23 de jul. de 2012
O Livro de Orações
É claro que organizaria uma grande festa, não podia deixar de esfregar na cara de todos como suas preces haviam sido atendidas, como vir a igreja todo domingo valia a pena e agora era merecidamente rica. Um milagre, uma prova de fé, chamem o Fantástico que temos aqui algo que a ciência não pode explicar! Dinheiro traz muita coisa, até atenção, mas ninguém quis ouvir sua história ou achou mesmo que ganhar na loteria era certeza da existência do Divino. Então contentou-se em dar uma festa na igreja. Música, comida, bebida, tudo. Convidou todos os assíduos, os que iam pelo menos duas ou três vezes no mês, e ela os conhecia de nome. Permitiu que o Padre chamasse quem ele confiasse.
Deus, como pôde? Conferiu o livro de orações e lá estava, em letras tortas e analfabetas: "Mauricéia Aparecida dos Santos, 17/03, ganha na loteria jesus!" Garrancho. No dia 18 saiu o resultado, 3 milhões! Como, como, como pôde? Conhecia bem aquela mulher, sabia de suas tramas. Espalhava fofocas, falava mal de membros da igreja, acreditava ser a autoridade no nome do Senhor sem nunca ter sido sincera na vida. Mal sabiam o que realmente pensava, só loucura patogênica pra explicar as ações ambíguas e manipulativas de tal fiel. Mas estava sempre lá, na primeira fileira, fechando os olhos e rezando pra sabe sei lá quem, pois se recusava a acreditar que seu Deus atenderia as preces de alguém como ela. "Mas deus ama igualmente a todos", as palavras de seu pai ecoavam em sua cabeça. Ama o caralho. Perdão.
Deu um jeito de aproveitar-se da situação, mas não de maneira ruim. Conhecia algumas famílias mais pobres que pouco tinham o que comer, quem dirá frequentar uma grande festa. Organizou as doações de roupas do ano passado, encontrando combinações agradáveis ao olhar, e lhes entregou pro grande dia. "Venham, grande festa na igreja, vocês estão convidados". Disse à Maurí, como a chamavam as íntimas (outras cobras), que frequentavam a igreja durante a semana. Não era uma mentira, realmente podia encontrá-los frente a capela, mas na maioria das vezes em busca de moradia ou comida.
Nunca haviam visto aquele lugar tão cheio. Crianças corriam, um pouco lambuzadas de chocolate do grande bolo que enfeitava o salão. A música era animada, variando entre o forró e o gospel, e muita gente dançava animada. "Pelo menos algo bom vem de tudo isso", pensou, vendo aquelas pessoas alegres e muitos dos que convidara presentes e contentes em participar da festa. Mas sabia que não era o suficiente toda vez que passava perto de Marlí, que logo irrompia em falar do que comprava com o dinheiro que ganhou.
Tinha uma casa na praia, mais de quinhentos mil!, a qual enchera de carros - um pra cada filho que, em torno dos vinte e poucos, já tinham esposa e filhos. O mais novo casara em virtude da loto, a mãe pagou o casamento mais bonito, com festa, fotógrafo e muito champãe. Tinha um emprego como atendente de farmácia, o pouco que sobrava no mês gastava com bebida; às vezes o orçamento da pinga excedia o esperado e precisava gastar um pouco do dinheiro da papinha. Agora não mais, só Blue Label. Obrigado, Deus.
O do meio, ex-viciado em cocaína, era só ex em aparência. Ganhava um pouco mais do que revelava, tinha um curso de Administração que o ajudou a conseguir um emprego num escritório. Curiosamente, dos três, era o menos problemático; cheirava, sim, mas só nos finais de semana e eventos. Às vezes pra descansar a cabeça, deixar de ouvir as reclamações da mulher um pouco. Ela o impedia de crescer, sabia de sua inteligência mas tinha medo que o deixasse. O colocava pra baixo, reclama das coisas de casa - que só ele trabalhava pra proporcionar - e da falta de atenção que dava aos filhos, que na verdade o adoravam como um herói. Não mais, agora eram ricos, seus filhos teriam tudo que quisessem e ela também. Obrigado, Deus.
O mais velho fugiu da prisão uma vez, voltou e cumpriu a pena. Hoje não trabalha, não faz nada, pelo menos é que sabia a maioria. Mas o conhecia melhor, sabia que as luzes do bairro não se apagavam toda quinta às 21h por acaso. Sinal de que estavam descarregando ali, duas quadras atrás da igreja, toda a droga que alimentava a região. E o mais velho, voltando do cárcere com contatos e esperteza, mandava em todo mundo ali. O Padre sabia, a esposa e a filha sabiam, a polícia sabia, deus sabia. O dinheiro do tráfico era só seu, não dividia com o resto da família, mas faria questão de abocanhar um pouco da grana da coroa. Obrigado, Deus.
O Padre crescera com os três, praticamente amigos de infância. Era o mais rico da rua, mas isso nunca o tornou uma má pessoa. Aprendeu cedo a dividir, e com os meninos que conheceu compartilhava tudo - seus brinquedos, seus jogos, suas aventuras. Considerava-os de verdade, mesmo quando suas posses desapareciam e algum deles, magicamente, agora possuía um igual. Fingia que não via, às vezes pegava de volta, às vezes não. Sabia o que falavam dele pelas costas, mas não se importava, não conhecia mundo melhor. Já mais velhos, na adolescência, lembravam tais fatos com riso, se vangloriavam de sua esperteza. É, o mundo é dos espertos.
Hoje sentia certa pena de si mesmo no passado. Aprendeu que existem pessoas em que se pode confiar, conheceu um mundo melhor. Em algum ponto de sua vida resolveu virar Padre, queria dar as pessoas sem que elas sequer pedissem, sequer soubessem precisar. Ensinava palavras de amor, de bondade, de união. Parou com os "exorcismos" no palco, com as caminhadas em sal grosso, com o dízimo diário. "Dá quem pode, quem quer ajudar", dizia. Foi expulso da igreja, montou sua própria, onde acolhia quem quer que fosse. "Dê a Deus 100% de sua alma, e ele não te pedirá mais nada". Organizava coletas, passeatas, conscientizava, discutia. Chegou a conhecer o prefeito, era o Padre de todos. Era feliz.
Mas, a nível cósmico, alguma coisa o incomodava naquilo - como uma farpa que entrou tão fundo no dedo que não é possível retirá-la ou esquecê-la. Todo aquele dinheiro! Poderia ajudar tanta gente, fazer tanto bem no mundo, mas em troca do trabalho de sua vida só recebia sorrisos e agradecimentos. Não queria mais, mas podia mais. Por quê o Senhor testava sua fé? Por quê coisas boas acontecem com gente ruim? Não encontrava respostas, sabia que se dividisse suas dúvidas com alguém receberia o bom e velho "Deus escreve certo por linhas tortas".
Três meses depois o filho mais novo morreu, vítima de um acidente de trânsito enquanto dirigia alcoolizado. A mãe e o bebê estavam no carro, e o motorista da moto contra a qual bateu voou a quase 20 metros dali - nenhum deles se feriu. O filho do meio vendeu o carro, abriu uma pizzaria, deixou a esposa mas visitava os filhos quase diariamente. Pagava uma pensão maior do que precisava, sabia que boa parte era desviada pela ex para bancar suas despesas extras, mas cuidava bem de seus filhos, só o odiava. O mais velho, não demorou muito, foi pego numa operação contra sonegação fiscal. Seu mini império de entorpecentes caiu junto com sua prisão, a esposa e a filha indo viver com Marlí que, abandonada por todos, voltou a morar no bairro da igreja, melhor que antes, mas sem todo o luxo que possuía.
Era padre, jamais ficaria feliz pela desgraça dos outros. Mas obrigado, Deus.
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