21 de jul. de 2012

Feliz Aniversário

Assoprou as velas com toda força que tinha em seus pulmões. Todas as chamas tremularam, não eram realmente amantes da ventania, ameaçaram apagar-se mas logo retornaram. Malditas, fugiam como porquinhos escondendo-se na casinha de madeira. Mais força. Outra vez a desafiavam, escondiam-se na de tijolos. Não importava, soprou como um tufão, derrubando suas casas. "Feliz aniversário", cantou, cortando um pedaço de bolo pra si.

O número de velas coincidia com o número de cortes em seu braço, cobertos pela manga da camisa xadrez.  Sorriu pra seus pais, finalmente adulta, mas não sabia que tipo de adulta era. Ao menor sinal de que podia retirar-se o fez, preferia seu quarto. Deitou-se na cama sem acender a luz, não tinha sono algum mas não se achava digna dos feixes que a tocavam, nem aqui nem em lugar algum. Quem era ela pra gastar a luz do mundo?

Assistia o teto, pensando na faculdade no dia seguinte, só a presença daquelas pessoas lhe sugava a alma. As poucas em que confiava já pensava em evitar - os parabéns que propositalmente não recebera hoje, os abraços sem graça, os presentes que não queria (por quê alguém gastaria dinheiro com ela?), já se contentava em respirar.

Tocando o lado esquerdo do corpo, perguntava-se como tanto passa despercebido. Não era uma Miss, não pensava na paz mundial ou no fim da fome, só nas pessoas desconexas e olhares tortos. Tremia a visão de qualquer grupo de pessoas, imaginava que falavam dela, muitas vezes estava certa. Já tinha passado por tanto, gritava o lado esquerdo, por que ainda preciso ser julgada? Mutilava-se pra chamar a atenção de alguém, alguém lá em cima, que olhasse por entre os panos de suas camisas e blusas. Não queria que olhasse pra ela, mas que a visse apontando pra todos os outros que também se sentiam assim.

Talvez fosse pequena demais, desimportante demais. Talvez ninguém ouvisse seu chamado. Pegava o metrô vazio e não se sentava, não podia ocupar o lugar de ninguém. De ninguém. Não era ninguém. Em seus sonhos alguém a olhava e sorria, um sorriso verdadeiro e belo, sem deter-se em suas roupas e seu cabelo, o jeito que andava e como nunca ficava parada.

Só a via em sonho, sempre acompanhada de duas outras. Não as conhecia, mas sabia que a sua namorava um qualquer. Encontravam-se numa rua fria, pouco depois do pôr-do-sol. "Vem com a gente, me leva até a escola", ela cantava. Perdia-se por um momento, se recusava, precisava estar em casa logo. "Vem conversar com a gente", chamava. Não resistia, como poderia? As outras a odiavam, faziam de tudo pra desencaixá-la e deixar claro que era uma intrusa ali. A sua não percebia ou as ignorava. Corava se trocavam olhares.

De repente, como um castigo, uma chuva caía pesada. As duas arrastavam a sua, corriam pra escola, sem se despedir. Vestia o capuz e ia embora, caminhando sob as águas sem nunca olhar pra trás. Não aguentava. Não suportaria.

A sua, sabendo que a deixava, voltava pra buscá-la, procurando sem nunca enxergá-la. Maldita chuva que caía sobre seu rosto triste e fazia parecer que chorava. Escuro. Acabava o sonho, seu mundo acabava.

Em seu caderno escrevia em letras miúdas, que só ela conseguia ver, "só o amor pode salvar o mundo".

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