30 de set. de 2012

Sentado

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cinco, dez, quinze, quinze não. vinte e cinco. cinquenta. um real. pilha, pilhinha, três, uma, duas. contava o ouro ganhado estendendo as mãos aos céus e pedindo, pelo amor de deus que os abençoa e lhes dá o teto e a comida que colocam em suas mesas por favor, ó sombras teatrais que fingem não olhar quando olham e fingem não ter pena quando tem, e fingem não tem nada quando carregam e que doam pra ter motivos pra dizer amém quando se encerra o dia.

ó. máscaras mal encaixadas em espetos de pau. de sebo. que sorriem e pintam lágrimas em seus olhos corados de sol e de espelhos, quisera deus que vocês pudessem estar deixando aqui nessa esquina esquecida por todos os santos uma mísera e vã demonstração de que ainda se importam.

mas por quê se importariam se não conhecem minha história?

eu não teria que estar aqui sentado abraçando minhas pernas não fossem eles, eles que vieram das sombras e me arrancaram do conforto do lar. tinham dentes mal escovados e cheiravam a álcool, mas estávamos muito longe das escavadeiras de petróleo. muito, muito longe. mas eu senti o cheiro do oceano e o cheiro de seu bafo, e fui levado pras paredes cimentadas dum lugar muito baixo e ao mesmo tempo muito, muito alto.

lá em cima eu esqueci quem era. quis gritar.

quis dizer ao mundo que eu conseguia sozinho apesar de lá no fundo eu ter certeza de que não. mas é a areia que molda os seus pés, filhos, e se eu cresci foi porque a terra me alimentou com seus nutrientes espalhados pelo chão.

o que é um prato de comida pra quem já roeu cimento.

e é bebendo do que a chuva já lavou que você vai se tornando sombra, aprendendo a enxergar, falar e escutar como sombra. como os três macacos mais o tato que você ganha não porque deve, mas porque pode. e tateia até não poder mais. daí te levam, cheirando a álcool em seu bafo e de dente mal escovado e te tiram do conforto do seu lar.

ou eu estou me repetindo.

em algum cruzamento eu devo ter pego a curva errada. ou pior, peguei a viela, pensando que chegaria bem mais rápido do outro lado e acabei saindo onde não conhecia. acho que nunca encarei de verdade um mapa. daí eles vêm e te tiram do conforto do lar, eles, do álcool, dos dentes. eu, vocês, eles e elas. somos todos parte de um ciclo e se eu estou aqui, é porque vocês estão aí e vice-versa.

mas por quê se importariam.

enfiou as mãos nos bolsos e ficou mais um tempo parado encarando o mendigo que contava suas poucas moedas, sujo da cabeça aos pés, vestindo trapos que deixavam exposto tudo que tentavam cobrir. mal tinha dentes e quando tentava falar, grunhia. mas gostava de imaginar que lá dentro ainda funciona uma engrenagem e que se havia um problema, era de comunicação. girou nos próprios tornozelos e partiu, sem dar nenhuma moeda, afinal detinha todos os direitos daquela história.
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26 de set. de 2012

Palha

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Acho que era tarde quando topei com o homem. Grisalho, os olhos fundos como garrafas esverdeadas, tinha as bochechas secas e o pescoço flácido. Vestia um terno negro e caminhava com as mãos juntas, esfregando-as devagar. Olhava pra todas as casas e pra todos os rostos, sempre atento a menor movimentação, até mesmo do ar. Ali ninguém tinha um nome pra ele.

Duas vilas adiante, porém, lhe viam com outros olhos. Os mesmos, de medo e submissão, mas algo mais. Se atreviam. Alguns não ousavam respirar pra não sentir o cheiro acre dos seus passos. Baixavam as cabeças a visão de sua fronte enrugada e, depois que ele passava, contavam histórias sobre quem era aquele ser. Ali lhe davam nome. Ali era o Homem Sério.

Parou em frente a uma casinha humilde, pintada a uma mão de azul claro (provavelmente aguado), onde uma mãe tentava inutilmente colocar as crianças pra dentro. Alisou os bigodes desprovidos de cor  e sorriu, fazendo-as chorar baixinho. Voltou a sua expressão usual e, enfiando as mãos nos bolsos, pôs um sapato frente ao outro em direção ao escuro.

Eu não estava muito atrás. Tinha certeza que ele já sabia de minha presença há pelo menos um quilômetro, mas não deixaria de persegui-lo. Seus passos lentos me davam agonia e tenho certeza que os mantinha só pra provocar e ver-me sofrer atrás de si. Uma das crianças que brincava na terra com suas bolinhas de gude olhou pra mim desconfiada, como se eu não devesse estar fazendo o que estava fazendo.

Peste, tire os olhos de mim.

Meus olhos falavam mais que meus lábios, e a criança voltou aos assuntos que cabiam a ela. Mal sabia que sua própria mãe estava, na noite anterior, suplicando a Mãe Ana pra que eu a ajudasse. Era tarde e eu vasculhava as gavetas a procura dos restos de qualquer coisa que pudesse afastar o tédio, mesmo uma bituca de cigarro faria bem, quando recebi uma ligação.

Em cinco minutos percorri todo o trajeto, só percebendo minha aparência desagradável quando caíram sobre mim os olhares das duas, de espanto e dúvida da negra, de reprovação de Mãe Ana.

"Perdoe-o, sabe o que faz." Tive a impressão de já ter ouvido tais palavras. "Mas esquece que deve estar apresentável na frente de minhas clientes." Seu rosto fino e delicado de menina não combinava com a imponência e aura que possuía atrás de uma mesa e sob o odor de incensos espalhados pelos cantos mais improváveis da casa. Quase chutei um ao sentar.

Repeti o usual gesto de arranhar a bola falsa, que ela odiava, mas não comentou nada. A mulher ao seu lado vestia roupas tão surradas quanto as minhas, por isso me espantou o desgosto. Hipócrita. Suas mãos eram de lavadeira e tinha o corpo de quem já parira vezes demais. Os cabelos trançados eram descoloridos nas pontas, um trabalho mal feito por mãos destreinadas. Apertava a bolsa contra o peito e parecia tremer na cadeira.

Cruzei os braços e esperei.

"Vá em frente, Elaine."
"Eu..."

Já tinha aprendido a dar tempo ao tempo. Uma coisa era confiar em Ana, normalmente conhecida de longa data de suas clientes, apesar da aparência jovial. Já eram meses que meu celular só tocava pra atendê-la, e normalmente com histórias difíceis de contar.
Aquela era simples.

"Três, três...três ou quatro mês atrás...mudou pra vila, pra vila lá em cima, perto do morro, um homem muito velho...idoso, entende?. Digo, ele parecia idoso, mas era elétrico e vivia andando pra cima e pra baixo. Era simpático e fazia as crianças rir, então você entende que ele logo ganhou a simpatia de todoo mundo...Alguns...alguns mais que outros..."

Não me encarava mais e apertava os panos do vestido com seus dedos gordos. Se concentrava num ponto do chão num esforço pra não chorar.

"E então...ele entrou em nas casa da gente. Conheceu a gente e...ofereceu ajuda...disse que apesar das aparência era um homem moribundo, morrendo sabe, que gostava de ajudar as pessoas. Pagou tanta coisa, deus...brinquedos, roupas, perfumes...pras crianças, pras mulheres..."

"Pras mulheres solteiras." Concluí. Ela me olhou com uma expressão de culpa. "Não acuso ninguém." Se as pernas de Mãe Ana fossem mais longas, certeza que me chutaria. Deixei que a mulher continuasse sua história.

"Eu não sou fácil, ..."
Nesse momento travou.

"Pode me chamar de Caleb." Ana ainda não aprendera a disfarçar o riso a cada nome novo que eu apresentava.

"Caleb. Qualquer nome é nome hoje em dia. Mas não sou fácil, Caleb, e só aceitei as coisas que ele me oferecia pois dizia que não tinha filhas ou netas, parente algum na Terra, e não levaria dinheiro nenhum pro além vida." Limpou a garganta com uma tosse falsificada. "Tudo ia muito bem...as crianças viviam felizes e ele tomava café em casa, ou com a vizinha. Ou com a dona Lurdes também. A gente confiava tanto nele, tanto..."

"Um dia ele começou a levar as crianças lá pra cima, pra sua casa." Observando minha expressão, se corrigiu; "não é pra pensar besteira, sempre tinha uma mãe acompanhando...As crianças diziam que ele cuidava de cavalos e deixava que brincassem com eles, voltavam com as roupas cheias de palha. Mas aí começou os problemas..."

Aproximei mais o rosto com interesse.

"As mães, quando voltavam...não eram mais as mesma mãe. Euzinha nunca subi porque sou muito atarefada com todas as crianças e a casa, mas as que voltavam não  falavam muita coisa...só que tudo ia bem, que ele era um homem gentil. Ninguém duvidava, até que..."

"Até..."

"Até que ele começou a não ser gentil. Quando a gente cumprimentava ele não respondia...só encarava com seu rosto cada vez mais comido e magro. As crianças não gostavam mais dele, mas mesmo assim o seguiam, acompanhadas da mãe de uma ou de outra mais lá de cima. Quem sabe por que..."

Nesse momento não conteve um soluço.

"E sempre voltavam cada vez mais tristes...cada vez menos crianças...com um vazio na alma e no coração que a gente consegue ver nos olhos. Hoje, quando o velho passa, parece que a morte passou e levou a felicidade do lugar. O Homem Sério, elas falam..."

"Parece que a morte passou." Olhei pra Mãe Ana, deixando morrerem os braços ao lado do corpo. "O Inumano está fora de questão." Ela mudou seu semblante, que se mantinha neutro, pra profunda indignação. Baixou as mãos pálidas e juntou as unhas mal pintadas sobre a mesa. me olhando nos olhos com os seus, mais negros que qualquer buraco.

"É só um livro, Caleb." Bateu uma unha impaciente na mesa.
"Um livro que arruinou minha vida."
"Não há mais nada nele."
"Há memórias nele." Mantive firmeza, não queria tocá-lo.
"Onde está?"

Silêncio.

"Embaixo da minha cama. Da minha antiga cama." Na verdade estava enterrado no jardim.
"Você já voltou lá por menos." O que era uma verdade.
"Mas não irei por isso."
"Então vá sem. Mas avisado. É por sua conta e risco."
"Eu me viro sem ele."

Dizem que cada pessoa que um dia toca o desconhecido está destinada a um livro, e o Inumano foi o que caiu em minhas mãos. Presente da Cigana, que deixou bem claro que não sabia porque me dava, mas que acordou precisando se livrar daquela coisa e só eu poderia recebê-la.

Não existe autor em sua capa ou em qualquer página, e uma assinatura ilegível pode ser identificada ao fim da última folha. Escrito a mão, começa descrevendo uma inocente mistura entorpecente de sangue, ossos e ópio até um ritual de invocação pra Espíritos Aliados, tão úteis em seus desbravamentos junto com os antigos amigos. Só restavam quatro, contando com ele, de sete. Quatro de sete, dois anos, não tão mal.

Decidi não tocá-lo desde o Incidente na Casa Empoeirada, e era minha absoluta vontade manter tal promessa, mesmo que Mãe Ana me mandasse olhar nos olhos de um demônio.
Naquele dia, foi quase a mesma coisa.

Segui o Homem Sério até sua casa, que era a última do morro que dividia a vila baixa da alta - diferença que só era conhecida entre os moradores, experts em fazer divisões. Uma das mães me olhou com visível terror no olhar e subiu o morro correndo, agarrando meu casaco e jogando-se ao chão, implorando que eu não desse mais um passo.

Chutei-a.

Não conseguia ver vida em seus olhos e já começava a suspeitar o motivo.

Avancei atrás do homem malcheiroso e o vi entrar em sua casa, olhando fixamente em minha direção ao se virar pra trancar o portão. Deu meia volta e passou pela porta de madeira pintada, girando a maçaneta com as mãos finas e magras como ossos e correndo pra fechar as cortinas. Senti que era observado ao me aproximar e, numa ideia repentina, passei direto pela casa e fui direto ao estábulo.

Demorou um tempo até que percebesse o que eu fazia.

Disparou atrás de mim, trazendo em uma das mãos um fêmur dos mais limpos e gritava pra quem quisesse ouvir que eu jamais deveria abrir aquela porta, com seus dentes amarelos e imundos aparecendo por entre os fios de sua barba arenosa que cobria o buraco ressonante que chamava de boca. Uma sombra negra decrépita que me alcançava, enquanto eu tirava tábua que selava portal e entrava.

Devia tê-lo deixado fechado.

Lá dentro havia pelo menos quinze pessoas,cinco mulheres adultas e algumas incontáveis crianças. Se arrastavam, nuas e imundas, pelo chão do estábulo, ingerindo toda a palha que conseguiam até estufarem, parando de se mexer. Convulsionavam  no chão enlameado e suas pupilas, sem vida como as dos bonecos que os representavam lá embaixo, pareciam se abrir e fechar na esperança de que algo entrasse. Qualquer coisa. Mas ali, no topo do morro, só um homem vivia.

Virei-me a tempo de evitar o golpe que ele desferira ferozmente com o fêmur. Agarrei o osso pela cabeça e puxei de sua mão, sem esperar que ele reagisse enfiando os próprios dedos de agulha em meu rosto. Um entrou pela minha boca enquanto o polegar tentava pressionar meu olho esquerdo, e pude sentir o gosto salgado de seu suor. Caímos no chão e senti-me inútil por estar perdendo em uma luta física contra um velho.

Dei um jeito de acotovelar sua cara amassada e me levantei, correndo pelo estábulo em busca da marca que os trancava ali. Não foi difícil, pro número de pessoas ela devia ser consideravelmente visível, e empurrando os grandes cubos de palha seca encontrei, pintado na parede, o selamento que precisava destruir.

Me esqueci do Homem Sério e este me atacou com um pulo.

Tentava me golpear com o fêmur e tudo que eu conseguia fazer era proteger o rosto, a madeira quebrada sob minhas costas furava levemente minha pele e entrava em conflito armado com minhas costelas. Levei uma ossada bem batida na testa. Já tinha dado a luta como perdida quando, sem razão aparente, não mais fui golpeado por um osso lixado.

Abri os olhos e lá estavam os corpos cheios de palha, arrastando o corpo do homem pra dentro da floresta. Ele se debatia e gemia, gritando alguns encantamentos que tenho certeza de já ter ouvido falar, ou lido em algum lugar. Talvez no Inumano. Me levantei pra segui-los, mas percebi que era inútil: ele teria o que merecia nas mãos de quem mais podia julgar sua culpa.

Voltaria direto pra reportar à Mãe Ana tudo que ocorreu, mas a luzinha acesa da casa de Alice me seduziu. Bati três vezes na porta e o marido atendeu.

"Oi?"
"Alice, por favor."
"Da parte de quem?", perguntou desconfiando e levantando consideravelmente os ombros.
"Eu trabalho pra Mãe Ana."
Imediatamente abriu a porta e me deixou entrar. A mulher veio correndo da cozinha me receber, assim que soube quem visitava.
"Caleb, ainda bem que você está aqui! As crianças sumiram! Oito meninas e nove meninos, todos desapareceram, e umas mães..."
Caiu no choro.
"Eles...eles já não estavam entre nós há muito tempo."
"Então o homem?"
"Vivia deles. Empalhava-os."
Ela olhou pras próprias crianças, engolindo em seco. Tenho certeza que pensava na tristeza das famílias, quebradas após o desaparecimento das mães ou das crianças. Mas seu coração estava feliz por ter as suas ali. "Como? Por quê?"
Respirei fundo pra tentar explicar.
"A palha enfeitiçada entra, a alma sai. Ele se alimenta. Respira, vive. Mas fede a morte."
Ela olhava pra mim, ou além de mim. Precisei completar:
"As pessoas fazem cada coisa pra se agarrar a esse mundo...um dia eu encontrei uma mulher que pendurou o marido com pregos num pentagrama desenhado no teto. Todo dia de manhã bebia da goteira que..."

Me convidaram pra jantar, mas era tarde. Deixei a casa sem sensação alguma de dever cumprido. Se o coração dela estava feliz, o meu era pura palha.
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25 de set. de 2012

Nuvem

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Na frente da minha casa tinha um louco.

Não que ele ficasse exatamente em frente a minha casa, mas ele tinha maior apreço por aquela rua e passava boa parte dos seus dias ali. Não era hostil nem nada, não incomodava ninguém e as vezes até o cumprimentavam e o alimentavam. .

Talvez estivesse ali antes e não o percebi simplesmente por ser criança demais pra absorver a informação. Mas um dia, na minha inocência infantil, me aproximei dele pra conversar. Não consigo lembrar suas palavras, mas ouvi interessado até o som ser sobreposto pelos gritos de meu pai, que surtava mandando eu voltar pra casa.

Lá dentro deu uns tapas na minha mão e eu nem sabia o que tinha feito de errado. Disse que eu não devia falar com estranhos, ainda mais com loucos. "O que é um louco?", perguntei e disso me lembro claramente. "É uma pessoa que se perdeu, meu filho." Desde esse dia eu tive medo de soltá-lo um minuto sequer quando saíamos, pois poderia acabar virando um louco.

Em Santo Amaro então, agarrava sua mão como se quisesse prensá-la.

Foram anos até que eu interagisse com ele novamente. Eu já era moleque e corria pra todo lugar, sem existir pressa. Alguns dos meninos da rua gostavam de caçoar do cara, tirar sarro do seu cabelo-barba, suas roupas e situação. Quando os respondia era com longos monólogos que ninguém entendia. Eu até tentava refletir sobre suas palavras, mas as achava vazias. De qualquer modo, o respeitava o suficiente pra não tomar parte dos hábitos alheios e, se a brincadeira da vez era atormentar o louco, eu entrava pra jogar videogame.

Meu horário era diferente de todo mundo. Estudava de manhã e por isso tinha a tarde inteira livre, muitas vezes sem o que fazer até os outros chegarem. Curtia feliz o meu tédio, mas as vezes era demais e eu saía pra explorar os arredores, levando só meu tênis e a vontade de deixar a casa.

Talvez algo mais.

Era umas quatro da tarde e eu ainda trajava o uniforme da escola, tinha preguiça de tirá-lo. Vinha descendo a rua quando vi que uma das árvores tinha umas frutinhas alaranjadas que bem podiam ser laranjas, não era tão bom com frutas. Arrisquei uma escalada e peguei umas cinco, se ficassem boas voltaria pra pegar mais.

Desci, colocando as frutas nos bolsos da blusa quando, ao levantar meu queixo distraído, dei de cara com o rosto de um homem.

Tinha os cabelos e a barba num emaranhado só, com nós visíveis aqui e ali. As sobrancelhas eram grossas só pra acompanhar o resto do rosto. O que podia enxergar de suas bochechas estava coberto de cicatrizes, e o pescoço terminava num vermelho vivo incomum aquela pele. Os olhos eram claros como a grama que pisavam, e o encaravam lividamente como a mais sã das pessoas o encararia.

"Belas laranjas."
Eu tremi um pouco nas pernas. Ele vestia calças marrons que podiam já ter sido brancas, e uma camisa do Hard Rock Cafe que minha mãe não usaria de pano de chão. Mas belas laranjas, não tão louco.
"Sim. Quer uma?"
"Não, eu pego quando quero. Faz bem, a saúde, sabe. Corpo. Não dá pra comprar a amizade."
"É, vou fazer um suco."
"Suco, isso, suco. Você parece bem. Vivido. Sadio. Faz bem."
"Obrigado." Sorri e dei dois passos pra esquerda.
"Ei."
"Oi?" Virei só o pescoço na esperança de seguir caminho.
"Posso te contar uma história?"

Não sabia o que responder.
Por instinto já teria dito não logo em seguida, talvez não de forma tão brusca e grosseira. "Tenho que espremer essas laranjas!", diria, e seguiria caminho arrancando um sorriso dele também. Pelo menos era assim que tudo transcorria na minha cabeça, mas lá estava eu parado, encarando o louco nos olhos, sem resposta.

Caminhei pro lado dele e me sentei no chão.

Ele fez o mesmo, e começou a falar.

"Cara, faz bem. Laranjas. Mas deixa eu te contar. Eu nasci poeira."
"Poeira?"
"Sim, poeira. Nasci poeira e fui poeira durante muito, muito tempo. Até que um dia eu virei outra coisa, virei água."
"Água?" Minhas perguntas me incomodavam.
"Sim, água. Acompanha. Água corre, desce montanha, desce rio. Não se compra amizade e ninguém se perde sozinho, só muda de casa. Mas o que importa é a água, que desceu e virou outra coisa. Eu virei. Virei vegetal."
Ele ficou esperando, os olhos cor de vegetal me encarando como se esperasse a óbvia pergunta. Vendo que eu não cedia, continuou.
"Isso, vegetal. Eu era um repolho, dos mais bonitos e promissores dos repolhos, até que um dia splash. Fui pisado. Virei animal."
Levantei as sobrancelhas.
"Animal. Sobrevivente, na floresta, primeiro pequeno depois grande. Cada caminho que você percorre, deixou pra trás outros trinta que podia ter percorrido e não deixa isso afetar seu dia a dia, deixa? Mas animal eu era, e os vegetais eram meus amigos porque sabiam que um dia eu já tinha sido vegetal. Aí um dia..."
"Um dia você virou homem."
Ele me olhou com espanto em cada músculo da face, abrindo e fechando a boca sem pronunciar som algum.
"N-n-n-n-n-ããaãããao."
"Não?"
"Claro que não. Aí eu virei máquina."
"Máquina?"
Ele riu e eu percebi que fazia de novo.
"Isso, máquina" continuou, ainda rindo, "ah, como era bom ser máquina! Inocentes somos, somos tolos, achando que viemos primeiro e que as construímos. Você já viu, você já viu uma árvore virar um chip? Ha hah ha ha ha, você já? Ninguém sabe onde elas nascem, só as montamos na maternidade. E elas montam a gente."
"As máquinas fazem a gente?"
"As máquinas fazem tudo."
Virou pra frente e eu acompanhei o gesto. Ficamos acompanhando um carro passar, era um Gol, pelo menos estava escrito. Gostei dali, de ficar em silêncio observando o veículo, girando uma laranja nas mãos e sentindo o vento do lado do rosto. Quase não me lembrava da história.

"Aí as maquinas me refizeram. Me refizeram homem. Eu era homem e não me sentia homem, queria ser algo mais. Quero ser algo mais."
"E o que você quer ser?"
"Eu quero ser nuvem. Fazer nublar esse lugar todo, e depois chover."

O sol estava se pondo e as poucas nuvens no céu daquele verão intenso se tingiam de um vermelho azulado, como as telas que encontrava nos livros da escola. Falamos mais um pouco, mas acho que só sobre laranjas.

Nos dias que se seguiram cheguei a procurá-lo, mas não o encontrei. Toda tarde saía pra caminhar e pegava laranjas no caminho, sentava um pouco à sombra da árvore e voltava desanimado pra casa. Nunca mais o vi.

No quinto dia soquei o despertador e não me movi da cama, a escola não mudaria de lugar até amanhã. Só me levantei quando a claridade, mais fraca que o normal, já atingia meus olhos. Os ouvidos eram poluídos de um úmido barulho de goteira.

Acordei tão rápido que minha mãe se assustou quando passei pela cozinha. Corri até a rua com as roupas que dormi e nem pensei em calçar meus chinelos. Voei do portão pra rua e imaginei que nadava na cachoeira que o céu derramava, pulando em todas as poças que encontrava em meu caminho.

A cabeça do meu pai apareceu no portão e começou a berrar.
"Menino! Sai da chuva! Enlouqueceu?!"
E, parando um segundo pra respirar e retomar o fôlego, respondi:
"Enlouqueci, pai. Enlouqueci."
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22 de set. de 2012

Cobalto

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Naquele dia eu estava uma pilha de lixo e panos velhos. Após a última recaída, vaguei pelas ruas durante dias, sob efeito de alguma coisa estranha, muito cinza e muito roxa, vendida perto do cemitério.
"Você tem uma tatuagem?" A pergunta era válida, admiti respondê-la.
"Tenho. É uma foice, no peito."
"Misture com água e passe sobre ela."
"Só isso?"
"Só."
Dei um adeus agradecido e desconfiado ao homem cujas feições nem hipnose me fariam lembrar, tamanho foi o efeito de suas instruções e do óleo farelento. Acho que eu devia ter posto mais água. Visões e devaneios não são importantes de serem relatados ao menos que signifiquem algo, portanto registro que os esqueci.

Meu reflexo na janela me assustava. Estava muito magro e a cabeça era pura barba, como uma vassoura ao contrário. Os cabelos, castanho claros, avermelhados como se os sol os queimasse, haviam crescido um pouco desde a última vez que vi minha própria imagem.

As roupas eram todas emprestadas por tempo indeterminado, por sorte pretas. E eu não costumava me sujar muito, mesmo passando dias vagando pelo Lapa. Até teria um aspecto respeitável, não fosse a barba.

Fiz a barba.
Pedi uns trocados no farol e comprei um barbeador, quase me cortando no banheiro do terminal quando o celular em meu bolso tocou, fazendo minha perna vibrar. Acho que a única prova de eu não ser só um retardado suicida é esse celular, do qual não corto vínculos por dinheiro algum.

Fui chamado à casa de Mãe Ana e passei trinta ou trinta e três minutos em sua cozinha, lendo qualquer coisa que achei jogada ao entrar. Passei direto pelo corredor ao ver que estava acompanhada, na certeza de que me convidaria quando pudesse. O fez e entrei.

Era estranho olhá-la nos olhos após tanto tempo só ouvindo a sua voz. "Sente-se", disse com a voz áspera de bruxa mística, que só usava sob baixa iluminação. A mulher ao seu lado aparentava uns trinta e poucos, de longos cabelos loiros escorridos até quase a cintura. Era feia e já aparentava o desgaste do tempo, típico das que perdem a esperança muito novas e se deixam destruir.

Não era comum que Mãe Ana instruísse suas clientes a se sentarem ao seu lado, por isso estranhei a proximidade das duas. Puxei a cadeira oposta a elas, arranhando com a unha a pequena bola de cristal no centro da mesa. "Você guardou a verdadeira de novo?" Ela me olhou por cima dos óculos, endireitando-os em seguida. "Ladrões, agora ao que interessa." Coloquei os cotovelos sobre a mesa e fiz cara de quem queria ouvir.

"Alice, se você puder repetir a ele o que me contou, por favor." Tinha um leve sorriso confiante no rosto e lançava as mãos na minha direção. "Ele é só um garoto", protestou a mulher. "Sabe o que faz", respondeu, perdendo o sorriso e assumindo uma feição mais severa. Eu adorava quando ela fazia isso.

"Eu não..." ela começou incerta, mas logo desatou a falar; "...eu não sei exatamente quando isso começou. Eu pensei que fosse Alzheimer, sei lá."
"Comece do começo. Eu não sei quem tem Alzheimer."
"Minha mãe. E eu não sei se ela tem, ela só...dias atrás eu comecei a reparar que sempre que eu saía pra trabalhar ela já estava de pé. Ela é uma senhora de idade, sabe? Tem quase sessenta anos."
"Sessenta?"
"59"
"Continue."
"Então...desde que minha avó morreu, a filha dela, Andréia, minha mãe, não foi a mesma pessoa. Eu sei que os idosos são assim mesmo, eles acordam cedo e dormem cedo, mas ela era uma mulher tão ativa e de bem com a vida. Hoje eu saio e ela está...fazendo crochê...ela nunca fez crochê!"
"Crochê?" Olhei com dúvida pra Mãe Ana, que riu disfarçada. Adorava minha ignorância.
"É tipo tricô. Com uma agulha só e barbante."
"Entendi. Continue."
"É...então...eu chego do trabalho tarde, sabe? Eles estão com poucos funcionários e...eu saio cedo de manhã, então tomo banho e durmo. Só que ela também está fazendo crochê. Pergunto se ela vai dormir, e ela responde que logo...só que há dias eu não a vejo dormindo. As vezes chamei seu nome, sem sucesso, sem resposta...nem mesmo um aceno. Depois acorda e diz que já vai, que precisa terminar o crochê..."
"E nunca termina."
"Nunca..."
"Você pensou em levá-la prum hospital, sei lá?" Mãe Ana não gostou dessa pergunta. Alice me olhou triste.
"Eu iria...eu juro que eu iria, mas no trabalho eles... eles..."
Desatou a chorar e não me disse mais nada de útil por algum tempo, durante o qual pedi a Mãe Ana que me desse licença. Fui até a cozinha e trouxe um pouco de água com açúcar, que Alice ingeriu sem delongas.
"Hoje...hoje eu cheguei e..."
Soluçou mais algum tempo, procurei moscas nos cantos da sala enquanto esperava.
"Hoje eu cheguei..." continuou de súbito, me dando um leve susto "...e ela estava..."

Sua voz ia ficando mais triste e seus olhos mais virados pra dentro, como se fechassem. Jurava que ela estava lá de novo, enfrentando o horror que vira. "Havia crochê por toda a parte...nas paredes e...no chão, no teto, cobria as janelas...e nos cantos...um de cada lado..."
Desatou a chorar e tinha certeza que não pararia jamais.

"Ela não foi a polícia, entende? É sua avó, e ela sabe que ela jamais faria algo assim. Os homens...Alice, vá pra cozinha por um minuto por favor. Os homens ela não sabe se estão mortos, um parecia se mexer um pouco, mas ambos estavam amarrados e pendurados à parede...como moscas."
"Posso me ausentar por um instante?"
"De todo modo."

Minha viagem não durou muito. Com manha, arrombei  a janela do meu antigo quarto (há muito não era bem vindo em casa) e peguei um dos livros escondidos no cesto, embaixo dos cadernos e livros didáticos do colégio (que devia ter devolvido e esqueci).

Voltei a casa com o livro em mãos e mostrei a página em questão pra Mãe Ana, ao passo que ela chamou Alice de volta. Estava soluçando na cozinha até agora e nem notara minha ausência, a qual a mística não fez questão de noticiar, não era do tipo que gostava de choro.

Fechei o livro ao vê-la passar pela porta, sou ciumento com algumas de minhas coisas. "Alice..." comecei, procurando com o olhar a aprovação da Mãe. Ela confirmou com um aceno de cabeça e prossegui "...sua mãe teve contato com alguma aranha ultimamente?"

"Tá brincando?" Não resisti a brincar com o espanto.
"Havia homens pendurados na sua parede minha senhora. Responda a pergunta."
"Perdão...não, não...minha avó tinha aranhas de estimação, mas eu as odiava tanto que as guardou em seu quarto. Minha mãe conhece e compartilha do meu pavor. Você pensa que ela foi...picada?" Tento descrever seus olhos como um misto de dúvida genuína e incredulidade total.
"Não. Preciso ir a sua casa, o mais cedo possível." Deixei o livro sob a mesa pra que Mãe Ana o guardasse até meu retorno.

O sobrado onde morava era humilde e vencido pela chuva, a tinta desgastada sugeria que há muito não vivia um homem ali. Garoava de leve. Ela abriu a fechadura e se afastou, obviamente não queria entrar. Girei a maçaneta e empurrei a pesada porta de aço, fechando-a atrás de mim. Acendi a luz e me deparei com a senhora Andréia no centro da sala, sentada numa larga poltrona de couro reclinável, na frente da televisão nova que pouco aparecia sob os fios que corriam sobre ela.

Tudo estava coberto do mesmo branco, que se sujava em algumas partes e adquiria um acinzentado fosco. Nos cantos mais afastados da sala, quase emoldurando a televisão, dois corpos eram sustentados uns bons quarenta centímetros acima do chão, as cabeças pendendo em direção à barriga, o que só adivinhava pelos volumes de linha.

Abriu a porta novamente e colocou a cabeça pra fora.
"Ei, Alice. Qual seu sobrenome mesmo?"
"Camargo. Alice Camargo."
"De mãe?"
"Sim, claro."
"Agradeço."

Voltei pra sala e chamei pela velha.
"Senhora Camargo. Ei, senhora Camargo."
Ela tecia.
"Senhora Camargo, eu gostaria de saber se a senhora tem um bicho de estimação."

Não sei dizer o que aconteceu em seguida, só posso especular.Algum barbante deve ter enroscado e puxado meu pé, de modo que caí pra trás e bati fortemente a cabeça no chão. Alguém poderia ter me golpeado ou qualquer coisa, mas essa é a explicação que encontrei pra ter acordado pendurado no terceiro dos quatro cantos do recinto.

A velha tecia e as linhas iam se tornando cada vez mais presentes e fortemente agarradas ao meu corpo. A cabeça ainda estava livre, então tentei dialogar novamente.

"Ei, senhora Camargo. SENHORA CAMARGO!", gritei, finalmente. Ela se virou como se eu tivesse sido o mais gentil dos garotos.
"Posso ajudá-lo, jovem?"
"Eu estou com sede. Gostaria de alguma coisa pra beber."
"Na cozinha jovem," respondeu educada, "no armário da pia. Pode pegar um copo, tem água na geladeira." Esperei, mas ela voltou a tricotar.
"Senhora Camargo. Se-nho-ra-ca-mar-go. SENHORA!"
"Sim, meu jovem. Pegou sua água?"
"Não, talvez a senhora pudesse pegar pra mim."
"Estou ocupada fazendo crochê, filho, mas juro que ao terminar faço isso pra você!" Deu uma risadinha boba de idosa e voltou a tarefa infinita.

Bufou.

"SENHORA!"
"Diga, meu filho." Sua calma já me dava nos nervos.
"Eu gostaria, MUITO de saber se a SENHORA tem um BICHO DE ESTIMAÇÃO, ENTENDEU?"
"Tenho sim, jovem, um cão muito bonito. O nome dele é Murphy, pode brincar com ele, é bonzinho!" Já ia se virar pro crochê, mas eu não deixaria,.as linhas já esmagavam minhas bolas.

"NÃO. NÃO NÃO NÃO. UMA ARANHA, TEM QUE SER UMA ARANHA!"
"Eu não tenho aranhas filho!" Respondeu assustada, os olhos arregalados fixos na televisão. "Alice não gosta de aranhas!"
"CHEGA! EU SEI QUE A SENHORA TEM UMA ARANHA AZUL, AGORA ME FALA ONDE ELA TÁ PRA GENTE ACABAR LOGO COM ISSO!"
A mão que eu vinha tentando soltar estava quase livre, a velha não respondeu nada. Olhou pro quarto com profunda lamentação no olhar e voltou a tecer.
"Eu vou queimar essa vagabunda."

Finalmente me livrei do crochê, usando a mão livre pra alcançar um prego. Quando vi, o retrato que eu havia derrubado pra alcançar o instrumento era da avó, a visivelmente severa Linda Camargo. Tinha no ombro um cefalotórax e um abdômen esbranquiçados que acoplavam quatro pares de patas cor de cobalto. Um belo exemplar.

Chutei a porta do quarto sem necessidade, já que estava aberta. Tirei todas as gavetas e quadros do lugar, jogando-as na sala na esperança de que esvaziando tudo eu encontraria a bendita. Levantei o colchão e procurei entre as fronhas e lençóis, sem sucesso.
Até que eu me fiz a pergunta imbecil que devia ter feito desde o começo.
"Da onde vem todo o barbante?"

Corri até a sala e penso que talvez a besta tenha me sentido, pois a velha olhou desesperada em minha direção. Retirei de seu colo o cone e, sem pensar duas vezes, corri pra cozinha e o atirei no forno, acendendo-o com os fósforos sob a pia. Através do vidro podia ver, caminhando calmamente como se aceitasse seu trágico fim, a bela aranha azul em sua última, quente e úmida morada.

Alice não sabia de quem eram aqueles corpos. Provavelmente homens que a senhora Camargo chamara pra ajudá-la em algo e que, generosamente, adentraram a casa sem saber o que encontrariam. Mãe Ana deu um jeito de se livrar dos corpos na surdina e, pra minha surpresa, me ofereceu um emprego. "Consegue fazer isso?"
"O que?"
"Isso. Resolver as coisas."
"Consigo. Acho que consigo."

Cheguei a visitar a Senhora Camargo meses depois. Não havia se recuperado totalmente, as vezes ainda murmurava sozinha alguma coisa sobre cobalto e sua mãe, a doce Linda. Alice me agradeceu com os olhos cheios de lágrimas. Saí da casa sem deixar de ouvir, de canto de ouvido, "você fez o que pôde." 

Ingrata, que virasse comida de aranha. 

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