25 de dez. de 2012

Chiado leve

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Viajo em minhas próprias histórias e adormeço.

Em um labirinto de pedra uma menina de cabelos castanhos me encara de baixo pra cima e pergunta "e se você sonhar demais?", acordo com seu rosto gravado na cabeça mas antes da primeira mordida já o esqueço.

A cozinha tem mais comida que o usual mas nada realmente satisfaz meu apetite, nem mesmo as coisas fechadas. Com um amor contido pelos alimentos que vêem em caixas agarro qualquer coisa entre uma viagem e outra pelos cômodos da casa.

Comia um pedaço de panetone quando reparei no embrulho debaixo da árvore. Nunca fui do tipo que liga para embrulhos mas era de bom gosto, com listras em diversos tons. De azul.

Não tinha nome, nem mesmo o meu.

Arrisquei um chute e ele não se moveu, o que foi uma surpresa agradável. Passei alguns minutos procurando um relógio, na tentativa de descobrir quanto tempo fiquei apagado, mas os de ponteiro estavam todos sem pilha, o celular marcava 01:00 da manhã.

O computador não ligava.

Abri a janela do quarto e Apolo entrou castigando meus olhos, podia ser dez da manhã de um dia sem nuvens ou uma supernova estacionada do lado de fora da janela. Tudo parecia mais amarelo que o normal e a vista já era feia em dias nublados.

A caixa de remédios vazia não era surpresa. Talvez o embrulho azul fosse uma imensa caixa de remédios.

Um cheiro estranho se espalhava e parecia originar-se na cozinha, mas não havia nada além de comida. nem podridão, nem fungos, nada que explicasse o odor de rato assado que caminhava sentido leste. Talvez o vizinho.

O vizinho era suspeito de cozinhar ratos porque era um homem muito estranho de meia idade que provavelmente não tomava muitos banhos e vivia do INSS e quando você não tem muito o que fazer a mente fica criativa. Talvez ele até tivesse mandado o embrulho.

Sentei no sofá e encarei os azuis e ele certamente era muquirana demais para enviar um presente pesado então aquela caixa que emitia um chiado devia vir de outra pessoa.

Aproximei os ouvidos tentando identificar o chiado e é claro que eu pensei em "bomba" ou em "pegadinha do malandro" mesmo sabendo dentro da alma que não sou ninguém o suficiente para ser alvo de uma bomba, quem dirá uma pegadinha elaborada (meus amigos trabalham).

Arrisquei levantá-la com as mãos mas como era pesada repousei-a no sofá e fui tomar um banho pois talvez o cheiro de rato fosse eu. Um pouco de sabonete e desodorante me convenceram que não e o cheiro aumentava e talvez eu devesse ir falar com o vizinho, mas primeiro devia abrir o presente que chiava mais e as luzes de natal estavam acesas.

Eu não gosto de pisca-piscas.

Quando era pequeno na casa de um amigo seus avós brigaram e era bem perto do natal. A árvore estava montada e acabou despencando na confusão e ela nem tinha pisca piscas, mas esse mesmo menino no dia seguinte colocou um no olho.

O psicologo disse que havia uma relação.

Ele é bem normal hoje em dia apesar do olho esquerdo ser uma bolota inútil e das fantasias de pirata no carnaval estarem perdendo a graça, costumava comprar presentes caros e eu até queria que fosse dele, o que significaria um videogame ou uma batedeira maneira, mas ele não gosta de azul.

Um gosto metálico cobre meus dentes e a validade do panetone está completamente aceitável (mês que vem está muito longe) e a coca-cola pode ter tomado sol mas que azar seria, tomo outro gole e o gosto parece normal.

Nada mais está fora de lugar e me pergunto que tipo de pessoa liga os pisca-piscas e deixa um presente mas não um bilhete.

A chave não está na fechadura e demoro para encontrá-la no meio das almofadas do sofá, o tapete está posicionado segundo manda o feng shui e o trinco que deveria estar caído obstrui tranquilamente qualquer invasor e decido abrir logo o embrulho pois não aguento mais o chiado mas um estalo acusa que o computador está ligando.

Corro e praticamente abraço o teclado e após a mensagem de abertura do Windows o relógio acusa 00:00 e o computador é praticamente novo. Ignoro, a internet funciona, verifico meus emails é natal e talvez ela tenha recebido meu presente e me perdoado mesmo não tendo nenhuma mensagem no celular.

Dos dois emails novos só um é de Lilian e ele não tem assunto, abro com o coração acelerado que pára logo nas primeiras palavras "adorei o presente, por favor não me procure mais", dou dois socos na porta e procuro a caixa de remédios mas ela continua vazia.

O resto do texto é alguma baboseira sobre estar tudo melhor agora e é melhor ler o outro e-mail mesmo sem conhecer o remetente, talvez seja spam mas um motivo de ódio sobrando não faz mal a ninguém.

O e-mail diz "não abra o embrulho".

Eu levanto e a caixa de remédios escondida - não a que estava vazia, a de emergência - também se encontra vazia então eu ligo para meu farmacêutico e ele diz que me consegue Subutex e eu digo que estarei lá em algumas horas, pergunto se ele não me mandou um presentão de natal, ele responde que não tem clientes favoritos e que vai estar no poste de sempre.

O chiado incomoda a ligação e eu já estou chutando o embrulho de novo e o e-mail continua ecoando na cabeça "não abra" e é óbvio que uma mensagem de não abra significava que eu teria que abri-lo, talvez não se eu o jogasse fora.

O que era impossível.

Na minha cabeça eu rasgo um pouco do embrulho e ele tem buracos então eu estava chutando uma coisa viva e sinto de novo o coração mas agora ele é amargo, toco o embrulho no chão e ele parece vibrar mas pode muito bem ser eu. O chiado continua.

Eu penso em caminhar pois poderia muito bem clarear a cabeça, não sei se é a falta ou o excesso, soluço uma única vez e rasgo o papel com o pouco que sobrou de minhas unhas.

Um som vem do quarto e eu tenho um novo e-mail, ele diz "você abriu a caixa" e eu olho pro embrulho e ele está fechado embaixo da árvore, nem mesmo em cima do sofá onde eu o abri.

Olho novamente pra tela e tudo que eu vejo é um labirinto e talvez eu consiga encontrar a saída. Uma menina tenta me ajudar mas ela não sabe meu nome, tento dizer mas não tenho voz então ela finalmente me encara com o olhar triste e diz "talvez você esteja sonhando demais", acordo com a pior dor de cabeça da minha vida.

Debaixo da árvore o embrulho azul está aberto, a caixa dentro dele é preta. Volto ao computador e o e-mail aberto diz "vamos tentar outra vez" e resolvo abrir a caixa. Dentro dela há um espelho e meu reflexo parece tão confuso quanto eu.

O telefone toca e a voz me pergunta se eu vou buscar o Subutex ainda hoje pois ele tem mais o que fazer, não entra luz alguma pela janela então deve ser tarde da noite, digo pra ele que algo muito errado está acontecendo e ele responde "sim você não devia me deixar esperando" e desliga a ligação.

Raciocino que alguém deve estar brincando comigo e a caixa de remédios continua vazia, o e-mail não diz absolutamente nada e um chiado interminável acompanha o cheiro podre da casa, retorno a caixa que não tem mais nada além do espelho e uma nota "pensando melhor, pode ficar com seu presente".

Vomito um pouco no banheiro e quando retorno não há nota alguma. O espelho continua lá e eu desejo muito que ele seja outra coisa, algo que me conforte. Coloco minha jaqueta e saio de casa calçando os piores chinelos que encontrei.

Uma viagem de ônibus tremida depois e estou vinte minutos mais velho tomando garoa em meu boné, normalmente não uso mas essas bandas requerem certas precauções, um menino de uns 15 anos me encara e eu não tenho medo de nada na garoa.

Atrás do poste marcado com uma bandeira só consigo ver um cigarro aceso, o cheiro não é de tabaco ou cravo e eu não peço um trago pois estou com pressa. Acho que ouço um sermão mas um chiado leve nos meus ouvidos me impede de prestar atenção em qualquer coisa, minhas mãos tremem um pouco e eu pergunto o que mais ele tem.

Volto pra casa e não ouço chiados e minha cabeça está mais clara do que nunca, mas o presente continua lá pelo menos o cheiro se foi, talvez o vizinho tenha se mudado mas a esperança é sempre maior que a realidade.

Ligo pra Lilian e digo que a amo mas nem cheguei a falar com ela, ouço o barulho seis vezes e disco novamente, ninguém atende.

Abro o presente e ele ainda é um espelho, a caixa de e-mails continua vazia mas a de remédios está cheia e tudo começa a fazer mais sentido menos o espelho, meu presente de natal é acreditar em papai noel.
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1 de dez. de 2012

O Envelope

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Pelo correio chegou um envelope, e por uma semana o comportamento de minha esposa foi ficando cada vez mais incompreensível. Tão estranho que eu notava a diferença, primeiro em seu modo de andar e de responder aos meus chamados, e depois na maneira como me dizia boa noite antes de dormir e a expressão em seus olhos logo quando acordava.

Não pareciam mais se abrir em um sorriso, eram mais como buracos, que me encaravam como se eu tivesse culpa de algo.

É claro que a memória prega peças, e eu imediatamente voltei para aquela noite logo quando começamos a namorar e ela ainda não dizia que me amava mas eu já sabia (pois sempre soube), e mesmo assim um pouco de álcool foi o suficiente pra me deixar cair em tentação e na noite seguinte eu a encarei de frente e pensei "ela sabe, é impossível que não saiba quando me atravessa com o olhar" mas fiquei calado e engoli o champagne pra hidratar a garganta, não funcionou.

Agora era como se eu a atravessasse, mas ao invés de vê-la por dentro, só enxergo o outro lado. Dá pra assistir televisão mantendo contato visual cinematográfico. Uma carta, talvez? Não tinha remetente, que tipo de carta não tem remetente?

Chegava do trabalho sorrindo e tentava dividir com ela toda a excitante rotina da escola, de como as crianças estavam ficando insuportáveis e parecia que os próprios pais não tinham educação, e ficava aguardando que ela me mostrasse os dentes e suspirasse e no meio do seu suspiro eu ouvisse mesmo sem ela dizer "sofia", mas dessa vez não disse nada. Serviu a janta e sentou-se na cadeira diretamente oposta a mim, nem tocou na comida e acendeu um cigarro.

Talvez essa fosse a dica.

Cinco anos antes numa estrada qualquer rumo ao sul eu encontrei, por um acaso extremamente improvável e literalmente no meio do nada, uma amiga de adolescência que há muito perdera totalmente o contato. Quase não nos reconhecemos, precisando de duas ou mais trocas de olhares pra reativar a memória. E depois reativá-la de novo, seguido de um sonoro "ahhhh" mental quando lembramos onde exatamente tínhamos deixado as coisas da última vez que nos vimos. Éramos muito bom em despedidas.

Em reencontros também.

Voltando pra casa, dias depois, recebo a notícia de que deveria fumar lá fora, pois ela decidira abandonar os cigarros. Por um milésimo de segundo passou pela minha cabeça que o timing da decisão era estranho, mas o pensamento logo foi substituído pela palavra "coincidência" e até hoje acredito que tenha sido, mas e se dessa vez não for? E se for "lembra, amor, quando eu parei de fumar? É, chegaram umas fotos".

Mas nem abriu a boca, só para tragar lentamente o cigarro, me fitando com seus olhos de buraco mas sendo bela da cabeça aos pés. Tirou os longos cabelos de um dos ombros e se recostou na cadeira, cruzando as pernas e cerrando os olhos para aproveitar mais a fumaça e eu tentava comer o mais rápido possível para escapar de sua beleza pois deus, era absurdamente bonita, tão mais que a vizinha que se mudou ano passado e que dava aula na mesma escola que eu e as salas de aula pareciam exalar um cheiro afrodisíaco ou talvez fosse o perfume dela.

Nem era bonita, só safada.

E por incrível que pareça, ou cretino que pareça, isso sempre me abalava quando eu abria a porta de casa e a via arrumada sem motivo algum, maquiada e usando suas melhores roupas e perguntava "onde vamos?" e ela respondia "jantar" e me levava pra cozinha onde a comida me esperava. Quase sentia vergonha de misturar aquele cheiro doce de mulher com o aroma da cozinha e as vezes teimei que ela também sentia, mas não sentia, sei que não. Se eu pudesse chegar perto do envelope, talvez reconhecesse o cheiro, mas ele mudava de lugar constantemente e sempre desaparecia quando não estava sob a vista da destinatária.

Por mais duas, quase três semanas eu tive que aguentar esse sofrimento, de ter a certeza que algo estava terrivelmente errado mas eu não sabia o que era e eu precisava muito saber o que era pois eu sentia culpa, mas culpa de tudo, e isso não é saudável. Vê-la sentada na varanda com seus cigarros, e agora adotara uma taça de vinho também, e eu perguntava "como vai o trabalho?" e ela só dava outro gole.

Mas acabou. Ela foi embora, pegou suas coisas e simplesmente desapareceu. Não satisfeita, levou consigo o envelope.
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