Só nos damos conta de que perdemos as esperanças quando nos cansamos de sonhar. Quando a cama é um fardo, e as imagens antes inundadas com promessas e surpresa já, se não viraram pesadelos, incomodam por serem tediosas, sem vida, sem cor. Tremia sempre que pensava em si logo antes de dormir, tinha medo de cair em outro abismo.
De repente não temia mais nada. Estava num
lugar que certamente já vira, mas não se recordava. O chão e as paredes de
madeira, o cheiro de verde, o eco do canto dos pássaros. Por uma das janelas só
conseguia ver folhas, a outra tinha a vista de um lago e, além no horizonte,
duas montanhas cobertas de neve. O interior da casinha brilhava esbranquiçado,
frio e um pouco opaco (como as almas de consumidores alienados), e os tapetes
azul marinho só realçavam essa impressão gelada.
O chão era de um verniz mais escuro que o das
paredes. No canto oeste, um alçapão aberto revelava uma escada de corda que
descia uma provável dezena de metros até o chão, onde parecia estar pregada.
Paralela a ela, o tronco de uma gigantesca árvore se estendia, velho e cascudo,
se desprendendo em galhos menores um pouco abaixo da altura da casinha. Suas
folhas pareciam sóbrias e sensatas, como um homem avarento.
Caminhava pelo quartinho procurando detalhes
nos móveis e enfeites que lhe ativassem a memória. A mesinha baixa claramente
era destinada àqueles que se sentavam no chão, e as revistas em quadrinhos
jogadas não eram suas, mas teria gostado de lê-las. Seus ouvidos, acostumados
com o som do vento que uivava triste as presas do holocausto, pularam ao
reconhecer o tinguinir de chaves que se aproximava.
Pelo alçapão se ergueram duas mãos macias, de
unhas bem feitas e coloridas, seguidas de um gorro azul claro que combinava com
os olhos do monte de agasalhos que surgia. Colocou-se de pé, mais parecido com
um cesto de roupa suja do que um ser humano, e pôs-se a falar por entre o
cachecol.
"MehHmm nhôhmm hm ahthmm,
pfhhmzer". Não respondeu nada, não tinha ideia do que a criatura havia
dito e ainda tentava traduzi-la mentalmente. Talvez percebendo sua confusão,
removeu o cachecol e a gola do casaco que cobriam sua boca, revelando um
sorriso pra acompanhar aquele belo par de olhos azuis. Seu rosto parecia
esculpido, arredondado mas em perfeita simetria com sua boca - perto da qual
uma única pinta tingia seu rosto pálido, como se o universo deixasse derramar
nanquim enquanto desenhava suas sobrancelhas.
"Meu nome é Atma, prazer". Aquele nome
ecoou em seus pensamentos como ondas se espalhando pela água, fugindo da
pedrada que acabaram de receber. Procurava em pensamento a palavra, mas não a
reconhecia de lugar algum. Removendo seus casacos, o perfume da garota
preenchia o quarto, um misto de orvalho e canela. "Prazer", disse
entre um suspiro e outro. Não conseguia disfarçar que respirava fundo.
"Há muito que não recebo uma visita,
sinto se o deixei esperando". Engoliu em seco. O que fazia ali? E a teria
chamado? "Não, nem um pouco" foi a única resposta que encontrou, se
perguntando se ela percebia seus olhos vidrados enquanto percorria com os dedos
do coração os cabelos negros da pintura viva que lhe recebia. Por instinto,
sentou-se perto da pequena mesa, não surpreso dela te-lo acompanhado. Em sua
cabeça formulava suas próximas palavras, observando atento enquanto Atma
apanhava duas xícaras e uma garrafa térmica num armarinho próximo.
Por um momento o tempo pareceu parar. Sua
pele, mesmo pálida, parecia brilhar mais quente e colorida, expulsando as
sombras que a neve trazia. Um pouco do frio se mantinha, o suficiente para
apreciar um chá e biscoitos. Não obstante, ela os servia chá - os biscoitos
faltavam, mas já tinha se alimentado o suficiente com os olhos. Estava prestes
a desenhá-la em seu peito com as unhas, quando novamente irrompeu-se a falar.
"Não sou tão bonita assim, mas agradeço
o elogio." Talvez ela lesse seus pensamentos, resolveu fazer alguns
testes; está ouvindo? Eu sou um graaaande idiota, ouviu? Ela só ria, sem
responder a seus apelos mentais. Voltou a tarefa de admirá-la, queria beijá-la,
mas manteve distância. "Você pode pegar em minha mão", disse
sorrindo. Aceitou.
Apoiavam as mãos sobre a mesa, saboreando aos
poucos o chá de canela. Imaginava se o perfume era do chá, mas tinha certeza
absoluta que era ela. Perguntava sobre sua vida, ele tentava não ser
sincero. Tarefa impossível, alguma coisa no jeito que ela entortava a cabeça
denunciava que sabia exatamente quando ele mentia. Talvez o achasse
patético, com seus problemas simples e temores bestas.
"Nenhum
problema é simples, e nenhum temor é besta". Já ouvira essas palavras, mas
elas só faziam sentido em sua voz. Não se sentia tão só, não lembrava mais o
rosto do abismo, queria preencher seus sonhos com visões dela e só dela. Mais
um gole e o chá se encerraria. Olhou fundo nos seus olhos,
"obrigado", agradeceu e o tomou.
Acordou com frio, mas sem forças para pegar o edredom caído no chão
do quarto, talvez pelo cansaço mas com certeza pelo medo de perder a imagem que
vira em seu derradeiro sonho. Apertava o travesseiro com os dedos, como se
envolvessem sua mente lhe pedindo desesperadamente "me leva de
volta". Não era o suficiente, precisava de mais cinco, dez minutos ali com
ela pra poder gravar seu cheiro e sua voz, registrar em suas sinapses tão
exaustas aquele toque diferente e o sorriso que, mesmo não sendo pra ele (ou
algum dia tendo sido), lhe confortavam e o enchiam de uma felicidade que há
muito tempo não sentia. Dormiu, sonhou, mas nunca mais a viu.
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