24 de jul. de 2012

A Marcha das Raízes

Nada se sustenta num terreno sem raízes. Ainda mais quando essas começam a andar. Foi essa estranha visão que abalou os moradores daquela cidadezinha no interior de São Paulo, de onde saiu Julio, que virou notícia na televisão durante a semana. "A marcha das raízes começou!", gritava enquanto segurava um dos microfones da banda do Jô, "Íguidrasil está vindo, e todos nós vamos junto com ela! O mundo vai acabar!", berrava enquanto os seguranças tentavam contê-lo e levá-lo embora do palco. Jô Soares, segurando sua caneca, soltou uma piadinha pra descontrair. "A marcha das raízes? Ainda bem que mandei cortar o pé de bananeira lá em casa." Turum tum pix.

Nos dias que se seguiram a situação só piorava. Plantas do mundo inteiro ganhavam vida e, puxando suas raízes fincadas ao solo, começavam uma longa jornada rumo ao coração da África. Cientistas tentavam explicar, "alguma coisa deve ter afetado as raízes, como a radiação!", dizia um pesquisador da USP, "o aquecimento global", dizia Al Gore, "os Venezuelanos", dizia um fanático no MASP que provavelmente confundia Vênus com Venezuela, sem saberem que a explicação correta já fora encontrada.

Aos poucos, milhares de pessoas acompanhavam a marcha. Subiam nas árvores e deixavam-se levar, como um transporte público transcontinental. Outras caminhavam ao seu lado, alimentando-se dos seus frutos e banhando-as com água. Quando perguntadas, a maioria nem sabia dizer por quê fazia isso, mas queriam ir também, junto com as palmeiras e os cipós e os capins e as araucárias que deixavam tudo pra trás e seguiam em direção ao seu destino. Muitas morriam no caminho, pessoas e árvores, se tornando marcas no solo assim que eram pisoteadas pelas que vinham atrás.


Os animais se dividiam mais que os humanos. Migravam pelo mundo inteiro, perdidos, em bando ou sozinhos, sem uma direção definida ou sequer uma razão. Chegavam a um ponto e simplesmente voltavam, recomeçando a jornada outra vez. As abelhas desapareceram completamente. Estradas se viam ocupadas por tamanduás e aeroportos atrasavam vôos porque o céu se cobria de andorinhas. Dois navios japoneses afundaram quando um grupo de baleias e golfinhos resolveram que a união faz a força e os viraram. Nenhum sobrevivente.

Por alguma razão, as plantas transgênicas não se moviam. Mantinham-se estáticas sob o sol, sem vida, sem futuro, assistindo suas primas naturais vagando livres. Uma bagunça surreal. Preços subiam e desciam, o poder econômico do Brasil nunca fora tão alto, tudo pelos milhares de hectares de alimento que agora podia negar ao mundo. Países da Europa formavam barricadas em suas fronteiras tentando impedir a marcha, sem sucesso. Uma bagunça.

Em muitos lugares a terra começava a desabar. Ia embora, com o vento, com a água, sem nada para segurá-la em seu devido lugar. Juntamente iam casas, plantações, bairros e cidades inteiras que afundavam na terra, expondo os lençóis freáticos que corriam sob o chão, enchendo os rios de dejetos e entulho.

Na West Chicago Road, próxima ao Lago Michigan, uma manada de bovinos se tornava tão grande que o tremor produzido por seus casos podia ser sentido a centenas de quilômetros, como um presságio da destruição eminente.

As montanhas de arenito do Elba, próximas ao Mar Vermelho, antes desoladas e  ferventes sob a potência do sol, agora se cobriam se um imenso mar de verde que se estendia por grande parte do território africano. O local nunca vira tanta biodiversidade desde a extinção dos dinossauros.

O Parque Nacional de Paramillo, situado no extremo norte da Cordilheira Ocidental, já mais se assemelhava a um deserto. Em uma mistura de laranja e amarelo, terra mexida e areia, só uma lembrança do que um dia fora. As famílias indígenas que moravam ali desapareceram, provavelmente montadas nas árvores que lhes abandonavam.

Situação não tão desesperadora quanto a da Ilha do Pico, que da noite pro dia se viu engolida pelo oceano atlântico. Pouco é visível da Montanha do Pico, que agora estende-se meros quinhentos metros acima do mar - não mais o suficiente para ser o "ponto mais alto de Portugal". Do arquipélago a que pertencia, só Açores manteve-se intacta, agora superpopulada.

A cidade de Dushak, Turcomenistão, sumiu do mapa após a passagem da marcha, assim como Sakakah, na  Arábia Saudita, e Aqaba, cidade da Jordânia. O rastro de destruição e folhas parecia acabar próximo a Kigali, no Ruanda, onde as árvores prostravam-se perante perante um único e majestoso Teixo, que se estendia milhares de metros acima das copas de seus fiéis servos, os quais morriam aos seus pés para servir de adubo a grande Árvore da Vida, o recomeçar do mundo.

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