23 de mai. de 2013

Sentido Barata

0 comentários

Ficou conhecida como A Guerra dos Onze Anos

Debaixo da madeira mofada vivia o exército de busca e recuperação das baratas, cuja única e maior missão era conquistar tesouros pro reino. Se reuniam todas as quintas feiras para planejar ou orquestrar um roubo, sempre durante o crepúsculo, que só sabiam estar acontecendo pois recebiam uma mensagem  das repugnantes mas úteis habitantes do reino do esgoto, destino das exiladas e de muitas desertoras de combate, onde alguns feixes de luz entravam e iam morrendo conforme chegavam as trevas.

Era pra onde Isabella, herdeira daquela madeira mofada onde se protegia da chuva e outras coisas que a vida joga na sua cabeça, como a noite, esperava que fossem as malditas que ela se livrava pela descarga desconfiando que ainda estivessem vivas, ou que afugentava até o ralo mais próximo se certificando de tampá-lo por alguns dias, ou deixando correr água por um tempo que lhe parecesse o suficiente, como um tobogã sem escadinha pra voltar.

Mas elas sempre voltavam.

Em verdade não eram as mesmas. É fato que poucas vezes em sua extrema longevidade Isabella viu a mesma barata. Uma soldada teve o desprazer de encontrá-la cinco, cinco!!! vezes em sua vida, escapando de todo o tipo de armamento pesado como tamancos, vassouras e o temido inseticida. Antes dos dois anos de idade voltou ao ninho com dificuldade, mal movendo suas patas e de vez em quando batendo as asas em espasmos convulsivos. Suas últimas palavras foram sobre um monolito negro, onde havia comida, mas...

Nunca terminou.

Seu corpo foi depositado na privada, para que a assassina observasse seu crime e também pra que ele fosse levado ao esgoto, impedindo que contaminasse o povo saudável do reino da madeira mofada, que as vezes se rendiam a prática ancestral terrível do canibalismo. Os do esgoto já eram contaminados em espírito, imundos como as religiosas da igreja ao lado, como diziam elas, "o que é uma antena pra quem já está aleijado".

Corriam boatos de que aquela monstra ainda sorriu ao ver o corpo, deu a descarga cantarolando. Maldita! Era um ato declarado de guerra, uma afronta ao reino, mesmo que ninguém soubesse quem exatamente presenciou tal coisa.

Pra Isabella a guerra começou com Nabokov. O livro nem era seu e ela rapidamente se apaixonou por sua capinha azulada, sempre lia algumas páginas antes de dormir. Um dia, como mágica, desapareceu de sua cabeceira. Procurou embaixo da cama, entre as outras dezenas de livros, na mochila e até perguntou se não tinha, num deslize de atenção, emprestado a alguém. Pediu mil desculpas pro dono e tentou esquecê-lo, sem nunca tê-lo terminado, mas assistiu o filme.

Estamos falando de Lolita, que o exército roubou porque corria um boato de que se tratava de ninfetas, e do relacionamento de um ser humano de meia idade com uma delas. Isso era a coisa mais insana, mais suja, mais bizarra, mais frenética que elas já haviam ouvido de um humano, quase um pornô de Joe e as Baratas.

Apesar de decepcionadas por ninfetas serem humanas, e não ninfas de abdome avantajado e antenas dançantes, apreciaram o conteúdo e planejaram o próximo roubo.

Isabella nem devia estar lendo Nabokov aos 13 anos, alguns diriam, e eu concordaria por moralismo mesmo. As baratas não roubaram Cristiane F. As baratas não roubaram O Diário de Anne Frank.

O pior era fazer algum trabalho de literatura. Pegar livros da biblioteca era perigoso se os esquecesse fora da mochila, o zíper fechado até o último clique. Chegou a pedir pra mãe um cadeado, sendo perguntada se as crianças da escola estavam roubando suas coisas. Disse que sim e houve um alvoroço, uma reunião com a diretora e a professora, "o que te roubaram querida?" Como responderia livros? Que criança rouba livros?

As baratas não roubaram A Menina que Roubava Livros, mas ouviram falar bem.

Teve que mentir, disse que seus lápis coloridos desapareceram ("você deve tê-los perdido") e suas borrachas fofinhas e alguns dos seus bottoms favoritos. A primeira coisa que fez ao estar sozinha sem a mãe foi jogar tudo fora, junto com o lixo do banheiro. Nessa perdeu Dom Casmurro, Quincas Borba e O Cortiço. O último reapareceu. Não eram crianças roubando seus livros, nem era na escola, era em casa! Ao vencedor, os livros! As batatas continuavam no lugar.

Até desconfiou da mãe.
Vê, esqueci de dizer que até esse ponto Isabella não sabia que eram as baratas. Já havia visto algumas pela casa, jogado uns chinelos, gritado pela mãe, se defendido com raid e inalado aquela coisa horrível mas era sempre perto de comida. Pedia em suas preces que quem estivesse com os livros os devolvesse ou, claro, fosse condenado ao inferno como o ladrão repugnante que era.

As baratas não acreditavam em inferno, não leram a Bíblia e mal ousavam pisar no templo ao lado, apesar de todo o pão.

As missões de busca dos tesouros eram planejadas com meses de antecedência! Tinham que ser seletivas quanto aos rumores, um pouco traumatizadas pela decepção do caso Nabokov. Leram O Bigode, do Carreré, porque havia um ralo na capa e de alguma forma aquilo era hipnotizante. E uns pêlos, ou talvez várias perninhas de barata (corriam os rumores, mas ninguém acreditava mesmo).

Isabella criou um sistema.

Sempre, sempre sem exceção, sempre sem intervalos de tempo, devia saber onde estavam suas coisas. Não todas, era impossível saber todas, mas as importantes: celular, isqueiro, carteira, bilhete único, chave. Tinha a memória curta ruim, a longa até que sobrevivia bem obrigado. E os livros.

Droga, os livros.

Estavam no sistema mas viviam desaparecendo, estavam ali na cabeceira! Ao lado da televisão! Em cima do guarda roupa! Chegava a considerá-los armadilhas, tinha tanta certeza de seu posicionamento que conseguiria pegar o bandido no ato. Desconfiou de seu pai falecidoAntes desconfiou da empregada, mas eles sumiam durante a noite, então tinha que ser o defunto espectral.

Até O Amor Venceu.

O caso O Amor Venceu  foi a primeira grande derrota do exército de busca e recuperação, pois era ele em cima do guarda roupa. Ninguém sabe se foram as cores esquizofrênicas da capa, ou as baratas românticas, ou todo aquele climão egípcio (vai que tinham baratas egípcias!).

Ah, se as baratas tivessem um iPad, nada disso teria acontecido. Se Isabella tivesse um talvez elas o teriam roubado, então na verdade dá na mesma, mas não importa, naquela época eles ainda não existiam.

Eram muitas pois, porra, o livro era pesado. O plano era empurrá-lo ao chão para que pudessem arrastá-lo até o Reino da Madeira Mofada, pouco a pouco, no espaço de uma noite. Lá em cima era a parte supimpa, só uma leve queda no que era uma pilha de roupas, lençóis, edredons, travesseiros e tudo mais que ela espalhava pelo quarto antes de dormir e jurava arrumar quando acordasse.

Ela cumpria vez ou outra, mais outra que vez.

As baratas não leram livros de física! Ou matemática! Mal eram conscientes do zumbido latejante que faziam quando voavam, se atirando do armário da cozinha ou do lustre. Uma vez, numa noite em que O Ladrão de Sonhos alugado estava dentro do videocassete e Isa se lembrava até do barulho da fita girando e mais ainda das legendas amarelas, primeiras e precoces, não podia ter mais que oito anos!, uma barata kamikaze saltou detrás da televisão e fez um voo rasante que terminou com um pouso acidental em sua face.

Nunca tivera medo delas antes disso. Depois estava sempre a uma distância segura.

Mas naquela noite tudo piorou! Já tinha seus 17 e se sentia cheia de si, pronta para mudar o mundo, quando o barulho não calculado do livro batendo numa parte meio vazia de panos macios despertou-a às duas da madrugada, abrindo seus olhos pra ver primeiro a luz da lua, e o depois o enxame de baratas que fugia pelo rota de fuga da operação falha: o teto. Seu corpo inteiro se mexeu e de repente ela estava coberta da cabeça aos pés pelo edredon e pelo lençol, rezando tudo que lembrava de seus avós já terem recitado pela casa, no caso das baratas serem alérgicas a jesus.

Não saiu de lá até amanhecer. Em verdade, nem se mexeu mais, até mesmo adormeceu, um sonho inquieto dos que viram uma operação do exército de busca e recuperação. Que ainda se aproveitou da sua inércia para retornar e terminar o trabalho mal começado.

Não temiam ser descobertas, o exército era forte. A derrota era o livro. Não valeu o esforço! Foi jogado no esgoto para que servisse de comida aquelas que devoravam qualquer coisa. Elas não leram, uma vitória pro reino do esgoto.

E declararam guerra! Pois Isabella sabia somar dois com dois. Ou um com dezenas. Um livro perdido para uma nuvem de artrópodes das trevas. E estava lá, em cima do guarda roupa! E fez "pum" quando bateu no chão, e elas partiram em retirada! Os livros não entravam no sistema, sumiam porque eram arrancados de sua posse por insetos militarizados!

Sentia mais medo, se sentia!

Mas desenvolveu um sentido! Sabia a posição de qualquer barata a menos de três metros do seu corpo, simplesmente por saber, e então se armava nem que fosse das unhas! Nas ruas as ignorava, mas em casa não conseguia descansar até caçar e eliminar a miserável, mantendo uma distância extremamente segura, o que significava mais veneno e menos ataques físicos (a não ser arremessos).

O exército morria! As quintas feiras agora eram mais perigosas, mas em bando até que conseguiam suprimir os ataques. As baratas roubaram O Processo, roubaram Fumaça e Espelhos! Deixaram O Apanhador de Sonhos porque era muito pesado, mas levaram O Primeiro Gole da Cerveja! Roubaram O Cálice de Fogo e as pequenas baratas começaram pela ordem errada! Tentaram roubar A Ilha Perdida  e Os Miseráveis, mas a dona farejava quando tentavam tocá-los.

Onze anos da incansável guerra!

De Lolita à Psicopata Americano. As baratas gostavam de romances. Isabella tinha uma lista de suspeitos, às vezes não sabia se o autor do furto era um amigo distraído ou clepto, mas normalmente atribuía a culpa ao exército. Em rodas de bar evocava risos com a história, mas sempre impressionava com sua habilidade de senti-las - sabia exatamente em quais restaurantes comer, mas nunca pedia para dar uma volta pela cozinha, ou provavelmente não comeria em lugar algum.

Seus pais ignoravam como delírio juvenil. Mas também, nunca tocava no assunto com a seriedade que ele merecia. Tinha sempre um sorriso no rosto. Um certo orgulho do que lhe acontecia.

A lista se perdeu na mudança. Levou consigo seus livros, os que ainda tinha, pediu aos pais que se um dia dedetizassem a casa, que tomassem cuidado com sua coleção perdida. Jamais fizeram isso. Levou consigo também seu sentido, que durou a vida toda, mas nenhum dos apartamentos onde passava parte da existência teve tanto uso para ele. Faltava madeira mofada. Faltava um reino.

A vida até perdeu um pouco da graça.

Odiava-as! Mas lembrava com certo carinho do exército e de sua guerra particular. Queria saber se elas leram tudo que roubaram, ou se era só hobby, preferindo acreditar no primeiro - era uma escolha muito específica, de um valor mais que material, ou não teriam levado tantos livros de 2 reais que comprou no metrô.

A última vez que viu a casa foi quando sua mãe faleceu. Quantas memórias naquele lugar! Foi vendida, já estava casada e vivendo bem longe, em uma cidade com uma densidade menor de baratas per capta. Chegou a procurar pelos cantos da casa, revistou seu quarto e a madeira mofada, mas as poucas que encontrou não pareciam reconhecê-la e não entravam em combate. Se escondiam. Até deixou um Bukowski jogado num canto como isca, mas nada de exército.

Gerações se passaram!

Sem Isabella, não era a mesma coisa. O exército de busca e recuperação foi definhando, morrendo ou se especializando em outras áreas mais importantes para a propagação da espécie. Tinham uma coleção de riquezas da qual a rainha era toda orgulhosa, mas cada princesa se importava menos, e os livros se perderam para as traças ou as mais sem modos, comedoras de papel. Confabulavam menos e trabalhavam mais, o que era uma pena, poucas coisas eram tão divertidas quanto discutir literatura numa roda de baratas no auge do Reino da Madeira Mofada.

Read full post »

22 de mai. de 2013

Sua Pele Áspera

0 comentários
Corremos para pegar o ônibus, mas só eu subi.

Tive que observar as portas se fecharem e o rosto triste de meu colega enquanto o motorista dava a partida e saía do ponto final, apesar do meu protesto e de não entender por que ele não se mobilizou mais. Dava tempo, caralho! Era só pular nos degraus, eu ainda liberei espaço, ele só fez uma expressão de tristeza mas nada que me impedisse de continuar lá dentro. Daí o ronco do motor e apito já conhecido das portas se fechando, um baque, um ônibus em movimento. 

Tudo bem, nos encontramos em algum lugar. 

Tateei os bolsos e meu celular não estava lá. Ficou em casa, junto com o isqueiro e o maço. Errado, tudo errado, mas ainda havia chances de salvar o dia.

Nós só queríamos fumar um pouco.

A erva é vendida num beco atrás da casa dele, descendo um escadão de degraus largos e virando atrás de uns barracos numa passagem que só é vista quando você já está dentro dela. Perfeito pro comércio, quando você quer que ninguém saiba que esse comércio existe.

Nós sabíamos e era o beco o nosso destino. O ônibus estava quase vazio, passei pela catraca e fiquei de pé, tentando procurar meu amigo à distância, mas eu já não o via lá. Sentei-me em qualquer lugar, em verdade tentei. Fui impedido.

- Cara, assim você me fode.

Não consigo me lembrar de outra vez em minha curta mas recontável vida em que alguém se dirigiu a mim assim, de supetão, dizendo que eu o estava fodendo sem nem apresentar a si mesmo ou o motivo da foda. Parei o ato no meio, assim, meio encadeirado, a bunda já num ângulo perfeito para receber o conforto do assento.

- Pois não?

Não sei quem são essas pessoas que dizem "pois não", juro que tentei pensar em outra coisa, foi em vão.

- Eu vou me sentar aí.

Era um cara um pouco torto, com o perdão da palavra. Os cabelos ralos eram muito louros, exageradamente, assim como suas sobrancelhas, contrastando pouco com sua pele pelo simples fato dela ser rosada em alguns pontos, em maior parte era branquíssima, constatei, em minha soberana inteligência, que estava falando com um albino.

Mas ele não era torto por isso, não me julgue ainda.

Suas vestes eram polidas, finas, como as que eu usaria numa entrevista de emprego. Mas não por isso também. Era torto porque suas pernas iam para trás e os joelhos para frente de um jeito muito, muito estranho, fazendo sua bacia ficar suspensa no ar, quase como eu parado no ato de me sentar. Os braços pendiam do lado do corpo e a cabeça se atirava para frente assim como os joelhos.

Tentei não prestar atenção em nada disso, mas hoje era o dia das tarefas impossíveis.

- Cara, tem vários lugares. Esse aqui não tem nada de especial.
- Assim você me fode.
- Não é minha intenção. Mas se você insiste.

Eu disse saindo de minha posição estranha, quase mímica, para sentar em outro lugar.
- Assim você me fode.
Ele respondeu, levantando um dos braços caídos para colocar a face de sua mão na minha cara, como naquelas placas de Pare! muito enfáticas ou avisos antidrogas muito funcionais. Lembrei dos dedinhos da Eliana. Queria saber o que esse cara tinha na cabeça. Só me fez parar, ali no corredor, se mantendo de pé e fixo ao chão usando apenas a gravidade e poderes mentais, ou sua anatomia lhe garantia um equilíbrio sobre-humano.

- Assim você me fode.
Repetiu mais uma vez, e eu cansei, me sentei onde iria mesmo, se ele já estava sendo fodido por mim então de que me importava.  Ele riu e sentou-se em outro lugar. Não disse palavra alguma o resto da viagem, nem um "obrigado pela foda", mas nunca me achei bom de cama a ponto de receber agradecimentos.

Também posso não ter lhe dado oportunidade, afinal, durante nossa pequena confabulação o ônibus deu de tomar um caminho que eu não conhecia. Por baixo.

Deixe-me explicar.

Existem dois caminhos para se chegar ao beco do comércio, às banquinhas ilegais atrás dos barracos, à casa de meu amigo. Um, que é o que tomamos sempre, que é o que corremos para pegar o ônibus, escolhe subir o morro e passar por um colégio interno adventista onde muita gente que conheço estudou e mantém certo carinho falso, já que é um lugar horrível para se ter estudado. O principal ponto de referência para saber que cheguei, são e salvo, à casa dele, é mercado que fica exatamente em frente ao ponto de ônibus. Lajotão Supermercados.Todo mundo conhece o Lajotão.

O outro vai por baixo. Tipo, não sobe o morro, acho que isso é perfeitamente compreensível, pois o era para mim naquele momento enquanto o ônibus passava por ruas extremamente não íngremes para serem meu destino.

Quase me esqueci. Além de ir por baixo, ele corre em paralelo, de modo que lá de cima é possível ver o caminho alternativo e, em minha imaginação, vice-versa, o que me dava certa segurança. Ok, eu peguei o ônibus errado, isso explica por que meu amigo não subiu, isso explica sua cara de triste, não explica o albino torto nem por que diabos eu não conseguia reconhecer o caminho lá em cima, mas eu estava meio satisfeito e ter metade das explicações é tudo que você pode esperar da vida de vez em quando.

Mas eu sofro, odeio quando as coisas dão errado, então ficava olhando para os lados procurando por algum sinal de que estava próximo, algo reconhecível, procurando a porcaria do Lajotão. Odeio perguntar as coisas, mas lá fui eu conversar com o cobrador.

- Esse ônibus passa perto do Lajotão?

Ela se virou. CobradorA. Ainda bem que não me dirige em gênero, sua nuca era expressamente masculina, assim como a postura. Mas era ela, e estava tão feliz em conversar comigo quanto eu estava feliz de ter pego o ônibus errado. Me olhou de cima a baixo, medindo minha dúvida e a necessidade de fazer uma pergunta estúpida, pela resposta fria e, com o perdão da palavra, cuzona:

- Você não tá vendo o "Avenida Cornélio" escrito ali em cima?
- O Lajotão fica na Avenida Cornélio?

Arrisquei. Quando sou provocado com rispidez desnecessária tomo riscos desnecessários. Ela fez uma cara de bunda, que realmente parecia um ânus com cabelos crespos.

- Sim.

Era mais do que eu poderia esperar. Mais que metade.

Tornei a sentar-me no lugar cobiçado pelo torto e de vez em quando era obrigado a encará-lo pois estava do lado errado do ônibus, o que não me deixava ver pra onde ia. Até que finalmente, finalmente.

Finalmente finalmente finalmente finalmente finalmente finalmente.

Finalmente o ônibus fez uma curva e entrou num morro. Ele ia subir! Ele ia pro lugar certo! E foi! Eu até sorri pro torto, um sorriso vitorioso, um sorriso de que ia deixá-lo lá dentro e ir comprar minha erva que era o melhor que eu podia fazer pra esquecer essa bosta de dia.

Ele entrou na Avenida Cornélio e a cobradora me deu um olhar fatal, não sensualmente, mas do tipo "é melhor você descer aqui ou eu mato você e sua família, depois vou atrás dos seus amigos e das famílias deles, e mato os animais de estimação deles também", mas eu ainda não sabia onde estava! Mas a curva denunciava a proximidade. A avenida também. Eu devia conseguir achar o caminho sozinho. Apertei o botão pra descer, sinal sonoro da salvação, o ponto estava logo ali, eu desci e de repente não tinha ideia mesmo de onde estava.

Era tudo diferente.

O que eu esperava encontrar eram comércios de todos os tipos, pizzarias! um posto de gasolina! um mecânico! aquelas lojas que vendem de tudo, mas de tudo mesmo, tipo uma 25 de março exprimida num corredor de no máximo três metros de largura onde você encontrava o que precisava para o seu celular, para sua cozinha e para seu cabelo!

Do lado onde era para estar tudo que eu queria e esperava só havia um barranco marrom que subia. Lá em cima, árvores. Pessoas vinham e iam nas duas direções, mas carro, nenhum. Ônibus, só o meu se afastando. Olhei para trás e não vinha mais nenhum. A ladeira já estava a uma distância muito preguiçosa pra que eu voltasse, pelos meus cálculos era só eu seguir em frente, mesmo estando no meio do nada. Caminhei um pouco e encontrei uma placa que dizia "Avenida Cornélio", e meu coração e acalmou um pouco, como se tivesse tomado um banho quente depois de sentir muito frio.

Só para deixar claro, do outro lado eu via a avenida paralela, a que fica lá embaixo e você percorre quando sobe no ônibus errado, e mais a frente nessa avenida encontrei um mercadão. Certo que não era o Lajotão, mas eu me lembrava bem do Faixa Preta, e tinha que ser ele. Os dois eram próximos, só não eram concorrentes pela distância que os separava (e porque era uma distância íngreme, e não uma distância dos justos).

Comecei minha caminhada em direção ao Faixa Preta, pois era lá que encontraria meu destino, ou ao menos direções à ele. Todos que passavam por mim pareciam estranhos. O asfalto era comido pelo barranco nas laterais, e no meio pela chuva ou o peso dos carros que deviam passar ali quando a vida não estava me pregando peças. Vi uma mulher negra, muito gorda, que me olhou como se eu fosse um doente, cochichar algo para sua acompanhante, provavelmente sua filha, uma baixinha de cabelos cacheados que não respondeu nada, só concordou com a cabeça.

Me distraí com essa demonstração horrível de falta de tato, já que, como manda a etiqueta, deve-se cochichar sobre as pessoas pelas costas, e não pela frente, que não percebi que dei de encontro com um trio.

Uma mulher e duas crianças.

A mulher se vestia toda de branco. Era idosa e tinha os cabelos grisalhos caindo até quase a cintura, extremamente lisos, penteados com afinco. Usava chinelos e eu podia ver seus pés gastos e multicoloridos de pele e ferida. Mantinha as mãos atrás das crianças.

O menor era só um menino. Bem baixo, não podia ter mais de 6 anos, o cabelo curto certamente fora cortado em casa, viam-se falhas aqui e ali que podiam ser de descuido ou desprezo. Vestia uma regata acinzentada e uma bermuda bege, menores do que o seu corpo pedia, expondo sua barriga magra e suas coxas finas. Andava descalço.

E havia A Menina.

Ela destoava de tudo naquele lugar. Das pessoas, do barranco, da avenida. Destoava de mim. Era branca, quase como o albino, mas de um tom de pele que refletia mais o amarelado do sol que a banhava. Tinha os cabelos ruivos descendo sobre os ombros, terminando em claves de sol. Seu vestido era bege, sem alças, e lhe dava uma leveza quase etérea, como se o vento pudesse levá-la a qualquer momento, Era muito magra e também estava descalça.

Seus olhos eram terríveis. Azuis e terríveis.

Dos três que me impediam de seguir caminho, ela que veio até mim. Se aproximando eu podia vê-la melhor, mesmo não conseguindo tirar os olhos dos seus. Mesmo não conseguindo mover minha cabeça. Tentei dar um passo, tentei me virar, tentei abrir a boca, mas nada funcionava. Sua pele não era uniforme. O que eu pensei serem sardas eram feridas, todas abertas, todas descascadas. Eu podia ver os fiapos que ela devia arrancar com as unhas se olhando numa lasca de espelho quebrado.

E ela não parava de se aproximar.

Passo a passo, descalça, sem sentir o asfalto falhado, sem abaixar o pescoço, os outros dois me olhavam mas atravessavam, ela me olhava e deitava sobre mim uma maldade que eu jamais senti antes. Ficamos frente a frente. Eu só queria me mexer.

Ela colou o rosto no meu e abriu a boca pra falar, seu hálito era podre mas nada que eu não pudesse aguentar.
-O dinheiro que está no seu bolso.
Minha mão imediatamente pegou o dinheiro. Eu consegui me mexer para olhá-lo e contá-lo mentalmente. Era tudo que eu tinha, todo o dinheiro da erva, e ela não o levaria.

-Me dê.
Era como se ela me ameaçasse, seu rosto cada vez mais perto, estendeu a mão direita e com sua palma envolveu as costas da minha, que segurava o dinheiro. Mais perto.

Sua boca parecia mordida, não por ela, mas por cães. Tive medo que me beijasse, mas ela desviou os lábios, encostou sua bochecha seca na minha, me fez sentir sua pele áspera roçando no pouco que eu tinha de barba, descascando, definhando sobre mim. Empurre-a! Chute-a! Ela não pode lhe fazer nada! Mas meu corpo discordava, queria mesmo é mijar nas calças, se conteve, contente em só ficar parado, em esperar passar. Tentei mexer a mandíbula mas só a língua obedecia, até que pouco a pouco, como quando eu acordava paralisado, fui recobrando os movimentos da face. Disse não. Não. Não vou te dar nada.

- Não.
Ela sorriu. Me acariciou com as bochechas. Áspera. Lixa. Leprosa. Envolveu meu pescoço com os braços e me arranhou com as unhas compridas, de olhos fechados, me dando carinho que eu rejeitava. Minha mão apertava o dinheiro como se minha vida dependesse disso. Eu nem precisava tanto. Eu podia dá-lo, e ela iria embora, ia me deixar viver em paz. Mas não podia. Algo dizia que não, que eu devia resistir, era meu orgulho? Meu ódio de já ter passado por tudo aquilo? Vergonha por ter tido medo? Bastava. Tenho certeza que deixei cair uma lágrima.

Não sei se ela se afastou por isso, ou só se cansou, mas se foi do mesmo jeito que veio. Sem tirar os olhos de mim, sem se virar, andando de costas como uma assombração na estrada, em plena luz do dia, na Avenida Cornélio. Eu me mexi. Coloquei o dinheiro no bolso. Minhas pernas funcionavam, eu já havia perdido o orgulho e a vergonha de qualquer coisa, corri. Corri na direção que ia, cruzei por eles, que viraram só o pescoço pra me olhar. Eu tive que olhar pra trás. Ainda me encaravam. Fechei os olhos e corri o máximo que pude, o mais forte que conseguia pisar e empurrar o chão.

Alcancei o Faixa Preta, nenhum sinal do Lajotão. Conseguia ver o mercado lá embaixo. Nenhum acesso. Um barranco que descia, mas não era para pessoas nem para carros nem pra nada, só um paredão lateral que fechava o estabelecimento. Mas eu tinha que encontrar meu amigo, ou pelo menos a casa dele. Queria uma cama. Queria fumar para esquecer.

Desci o barranco jogando as pernas para frente, quase surfando, me ralando todo nas pedras e nos galhos que saltavam aqui e ali e querendo me espatifar logo no chão. Consegui pousar quase suavemente, entrando no mercado pelos fundos. Dois funcionários empilhavam caixas de algum produto de limpeza, não prestei atenção, não tinha ar algum em meus pulmões. Perceberam minha presença.

- Ei carinha, tá tudo bem?
- Eu preciso saber...onde fica o Lajotão. O mercado.
- O que você tá procurando? Você pode comprar aqui. Tudo que tem no Lajotão, tem no Faixa Preta.

Eu percebia que eles desconfiavam de algo, só não sei do quê. Se olhavam meio assustados antes de me responder. Deviam ser meus machucados. Minha falta de ar. Meus olhos arregalados.

- Eu não quero comprar nada, só quero achar a casa do meu amigo. É perto do mercado. Não desse. Do Lajotão.
- Ahhh, então se é assim. Cara, você sai do mercado e vai para a direita, reto até encontrar um morro subindo. Você sobe esse morro e vai dar de cara com o Lajotão.
- Mas...isso vai dar onde eu tava...eu tava lá em cima...e não vi nada. Não pode ser tão perto. Tem que ser outro caminho.
- Lá em cima?
- Sim. Eu desci o barranco e vim parar aqui.
- Cara, esse morrão tá meio entre as avenidas. Não tem nada mesmo lá.
- Tem a avenida. Cornélio. Eu tava na avenida. O ônibus me deixou lá. Tem um ponto. Asfalto e tudo.
- A avenida fica depois do morro, carinha. Ali é só terra e de vez em quando uns barracos, ninguém passa por ali. A polícia aparece de vez em quando, deve ter tipo uma biqueira.
- Não, a avenida passa ali. Tem que passar.

Dei as costas pros dois. Sei que vieram atrás de mim. Sei que só queriam ajudar. Mas eu precisava subir o barranco de novo, voltar para a avenida. Precisava ver com meus próprios olhos aquela porra de placa e foda-se se eu desse de cara com a família Adams de novo. Agarrei numa pedra e comecei a subir, com dificuldade, ainda não tinha muito ar, os dois estavam me olhando lá atrás mas não podiam fazer nada, era minha loucura e o melhor a fazer sempre é deixar os loucos em paz. Minhas mãos se machucavam nos galhos e nas pedras enquanto eu me puxava, se cobrindo de sangue, respingando em minhas roupas.

Não demorou muito e eu estava no topo, e lá estava, tinha asfalto e tudo. E uma comoção de pessoas. Eu não sabia o que era, não queria saber, fui andando na direção que o Lajotão devia estar, se a informação que me deram estava certa, eu chegaria logo. Fui cambaleando, devia estar parecendo um mendigo, um louco qualquer, mas cambalearia até a desgraça do meu destino por essa merda de avenida. Aí chegou a polícia.

Tudo aconteceu muito rápido.

Eles saíram do carro e um deles apontou a arma para mim. Eu congelei, o outro correu e me jogou no chão. Eu não sabia o que fazer, relaxei, a mente e o corpo, mijei nas calças. Me bateram mas eu já estava imóvel, era uma panqueca jogada no asfalto. Meu rosto sangrava, na sobrancelha e no nariz. Me levantaram e eu caí. Me disseram pra ficar de pé, eu tentei. Iam me jogar no carro mas um deles reclamou que eu estava mijado. Me levaram andando, quase me arrastando, pra onde a comoção de pessoas estava. Era um círculo. Mandaram que dispersassem. Saiam todos, saiam, deixem a gente passar.

- Foi ele! Foi ele!
Disse a ruiva leprosa. No meio do círculo haviam dois corpos, uma mulher idosa e uma criança, ensanguentados, esfaqueados com uma raiva visceral. A arma do crime estava do lado da  ruiva,  mas ela estava limpa, linda e etérea como o amanhecer, tirando suas feridas, tirando seus olhos de maldade. Apontava pra mim. Eu vomitei ali mesmo, em cima dos corpos que eles me forçavam a ver. Me bateram um pouco mais. Chorei e minhas lágrimas tinham gosto de sangue e bile.

Apaguei. Só lembro de uma imagem. A menina dançando, saltitando, um pé de cada vez, em círculos cada vez mais abertos, fazendo uma espiral ao redor dos corpos que ficariam ali até que viessem levá-los. Eu a vi pela janela da viatura, e ela sorriu pra mim. O policial que não dirigia pegou o dinheiro do meu bolso, essa foi a última vez que o vi. 
Read full post »
 

Copyright © Um Conto a Cada Dia Design by Free CSS Templates | Blogger Theme by W.Santiago | Powered by Blogger