Sonhou que era uma barata. Seu primeiro pensamento ao acordar foi em Kafka, como reagiria se visse o terror que sentira ao verificar que era um artrópode. Seu segundo pensamento tinha como assunto o despertador, que gritava e berrava como se ela tivesse que trabalhar ontem. Socou o botão do celular afim de pará-lo e não teve como conter a surpresa: estava três horas atrasada. Os próximos dez minutos foram um borrão que nem ela, nem a ciência conseguem explicar. Tomou banho, arrumou-se, fez uma boquinha e correu até o ponto de ônibus em velocidade recorde; cada tropeção, cada coisa que não estava em seu lugar, cada pessoa que demorava pra pagar a passagem pareciam adicionar uma eternidade a sua chegada tardia injustificável.
A Rebouças estava um caos. Nada se movia, nem carro, nem gente, tinha a impressão que mesmo o ar havia parado só de solidariedade àquelas pessoas. Já tinha problemas o suficiente em manter-se num emprego sem toda aquela gente tentando chegar no mesmo lugar. De pé, abraçava a bolsa com uma mão enquanto a outra apertava firmemente o celular, esperando a derradeira ligação. Cada solavanco do ônibus, num esforço para deslocar-se alguns metros, mandava uma corrente de eletricidade por seu corpo que lhe fazia acreditar que o celular havia tocado. Vibrado. SMS. Ligação. Nada. Desceu no segundo ponto da Avenida Paulista, como fazia todos os dias quatro ou cinco horas antes.
Já estava aos pés do edifício onde trabalhava quando ouviu o som da igreja; ou Maroon Five tocando no último volume. Atendeu o celular apreensiva.
- Alô, biscoita?
- Eu, eu mesma - já pensava em como pagaria suas contas. De volta ao InfoJobs pra ela.
- Err...você sabe que eu gosto muito de você e...
- Desembucha, homem - se sentia mal por ser fria com a única pessoa que lhe tratava bem naquele escritório, mas não aguentava o suspense.
- É que o chefe acredita que tem gente mais interessada...e pontual...eu tentei conversar, mas...
- Eu sei. Sei mesmo. Tudo bem. Eu estou aqui na frente, vou subir.
- Acho melhor você passar amanhã pra pegar suas coisas. Hoje tem uma visita importante e o chefe já está roxo sem ter que olhar pra você.
- É, faz sentido. Ei, obrigada - disse, desligando o celular antes mesmo que ele pudesse responder. Com lágrimas nos olhos continuou sua caminhada, sem destino ou direção, imaginando ir até onde alcançasse pra simplesmente deixar-se morrer lá.
Deteu-se a entrada do parque Trianon. Todos os dias passava por ali, seguindo seu rumo inabalado e decidido, precisava de seu ônibus, precisava ir pra casa. Nunca havia entrado, e quer saber? Foda-se. Entrou. O pequeno parque - pequeno em tamanho, extensão, volume de pessoas e de árvores, mas gigante em volume de aranhas - era até convidativo, com suas curvas e ninhos, casais e hipsters, seguranças e jovens que insistiam em se utilizar dos brinquedos - expressamente proibidos para maiores de 12 anos, pois a essa idade já perderam toda a magia e esperança e, se brincam no balanço, é só pra incomodar.
Caminhava distraída, pensava na vida, pensava em si mesma. Sentou-se num banco qualquer e observou ao redor, procurando qualquer coisa que a tirasse daquele estupor. Sentia-se cansada dessa rotina, de pular de subemprego a subemprego enquanto não conseguia realizar seus sonhos. Despenteou os cabelos. "Foda-se", pensava. Tirou o tênis, vestindo um par de meias que não combinava (entre si ou com o pacote completo da sua aparência) e deitou-se de barriga pra cima, mal se incomodando com a visão dos aracnídeos que domina o céu daquele lugar.
- Você sabe que só tem uns meses de vida, não é? - disse pra libélula dourada que pousou em seu umbigo. - Eu não sei o que faria se só tivesse uns meses de vida. Eu sei, eu sei, você vai falar que o tempo é ilusório, e que a vida é o que fazemos dela. Mas não é. Você não escolheu ser uma libélula, foi enganada pelo coiote e não minta pra mim, darias tudo pra voltar a ser dragão.
A libélula a encarava, mexendo suas asas devagar, concordava com a cabeça. Um homem de chapéu passou e viu aquela menina largada no banco. "Algumas se estragam de propósito", seguiu pensando. Morreu dois dias depois, de um atropelamento que em nada acrescenta a história, mas ele merecia!
- Tá, eu concordo, mas não consigo acreditar que tenho controle sobre a minha vida. Eu não tenho controle nem sobre o que eu como! Se eu quisesse comer fibras eu comprava alguma porcaria com fibras, não bolacha! - nesse ponto a libélula não a questionava, seu interesse nos hábitos alimentícios da menina variava entre o nada e o pouco nada.
Um casal de xadrez passou de mãos dadas. Combinavam dos pés da cabeça. Olharam a menina deitada que falava com o vento, sua voz mais cantada que enunciada, julgaram-na louca. Tão apaixonados, tão bonitos. Ele a traía, só porque podia. Ela há muito não o amava, gostava dos seus presentes. Se mereciam.
- Os dinossauros. Já parou pra pensar? O que é um dinossauro? Aliás, pulemos isso. Mas eles também não tiveram escolha. Eu não sei quando eu vou morrer, se um meteoro gigante vai cair na minha cabeça, nem se até lá eu vou ser mais feliz ou sei lá, vai que eu acordei mal no dia? E não me faça começar a falar de amor!
Uma cigana passou sem sequer olhar pros lados, caminhando apressada em direção ao MASP, mas sabia que a menina estava lá. Sabia também que ela não estava sozinha, mas quem está hoje em dia? Acendeu um cigarro e, no barulho de suas crepitações, ouviu um mal agouro. Abriu os olhos a tempo de evitar ser atingida por um carro que passava. Coincidência.
- Pura teimosia. Não tens ideia do que falas. Ilusões, sonhos, fuga da realidade. São necessários, dádivas dos deuses pra nos darem um tempo desse stress infernal. Cada um faz o que pode pra alcançar o máximo de felicidade possível, o resto são drogas. Acho que estão pulverizando os vegetais com Lítio, só assim pra explicar esse povo.
Não deu pra ver quem passou, mas essa pessoa, tomada de inspiração pelo perfume de lavanda que pousava ali, foi pra casa e vendeu tudo que tinha. Descobriu que, se abdicasse de alguns privilégios, poderia viver sem trabalhar por 30 anos só com o que juntou. Mudou-se pro interior, onde viveu uma vida feliz esculpindo insetos em madeira.
- Não sei, não sei mesmo. Acho que eu preferia voar, como você. Viver alguns meses, mas viver livre, feliz, dourada. Não preciso ser vista, não preciso ser linda, não preciso ser ninguém. Acho que no fim você estava certa, nós é que criamos nossos muros, nossas barreiras, nossas ilusões.
Um garoto sorriu a visão daquela linda menina jogada no banco, sem preocupações, os olhos fechados num transe contente. Queria cair aos pés dela, dizer que era linda, que já a amava sem nem mesmo conhecê-la. Não teve coragem e seguiu, contando quantos passos se afastava do amor da sua vida. Três, quatro, cinco, seis, cinco. Arrependeu-se.Virou-se. O banco vazio. Suspirou enquanto continuava seu caminho, parando só um pouquinho pra admirar o casal de libélulas douradas que dançava ali.
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Achei lindo. De verdade. Brotaram lágrimas nos cantos dos meus olhos e li a última frase com eles marejados, mal me deixando enxergar.
ResponderExcluirNão sei o porquê, mas imaginei essa menina sendo a Isobello.