18 de jul. de 2012

Atma


Só nos damos conta de que perdemos as esperanças quando nos cansamos de sonhar. Quando a cama é um fardo, e as imagens antes inundadas com promessas e surpresa já, se não viraram pesadelos, incomodam por serem tediosas, sem vida, sem cor. Tremia sempre que pensava em si logo antes de dormir, tinha medo de cair em outro abismo. 

De repente não temia mais nada. Estava num lugar que certamente já vira, mas não se recordava. O chão e as paredes de madeira, o cheiro de verde, o eco do canto dos pássaros. Por uma das janelas só conseguia ver folhas, a outra tinha a vista de um lago e, além no horizonte, duas montanhas cobertas de neve. O interior da casinha brilhava esbranquiçado, frio e um pouco opaco (como as almas de consumidores alienados), e os tapetes azul marinho só realçavam essa impressão gelada. 

O chão era de um verniz mais escuro que o das paredes. No canto oeste, um alçapão aberto revelava uma escada de corda que descia uma provável dezena de metros até o chão, onde parecia estar pregada. Paralela a ela, o tronco de uma gigantesca árvore se estendia, velho e cascudo, se desprendendo em galhos menores um pouco abaixo da altura da casinha. Suas folhas pareciam sóbrias e sensatas, como um homem avarento. 

Caminhava pelo quartinho procurando detalhes nos móveis e enfeites que lhe ativassem a memória. A mesinha baixa claramente era destinada àqueles que se sentavam no chão, e as revistas em quadrinhos jogadas não eram suas, mas teria gostado de lê-las. Seus ouvidos, acostumados com o som do vento que uivava triste as presas do holocausto, pularam ao reconhecer o tinguinir de chaves que se aproximava. 

Pelo alçapão se ergueram duas mãos macias, de unhas bem feitas e coloridas, seguidas de um gorro azul claro que combinava com os olhos do monte de agasalhos que surgia. Colocou-se de pé, mais parecido com um cesto de roupa suja do que um ser humano, e pôs-se a falar por entre o cachecol.

"MehHmm nhôhmm hm ahthmm, pfhhmzer". Não respondeu nada, não tinha ideia do que a criatura havia dito e ainda tentava traduzi-la mentalmente. Talvez percebendo sua confusão, removeu o cachecol e a gola do casaco que cobriam sua boca, revelando um sorriso pra acompanhar aquele belo par de olhos azuis. Seu rosto parecia esculpido, arredondado mas em perfeita simetria com sua boca - perto da qual uma única pinta tingia seu rosto pálido, como se o universo deixasse derramar nanquim enquanto desenhava suas sobrancelhas.

"Meu nome é Atma, prazer". Aquele nome ecoou em seus pensamentos como ondas se espalhando pela água, fugindo da pedrada que acabaram de receber. Procurava em pensamento a palavra, mas não a reconhecia de lugar algum. Removendo seus casacos, o perfume da garota preenchia o quarto, um misto de orvalho e canela. "Prazer", disse entre um suspiro e outro. Não conseguia disfarçar que respirava fundo.

"Há muito que não recebo uma visita, sinto se o deixei esperando". Engoliu em seco. O que fazia ali? E a teria chamado? "Não, nem um pouco" foi a única resposta que encontrou, se perguntando se ela percebia seus olhos vidrados enquanto percorria com os dedos do coração os cabelos negros da pintura viva que lhe recebia. Por instinto, sentou-se perto da pequena mesa, não surpreso dela te-lo acompanhado. Em sua cabeça formulava suas próximas palavras, observando atento enquanto Atma apanhava duas xícaras e uma garrafa térmica num armarinho próximo.

Por um momento o tempo pareceu parar. Sua pele, mesmo pálida, parecia brilhar mais quente e colorida, expulsando as sombras que a neve trazia. Um pouco do frio se mantinha, o suficiente para apreciar um chá e biscoitos. Não obstante, ela os servia chá - os biscoitos faltavam, mas já tinha se alimentado o suficiente com os olhos. Estava prestes a desenhá-la em seu peito com as unhas, quando novamente irrompeu-se a falar.

"Não sou tão bonita assim, mas agradeço o elogio." Talvez ela lesse seus pensamentos, resolveu fazer alguns testes; está ouvindo? Eu sou um graaaande idiota, ouviu? Ela só ria, sem responder a seus apelos mentais. Voltou a tarefa de admirá-la, queria beijá-la, mas manteve distância. "Você pode pegar em minha mão", disse sorrindo. Aceitou.

Apoiavam as mãos sobre a mesa, saboreando aos poucos o chá de canela. Imaginava se o perfume era do chá, mas tinha certeza absoluta que era ela. Perguntava sobre sua vida, ele tentava não ser sincero. Tarefa impossível, alguma coisa no jeito que ela entortava a cabeça denunciava que sabia exatamente quando ele mentia. Talvez o achasse patético, com seus problemas simples e temores bestas.

"Nenhum problema é simples, e nenhum temor é besta". Já ouvira essas palavras, mas elas só faziam sentido em sua voz. Não se sentia tão só, não lembrava mais o rosto do abismo, queria preencher seus sonhos com visões dela e só dela. Mais um gole e o chá se encerraria. Olhou fundo nos seus olhos, "obrigado", agradeceu e o tomou.
Acordou com frio, mas sem forças para pegar o edredom caído no chão do quarto, talvez pelo cansaço mas com certeza pelo medo de perder a imagem que vira em seu derradeiro sonho. Apertava o travesseiro com os dedos, como se envolvessem sua mente lhe pedindo desesperadamente "me leva de volta". Não era o suficiente, precisava de mais cinco, dez minutos ali com ela pra poder gravar seu cheiro e sua voz, registrar em suas sinapses tão exaustas aquele toque diferente e o sorriso que, mesmo não sendo pra ele (ou algum dia tendo sido), lhe confortavam e o enchiam de uma felicidade que há muito tempo não sentia. Dormiu, sonhou, mas nunca mais a viu.


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