17 de nov. de 2014

Ladrões!

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Os dois belgas já tinham os rostos colados ao muro antes que o soldado alemão descesse a rua aos berros.
- Aufhören! Arrêtez!
O homem de bigode e chapéu coco se deu apenas a virar o rosto. Murmurou um som quase inaudível e não obteve resposta alguma de seu companheiro de boina. Este nem se mexia, mas suava sob o sol da manhã dominical. 
O soldado os alcançou a passos largos. Sem pronunciar palavra revistou-lhes os bolsos e a virilha, mas não encontrou nada além de suas carteiras. Verificou suas identidades e questionou em tom de ameaça:
-  O que fazem aqui os vagabundos? 
- Meu amigo e eu pegamos uma sombra. O calor está assassino. 
- Sombra! Me pensam estúpido? O sol das 11 lhes queima as costas e a nuca, sem nenhuma cobertura do lado de cá. Estivessem atrás do muro! 
- Pois me perdoe o gracejo - iniciou o bigodudo -, somos arquitetos. Procuramos rachaduras nessa estrutura. 
- Mentem! São novíssimos os muros do teatro municipal! Que esquema planejam? - bravejou o soldado já rubro. 
- Estava certo de que tal desculpa jamais enganaria um homem culto como o senhor. Revelo a verdade: somos homens honestos, não esquematizamos nada. 
- E o que fazem na rua deserta? É mudo o seu amigo? 
- Coloquei-o de castigo. Tem sido um homem traquina. 
- Traquina! De certo é um meliante! Coloque-se a falar, ou os levo algemados à força!
O bigodudo suspirou vencido. Acenando ao companheiro, recebeu de volta duas piscadelas. 
- Pois bem. Vê que este homem leva o rosto liso e macio, como se aparasse os pelos todas as manhãs. Nada é o que aparenta. Tens, na verdade, um bigode grosso e imponente como o seu. 
Os beiços e o queixo do soldado se moveram em contento com o elogio, sem deixar sumir a inquietação em seu rosto.
- E onde está o tal bigode que não vejo? 
- Pois acredite, mesmo que é certo que resista. Seu bigode é passa-paredes. Ao encostar a cabeça para lamentar-se de um infortúnio, fugiu-lhe o tapete pra dentro do teatro. 
- Ainda me prega peças! Não sabe com quem falas!
- Jamais, pois imagino bem. Não é de baixa patente soldado de tão majestosa e lustra penugem. Lhe digo que posso provar meu conto, e ainda, se me permitir, requisitar tua ajuda. Talvez se aproximar o rosto do muro ao lado de meu companheiro, a presença de teu bigode acalme o dele e o faça voltar de sua fuga precipitada.
Hesitante, o soldado se aproximou. Os olhos inquietos não perdiam de vista os suspeitos. Suas ventas abriam e fechavam devagar, fazendo balançar os pelos sobre os lábios. Segurou forte o coldre e encostou o rosto no muro.
Quase pulou de susto! O homem de boina lhe pregou um beijo molhado, sugando-lhe os lábios com um barulho de chupada. Antes que reagisse, fugiram os dois, correndo como crianças. Secando a baba do rosto com as mangas do uniforme, estranhou a lisura do rosto. Por minutos tateou em vão: não lhe restava mais bigode algum. Havia sido furtado.
- Ladrões, ladrões de bigode! - gritou aos quatro ventos, sem alcançar os ouvidos de ninguém. 
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