Ficou conhecida como A Guerra dos Onze Anos
Debaixo da madeira mofada vivia o exército de busca e recuperação das baratas, cuja única e maior missão era conquistar tesouros pro reino. Se reuniam todas as quintas feiras para planejar ou orquestrar um roubo, sempre durante o crepúsculo, que só sabiam estar acontecendo pois recebiam uma mensagem das repugnantes mas úteis habitantes do reino do esgoto, destino das exiladas e de muitas desertoras de combate, onde alguns feixes de luz entravam e iam morrendo conforme chegavam as trevas.
Era pra onde Isabella, herdeira daquela madeira mofada onde se protegia da chuva e outras coisas que a vida joga na sua cabeça, como a noite, esperava que fossem as malditas que ela se livrava pela descarga desconfiando que ainda estivessem vivas, ou que afugentava até o ralo mais próximo se certificando de tampá-lo por alguns dias, ou deixando correr água por um tempo que lhe parecesse o suficiente, como um tobogã sem escadinha pra voltar.
Mas elas sempre voltavam.
Em verdade não eram as mesmas. É fato que poucas vezes em sua extrema longevidade Isabella viu a mesma barata. Uma soldada teve o desprazer de encontrá-la cinco, cinco!!! vezes em sua vida, escapando de todo o tipo de armamento pesado como tamancos, vassouras e o temido inseticida. Antes dos dois anos de idade voltou ao ninho com dificuldade, mal movendo suas patas e de vez em quando batendo as asas em espasmos convulsivos. Suas últimas palavras foram sobre um monolito negro, onde havia comida, mas...
Nunca terminou.
Seu corpo foi depositado na privada, para que a assassina observasse seu crime e também pra que ele fosse levado ao esgoto, impedindo que contaminasse o povo saudável do reino da madeira mofada, que as vezes se rendiam a prática ancestral terrível do canibalismo. Os do esgoto já eram contaminados em espírito, imundos como as religiosas da igreja ao lado, como diziam elas, "o que é uma antena pra quem já está aleijado".
Corriam boatos de que aquela monstra ainda sorriu ao ver o corpo, deu a descarga cantarolando. Maldita! Era um ato declarado de guerra, uma afronta ao reino, mesmo que ninguém soubesse quem exatamente presenciou tal coisa.
Pra Isabella a guerra começou com Nabokov. O livro nem era seu e ela rapidamente se apaixonou por sua capinha azulada, sempre lia algumas páginas antes de dormir. Um dia, como mágica, desapareceu de sua cabeceira. Procurou embaixo da cama, entre as outras dezenas de livros, na mochila e até perguntou se não tinha, num deslize de atenção, emprestado a alguém. Pediu mil desculpas pro dono e tentou esquecê-lo, sem nunca tê-lo terminado, mas assistiu o filme.
Estamos falando de Lolita, que o exército roubou porque corria um boato de que se tratava de ninfetas, e do relacionamento de um ser humano de meia idade com uma delas. Isso era a coisa mais insana, mais suja, mais bizarra, mais frenética que elas já haviam ouvido de um humano, quase um pornô de Joe e as Baratas.
Apesar de decepcionadas por ninfetas serem humanas, e não ninfas de abdome avantajado e antenas dançantes, apreciaram o conteúdo e planejaram o próximo roubo.
Isabella nem devia estar lendo Nabokov aos 13 anos, alguns diriam, e eu concordaria por moralismo mesmo. As baratas não roubaram Cristiane F. As baratas não roubaram O Diário de Anne Frank.
O pior era fazer algum trabalho de literatura. Pegar livros da biblioteca era perigoso se os esquecesse fora da mochila, o zíper fechado até o último clique. Chegou a pedir pra mãe um cadeado, sendo perguntada se as crianças da escola estavam roubando suas coisas. Disse que sim e houve um alvoroço, uma reunião com a diretora e a professora, "o que te roubaram querida?" Como responderia livros? Que criança rouba livros?
As baratas não roubaram A Menina que Roubava Livros, mas ouviram falar bem.
Teve que mentir, disse que seus lápis coloridos desapareceram ("você deve tê-los perdido") e suas borrachas fofinhas e alguns dos seus bottoms favoritos. A primeira coisa que fez ao estar sozinha sem a mãe foi jogar tudo fora, junto com o lixo do banheiro. Nessa perdeu Dom Casmurro, Quincas Borba e O Cortiço. O último reapareceu. Não eram crianças roubando seus livros, nem era na escola, era em casa! Ao vencedor, os livros! As batatas continuavam no lugar.
Até desconfiou da mãe.
Vê, esqueci de dizer que até esse ponto Isabella não sabia que eram as baratas. Já havia visto algumas pela casa, jogado uns chinelos, gritado pela mãe, se defendido com raid e inalado aquela coisa horrível mas era sempre perto de comida. Pedia em suas preces que quem estivesse com os livros os devolvesse ou, claro, fosse condenado ao inferno como o ladrão repugnante que era.
As baratas não acreditavam em inferno, não leram a Bíblia e mal ousavam pisar no templo ao lado, apesar de todo o pão.
As missões de busca dos tesouros eram planejadas com meses de antecedência! Tinham que ser seletivas quanto aos rumores, um pouco traumatizadas pela decepção do caso Nabokov. Leram O Bigode, do Carreré, porque havia um ralo na capa e de alguma forma aquilo era hipnotizante. E uns pêlos, ou talvez várias perninhas de barata (corriam os rumores, mas ninguém acreditava mesmo).
Isabella criou um sistema.
Sempre, sempre sem exceção, sempre sem intervalos de tempo, devia saber onde estavam suas coisas. Não todas, era impossível saber todas, mas as importantes: celular, isqueiro, carteira, bilhete único, chave. Tinha a memória curta ruim, a longa até que sobrevivia bem obrigado. E os livros.
Droga, os livros.
Estavam no sistema mas viviam desaparecendo, estavam ali na cabeceira! Ao lado da televisão! Em cima do guarda roupa! Chegava a considerá-los armadilhas, tinha tanta certeza de seu posicionamento que conseguiria pegar o bandido no ato. Desconfiou de seu pai falecido. Antes desconfiou da empregada, mas eles sumiam durante a noite, então tinha que ser o defunto espectral.
Até O Amor Venceu.
O caso O Amor Venceu foi a primeira grande derrota do exército de busca e recuperação, pois era ele em cima do guarda roupa. Ninguém sabe se foram as cores esquizofrênicas da capa, ou as baratas românticas, ou todo aquele climão egípcio (vai que tinham baratas egípcias!).
Ah, se as baratas tivessem um iPad, nada disso teria acontecido. Se Isabella tivesse um talvez elas o teriam roubado, então na verdade dá na mesma, mas não importa, naquela época eles ainda não existiam.
Eram muitas pois, porra, o livro era pesado. O plano era empurrá-lo ao chão para que pudessem arrastá-lo até o Reino da Madeira Mofada, pouco a pouco, no espaço de uma noite. Lá em cima era a parte supimpa, só uma leve queda no que era uma pilha de roupas, lençóis, edredons, travesseiros e tudo mais que ela espalhava pelo quarto antes de dormir e jurava arrumar quando acordasse.
Ela cumpria vez ou outra, mais outra que vez.
As baratas não leram livros de física! Ou matemática! Mal eram conscientes do zumbido latejante que faziam quando voavam, se atirando do armário da cozinha ou do lustre. Uma vez, numa noite em que O Ladrão de Sonhos alugado estava dentro do videocassete e Isa se lembrava até do barulho da fita girando e mais ainda das legendas amarelas, primeiras e precoces, não podia ter mais que oito anos!, uma barata kamikaze saltou detrás da televisão e fez um voo rasante que terminou com um pouso acidental em sua face.
Nunca tivera medo delas antes disso. Depois estava sempre a uma distância segura.
Mas naquela noite tudo piorou! Já tinha seus 17 e se sentia cheia de si, pronta para mudar o mundo, quando o barulho não calculado do livro batendo numa parte meio vazia de panos macios despertou-a às duas da madrugada, abrindo seus olhos pra ver primeiro a luz da lua, e o depois o enxame de baratas que fugia pelo rota de fuga da operação falha: o teto. Seu corpo inteiro se mexeu e de repente ela estava coberta da cabeça aos pés pelo edredon e pelo lençol, rezando tudo que lembrava de seus avós já terem recitado pela casa, no caso das baratas serem alérgicas a jesus.
Não saiu de lá até amanhecer. Em verdade, nem se mexeu mais, até mesmo adormeceu, um sonho inquieto dos que viram uma operação do exército de busca e recuperação. Que ainda se aproveitou da sua inércia para retornar e terminar o trabalho mal começado.
Não temiam ser descobertas, o exército era forte. A derrota era o livro. Não valeu o esforço! Foi jogado no esgoto para que servisse de comida aquelas que devoravam qualquer coisa. Elas não leram, uma vitória pro reino do esgoto.
E declararam guerra! Pois Isabella sabia somar dois com dois. Ou um com dezenas. Um livro perdido para uma nuvem de artrópodes das trevas. E estava lá, em cima do guarda roupa! E fez "pum" quando bateu no chão, e elas partiram em retirada! Os livros não entravam no sistema, sumiam porque eram arrancados de sua posse por insetos militarizados!
Sentia mais medo, se sentia!
Mas desenvolveu um sentido! Sabia a posição de qualquer barata a menos de três metros do seu corpo, simplesmente por saber, e então se armava nem que fosse das unhas! Nas ruas as ignorava, mas em casa não conseguia descansar até caçar e eliminar a miserável, mantendo uma distância extremamente segura, o que significava mais veneno e menos ataques físicos (a não ser arremessos).
O exército morria! As quintas feiras agora eram mais perigosas, mas em bando até que conseguiam suprimir os ataques. As baratas roubaram O Processo, roubaram Fumaça e Espelhos! Deixaram O Apanhador de Sonhos porque era muito pesado, mas levaram O Primeiro Gole da Cerveja! Roubaram O Cálice de Fogo e as pequenas baratas começaram pela ordem errada! Tentaram roubar A Ilha Perdida e Os Miseráveis, mas a dona farejava quando tentavam tocá-los.
Onze anos da incansável guerra!
De Lolita à Psicopata Americano. As baratas gostavam de romances. Isabella tinha uma lista de suspeitos, às vezes não sabia se o autor do furto era um amigo distraído ou clepto, mas normalmente atribuía a culpa ao exército. Em rodas de bar evocava risos com a história, mas sempre impressionava com sua habilidade de senti-las - sabia exatamente em quais restaurantes comer, mas nunca pedia para dar uma volta pela cozinha, ou provavelmente não comeria em lugar algum.
Seus pais ignoravam como delírio juvenil. Mas também, nunca tocava no assunto com a seriedade que ele merecia. Tinha sempre um sorriso no rosto. Um certo orgulho do que lhe acontecia.
A lista se perdeu na mudança. Levou consigo seus livros, os que ainda tinha, pediu aos pais que se um dia dedetizassem a casa, que tomassem cuidado com sua coleção perdida. Jamais fizeram isso. Levou consigo também seu sentido, que durou a vida toda, mas nenhum dos apartamentos onde passava parte da existência teve tanto uso para ele. Faltava madeira mofada. Faltava um reino.
A vida até perdeu um pouco da graça.
Odiava-as! Mas lembrava com certo carinho do exército e de sua guerra particular. Queria saber se elas leram tudo que roubaram, ou se era só hobby, preferindo acreditar no primeiro - era uma escolha muito específica, de um valor mais que material, ou não teriam levado tantos livros de 2 reais que comprou no metrô.
A última vez que viu a casa foi quando sua mãe faleceu. Quantas memórias naquele lugar! Foi vendida, já estava casada e vivendo bem longe, em uma cidade com uma densidade menor de baratas per capta. Chegou a procurar pelos cantos da casa, revistou seu quarto e a madeira mofada, mas as poucas que encontrou não pareciam reconhecê-la e não entravam em combate. Se escondiam. Até deixou um Bukowski jogado num canto como isca, mas nada de exército.
Gerações se passaram!
Sem Isabella, não era a mesma coisa. O exército de busca e recuperação foi definhando, morrendo ou se especializando em outras áreas mais importantes para a propagação da espécie. Tinham uma coleção de riquezas da qual a rainha era toda orgulhosa, mas cada princesa se importava menos, e os livros se perderam para as traças ou as mais sem modos, comedoras de papel. Confabulavam menos e trabalhavam mais, o que era uma pena, poucas coisas eram tão divertidas quanto discutir literatura numa roda de baratas no auge do Reino da Madeira Mofada.