredon e pelo lençol, rezando tudo que lembrava de seus avós já terem recitado pela casa, no caso das baratas serem alérgicas a jesus.

Não saiu de lá até amanhecer. Em verdade, nem se mexeu mais, até mesmo adormeceu, um sonho inquieto dos que viram uma operação do exército de busca e recuperação. Que ainda se aproveitou da sua inércia para retornar e terminar o trabalho mal começado.

Não temiam ser descobertas, o exército era forte. A derrota era o livro. Não valeu o esforço! Foi jogado no esgoto para que servisse de comida aquelas que devoravam qualquer coisa. Elas não leram, uma vitória pro reino do esgoto.

E declararam guerra! Pois Isabella sabia somar dois com dois. Ou um com dezenas. Um livro perdido para uma nuvem de artrópodes das trevas. E estava lá, em cima do guarda roupa! E fez "pum" quando bateu no chão, e elas partiram em retirada! Os livros não entravam no sistema, sumiam porque eram arrancados de sua posse por insetos militarizados!

Sentia mais medo, se sentia!

Mas desenvolveu um sentido! Sabia a posição de qualquer barata a menos de três metros do seu corpo, simplesmente por saber, e então se armava nem que fosse das unhas! Nas ruas as ignorava, mas em casa não conseguia descansar até caçar e eliminar a miserável, mantendo uma distância extremamente segura, o que significava mais veneno e menos ataques físicos (a não ser arremessos).

O exército morria! As quintas feiras agora eram mais perigosas, mas em bando até que conseguiam suprimir os ataques. As baratas roubaram O Processo, roubaram Fumaça e Espelhos! Deixaram O Apanhador de Sonhos porque era muito pesado, mas levaram O Primeiro Gole da Cerveja! Roubaram O Cálice de Fogo e as pequenas baratas começaram pela ordem errada! Tentaram roubar A Ilha Perdida  e Os Miseráveis, mas a dona farejava quando tentavam tocá-los.

Onze anos da incansável guerra!

De Lolita à Psicopata Americano. As baratas gostavam de romances. Isabella tinha uma lista de suspeitos, às vezes não sabia se o autor do furto era um amigo distraído ou clepto, mas normalmente atribuía a culpa ao exército. Em rodas de bar evocava risos com a história, mas sempre impressionava com sua habilidade de senti-las - sabia exatamente em quais restaurantes comer, mas nunca pedia para dar uma volta pela cozinha, ou provavelmente não comeria em lugar algum.

Seus pais ignoravam como delírio juvenil. Mas também, nunca tocava no assunto com a seriedade que ele merecia. Tinha sempre um sorriso no rosto. Um certo orgulho do que lhe acontecia.

A lista se perdeu na mudança. Levou consigo seus livros, os que ainda tinha, pediu aos pais que se um dia dedetizassem a casa, que tomassem cuidado com sua coleção perdida. Jamais fizeram isso. Levou consigo também seu sentido, que durou a vida toda, mas nenhum dos apartamentos onde passava parte da existência teve tanto uso para ele. Faltava madeira mofada. Faltava um reino.

A vida até perdeu um pouco da graça.

Odiava-as! Mas lembrava com certo carinho do exército e de sua guerra particular. Queria saber se elas leram tudo que roubaram, ou se era só hobby, preferindo acreditar no primeiro - era uma escolha muito específica, de um valor mais que material, ou não teriam levado tantos livros de 2 reais que comprou no metrô.

A última vez que viu a casa foi quando sua mãe faleceu. Quantas memórias naquele lugar! Foi vendida, já estava casada e vivendo bem longe, em uma cidade com uma densidade menor de baratas per capta. Chegou a procurar pelos cantos da casa, revistou seu quarto e a madeira mofada, mas as poucas que encontrou não pareciam reconhecê-la e não entravam em combate. Se escondiam. Até deixou um Bukowski jogado num canto como isca, mas nada de exército.

Gerações se passaram!

Sem Isabella, não era a mesma coisa. O exército de busca e recuperação foi definhando, morrendo ou se especializando em outras áreas mais importantes para a propagação da espécie. Tinham uma coleção de riquezas da qual a rainha era toda orgulhosa, mas cada princesa se importava menos, e os livros se perderam para as traças ou as mais sem modos, comedoras de papel. Confabulavam menos e trabalhavam mais, o que era uma pena, poucas coisas eram tão divertidas quanto discutir literatura numa roda de baratas no auge do Reino da Madeira Mofada.

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22 de mai. de 2013

Sua Pele Áspera

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Corremos para pegar o ônibus, mas só eu subi.

Tive que observar as portas se fecharem e o rosto triste de meu colega enquanto o motorista dava a partida e saía do ponto final, apesar do meu protesto e de não entender por que ele não se mobilizou mais. Dava tempo, caralho! Era só pular nos degraus, eu ainda liberei espaço, ele só fez uma expressão de tristeza mas nada que me impedisse de continuar lá dentro. Daí o ronco do motor e apito já conhecido das portas se fechando, um baque, um ônibus em movimento. 

Tudo bem, nos encontramos em algum lugar. 

Tateei os bolsos e meu celular não estava lá. Ficou em casa, junto com o isqueiro e o maço. Errado, tudo errado, mas ainda havia chances de salvar o dia.

Nós só queríamos fumar um pouco.

A erva é vendida num beco atrás da casa dele, descendo um escadão de degraus largos e virando atrás de uns barracos numa passagem que só é vista quando você já está dentro dela. Perfeito pro comércio, quando você quer que ninguém saiba que esse comércio existe.

Nós sabíamos e era o beco o nosso destino. O ônibus estava quase vazio, passei pela catraca e fiquei de pé, tentando procurar meu amigo à distância, mas eu já não o via lá. Sentei-me em qualquer lugar, em verdade tentei. Fui impedido.

- Cara, assim você me fode.

Não consigo me lembrar de outra vez em minha curta mas recontável vida em que alguém se dirigiu a mim assim, de supetão, dizendo que eu o estava fodendo sem nem apresentar a si mesmo ou o motivo da foda. Parei o ato no meio, assim, meio encadeirado, a bunda já num ângulo perfeito para receber o conforto do assento.

- Pois não?

Não sei quem são essas pessoas que dizem "pois não", juro que tentei pensar em outra coisa, foi em vão.

- Eu vou me sentar aí.

Era um cara um pouco torto, com o perdão da palavra. Os cabelos ralos eram muito louros, exageradamente, assim como suas sobrancelhas, contrastando pouco com sua pele pelo simples fato dela ser rosada em alguns pontos, em maior parte era branquíssima, constatei, em minha soberana inteligência, que estava falando com um albino.

Mas ele não era torto por isso, não me julgue ainda.

Suas vestes eram polidas, finas, como as que eu usaria numa entrevista de emprego. Mas não por isso também. Era torto porque suas pernas iam para trás e os joelhos para frente de um jeito muito, muito estranho, fazendo sua bacia ficar suspensa no ar, quase como eu parado no ato de me sentar. Os braços pendiam do lado do corpo e a cabeça se atirava para frente assim como os joelhos.

Tentei não prestar atenção em nada disso, mas hoje era o dia das tarefas impossíveis.

- Cara, tem vários lugares. Esse aqui não tem nada de especial.
- Assim você me fode.
- Não é minha intenção. Mas se você insiste.

Eu disse saindo de minha posição estranha, quase mímica, para sentar em outro lugar.
- Assim você me fode.
Ele respondeu, levantando um dos braços caídos para colocar a face de sua mão na minha cara, como naquelas placas de Pare! muito enfáticas ou avisos antidrogas muito funcionais. Lembrei dos dedinhos da Eliana. Queria saber o que esse cara tinha na cabeça. Só me fez parar, ali no corredor, se mantendo de pé e fixo ao chão usando apenas a gravidade e poderes mentais, ou sua anatomia lhe garantia um equilíbrio sobre-humano.

- Assim você me fode.
Repetiu mais uma vez, e eu cansei, me sentei onde iria mesmo, se ele já estava sendo fodido por mim então de que me importava.  Ele riu e sentou-se em outro lugar. Não disse palavra alguma o resto da viagem, nem um "obrigado pela foda", mas nunca me achei bom de cama a ponto de receber agradecimentos.

Também posso não ter lhe dado oportunidade, afinal, durante nossa pequena confabulação o ônibus deu de tomar um caminho que eu não conhecia. Por baixo.

Deixe-me explicar.

Existem dois caminhos para se chegar ao beco do comércio, às banquinhas ilegais atrás dos barracos, à casa de meu amigo. Um, que é o que tomamos sempre, que é o que corremos para pegar o ônibus, escolhe subir o morro e passar por um colégio interno adventista onde muita gente que conheço estudou e mantém certo carinho falso, já que é um lugar horrível para se ter estudado. O principal ponto de referência para saber que cheguei, são e salvo, à casa dele, é mercado que fica exatamente em frente ao ponto de ônibus. Lajotão Supermercados.Todo mundo conhece o Lajotão.

O outro vai por baixo. Tipo, não sobe o morro, acho que isso é perfeitamente compreensível, pois o era para mim naquele momento enquanto o ônibus passava por ruas extremamente não íngremes para serem meu destino.

Quase me esqueci. Além de ir por baixo, ele corre em paralelo, de modo que lá de cima é possível ver o caminho alternativo e, em minha imaginação, vice-versa, o que me dava certa segurança. Ok, eu peguei o ônibus errado, isso explica por que meu amigo não subiu, isso explica sua cara de triste, não explica o albino torto nem por que diabos eu não conseguia reconhecer o caminho lá em cima, mas eu estava meio satisfeito e ter metade das explicações é tudo que você pode esperar da vida de vez em quando.

Mas eu sofro, odeio quando as coisas dão errado, então ficava olhando para os lados procurando por algum sinal de que estava próximo, algo reconhecível, procurando a porcaria do Lajotão. Odeio perguntar as coisas, mas lá fui eu conversar com o cobrador.

- Esse ônibus passa perto do Lajotão?

Ela se virou. CobradorA. Ainda bem que não me dirige em gênero, sua nuca era expressamente masculina, assim como a postura. Mas era ela, e estava tão feliz em conversar comigo quanto eu estava feliz de ter pego o ônibus errado. Me olhou de cima a baixo, medindo minha dúvida e a necessidade de fazer uma pergunta estúpida, pela resposta fria e, com o perdão da palavra, cuzona:

- Você não tá vendo o "Avenida Cornélio" escrito ali em cima?
- O Lajotão fica na Avenida Cornélio?

Arrisquei. Quando sou provocado com rispidez desnecessária tomo riscos desnecessários. Ela fez uma cara de bunda, que realmente parecia um ânus com cabelos crespos.

- Sim.

Era mais do que eu poderia esperar. Mais que metade.

Tornei a sentar-me no lugar cobiçado pelo torto e de vez em quando era obrigado a encará-lo pois estava do lado errado do ônibus, o que não me deixava ver pra onde ia. Até que finalmente, finalmente.

Finalmente finalmente finalmente finalmente finalmente finalmente.

Finalmente o ônibus fez uma curva e entrou num morro. Ele ia subir! Ele ia pro lugar certo! E foi! Eu até sorri pro torto, um sorriso vitorioso, um sorriso de que ia deixá-lo lá dentro e ir comprar minha erva que era o melhor que eu podia fazer pra esquecer essa bosta de dia.

Ele entrou na Avenida Cornélio e a cobradora me deu um olhar fatal, não sensualmente, mas do tipo "é melhor você descer aqui ou eu mato você e sua família, depois vou atrás dos seus amigos e das famílias deles, e mato os animais de estimação deles também", mas eu ainda não sabia onde estava! Mas a curva denunciava a proximidade. A avenida também. Eu devia conseguir achar o caminho sozinho. Apertei o botão pra descer, sinal sonoro da salvação, o ponto estava logo ali, eu desci e de repente não tinha ideia mesmo de onde estava.

Era tudo diferente.

O que eu esperava encontrar eram comércios de todos os tipos, pizzarias! um posto de gasolina! um mecânico! aquelas lojas que vendem de tudo, mas de tudo mesmo, tipo uma 25 de março exprimida num corredor de no máximo três metros de largura onde você encontrava o que precisava para o seu celular, para sua cozinha e para seu cabelo!

Do lado onde era para estar tudo que eu queria e esperava só havia um barranco marrom que subia. Lá em cima, árvores. Pessoas vinham e iam nas duas direções, mas carro, nenhum. Ônibus, só o meu se afastando. Olhei para trás e não vinha mais nenhum. A ladeira já estava a uma distância muito preguiçosa pra que eu voltasse, pelos meus cálculos era só eu seguir em frente, mesmo estando no meio do nada. Caminhei um pouco e encontrei uma placa que dizia "Avenida Cornélio", e meu coração e acalmou um pouco, como se tivesse tomado um banho quente depois de sentir muito frio.

Só para deixar claro, do outro lado eu via a avenida paralela, a que fica lá embaixo e você percorre quando sobe no ônibus errado, e mais a frente nessa avenida encontrei um mercadão. Certo que não era o Lajotão, mas eu me lembrava bem do Faixa Preta, e tinha que ser ele. Os dois eram próximos, só não eram concorrentes pela distância que os separava (e porque era uma distância íngreme, e não uma distância dos justos).

Comecei minha caminhada em direção ao Faixa Preta, pois era lá que encontraria meu destino, ou ao menos direções à ele. Todos que passavam por mim pareciam estranhos. O asfalto era comido pelo barranco nas laterais, e no meio pela chuva ou o peso dos carros que deviam passar ali quando a vida não estava me pregando peças. Vi uma mulher negra, muito gorda, que me olhou como se eu fosse um doente, cochichar algo para sua acompanhante, provavelmente sua filha, uma baixinha de cabelos cacheados que não respondeu nada, só concordou com a cabeça.

Me distraí com essa demonstração horrível de falta de tato, já que, como manda a etiqueta, deve-se cochichar sobre as pessoas pelas costas, e não pela frente, que não percebi que dei de encontro com um trio.

Uma mulher e duas crianças.

A mulher se vestia toda de branco. Era idosa e tinha os cabelos grisalhos caindo até quase a cintura, extremamente lisos, penteados com afinco. Usava chinelos e eu podia ver seus pés gastos e multicoloridos de pele e ferida. Mantinha as mãos atrás das crianças.

O menor era só um menino. Bem baixo, não podia ter mais de 6 anos, o cabelo curto certamente fora cortado em casa, viam-se falhas aqui e ali que podiam ser de descuido ou desprezo. Vestia uma regata acinzentada e uma bermuda bege, menores do que o seu corpo pedia, expondo sua barriga magra e suas coxas finas. Andava descalço.

E havia A Menina.

Ela destoava de tudo naquele lugar. Das pessoas, do barranco, da avenida. Destoava de mim. Era branca, quase como o albino, mas de um tom de pele que refletia mais o amarelado do sol que a banhava. Tinha os cabelos ruivos descendo sobre os ombros, terminando em claves de sol. Seu vestido era bege, sem alças, e lhe dava uma leveza quase etérea, como se o vento pudesse levá-la a qualquer momento, Era muito magra e também estava descalça.

Seus olhos eram terríveis. Azuis e terríveis.

Dos três que me impediam de seguir caminho, ela que veio até mim. Se aproximando eu podia vê-la melhor, mesmo não conseguindo tirar os olhos dos seus. Mesmo não conseguindo mover minha cabeça. Tentei dar um passo, tentei me virar, tentei abrir a boca, mas nada funcionava. Sua pele não era uniforme. O que eu pensei serem sardas eram feridas, todas abertas, todas descascadas. Eu podia ver os fiapos que ela devia arrancar com as unhas se olhando numa lasca de espelho quebrado.

E ela não parava de se aproximar.

Passo a passo, descalça, sem sentir o asfalto falhado, sem abaixar o pescoço, os outros dois me olhavam mas atravessavam, ela me olhava e deitava sobre mim uma maldade que eu jamais senti antes. Ficamos frente a frente. Eu só queria me mexer.

Ela colou o rosto no meu e abriu a boca pra falar, seu hálito era podre mas nada que eu não pudesse aguentar.
-O dinheiro que está no seu bolso.
Minha mão imediatamente pegou o dinheiro. Eu consegui me mexer para olhá-lo e contá-lo mentalmente. Era tudo que eu tinha, todo o dinheiro da erva, e ela não o levaria.

-Me dê.
Era como se ela me ameaçasse, seu rosto cada vez mais perto, estendeu a mão direita e com sua palma envolveu as costas da minha, que segurava o dinheiro. Mais perto.

Sua boca parecia mordida, não por ela, mas por cães. Tive medo que me beijasse, mas ela desviou os lábios, encostou sua bochecha seca na minha, me fez sentir sua pele áspera roçando no pouco que eu tinha de barba, descascando, definhando sobre mim. Empurre-a! Chute-a! Ela não pode lhe fazer nada! Mas meu corpo discordava, queria mesmo é mijar nas calças, se conteve, contente em só ficar parado, em esperar passar. Tentei mexer a mandíbula mas só a língua obedecia, até que pouco a pouco, como quando eu acordava paralisado, fui recobrando os movimentos da face. Disse não. Não. Não vou te dar nada.

- Não.
Ela sorriu. Me acariciou com as bochechas. Áspera. Lixa. Leprosa. Envolveu meu pescoço com os braços e me arranhou com as unhas compridas, de olhos fechados, me dando carinho que eu rejeitava. Minha mão apertava o dinheiro como se minha vida dependesse disso. Eu nem precisava tanto. Eu podia dá-lo, e ela iria embora, ia me deixar viver em paz. Mas não podia. Algo dizia que não, que eu devia resistir, era meu orgulho? Meu ódio de já ter passado por tudo aquilo? Vergonha por ter tido medo? Bastava. Tenho certeza que deixei cair uma lágrima.

Não sei se ela se afastou por isso, ou só se cansou, mas se foi do mesmo jeito que veio. Sem tirar os olhos de mim, sem se virar, andando de costas como uma assombração na estrada, em plena luz do dia, na Avenida Cornélio. Eu me mexi. Coloquei o dinheiro no bolso. Minhas pernas funcionavam, eu já havia perdido o orgulho e a vergonha de qualquer coisa, corri. Corri na direção que ia, cruzei por eles, que viraram só o pescoço pra me olhar. Eu tive que olhar pra trás. Ainda me encaravam. Fechei os olhos e corri o máximo que pude, o mais forte que conseguia pisar e empurrar o chão.

Alcancei o Faixa Preta, nenhum sinal do Lajotão. Conseguia ver o mercado lá embaixo. Nenhum acesso. Um barranco que descia, mas não era para pessoas nem para carros nem pra nada, só um paredão lateral que fechava o estabelecimento. Mas eu tinha que encontrar meu amigo, ou pelo menos a casa dele. Queria uma cama. Queria fumar para esquecer.

Desci o barranco jogando as pernas para frente, quase surfando, me ralando todo nas pedras e nos galhos que saltavam aqui e ali e querendo me espatifar logo no chão. Consegui pousar quase suavemente, entrando no mercado pelos fundos. Dois funcionários empilhavam caixas de algum produto de limpeza, não prestei atenção, não tinha ar algum em meus pulmões. Perceberam minha presença.

- Ei carinha, tá tudo bem?
- Eu preciso saber...onde fica o Lajotão. O mercado.
- O que você tá procurando? Você pode comprar aqui. Tudo que tem no Lajotão, tem no Faixa Preta.

Eu percebia que eles desconfiavam de algo, só não sei do quê. Se olhavam meio assustados antes de me responder. Deviam ser meus machucados. Minha falta de ar. Meus olhos arregalados.

- Eu não quero comprar nada, só quero achar a casa do meu amigo. É perto do mercado. Não desse. Do Lajotão.
- Ahhh, então se é assim. Cara, você sai do mercado e vai para a direita, reto até encontrar um morro subindo. Você sobe esse morro e vai dar de cara com o Lajotão.
- Mas...isso vai dar onde eu tava...eu tava lá em cima...e não vi nada. Não pode ser tão perto. Tem que ser outro caminho.
- Lá em cima?
- Sim. Eu desci o barranco e vim parar aqui.
- Cara, esse morrão tá meio entre as avenidas. Não tem nada mesmo lá.
- Tem a avenida. Cornélio. Eu tava na avenida. O ônibus me deixou lá. Tem um ponto. Asfalto e tudo.
- A avenida fica depois do morro, carinha. Ali é só terra e de vez em quando uns barracos, ninguém passa por ali. A polícia aparece de vez em quando, deve ter tipo uma biqueira.
- Não, a avenida passa ali. Tem que passar.

Dei as costas pros dois. Sei que vieram atrás de mim. Sei que só queriam ajudar. Mas eu precisava subir o barranco de novo, voltar para a avenida. Precisava ver com meus próprios olhos aquela porra de placa e foda-se se eu desse de cara com a família Adams de novo. Agarrei numa pedra e comecei a subir, com dificuldade, ainda não tinha muito ar, os dois estavam me olhando lá atrás mas não podiam fazer nada, era minha loucura e o melhor a fazer sempre é deixar os loucos em paz. Minhas mãos se machucavam nos galhos e nas pedras enquanto eu me puxava, se cobrindo de sangue, respingando em minhas roupas.

Não demorou muito e eu estava no topo, e lá estava, tinha asfalto e tudo. E uma comoção de pessoas. Eu não sabia o que era, não queria saber, fui andando na direção que o Lajotão devia estar, se a informação que me deram estava certa, eu chegaria logo. Fui cambaleando, devia estar parecendo um mendigo, um louco qualquer, mas cambalearia até a desgraça do meu destino por essa merda de avenida. Aí chegou a polícia.

Tudo aconteceu muito rápido.

Eles saíram do carro e um deles apontou a arma para mim. Eu congelei, o outro correu e me jogou no chão. Eu não sabia o que fazer, relaxei, a mente e o corpo, mijei nas calças. Me bateram mas eu já estava imóvel, era uma panqueca jogada no asfalto. Meu rosto sangrava, na sobrancelha e no nariz. Me levantaram e eu caí. Me disseram pra ficar de pé, eu tentei. Iam me jogar no carro mas um deles reclamou que eu estava mijado. Me levaram andando, quase me arrastando, pra onde a comoção de pessoas estava. Era um círculo. Mandaram que dispersassem. Saiam todos, saiam, deixem a gente passar.

- Foi ele! Foi ele!
Disse a ruiva leprosa. No meio do círculo haviam dois corpos, uma mulher idosa e uma criança, ensanguentados, esfaqueados com uma raiva visceral. A arma do crime estava do lado da  ruiva,  mas ela estava limpa, linda e etérea como o amanhecer, tirando suas feridas, tirando seus olhos de maldade. Apontava pra mim. Eu vomitei ali mesmo, em cima dos corpos que eles me forçavam a ver. Me bateram um pouco mais. Chorei e minhas lágrimas tinham gosto de sangue e bile.

Apaguei. Só lembro de uma imagem. A menina dançando, saltitando, um pé de cada vez, em círculos cada vez mais abertos, fazendo uma espiral ao redor dos corpos que ficariam ali até que viessem levá-los. Eu a vi pela janela da viatura, e ela sorriu pra mim. O policial que não dirigia pegou o dinheiro do meu bolso, essa foi a última vez que o vi. 
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12 de jan. de 2013

Sobrevida Estranha

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Quando se é imortal não ter pedido pra nascer é um problema quase sem solução. Mas logo chegaria o fim. Dionisio foi teado e escolhido para encerrar o universo. No Olimpo Zeus aguardava tranquilo enquanto no Salão Principal a Alavanca era puxada devagar.

Chega de ser imortal.
Chega desse mundo.

Dionísio não achou a escolha justa. Não queria terminar com o mundo.Só puxou um pouco.

O mundo deu uma pequena acabada.

A Avenida Paulista não é um lugar especial mas por algum motivo quando ele puxou a alavanca, o mundo deixou de existir ali e somente ali. Toda sua extensão era um imenso nada onde antes havia universo.

Onde antes havia avenida.

Todas as pessoas não eram mais, nem seu veículos, nem suas roupas, nem seus cafés com leite nem seus lanches.
Um ônibus deixou de existir no meio.
Uma mulher deixou de existir no meio.
Não é uma sensação agradável.

Dionísio gostava de tudo. Gostava da imortalidade e de si mesmo. Gostava de experimentar todas as coisas.
Você não sabe o quanto alcool bate bem quando você tem divinismo em seu sangue.
Maconha bate bem.
LSD bate bem.


LSD não é a mesma coisa na Terra e no Panteão. LSD é Lista de Situações Desastrosas.
Essa situação é desastrosa e não constava nela.

Serragem. Suco de laranja. Ecstasy, pão de ló e qualquer pedra no meio do caminho.Quando se é um deus qualquer coisa bate bem e Dionísio é quem mais sabe disso.

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E lá estava Dionísio que não queria encerrar o mundo mas ele tinha que acabar.

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Era 21/12/2012.

Os maias estavam errados. Os maias não sabiam de nada e andavam pelados, mas quase acertaram o fim do mundo.

O universo é cheio de coincidências.

Zeus ficou puto quando um zé ninguém olhou pro céu trovejante e chutou "tem alguém lá em cima muito bravo", e todos acreditaram, e ergueram estátuas em sua homenagem.
Zeus era onisciente e sabia que essa era só mais uma das coincidências estranhas do universo.

Como os maias acabando o calendário com Dionísio puxando a alavanca.

Eles nem viveram até lá. Não eram oniscientes, não viram os espanhóis vindo. Resta a data, comicamente correta, tragicamente errada.

Era 22:14:56. Tempo na Terra, na Avenida Paulista. No Olimpo o dia clareava pelo que parecia uma década, cortesia de Apolo e a caixinha de remédios de Dionísio.

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O prédio da Gazeta não existia mais e o café também não.

Não dá pra contar nos dedos das mãos dos Hecatônquiros o número de pessoas que naquele momento temiam o fim do mundo.Tudo por causa dos maias. Não era pra ninguém saber. Zeus sempre soube que as pessoas saberiam, mesmo pegando a informação no lugar errado.
Não tinha nada a ver com planetas.
Não tinha nada a ver com Quetzalcoatl.
Que se danem os maias.
Zeus só achava que era hora encerrar o expediente.
Sempre soube que era assim que acabaria.
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Nada existia na Paulista e uns milhares de pessoas acreditavam seriamente que o mundo acabaria e morreriam e qual foi a sua surpresa?
Morrer não é deixar de existir.
Morrer não é puxar uma alavanca.

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Dionísio não queria que o mundo acabasse. Pôs a alavanca no lugar. Queria mais tempo. Sempre soube que queria mais tempo.
Essa era uma situação desastrosa.
Nunca esteve na Lista de Situações Desastrosas.

O atraso do fim de tudo.
Zeus estava errado, os maias estavam errados.
Dionísio desapareceu.

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A alavanca estava de volta no lugar e o universo estava de volta no lugar. A Avenida Paulista era uma só e o mundo não acabou, só ela e algumas milhares de pessoas. Não dava pra contar nas mãos de cem Hecatônquiros. Cada um tem cem braços, faça as contas e acrecente mais.

Se mais pessoas acreditassem nos maias a Avenida Paulista estaria mais cheia. Mais pessoas saberiam que tudo acabou em 21/12/2012. Mais pessoas olhariam pra si mesmas confusas e desapontadas.
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Chovia desesperadamente. Como se a água quisesse punir o chão, que não havia provocado nada.
Dionísio puxou a alavanca e a escala é difícil de explicar, mas quando o universo começa a acabar a água pune o chão sem motivo.
A alavanca só havia mexido um pouco.
Dois cigarros acesos no café, dois fumantes mais molhados que a lona que os protegia da chuva. A alavanca mexeu mais um pouco e nada existia, nem café, nem cigarros, nem fumantes, nem meio ônibus nem meia mulher.
A alavanca mexeu mais um pouco e tudo existia outra vez.

Meia mulher desapontada.
Meio ônibus sem rumo.
Dois cigarros existiam de novo no café, mas não exatamente. Duas chamas acesas mas apagadas. Dois fumantes olhavam um pro outro mas só viam a si mesmos.

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Alana às vezes se perdia. Às vezes se apaixonava. Talvez fosse a mesma coisa.
Era completamente normal.
Completamente feliz.
Namorava um garoto tão parecido com ela que as vezes doía. Como olhar no espelho e perceber que por muito tempo você não viu o seu reflexo verdadeiro pois não estava prestando atenção.
A mente prega peças.
Seu coração parece parado.
Seu coração bate mais rápido do que ela pode perceber.
Alana não acredita nos maias mas seria bom se o mundo acabasse.

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Era ela segurando um cigarro. Era seu namorado segurando o outro. Seguravam nada aceso. Olhavam um pro outro e enxergavam a si mesmos.
Depois que você deixa de existir, mesmo que seja por um segundo, você sabe que deixou de existir.

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A não existência. Os mortos deixam de ser mortos e se tornam nada. Os vivos deixam de ser vivos e se tornam nada. Se tornar nada é uma experiência memorável que poucos puderam experimentar.

Os deuses não puderam experimentar.

A não existência não foi teada.
Alana tragou seu cigarro.
Logo antes do fim do universo.
Alana tragou seu cigarro.
Logo depois do fim do universo.
Zeus não sabia que isso ia acontecer.
Essa era uma situação desastrosa que entrou pra LSD.
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Não ter que se preocupar era uma das grandes vantagens de ser divino.  As estátuas e os sacrifícios, ninguém pediu. Ser um deus deveria significar saber se, e quando, o fim de tudo chegaria. Zeus não sabia como se sentir, e achava que sabia de tudo.
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Ser uma Moira não era tão glorioso quanto ser um deus. As Moiras gostavam de existir e tecer o fim do mundo foi a coisa mais triste que fizeram.
Zeus só sabia o que as Moiras sabiam.
As Moiras pararam de tecer quando o universo meio que deixou de existir por um momento, ou pelo menos uma parte dele.
A Avenida Paulista deixou de existir.
Acabou-se o tear.
Essa era uma situação desastrosa.
Ninguém sabia onde estava Dionísio.

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Zeus era Onisciente mas superestimado é uma ótima palavra para descrever algo que só um grupo seleto pode experimentar.O Universo sabia mais que ele. Ser onisciente era saber o que as Moiras sabiam. De ponta a ponta, todo o tear.
O Universo não precisa ser teado.
O Universo só quer se divertir.

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Existe um plano, ninguém foi avisado ou previu, e ele termina no dia 31/12/2012. Ao som de fogos.

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"Isso não é viver" foram as primeiras palavras proferidas após o primeiro fim do mundo.

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Pra algumas pessoas o mundo acabou duas vezes. Os maias estavam errados. As Moiras sabiam, Zeus sabia, Dionísio sabia, mas não tudo. Só as pontas. Só o tear. O mundo já tinha acabado mas lá estavam todos eles, bilhões de pessoas e um panteão.
Alana e seu namorado.
Cigarros que já não existiam mais.
O mundo acabou duas vezes.
Para a Avenida Paulista, tudo acabou duas vezes.
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Os dez dias que se seguiram foram os mais estranhos da história. Angústia e incerteza eram as palavras mais comuns nos consultórios,em discursos que começavam com "eu não sei o que é isso, talvez seja só uma dor de cabeça". A psiquiatria teve os melhores dez dias da história, estranhos ou não. A medicina era tudo, mas só por causa das receitas. Era extremamente importante ser um médico. Ser um psiquiatra era mais. Só pelas receitas.
As farmácias estavam vazias mas talvez ficassem as bulas.
Vazias de produtos.
Cheias de pessoas.
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Remédio para a gripe talvez cure.
Uma coisa simples. Deve ser só uma dor de cabeça mesmo. Essa sensação.
Um Advil.
Dois.
Uma Sedalgina. Pingue Dipirona. Paracetamol.Parecetamol com  fosfato de codeína.
Pra muitas pessoas sobreviver ao fim do mundo parece uma dor de cabeça insistente.
Pras pessoas que estavam na Avenida Paulista era não existir e existir novamente.
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Meio deixar de existir e meio voltar a existir é uma sensação terrível da qual, milagrosamente, somente alguns prédios, um ônibus e uma mulher sofreram.
Os prédios e o ônibus não compartilharam seu incômodo.
A mulher queria ir pra casa, mas ir pra casa não importava.
A mulher queria comer. Queria seu diploma e só faltavam alguns meses, no fundo queria ser rica, mas quem não quer?
Nem suas necessidades nem seus desejos importam depois do fim de tudo.
Meia mulher pensa isso.
O psiquiatra receitou Flufenazina.Esquizofrenia. Metade dela sabia que tudo já havia acabado.
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Metade de um ônibus lotado de pessoas que sabiam que algo estava errado, mas talvez fosse só uma dor de cabeça. Metade sabia do primeiro fim de tudo e só olhavam uns pros outros, pra si mesmos. Essa metade não foi trabalhar no dia seguinte, pois era sábado, nem no outro pois era domingo.
Havia o natal, muita gente estava de férias. Tranquila, aproveitando o feriado, a terça feira era um presente dos deuses, das moiras, do nascimento de jesus.
Ninguém dessa metade foi trabalhar até o dia 31, mesmo os que não estavam de férias.
Faltavam motivos.
Faltava vida.
Isso não era viver.
Não existir te esvazia por dentro.
Por uma questão de centímetros, ninguém no ônibus deixou de existir ao meio. Um esforço a mais que Dionísio sabia que não faria. O meio vazio é uma sensação terrível.

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Quem experimentou a não existência perdeu as esperanças de que tudo acabe. Quem sobreviveu ao fim do mundo só quer que essa sensação estranha passe.
Voltar a existir não é o mesmo que sobreviver.

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Alana não se achava especial nem nada, mas talvez fosse. Seu cigarro queimava uma chama que não existia e ela encarava seu namorado nos olhos e sentia que nada importava.
Alana era lógica. Louca, mas inteligente. Bonita acima da média. Chamava atenção mesmo ali, em um lugar onde se encaixava.
Quando não chovia o café e a Paulista eram cheios de Alanas. Mesmo antes do fim do mundo,embaixo da água incessante, você poderia encontrar algumas no Masp, de cabelos bagunçados pela humidade mas dane-se sua aparência, danem-se sua roupas molhadas, elas não se importavam. Depois do fim de tudo elas realmente não se importavam.
Alana era linda tragando um cigarro.

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Três coreanas apontavam pra ela e cochichavam algo que nenhum dos dois ouvia, mas certamente era em português.Passaram direto e subiram as escadas.
Comentavam suas roupas molhadas e as Moiras sabiam disso.
Tudo acabou.
Os cigarros já apagados estavam lá fora tomando chuva e os dois estavam lá dentro tomando chocolate quente que não existia.
Tinha sabor de chocolate.
Cheiro de chocolate.
Enchia o coração de felicidade.
Era tudo uma questão de obter as receitas certas mas Alana era diferente, estava um pouco cansada. Cansada e lógica.
É só uma questão de tempo.
A inexistência é absoluta, inevitável. O mundo vai acabar outra vez.
"- Isso é só uma sobrevida estranha" foram as primeiras palavras importantes proferidas na Avenida Paulista depois do primeiro fim, do mundo e de tudo.
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Zeus sem tear. Atena, Hades, Poseidon, Ares, todo o panteão. As Moiras. Ninguém via nada. Ninguém sabia quando o tudo acabaria. Era tudo uma questão de conseguir as receitas certas, os deuses tinham seus próprios meios.
Ser um deus significa que sua mente trabalha de uma forma muito legal e você experimenta a vida como uma viagem de ácido,só que onisciente.
Tudo bate bem.
Uma viagem infinita.
Exceto a não existência.
Ser uma Moira é tear porque você teou que tearia. Ser feliz sendo o que é porque escreveu que seria. As Moiras acreditavam mesmo nisso. O universo as deixou esperando no escuro pelo fim do universo, sem seu alimento do saber.
Saber de tudo. Saber do tempo. O universo prega peças. Se diverte.As Moiras sem tear, sem enxergar, se sua existência está completa quem é que você foi? Eram as pontas do tear e agora não se moviam, viviam ou morriam.
A felicidade também não importava depois do fim do mundo, as pessoas achavam que "sim, essa sensação vai passar, com Vicodin ou Fluoxetina".
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Deixar de existir com antecedência é uma sensação tão terrível quanto deixar de existir pela metade. É não estar num lugar que está. Só as Moiras experimentaram isso, e ficariam extremamente contentes em saber que sim, o mundo acabou. O universo deixou de existir. Dionísio reapareceu.

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O fim do tear e a espera interminável. Ser um deus significa que o tempo dura muito tempo, mesmo quando ele acaba. Ser humano significa dez dias de uma sensação bizarra de que algo está muito fora do lugar e esse algo é você, o que é quase uma dor de cabeça. Quase Esquizofrenia.

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"- Mas nós já estávamos mortos há muito tempo". Continuou Alana. Era quase uma vida, um pouco menos que se importar. A certeza de que sim, tudo acabaria, e logo, era como um isqueiro pro seu cigarro inexistente deixado na chuva.
Não acenderia nada, mas era fogo.
Olhou pra ele e viu seu reflexo no espelho.
Era linda mas isso era passado.
Pelo menos ainda tinha os cigarros.
O espelho jamais mentira, só ela, e agora mentir não importava mais.
Já estava magra demais. Cansada demais. Era tudo culpa dele e sabia.
Inteligente, mas louca. Tinha seus vícios. Abraçou os dele.
Só se abriu demais, o deixou entrar demais.
Morar dentro dela.
Quando você deixa de existir você percebe que era feito de madeira,e não de pedra como sempre acreditou.

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O namorado era importante em seu próprio universo. Em sua cabeça. Morto há muito tempo por um mal que fez questão de compartilhar com a mulher amada, e agora o mundo acabava.
Uma pessoa, duas sobrevidas. Antes do fim de tudo ele não estava sóbrio o suficiente pra perceber que morrera e era o centro de tudo; Eles se encontravam e se amavam. Compartilhavam as mesmas notas enroladas e as mesmas camas.
Um vicio e um sentimento.
Nem suas necessidades nem seus desejos importam depois do fim de tudo.
Os mortos não experimentavam nada.
Nem ele nem o chocolate que tomava existiam mais.
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Mesmo assim, o mundo vai acabar, e era essa a certeza que a movia.
Tantas pessoas paradas.
Tantas pessoas dopadas.
Era uma questão de conseguir a receita certa.
Ela era especial pois tinha certeza. Sim, nada importa.
Por um tempo determinado.
O fim de tudo acalmou seu coração aflito.
O fim de tudo era a última vida que lhe restava.

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Os deuses viveram milênios em agonia. Alana viveu dez dias tranquila.

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Ser humano e ter não existido e ter a certeza de que tudo teria fim era a combinação de fatores que tornava Alana tão especial.
Não foi o discurso que ela deu ao namorado que destruiu parte de sua vida, logo depois de terminar o chocolate.Nos dez dias de sobrevida esse foi o primeiro de muitos.
Alana disse a ele tudo que pensava. Expulsava-o de dentro de si, e isso era quase como se importar, mesmo que pra ele não fizesse diferença.
Uma casca oca aguardando o fim de tudo.

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Algumas pessoas ouviram Alana falar tudo que pensava. As que coincidentemente estavam na Avenida Paulista e experimentaram a não existência não se importavam, as outras só se perguntavam que remédio aliviaria essa sensação Benflogin, talvez algo mais forte, talvez ligar para o psiquiatra..Dionísio reapareceu.

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Os deuses sabiam o que as Moiras sabiam. As Moiras não sabiam mais nada e eles nem perceberam o fim de tudo começar.

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Fogos. 31/12/2012 na Avenida Paulista. 01/01/2013 nunca aconteceu.
As pessoas que estavam na Avenida Paulista quando Dionísio puxou a alavanca não vestiam branco.

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Alana observava o mundo encerrando, com o peito leve. Era isso, tinha que ser. Essa chuva castigante e esses fogos. A terra sem entender o que tinha feito e tudo tendo um fim, estouro após estouro,vida após vida. "Então não era uma dor de cabeça, quem conseguiu as melhores receitas aproveitou bem a sobrevida estranha", Dionísio não passou um momento de seu  desaparecimento sóbrio, homens e deuses semelhantes, mas no divino tudo bate melhor.
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O namorado a encontrou.  e se sentia quase completo. Perguntou a ela: "E nosso amor, onde fica?"
Alana nem se virou.
"Na pira funerária, pra queimar."

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Puxar a alavanca é deixar o Universo.se esvair. Acabar com tudo que se sabe.
Tudo que as Moiras sabem.
Tudo que os deuses sabem.
A Lista de Situações Desastrosas era uma piada, o universo só quer se divertir.

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Não se preocupar. Onisciência. Chega de existir, chega do universo. Os deuses se cansam e são eles que dão cabo de tudo. Sempre souberam que dariam.

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Era Zeus o alvo da piada. Criança mimada, sempre teve tudo, e agora acabaria com tudo por cansaço? Que bela forma de agradecer sua existência. Quem precisa de tear? O Universo sabia mais que Zeus. Alana sempre soube que a sobrevida logo acabaria. Mais que Zeus.
Ser um Deus e saber de tudo, aguardar pacientemente seu fim. Quase pedir clemência.Quase um paciente terminal.
Quando Dionísio puxou a alavanca tudo que restou foi Alana.

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O Universo gosta de si mesmo  Gosta de pregar peças. Se diverte as custas de seus filhos.

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Talvez Alana tivesse recuperado sua vida, é difíicl saber depois de uma experiência de não existência.
Nem o Universo se lembra exatamente como é não existir.
Só de um pouco de lógica. De algo se encerrando.
Quando tudo acabou, exceto pra ela, Alana ficou triste por estar errada, mas quando se é um deus praticamente qualquer coisa bate bem.
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25 de dez. de 2012

Chiado leve

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Viajo em minhas próprias histórias e adormeço.

Em um labirinto de pedra uma menina de cabelos castanhos me encara de baixo pra cima e pergunta "e se você sonhar demais?", acordo com seu rosto gravado na cabeça mas antes da primeira mordida já o esqueço.

A cozinha tem mais comida que o usual mas nada realmente satisfaz meu apetite, nem mesmo as coisas fechadas. Com um amor contido pelos alimentos que vêem em caixas agarro qualquer coisa entre uma viagem e outra pelos cômodos da casa.

Comia um pedaço de panetone quando reparei no embrulho debaixo da árvore. Nunca fui do tipo que liga para embrulhos mas era de bom gosto, com listras em diversos tons. De azul.

Não tinha nome, nem mesmo o meu.

Arrisquei um chute e ele não se moveu, o que foi uma surpresa agradável. Passei alguns minutos procurando um relógio, na tentativa de descobrir quanto tempo fiquei apagado, mas os de ponteiro estavam todos sem pilha, o celular marcava 01:00 da manhã.

O computador não ligava.

Abri a janela do quarto e Apolo entrou castigando meus olhos, podia ser dez da manhã de um dia sem nuvens ou uma supernova estacionada do lado de fora da janela. Tudo parecia mais amarelo que o normal e a vista já era feia em dias nublados.

A caixa de remédios vazia não era surpresa. Talvez o embrulho azul fosse uma imensa caixa de remédios.

Um cheiro estranho se espalhava e parecia originar-se na cozinha, mas não havia nada além de comida. nem podridão, nem fungos, nada que explicasse o odor de rato assado que caminhava sentido leste. Talvez o vizinho.

O vizinho era suspeito de cozinhar ratos porque era um homem muito estranho de meia idade que provavelmente não tomava muitos banhos e vivia do INSS e quando você não tem muito o que fazer a mente fica criativa. Talvez ele até tivesse mandado o embrulho.

Sentei no sofá e encarei os azuis e ele certamente era muquirana demais para enviar um presente pesado então aquela caixa que emitia um chiado devia vir de outra pessoa.

Aproximei os ouvidos tentando identificar o chiado e é claro que eu pensei em "bomba" ou em "pegadinha do malandro" mesmo sabendo dentro da alma que não sou ninguém o suficiente para ser alvo de uma bomba, quem dirá uma pegadinha elaborada (meus amigos trabalham).

Arrisquei levantá-la com as mãos mas como era pesada repousei-a no sofá e fui tomar um banho pois talvez o cheiro de rato fosse eu. Um pouco de sabonete e desodorante me convenceram que não e o cheiro aumentava e talvez eu devesse ir falar com o vizinho, mas primeiro devia abrir o presente que chiava mais e as luzes de natal estavam acesas.

Eu não gosto de pisca-piscas.

Quando era pequeno na casa de um amigo seus avós brigaram e era bem perto do natal. A árvore estava montada e acabou despencando na confusão e ela nem tinha pisca piscas, mas esse mesmo menino no dia seguinte colocou um no olho.

O psicologo disse que havia uma relação.

Ele é bem normal hoje em dia apesar do olho esquerdo ser uma bolota inútil e das fantasias de pirata no carnaval estarem perdendo a graça, costumava comprar presentes caros e eu até queria que fosse dele, o que significaria um videogame ou uma batedeira maneira, mas ele não gosta de azul.

Um gosto metálico cobre meus dentes e a validade do panetone está completamente aceitável (mês que vem está muito longe) e a coca-cola pode ter tomado sol mas que azar seria, tomo outro gole e o gosto parece normal.

Nada mais está fora de lugar e me pergunto que tipo de pessoa liga os pisca-piscas e deixa um presente mas não um bilhete.

A chave não está na fechadura e demoro para encontrá-la no meio das almofadas do sofá, o tapete está posicionado segundo manda o feng shui e o trinco que deveria estar caído obstrui tranquilamente qualquer invasor e decido abrir logo o embrulho pois não aguento mais o chiado mas um estalo acusa que o computador está ligando.

Corro e praticamente abraço o teclado e após a mensagem de abertura do Windows o relógio acusa 00:00 e o computador é praticamente novo. Ignoro, a internet funciona, verifico meus emails é natal e talvez ela tenha recebido meu presente e me perdoado mesmo não tendo nenhuma mensagem no celular.

Dos dois emails novos só um é de Lilian e ele não tem assunto, abro com o coração acelerado que pára logo nas primeiras palavras "adorei o presente, por favor não me procure mais", dou dois socos na porta e procuro a caixa de remédios mas ela continua vazia.

O resto do texto é alguma baboseira sobre estar tudo melhor agora e é melhor ler o outro e-mail mesmo sem conhecer o remetente, talvez seja spam mas um motivo de ódio sobrando não faz mal a ninguém.

O e-mail diz "não abra o embrulho".

Eu levanto e a caixa de remédios escondida - não a que estava vazia, a de emergência - também se encontra vazia então eu ligo para meu farmacêutico e ele diz que me consegue Subutex e eu digo que estarei lá em algumas horas, pergunto se ele não me mandou um presentão de natal, ele responde que não tem clientes favoritos e que vai estar no poste de sempre.

O chiado incomoda a ligação e eu já estou chutando o embrulho de novo e o e-mail continua ecoando na cabeça "não abra" e é óbvio que uma mensagem de não abra significava que eu teria que abri-lo, talvez não se eu o jogasse fora.

O que era impossível.

Na minha cabeça eu rasgo um pouco do embrulho e ele tem buracos então eu estava chutando uma coisa viva e sinto de novo o coração mas agora ele é amargo, toco o embrulho no chão e ele parece vibrar mas pode muito bem ser eu. O chiado continua.

Eu penso em caminhar pois poderia muito bem clarear a cabeça, não sei se é a falta ou o excesso, soluço uma única vez e rasgo o papel com o pouco que sobrou de minhas unhas.

Um som vem do quarto e eu tenho um novo e-mail, ele diz "você abriu a caixa" e eu olho pro embrulho e ele está fechado embaixo da árvore, nem mesmo em cima do sofá onde eu o abri.

Olho novamente pra tela e tudo que eu vejo é um labirinto e talvez eu consiga encontrar a saída. Uma menina tenta me ajudar mas ela não sabe meu nome, tento dizer mas não tenho voz então ela finalmente me encara com o olhar triste e diz "talvez você esteja sonhando demais", acordo com a pior dor de cabeça da minha vida.

Debaixo da árvore o embrulho azul está aberto, a caixa dentro dele é preta. Volto ao computador e o e-mail aberto diz "vamos tentar outra vez" e resolvo abrir a caixa. Dentro dela há um espelho e meu reflexo parece tão confuso quanto eu.

O telefone toca e a voz me pergunta se eu vou buscar o Subutex ainda hoje pois ele tem mais o que fazer, não entra luz alguma pela janela então deve ser tarde da noite, digo pra ele que algo muito errado está acontecendo e ele responde "sim você não devia me deixar esperando" e desliga a ligação.

Raciocino que alguém deve estar brincando comigo e a caixa de remédios continua vazia, o e-mail não diz absolutamente nada e um chiado interminável acompanha o cheiro podre da casa, retorno a caixa que não tem mais nada além do espelho e uma nota "pensando melhor, pode ficar com seu presente".

Vomito um pouco no banheiro e quando retorno não há nota alguma. O espelho continua lá e eu desejo muito que ele seja outra coisa, algo que me conforte. Coloco minha jaqueta e saio de casa calçando os piores chinelos que encontrei.

Uma viagem de ônibus tremida depois e estou vinte minutos mais velho tomando garoa em meu boné, normalmente não uso mas essas bandas requerem certas precauções, um menino de uns 15 anos me encara e eu não tenho medo de nada na garoa.

Atrás do poste marcado com uma bandeira só consigo ver um cigarro aceso, o cheiro não é de tabaco ou cravo e eu não peço um trago pois estou com pressa. Acho que ouço um sermão mas um chiado leve nos meus ouvidos me impede de prestar atenção em qualquer coisa, minhas mãos tremem um pouco e eu pergunto o que mais ele tem.

Volto pra casa e não ouço chiados e minha cabeça está mais clara do que nunca, mas o presente continua lá pelo menos o cheiro se foi, talvez o vizinho tenha se mudado mas a esperança é sempre maior que a realidade.

Ligo pra Lilian e digo que a amo mas nem cheguei a falar com ela, ouço o barulho seis vezes e disco novamente, ninguém atende.

Abro o presente e ele ainda é um espelho, a caixa de e-mails continua vazia mas a de remédios está cheia e tudo começa a fazer mais sentido menos o espelho, meu presente de natal é acreditar em papai noel.
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