17 de jul. de 2012

la mort en rouge et bleu

Lá estava outra vez sentado frente aos quadradinhos pretos e brancos que o governo fez questão de repintar para ele nesse ano de eleição. A praça estava bonita, verde, multicolorida, cheia de crianças e sorrisos que na madrugada eram substituídos por adultos e sorrisos. Estendeu as mãos enrugadas à caixinha de madeira que cuidava com carinho, posicionando as peças em cima da mesa. Ao invés de xadrez, preferia damas. Tinha dores de cabeça quando pensava demais, e seus neurônios queriam curtir a aposentadoria. Colocava, sem pressa, as peças azuis. Uma a uma, azul a azul.

Ouvia Edith Piaf no aparelhinho que o filho lhe deu de natal, Je revois la ville en fête et en délire ♪, tudo que sabia era que precisava recarregá-lo. Quando se lembrava de seus artistas preferidos o ligava, e ele conseguia na internet. Esse tempos, quanta facilidade. Qui éclatent et rebondissent autour de moi ♪ . Ainda gostava mais do som de seus vinis, do arranhado gostoso que se escutava entre as faixas, mas não podia trazê-los até a praça. Étourdie, désemparée, je reste là ♪

Peças vermelhas, uma a uma. Uma menina o cutucava; devia estar falando com ele já há algum tempo, mas a má audição e os fones de ouvido lhe surdavam, retirou-os. "Posso jogar?", disse a garotinha, não tinha mais que 10 anos de idade. "Claro que pode minha filha, sente-se", respondeu apontando o outro lado da mesa. "Qual seu nome?"

Azul. Tinha um sorriso malicioso incomum as meninas da sua idade, mas não se espantava. Crianças hoje em dia. Vermelho. A tiara em laço combinava com o vestido negro enfeitado de bolinhas, ressonando com o tabuleiro que jogavam. Azul. "Como é ser velho?" Vermelho. Azul. "Não muito diferente de ser jovem. Nada pra fazer, nada pra esperar, nada pra lembrar". Vermelho. Azul.  Vermelho. "Hm. Eu tenho um avô, e uma avó. Mamãe diz que eles vão morrer um dia". Azul. Vermelho. Azul. Vermelho. Azul come vermelho. Azul come vermelho. "Eles vão. Eu também".

Algumas nuvens teimosas insistiam em tampar o sol, o que causava certo êxodo da praça; as mães temiam que seus filhos caíssem enfermos sob a poderosa "friagem", e os colocavam pra conversar com os amigos na internet. Vermelho come azul. Azul. "Você sabe como vai morrer?" Vermelho. Azul. Vermelho. Azul. Vermelho. "Não". Azul come vermelho. Vermelho come azul. Vermelho come azul. Dama. "Gostaria de saber?"

Levantou uma sobrancelha. Olhou a garotinha de cima a baixo, seus longos cabelos ruivos (só agora notou que eram ruivos?) esvoaçando na brisa que passava devagar. "Acho que não". Azul. Vermelho come azul. Vermelho come azul. Dama. "Eu gostaria de saber. Me preparar". Não conseguiu disfarçar um suspiro, por um momento achou que a menina tivesse algo mais sinistro além do sorriso. Medos de velho bobo, superstições de interior. Azul.

"Você é uma moça jovem, não deve se preocupar com isso", confortou-a. Imaginava que tipo de programa os pais a deixavam assistir pra que dissesse essas coisas. Vermelho. Azul. Vermelho. Azul. Mal conseguia se concentrar no jogo, havia algo sobre aquela menina... Vermelho. Azul."Não me preocupo. Mas tudo tem um fim. Até eu". De repente sentiu um arrepio, como se aquelas palavras significassem mais do que vestiam. Vermelho come azul. Não tinha resposta, optou o silêncio. Azul. Na sua cabeça, do vazio, nasceu uma pergunta. Não sabia por quê, mas sabia que ela a responderia. Vermelho come azul. Dama. Azul. Vermelho. Dama. 

"E o criador?" Azul come vermelho. Vermelho. Ela sorriu. "Ocupado com seus próprios problemas. Cada um está a mercê de suas escolhas".  Azul. Vermelho. Azul. De algum modo aquilo o confortava. Vermelho. Seu peito esvaziou, suspirou pra baixo. "Destino?"Azul come vermelho. Dama."Um milhão deles, e um milhão de você pra cada um deles". Vermelho. Azul. Vermelho. "Isso não responde nada".  Azul. Vermelho. "Então não é seu destino saber". Azul. Dama.

"É hora?" Vermelho. Dama. Azul. Vermelho. Azul. "Pode ser". Baixou os olhos pra mesa, pensativo. "E depois?"Já se incomodava com o jogo, xadrez teria sido bem mais emocionante; vermelho, azul, vermelho, azul come vermelho, vermelho come azul, sempre a mesma coisa! "Depois não há". E é azul, e o vermelho faz dama e agora fica andando pra trás também, uma lástima. "E se eu vencer?" Azul. "Você não pode vencer a morte". Vermelho come azul, vermelho come azul. Dama.

Uma sucessão de azuis e vermelhos, fugia como se sua vida dependesse disso. E acreditava que sim. Um oponente comum já teria declarado um empate, só pela chateação. Queria cansá-la, esperar até que errasse, sem saber se um dia iria. Azul come vermelho. Azul come vermelho. Vermelho come azul. Azul. Vermelho. Azul. Vermelho. Azul come vermelho. Azul come vermelho. Suas mãos suavam, tremia. Por dentro chorava. Não queria, não queria, viveu muito mas sangrava porque não queria! Vermelho. E não iria.

A menina se levantou, em momento algum despindo-se do sorriso em seu rosto. Azul come vermelho. Sentiu o seu olhar tocá-lo, esperava frieza, dor, solidão. Só sentiu o terno calor do nada, o torpor da inexistência. Vermelho. "Foi um prazer conhecê-lo".

Azul come vermelho.

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