31 de jul. de 2012

Num Parquinho Qualquer

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O banco da praça era o lugar mais confortável do mundo. Podia sentar-se como queria, deitar-se se tivesse vontade, sempre com o jornal e um bom livro em mãos e alguma coisa pra beber. Chá, café, refrigerante, dependendo do clima e do livro, ou de seus ossos cansados. Gostava dessa vida, de ler sob o sol, olhando as outras pessoas passarem. Gostava de adivinhar sua história, o seu destino, julgá-las pelas roupas e pelo que carregavam - mas não de maneira ruim, mal olhado nunca!, só gostava de criar histórias.

O barulho das crianças ao fundo lhe confortava os ouvidos, e abstraía as conversas fúteis enquanto recitava mentalmente os seus romances. Lia um sobre um assassino que matava assassinos, e sempre que via alguém mais suspeito, com uma boina que não combinava com seu rosto ou um casaco grande demais pro seu fino corpo, levantava uma sobrancelha e observava, imaginando que vinha da cena do crime e se dirigia ao esconderijo. Uma semana durou o livro, uma semana duraram os homens gatunos, que olhavam pros lados sem mexer a cabeça e, como se possuíssem um retrovisor ou um olho em sua nuca, aceleravam o passo ao serem seguidos.

Na outra já lia um livro de crônicas que achou jogado num dos cantos do quarto. E ria do homem de paletó que pisava na poça, pensando em como aquilo poderia ser uma crítica a sociedade, acompanhada de um desenho cartunesco dum homem que pisa na água dos pombos e reclama. "Pelo menos você não vai ter que beber!", respondem eles. Haha, refletia exatamente o mundo. Terminou o livro rapidamente, atento as situações mais banais e absorto em seus próprios escritos mentais.

Cruzou as pernas e virou a página, trouxera consigo de casa um livro de sua mãe, um tal de "O Amor Venceu". Já torceu o nariz à capa feia, mas o pegou mesmo assim, a curiosidade era maior que o preconceito. A história confusa, entediante e cheia e enfeites literários só agradáveis aos olhos de uma leitora de banca de jornal lhe dava nos nervos, a única coisa lhe impedindo de arremessar o livro na pequena fonte sendo o casal que começou a notar.

Ele sempre calçava chinelos e tinha no rosto as sobrancelhas levantadas de quem não trabalha (reconhecia a própria feição no garoto). Ela levava na cabeça uma tiara cor-de-rosa que removia pra sacudir os cabelos, cobrindo o rosto esbranquiçado  Estavam ali toda terça-feira, desde o cantar dos pássaros no café da manhã até os sussurros contidos dos namorados ao cair da noite.

Deduzia que não tinham idade pra beber. Jogavam-se no banco, revezando quem deitava sobre o colo do outro, trocando olharem e sorrisos enquanto conversavam e faziam graça. Um mimo. Tinha saudade disso em seus relacionamentos, daquele brilho no olhar, de não relaxar os músculos da face um segundo sequer. Caretas, mordidas, gritos, nunca estavam quietos. Odiava o livro por não entretê-lo, era obrigado a assisti-los com mais interesse do que pretendia.

- Que crianças barulhentas, - disse baixinho a tiara cor-de-rosa - Aposto que não tem mãe, se fosse minha já tinha levado uma na cara.
- Fala isso porque sua mãe é louca , - respondeu rindo. - Acho que ela quer me matar.
- Exagero, ela só odeia seus chinelos. Lembro que ela costumava me trazer aqui.
- Aqui?
- É, a gente morava duas ruas pra baixo. Eu costumava brincar naquele gira gira, ela me empurrava e eu gritava, abria os braços, já até girei de pé. Estranho né?
- O quê?
- Como as coisas mudam...A minha escola ficava logo ali, e sempre passávamos pela praça a caminho de casa. E eu sempre girava. Era tão fácil...sem esforço, parecia que giraria pra sempre.
Ele limpava os óculos na camisa e por um momento nem percebeu que ela levantava, sacudindo a poeira da calça enquanto se aproximava do gira gira. Tocou-o, admirando suas cores, o contraste daquele amarelo desgastado pela chuva e pelo sol com o vermelho enferrujado da base do brinquedo. Pegou impulso e empurrou a roda, sentando-se rapidamente e estendendo a cabeça pra trás, sem notar a tiara que voava de sua cabeça. Fechou os olhos e girou mais vezes do que imaginou possível, dada a força que colocara no empurrão. Quando o brinquedo finalmente parou, abriu os olhos e sorriu sem surpresa ao ver o rosto cansado do namorado, que arfava com as mãos nos joelhos pelo cansaço e pelo sedentarismo.. Ela continuou, como se nunca tivesse pausado:
- Daí eu cresci. Comecei a ir pra casa sozinha. Um dia eu estava triste, chorando, nem lembro por quê. Alguma menina deve ter sido má comigo na escola, não importa. Mas eu vim correndo e vi esse gira-gira... E empurrei, empurrei o máximo que podia...e enquanto ele girava eu era feliz. Mas meus pés cansavam e por mais que ele girasse, eu sabia que um dia acabaria...eu teria que voltar pra realidade, colocá-los no chão outra vez...
Nenhum deles falou por um instante. Sentia-se num filme, enquadrando a cena, escolhendo os sons...o vento passava quieto, só mexia as folhas sem denunciar sua presença; as crianças brincavam em silêncio, estavam distraídas com algum achado que uma delas dizia ser um tesouro. As mães cochichavam fofocas. Ele lia.
- Você precisa de movimento perpétuo, - respondeu.
- Movimento perpétuo?
- É, de alguma coisa que te mova pra sempre, sem gastar a energia do sistema. É contra as leis da física, mas a gente arranja.
- Nerd. E onde você vai arranjar isso?
Sem responder nada, descalçou os chinelos e voltou a empurrar a roda.

Ao cair da noite as luzes da praça se iluminavam, percebeu que ainda podia ler tranquilamente. O cenário parecia mais aconchegante a pouca luz, com a primavera anunciando sua chegada em flores de cores escuras recortadas sobre a sombra das árvores, pétalas na água da fonte brincavam como barquinhos que se batiam e rodopiavam a comando do vento.


Um observador mais atento poderia dizer que prolongava o livro só para continuar a observá-los. Que tinha na cabeça a ideia de que o que lia afetava sua visão da realidade, temendo assim, ao final do livro, perder as conversas e as brincadeiras de seus melhores amigos que não o conheciam. Justificava aos pombos de olhar perfurante, que o julgavam, "maldito livro insuportável! história ridícula, cena ridícula!", mas já lera livros ruins antes.


- Ainda tem coca?
- Acabou amor.
- Droga. E que história é essa de amor, tá apaixonada? - A menina corou de imediato, podia ver dali, a lua lhe iluminava o rosto.
- Foi só um momento, não pode? - respondeu virando o rosto.
- Não de terça feira.
- Não sabia que tinha dia pra isso.
- Tem. Tem dia pra tudo. Dia do Índio, Dia da Árvore, Dia do Amigo.
- Dia do Orgasmo.
- Dia do Funcionário Público.
- E qual é meu dia?
- Quarta-feira.
- Essa ou toda quarta-feira?
- Toda. Acho que é o jeito que você me olha de quarta, o jeito que anda...terei que vê-la amanhã.

Não conseguiu ouvir o resto da conversa, uma mulher sentada ao seu lado falava alto ao celular, jurava que naquele tom o interlocutor podia ouvi-la de qualquer lugar do mundo sem precisar do aparelho. Enfiou a cara no livro e tentou se distrair. Quando deu por si já tinham ido embora outra vez, sem se despedir. Naquela noite terminou o livro, por um segundo distraído pelo barulho de uma freada brusca, logo no clímax. Mas não importava, o final já era ruim sem ajuda externa.

Na outra terça feira tinha feito uma pesquisa de campo. Pergunta a amigos próximos de confiança se alguém conhecia uma boa história de amor escrita. Recebeu respostas negativas em maioria, ouvindo as sinopses de um ou outro que balançava com a cabeça em recusa. Por fim, como recomendação de uma amiga, trouxe Razão e Sentimento da Jane Austen.

O dia inteiro esperou por eles, reparando em casais que vinham de mãos dadas e conversavam baixo ou alto, riam ou choravam (e algumas vezes discutiam bobagens), sempre apressados, sempre saindo de um lugar e se dirigindo a outro. Não tinham o mesmo clima, a mesma liberdade e paz que aquele casal demonstrava. Caiu a noite, vieram outros, que se tocavam no escuro murmurando palavras em sussurros só pros seus parceiros. De vez em quando se ouvia um gemido mais alto, um grito, um perturbo, que sumia entre os sons das árvores e da cidade.

Os casais iam embora e só sobrava ele naquele praça. Todo dia lia, toda terça esperava. Ansiava, até. E nada. Terminou o livro e terminaram suas esperanças, voltando a encher sua coleção. Em suas mãos tinha um Sherlock Holmes, era apaixonado pelos livros na adolescência e sentia certa nostalgia em reler aquelas histórias. Olhava pros sapatos sujos de terra do homem alto e deduzia que vinha de uma construção ali perto...

Numa quarta-feira qualquer, lia uma história de fantasmas. Nunca fora apaixonado por suspense, mas esse era tão bem escrito que lhe envolvia a ponto de perder a hora de ir pra casa. Os casais já tinham ido embora e logo os ônibus acabariam, então resolveu que só terminaria aquele capítulo. Na praça vazia, ouviu um som metálico vindo do parquinho, acompanhado do que pareciam ser risos. Levantou os olhos curioso e não viu nada, convencendo-se de que era coisa de sua cabeça.

Sentia frio, até tremia um pouco, seu banco de leitura parecia mais escuro que o habitual. Talvez fosse o livro. Novamente ouviu vozes, um riso e uma conversa, levantou os olhos depressa e por um momento sentiu seu coração parar. O gira gira se movimentava, ora sozinho, ora empurrado por um menino descalço que nunca tirava os olhos da menina de tiara que sorria pra ele. Respirou fundo, fechou o livro e foi pra casa. Já tinha o final que queria.
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24 de jul. de 2012

A Marcha das Raízes

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Nada se sustenta num terreno sem raízes. Ainda mais quando essas começam a andar. Foi essa estranha visão que abalou os moradores daquela cidadezinha no interior de São Paulo, de onde saiu Julio, que virou notícia na televisão durante a semana. "A marcha das raízes começou!", gritava enquanto segurava um dos microfones da banda do Jô, "Íguidrasil está vindo, e todos nós vamos junto com ela! O mundo vai acabar!", berrava enquanto os seguranças tentavam contê-lo e levá-lo embora do palco. Jô Soares, segurando sua caneca, soltou uma piadinha pra descontrair. "A marcha das raízes? Ainda bem que mandei cortar o pé de bananeira lá em casa." Turum tum pix.

Nos dias que se seguiram a situação só piorava. Plantas do mundo inteiro ganhavam vida e, puxando suas raízes fincadas ao solo, começavam uma longa jornada rumo ao coração da África. Cientistas tentavam explicar, "alguma coisa deve ter afetado as raízes, como a radiação!", dizia um pesquisador da USP, "o aquecimento global", dizia Al Gore, "os Venezuelanos", dizia um fanático no MASP que provavelmente confundia Vênus com Venezuela, sem saberem que a explicação correta já fora encontrada.

Aos poucos, milhares de pessoas acompanhavam a marcha. Subiam nas árvores e deixavam-se levar, como um transporte público transcontinental. Outras caminhavam ao seu lado, alimentando-se dos seus frutos e banhando-as com água. Quando perguntadas, a maioria nem sabia dizer por quê fazia isso, mas queriam ir também, junto com as palmeiras e os cipós e os capins e as araucárias que deixavam tudo pra trás e seguiam em direção ao seu destino. Muitas morriam no caminho, pessoas e árvores, se tornando marcas no solo assim que eram pisoteadas pelas que vinham atrás.


Os animais se dividiam mais que os humanos. Migravam pelo mundo inteiro, perdidos, em bando ou sozinhos, sem uma direção definida ou sequer uma razão. Chegavam a um ponto e simplesmente voltavam, recomeçando a jornada outra vez. As abelhas desapareceram completamente. Estradas se viam ocupadas por tamanduás e aeroportos atrasavam vôos porque o céu se cobria de andorinhas. Dois navios japoneses afundaram quando um grupo de baleias e golfinhos resolveram que a união faz a força e os viraram. Nenhum sobrevivente.

Por alguma razão, as plantas transgênicas não se moviam. Mantinham-se estáticas sob o sol, sem vida, sem futuro, assistindo suas primas naturais vagando livres. Uma bagunça surreal. Preços subiam e desciam, o poder econômico do Brasil nunca fora tão alto, tudo pelos milhares de hectares de alimento que agora podia negar ao mundo. Países da Europa formavam barricadas em suas fronteiras tentando impedir a marcha, sem sucesso. Uma bagunça.

Em muitos lugares a terra começava a desabar. Ia embora, com o vento, com a água, sem nada para segurá-la em seu devido lugar. Juntamente iam casas, plantações, bairros e cidades inteiras que afundavam na terra, expondo os lençóis freáticos que corriam sob o chão, enchendo os rios de dejetos e entulho.

Na West Chicago Road, próxima ao Lago Michigan, uma manada de bovinos se tornava tão grande que o tremor produzido por seus casos podia ser sentido a centenas de quilômetros, como um presságio da destruição eminente.

As montanhas de arenito do Elba, próximas ao Mar Vermelho, antes desoladas e  ferventes sob a potência do sol, agora se cobriam se um imenso mar de verde que se estendia por grande parte do território africano. O local nunca vira tanta biodiversidade desde a extinção dos dinossauros.

O Parque Nacional de Paramillo, situado no extremo norte da Cordilheira Ocidental, já mais se assemelhava a um deserto. Em uma mistura de laranja e amarelo, terra mexida e areia, só uma lembrança do que um dia fora. As famílias indígenas que moravam ali desapareceram, provavelmente montadas nas árvores que lhes abandonavam.

Situação não tão desesperadora quanto a da Ilha do Pico, que da noite pro dia se viu engolida pelo oceano atlântico. Pouco é visível da Montanha do Pico, que agora estende-se meros quinhentos metros acima do mar - não mais o suficiente para ser o "ponto mais alto de Portugal". Do arquipélago a que pertencia, só Açores manteve-se intacta, agora superpopulada.

A cidade de Dushak, Turcomenistão, sumiu do mapa após a passagem da marcha, assim como Sakakah, na  Arábia Saudita, e Aqaba, cidade da Jordânia. O rastro de destruição e folhas parecia acabar próximo a Kigali, no Ruanda, onde as árvores prostravam-se perante perante um único e majestoso Teixo, que se estendia milhares de metros acima das copas de seus fiéis servos, os quais morriam aos seus pés para servir de adubo a grande Árvore da Vida, o recomeçar do mundo.
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23 de jul. de 2012

O Livro de Orações

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É claro que organizaria uma grande festa, não podia deixar de esfregar na cara de todos como suas preces haviam sido atendidas, como vir a igreja todo domingo valia a pena e agora era merecidamente rica. Um milagre, uma prova de fé, chamem o Fantástico que temos aqui algo que a ciência não pode explicar! Dinheiro traz muita coisa, até atenção, mas ninguém quis ouvir sua história ou achou mesmo que ganhar na loteria era certeza da existência do Divino. Então contentou-se em dar uma festa na igreja. Música, comida, bebida, tudo. Convidou todos os assíduos, os que iam pelo menos duas ou três vezes no mês, e ela os conhecia de nome. Permitiu que o Padre chamasse quem ele confiasse.

Deus, como pôde? Conferiu o livro de orações e lá estava, em letras tortas e analfabetas: "Mauricéia Aparecida dos Santos, 17/03, ganha na loteria jesus!" Garrancho. No dia 18 saiu o resultado, 3 milhões! Como, como, como pôde? Conhecia bem aquela mulher, sabia de suas tramas. Espalhava fofocas, falava mal de membros da igreja, acreditava ser a autoridade no nome do Senhor sem nunca ter sido sincera na vida. Mal sabiam o que realmente pensava, só loucura patogênica pra explicar as ações ambíguas e manipulativas de tal fiel. Mas estava sempre lá, na primeira fileira, fechando os olhos e rezando pra sabe sei lá quem, pois se recusava a acreditar que seu Deus atenderia as preces de alguém como ela. "Mas deus ama igualmente a todos", as palavras de seu pai ecoavam em sua cabeça. Ama o caralho. Perdão.

Deu um jeito de aproveitar-se da situação, mas não de maneira ruim. Conhecia algumas famílias mais pobres que pouco tinham o que comer, quem dirá frequentar uma grande festa. Organizou as doações de roupas do ano passado, encontrando combinações agradáveis ao olhar, e lhes entregou pro grande dia. "Venham, grande festa na igreja, vocês estão convidados". Disse à Maurí, como a chamavam as íntimas (outras cobras), que frequentavam a igreja durante a semana. Não era uma mentira, realmente podia encontrá-los frente a capela, mas na maioria das vezes em busca de moradia ou comida.

Nunca haviam visto aquele lugar tão cheio. Crianças corriam, um pouco lambuzadas de chocolate do grande bolo que enfeitava o salão. A música era animada, variando entre o forró e o gospel, e muita gente dançava animada. "Pelo menos algo bom vem de tudo isso", pensou, vendo aquelas pessoas alegres e muitos dos que convidara presentes e contentes em participar da festa. Mas sabia que não era o suficiente toda vez que passava perto de Marlí, que logo irrompia em falar do que comprava com o dinheiro que ganhou.

Tinha uma casa na praia, mais de quinhentos mil!, a qual enchera de carros - um pra cada filho que, em torno dos vinte e poucos, já tinham esposa e filhos. O mais novo casara em virtude da loto, a mãe pagou o casamento mais bonito, com festa, fotógrafo e muito champãe. Tinha um emprego como atendente de farmácia, o pouco que sobrava no mês gastava com bebida; às vezes o orçamento da pinga excedia o esperado e precisava gastar um pouco do dinheiro da papinha. Agora não mais, só Blue Label. Obrigado, Deus.

O do meio, ex-viciado em cocaína, era só ex em aparência. Ganhava um pouco mais do que revelava, tinha um curso de Administração que o ajudou a conseguir um emprego num escritório. Curiosamente, dos três, era o menos problemático; cheirava, sim, mas só nos finais de semana e eventos. Às vezes pra descansar a cabeça, deixar de ouvir as reclamações da mulher um pouco. Ela o impedia de crescer, sabia de sua inteligência mas tinha medo que o deixasse. O colocava pra baixo, reclama das coisas de casa - que só ele trabalhava pra proporcionar - e da falta de atenção que dava aos filhos, que na verdade o adoravam como um herói. Não mais, agora eram ricos, seus filhos teriam tudo que quisessem e ela também. Obrigado, Deus.

O mais velho fugiu da prisão uma vez, voltou e cumpriu a pena. Hoje não trabalha, não faz nada, pelo menos é que sabia a maioria. Mas o conhecia melhor, sabia que as luzes do bairro não se apagavam toda quinta às 21h por acaso. Sinal de que estavam descarregando ali, duas quadras atrás da igreja, toda a droga que alimentava a região. E o mais velho, voltando do cárcere com contatos e esperteza, mandava em todo mundo ali. O Padre sabia, a esposa e a filha sabiam, a polícia sabia, deus sabia. O dinheiro do tráfico era só seu, não dividia com o resto da família, mas faria questão de abocanhar um pouco da grana da coroa. Obrigado, Deus.

O Padre crescera com os três, praticamente amigos de infância. Era o mais rico da rua, mas isso nunca o tornou uma má pessoa. Aprendeu cedo a dividir, e com os meninos que conheceu compartilhava tudo - seus brinquedos, seus jogos, suas aventuras. Considerava-os de verdade, mesmo quando suas posses desapareciam e algum deles, magicamente, agora possuía um igual. Fingia que não via, às vezes pegava de volta, às vezes não. Sabia o que falavam dele pelas costas, mas não se importava, não conhecia mundo melhor. Já mais velhos, na adolescência, lembravam tais fatos com riso, se vangloriavam de sua esperteza. É, o mundo é dos espertos.

Hoje sentia certa pena de si mesmo no passado. Aprendeu que existem pessoas em que se pode confiar, conheceu um mundo melhor. Em algum ponto de sua vida resolveu virar Padre, queria dar as pessoas sem que elas sequer pedissem, sequer soubessem precisar. Ensinava palavras de amor, de bondade, de união. Parou com os "exorcismos" no palco, com as caminhadas em sal grosso, com o dízimo diário. "Dá quem pode, quem quer ajudar", dizia. Foi expulso da igreja, montou sua própria, onde acolhia quem quer que fosse. "Dê a Deus 100% de sua alma, e ele não te pedirá mais nada". Organizava coletas, passeatas, conscientizava, discutia. Chegou a conhecer o prefeito, era o Padre de todos. Era feliz.

Mas, a nível cósmico, alguma coisa o incomodava naquilo - como uma farpa que entrou tão fundo no dedo que não é possível retirá-la ou esquecê-la. Todo aquele dinheiro! Poderia ajudar tanta gente, fazer tanto bem no mundo, mas em troca do trabalho de sua vida só recebia sorrisos e agradecimentos. Não queria mais, mas podia mais. Por quê o Senhor testava sua fé? Por quê coisas boas acontecem com gente ruim? Não encontrava respostas, sabia que se dividisse suas dúvidas com alguém receberia o bom e velho "Deus escreve certo por linhas tortas".

Três meses depois o filho mais novo morreu, vítima de um acidente de trânsito enquanto dirigia alcoolizado. A mãe e o bebê estavam no carro, e o motorista da moto contra a qual bateu voou a quase 20 metros dali - nenhum deles se feriu. O filho do meio vendeu o carro, abriu uma pizzaria, deixou a esposa mas visitava os filhos quase diariamente. Pagava uma pensão maior do que precisava, sabia que boa parte era desviada pela ex para bancar suas despesas extras, mas cuidava bem de seus filhos, só o odiava. O mais velho, não demorou muito, foi pego numa operação contra sonegação fiscal. Seu mini império de entorpecentes caiu junto com sua prisão, a esposa e a filha indo viver com Marlí que, abandonada por todos, voltou a morar no bairro da igreja, melhor que antes, mas sem todo o luxo que possuía.

Era padre, jamais ficaria feliz pela desgraça dos outros. Mas obrigado, Deus.

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22 de jul. de 2012

Redhead

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"Could you tell me how can I get to Pinheiros subway station?"
 O que sabia de inglês aprendera com seriados e músicas, resultado de anos pesquisando traduções e prestando atenção em legendas. Mesmo assim se atrapalhava com as palavras, gaguejava enquanto falava e era consciente de sua pronúncia engraçada. Ele olhou pra baixo, encabulado, sempre tinha medo de errar e passar vergonha, quem dirá encarando aquela linda ruiva de olhos esmeralda que, se não era uma deusa, certamente roubara o rosto de uma. Suas sardas ansiosas contornavam seu sorriso, ainda a espera de uma resposta. "É...você...sorry, you can take the súbway going to Vila Madalena. Then you get off at Consolation, er, Consolação. There you transfér to the yellow line going Butantã, you can't really miss it." Respirou como se tivesse dito tudo num fôlego (e tinha). "Oh, thanks, you're so kind", she smiled beautifully, quer dizer, ela sorriu...deus, esqueceu qualquer palavra em português que descrevesse aquela visão.

"You're welcome", respondeu friamente, disposto a sair dali e contar pros amigos que legal tinha sido conhecer aquela menina que não conheceu. Já se virava pra ir embora, sem encará-la no rosto (ela era tão tímida de nada e ninguém, o olharia nos olhos de novo!), quando uma voz lhe deteve a atenção. "Thought you'd say de nada, was kinda expecting it." Que menina atrevida, brincando assim com ele! "Sorry to disappoint you", respondeu mentindo uma expressão triste. A primeira vez que riram juntos.

"To be honest, I am pretty lost. Would you mind taking me there?" Mal acreditava naquelas palavras. "Just a moment", respondeu, sem querer mimetizando um atendente de telemarketing. Fingia consultar o celular enquanto refletia suas escolhas. Nem se lembrava pra onde ela ia, mas queria segui-la nem que fosse o inferno. Lembrou-se da lenda urbana onde uma linda mulher seduzia um desconhecido e roubava seus rins, mas aquelas mãos não lhe roubariam nada. Tinha aula, não poderia. Prejudicaria os outros do seu grupo.

Naquele dia visitaram a Pinacoteca. "C'mmon, you even said it's free today", implorava puxando seu braço em direção ao trem. "I really have to go, I have a jób you know". Já perdera as aulas passeando com ela. Se imaginava ligando pra avisar que adoecera, ficaria um ou dois meses sem ir porque encontrara sua musa ou gripe do frango, não importa. Ligou. "Amanhã eu explico direitinho, meu pai não está muito bem". Sem nem saber o que falava ao celular, ela já dava pulinhos lhe abraçando pelas costas, "Let's go! We'll miss the subway train!".

Ela adorava tudo que via, lhe cutucando como uma criança perdida num parque que é na verdade outro país. "What do you call that?" Lhe contou que resolvera tirar um ano de férias, pra viajar pelo mundo e "fuck this shit". Os pais tinham dinheiro e não tinham pressa, com certeza a filha se tornaria uma mulher incrível e, se não, qual o problema? "Seriously, they even told me to take my time travelling. "It's kinda like they don't want me there.", disse cerrando os olhos numa expressão de desconfiança. "And you wêren't afraid, like, with all the violénce and shit? Someone can, you know, hijack you." Ela deu de ombros, "Meh, who would hijack me? I'M ANNOYING", gritou, chamando a atenção de todos no trem. E corria, e brincava, como uma criança perdida. Que só ele encontrou.


Como não derrubava os quadros do lugar era um mistério. Pulava e o puxava sem avisá-lo, movendo-se entre portas e obras como se elas nem existissem. Pedia que ele lhe ensinasse palavras em português, cobria seus olhos com as mãos, "this way you can't cheat", enquanto ele apalpava uma obra da Galeria Tátil. Não sabia o que sentir, só conseguia pensar na pele que o tocava. "Do you promise you won't open them?", perguntou baixinho em seu ouvido. "Eu prometo", respondeu, e ela repetiu no sotaque mais delicioso que ele já ouvira ("Eo prometô"). Tiradas as mãos, já não sentia mais nada, só saudade, e só via o escuro de suas pálpebras. Suddenly, all he could think about was her soft cherry-flavoured lips, his breath so close to hers as she kissed him like she was his first. Her arms gently folding his neck, não conseguiu deixar de puxá-la pra si, sem nunca abrir os olhos, não precisava ver mais nada.

Os próximos minutos e dias passaram como um corte cinematográfico. Agora estão ali, logo mais estão lá, claquete, outro lugar, queria dizer que se apaixonaram em todos. Levou-a pra conhecer a cidade, a de mentira (que só é visitada pelos turistas) e a de verdade, que precisava de ônibus e coragem. Seu pai estranhou a ideia de passar seus dias acompanhando uma garota americana da qual só sabia o nome, por isso o apoiou de primeira. "Divirta-se", disse, assistindo o filho empacotar as malas, passaria uma semana num hotel da Avenida Paulista, sozinho com a ruiva hiperativa. "I'll take good care of him", ela piscou ao pai, "divírtasê, right?" Ganhou a simpatia do coroa com os olhos.

A faculdade e o trabalho poderiam esperar. Ou não, mas sua vida era mais importante, e no momento era só ela. Chegou a apresentá-la a alguns amigos, visitando o cinema juntos. Propôs que vissem um filme legendado, pra que todos entendessem. A ruiva quis um nacional, queria a experiência completa, mesmo que precisasse ouvi-lo contar toda a história. "I'll listen to english only if it's coming out of your mouth.", jurou, tapando os ouvidos sempre que, passeando pelos canais da TV do hotel, caíam na CNN.

Em seu caderno brincava com palavras, arriscou uns versos em inglês. Na cama, na noite da derradeira despedida, ele os lia. Ela sorria, sorria pra tudo! Mas lhe recriminava, queria que lesse seus poemas em português, que escrevia escondido no final do caderno acreditando que ela não fuçaria. "But you don't really understand them...", justificava. "It's just that you sound much more beautiful when not trying to impress me". Não resistia aquele olhar. Limpou a garganta e leu:

"Eu não sei quando foi que percebi
que já não via minha vida sem você estar ali
quejá não via a mim mesmo sem te ter em coração
que já não atravessava a rua sem tentar te dar a mão

Eu não sei quando foi que acordei
procurando o seu cheiro em travesseiros que você nem nunca usou
ainda lembro aquele dia, com os dedos me calou
e disse "por favor, chega mais perto"

Eu me perdi em algum lugar do seu deserto".

"Is it about me?", perguntou ela, mal movendo seus lábios pra falar. "Does it sound like it?", respondeu frio, sabendo que ela entenderia o sim nas entrelinhas. Seus olhos brilhavam, mais que nunca, encarando os dele. "You can ask me to stay". O tempo parecia congelar suas palavras, não poderia, não faria isso com ela. "I can't, I would not, I could not let you throw away your life for me", queria tanto, desejava ir com ela, ela com ele, pra qualquer canto do mundo. "For us. What are you so afraid of?" Tentava, poderia jurar pelo universo que tentava, mas as palavras que queria não saíam. "What if it ends?" A pergunta que o assombrava, e o assombraria pro resto da vida.

Não fosse a resposta.
"We'll start again. Eo prometô."
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21 de jul. de 2012

Feliz Aniversário

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Assoprou as velas com toda força que tinha em seus pulmões. Todas as chamas tremularam, não eram realmente amantes da ventania, ameaçaram apagar-se mas logo retornaram. Malditas, fugiam como porquinhos escondendo-se na casinha de madeira. Mais força. Outra vez a desafiavam, escondiam-se na de tijolos. Não importava, soprou como um tufão, derrubando suas casas. "Feliz aniversário", cantou, cortando um pedaço de bolo pra si.

O número de velas coincidia com o número de cortes em seu braço, cobertos pela manga da camisa xadrez.  Sorriu pra seus pais, finalmente adulta, mas não sabia que tipo de adulta era. Ao menor sinal de que podia retirar-se o fez, preferia seu quarto. Deitou-se na cama sem acender a luz, não tinha sono algum mas não se achava digna dos feixes que a tocavam, nem aqui nem em lugar algum. Quem era ela pra gastar a luz do mundo?

Assistia o teto, pensando na faculdade no dia seguinte, só a presença daquelas pessoas lhe sugava a alma. As poucas em que confiava já pensava em evitar - os parabéns que propositalmente não recebera hoje, os abraços sem graça, os presentes que não queria (por quê alguém gastaria dinheiro com ela?), já se contentava em respirar.

Tocando o lado esquerdo do corpo, perguntava-se como tanto passa despercebido. Não era uma Miss, não pensava na paz mundial ou no fim da fome, só nas pessoas desconexas e olhares tortos. Tremia a visão de qualquer grupo de pessoas, imaginava que falavam dela, muitas vezes estava certa. Já tinha passado por tanto, gritava o lado esquerdo, por que ainda preciso ser julgada? Mutilava-se pra chamar a atenção de alguém, alguém lá em cima, que olhasse por entre os panos de suas camisas e blusas. Não queria que olhasse pra ela, mas que a visse apontando pra todos os outros que também se sentiam assim.

Talvez fosse pequena demais, desimportante demais. Talvez ninguém ouvisse seu chamado. Pegava o metrô vazio e não se sentava, não podia ocupar o lugar de ninguém. De ninguém. Não era ninguém. Em seus sonhos alguém a olhava e sorria, um sorriso verdadeiro e belo, sem deter-se em suas roupas e seu cabelo, o jeito que andava e como nunca ficava parada.

Só a via em sonho, sempre acompanhada de duas outras. Não as conhecia, mas sabia que a sua namorava um qualquer. Encontravam-se numa rua fria, pouco depois do pôr-do-sol. "Vem com a gente, me leva até a escola", ela cantava. Perdia-se por um momento, se recusava, precisava estar em casa logo. "Vem conversar com a gente", chamava. Não resistia, como poderia? As outras a odiavam, faziam de tudo pra desencaixá-la e deixar claro que era uma intrusa ali. A sua não percebia ou as ignorava. Corava se trocavam olhares.

De repente, como um castigo, uma chuva caía pesada. As duas arrastavam a sua, corriam pra escola, sem se despedir. Vestia o capuz e ia embora, caminhando sob as águas sem nunca olhar pra trás. Não aguentava. Não suportaria.

A sua, sabendo que a deixava, voltava pra buscá-la, procurando sem nunca enxergá-la. Maldita chuva que caía sobre seu rosto triste e fazia parecer que chorava. Escuro. Acabava o sonho, seu mundo acabava.

Em seu caderno escrevia em letras miúdas, que só ela conseguia ver, "só o amor pode salvar o mundo".
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20 de jul. de 2012

Dor no Peito

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Dor no peito nunca é um bom sinal. Seu comportamento também não era dos melhores, já há alguns meses andava acompanhado de uma garrafinha (tão bonita, pequenita!), onde guardava sua amada pinga. Cigarro atrás de cigarro, e dos que mais pesam no pulmão (cravo maldito), sem contar as drogas ilícitas. Não importa quão autodestrutivo você seja, dor no peito não é algo que você encara com alegria.

Vestiu a camisa, botão a botão, como se pregasse o próprio caixão. Sua imagem no espelho mantinha-se embaçada, mesmo depois que todo o vapor do banheiro se foi. Não penteou os cabelos negros, gostava deles assim, e a barba era algo com que se incomodava mensalmente (benção!). Chaves, isqueiro, carteira, mochila. Saiu. Voltou pra pegar o celular. Saiu.

Lá fora nem o sol parecia contente. Aparecia tímido entre as nuvens, só de vez em quando, iluminando o cimento frio daquela rua. Como tudo parece cinza quando se acha que vai morrer. Já fora confrontado com sua própria mortalidade antes, mas era sempre uma situação rápida: uma queda, um quase-atropelamento, um exagero. Nada que não esquecesse no dia seguinte. Mas como conviver com a dor, com a lembrança constante de que logo começaria a definhar?

Sorriu o dia todo, ao menor sinal de graça. Queria uma distração, se sentir bem pra variar. Acendia um cigarro e esquecia do peito, só pra lembrar-se segundos depois. Mas o vício era maior que o medo, e a fumaça descia bem com uma pinga. Comeu ignorando o sabor, conversou ignorando o assunto, caminhou ignorando o destino.

Sentou-se numa praça qualquer, perto de um velho que fumava haxixe. O cheiro dominava o lugar, talvez o motivo pra estar tão vazio. Foi oferecido um trago, aceitou, sentiu seu mundo se apagando. Estranhou a potência da droga, pensou ter sido enganado, por um segundo temeu por si mesmo. Mas não lhe fizeram mal algum. Despediu-se e voltou pra casa, cansado de tudo e cansado de nada.

Acendeu a luz do quarto e fechou os olhos à bagunça. Chutou as coisas jogadas no chão, adicionando mais algumas ao labirinto enquanto esvaziava o conteúdo da mochila. Jogou os tênis longe, nem fez questão de tirar as meias. Encarando-se no espelho despiu a camisa devagar. Sobre o peito esquerdo, uma pequena queimadura de cigarro doía como um ferrão. Suspirou em alívio, não conseguiu conter o riso.
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19 de jul. de 2012

Osso do Pai

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Há quanto tempo se encontravam pra tomar vinho no cemitério? Nenhum deles se recordava ao certo, mas o encontro semanal já era uma tradição que durava meses. Todos sabiam que sexta a noite era dia de se reunirem pra brincar com os espíritos, e nenhum planejamento era necessário - as ligações e desculpas de última hora foram trocadas por uma certeza que os guiava até o local de encontro. Fossem duas ou dez pessoas, sabiam que seria divertido.

Naquela noite eram três. William foi o primeiro a chegar, ansioso, munido de um livro de exorcismo e um endereço. Não dormira na noite anterior, a seguinte prometia demais. Carlos chegou pouco tempo depois, cumprimentando o amigo e acendendo um cigarro. Trazia garrafinhas de refrigerante e um sanduíche que não ofereceu - não que o outro se importasse, mas estava faminto. Conversavam sobre a semana e coisas mundanas, seus estudos (trabalho), seus empregos (trabalho), namoradas (trabalho) e noites mal dormidas (mais trabalho).

Juliana chegou trajando suas roupas de sexta-feira a noite: calça moletom, uma camiseta branquinha de malha e a blusa de lã bege que dizia ser perfeita, nem fria nem quente, e carregava pra todo lugar obstante o estado que estivesse (de conversação ou de sujeira). Dizia ter se cansado de estragar roupas caras nos passeios que organizavam, mas na verdade sentia-se mais confortável assim, largada e de boina. Roxa.

Esperaram mais um tempo, jogando fora palavras sem importância. Findado o coral de sinos da igreja, decidiram ser o suficiente e passaram a planejar a noite. William, tomado por uma animação fora de seu comum, já tão entediado com as sessões de ouija e invasões a domicílio que sempre terminavam da mesma forma, mostrava algumas páginas do livro que falavam sobre múltiplas assombrações e como espíritos vingativos se comportavam em bando. "Pedaço de bolo", disse Carlos, acendendo outro cigarro.

Ela sempre ria das traduções ao pé da letra do amigo. Wiliam tinha certo ciúmes, e o silêncio que se sucedeu provava isso. Limpando a garganta, continuou sua exposição:
- Essa casa...Deus, essa casa tem de tudo. Era uma igreja, conhecida por trocar perdões divinos por crianças, filhos e filhas de escravos, bastardas ou polêmicas, aquelas que deviam sumir. Não perguntavam da onde vinha a criança, nem queriam saber, o que lhes interessava era a carne. E as consumiam, de todo jeito que você imaginar.
Juliana parecia incomodada, principalmente com o tom alegre com que William explicava tudo. Percebendo, tentou parecer mais fúnebre.
- Err, então...Os corpos das crianças nunca foram achados, dizem que estão enterrados no lugar. Mas isso não é o pior! - e voltava a ficar animado - Anos depois derrubaram tudo, e construíram esse casarão. Nela morava um tal de Doutor Esteban, pioneiro em cirurgias plásticas, que reza a lenda era amante do ocultismo e realizava rituais no sótão, dos quais participavam suas amantes e filhas. Um dia a casa pegou fogo, dezenove corpos, todos femininos. Nunca encontraram o doutor.
- E você acha que ele continua lá?
- Acho? Eu sei! Tem tanta gente nessa casa que ela parece a Índia. Eu já entrei, é de dar calafrios.
- Mas se você já foi lá, por que...
- Por que voltar? - interrompeu com gosto. - O segundo andar, é claro! O clima é tão pesado que não consegui subir sozinho, juro, temi por minha vida.
Um sorriso cobriu o rosto de Carlos, a fumaça escapando alegre entre suas narinas.
- Ótimo, então estamos de acordo.

Percorriam o caminho até a casa discutindo histórias locais e a aventura da semana passada, da qual Carlos não havia participado. Pararam num barzinho de esquina, aqueles bem de bairro que continuam abertos enquanto as biqueiras também estiverem, onde compraram seu tradicional vinho de sexta. "O mais barato", pediram rindo, recebendo em troca uma fabulosa garrafa plástica cujo conteúdo alcoólico lembrava o sabor de um vinho. Só Juliana parecia apreensiva, precisando beber mais que os outros pra finalmente relaxar, suas bochechas brancas já coradas denunciando sua leve embriaguez.

À cerca de madeira que anunciava os portões da casa, checaram seus pertences. William carregava o livro e um saquinho de pano, presente da Mãe Ana (também quem lhe avisou sobre o lugar), cujo conteúdo só sabia ser capaz de purificar locais assombrados - água benta e sal grosso constavam na mistura, mas o cheiro dava certeza de que outras coisas, mais (ou menos) vivas, também. "Você deve mordê-lo e espalhar nos dedos, assim", mostrou a mãe-de-santo. Carlos trazia seu tradicional amuleto, um osso de seu pai pendurado ao pescoço, o qual ocasionalmente ralava para fins ritualísticos. Juliana há alguns anos tatuara nas costas uma runa de proteção, presente de aniversário de sua querida madrasta, que não tinha ressalvas quanto a ser chamada de bruxa. Seu conhecimento, herança dos antepassados, passava à enteada - sua única filha morreu jovem, e o amor que tinha pela adotada era verdadeiro. Todos carregavam lanternas.

Cruzaram o portão, sentindo a mudança brusca de temperatura. O ar, antes úmido, secara como num deserto, e arranhava um pouco suas narinas quando respiravam. Avançaram firme, sem se importar com os cachorros que latiam (só fingiam ser donos do lugar, mas não atacavam ninguém), e William bateu na porta principal. Knock knock. Os outros riram, ele se pôs a empurrá-la.
- Droga, eu deixei uma pedra aqui, algum trombadinha deve ter tirado. - Carlos tentou abri-la algumas vezes, sem sucesso, até que decidiram derrubá-la juntos. Um chute e o trinco se foi, mais pela ferrugem que pela força, e viram seu caminho livre. - Meh, seria mais legal se a porta tivesse caído!

Lá dentro os fantasmas perdiam todo o senso de decoro. Na escuridão, vultos caminhavam lentamente, meio físicos, meio não, sem dar atenção aos visitantes. Contaram três, quatro com o que se escondia atrás da cômoda (devia ser uma criança). Podiam ver a cozinha, onde uma mulher sentada a mesa chorava baixinho, cortando sua garganta. Mal sangrava e a cena toda se repetia, como uma GIF num loop infinito. Juliana levou as mãos a boca.
- Ignore-a, já tentei conversar com ela. Não segue nunca, nem com magia. Tinha TOC, passava horas acendendo e apagando as luzes, era odiada por isso e se matou. O marido era policial, chegou bem na hora, assistiu a cena e não aguentou a culpa; atirou na própria cabeça. Condenaram-se, sem saber, a reviver tudo eternamente. - Curiosa, Juliana adentrou a cozinha, assistindo ao espetáculo do homem que, com lágrimas nos olhos dominados pela loucura, atirava na própria cabeça, só pra depois repetir o ato outra e outra vez.

Carlos já subia as escadas, ao passo que os amigos o acompanharam. Ignoraram o primeiro andar da casa, a outra expedição de William revelara pouca coisa interessante. A gravidade parecia aumentar a cada passo, não sabiam se suas cabeças ou corações ficavam mais pesados, mas sentiam que qualquer tropeço e atravessariam o chão. No segundo, os quartos abertos revelavam ecos piores; crianças choravam e imploravam, queriam ir pra qualquer lugar longe dali; padres e maridos gritavam, nada além de ódio em seus corações, enquanto perseguiam suas esposas e vítimas.
- Imaginem que eu já fiz uma limpeza no lugar. Tirei quem eu consegui, umas crianças que ainda mantinham esperança, uns que tentaram morar aqui quando ainda era habitável e enlouqueceram. Aqui em cima...é só tristeza e terror...

A primeira porta fechada que encontraram era um banheiro, que ora revelava um homem que rasgava sua pele com gilete, ora enchia a banheira de corpos. Voltava a esvaziar-se. Carlos tentou aproximar-se, mas foi impedido pela garota, que fechou a porta com uma batida.
- É muito, Carlos. O que a gente vai fazer ali?
- Eu não sei, explorar talvez? - Acendeu outro cigarro. - Fazer umas perguntas, recitar uns poemas, o que a gente faz.
- Esse lugar não é normal. Não estamos acostumados com isso. - continuava, insistindo que haviam cometido um erro. William assistia a tudo impassível, queria continuar mas concordava que estavam num lugar pior do que imaginavam.
- Aquele quarto ali. - disse Carlos, apontando a porta ao fim do corredor - Nós entramos, fazemos um círculo, conversamos um pouco e vamos embora, ok?
Juliana se aproximou devagar, encostando a orelha a fresta aberta afim de ouvir alguma coisa. Satisfeita com o silêncio, concordou, afastando-se pra que os outros entrassem primeiro.

Com a lanterna, William iluminou a porta entreaberta. Nela podia-se ler, em letras garrafais riscadas a faca e levemente tingidas de vermelho: "gravo aqui as palavras que me disseram os tolos que seguiram adiante antes de mim: deixe aqui o que carregas, inclusive seus demônios, e vá embora sem olhar pra trás". Juliana estremeceu.
- Eu não quero entrar. Parece demais, a gente já veio até aqui...chega.
William se adiantou e tocou a madeira da porta com a palma da mão direita. Fechou os olhos e rompeu com os dentes o embrulho que trouxera. O sal grosso tentava disfarçar o gosto azedo da mistura sacra, mas só conseguia piorá-lo. Esfregando-a nos dedos, escorregou-os pela madeira, seus sentidos explodindo pelos murmurios sinestésicos que irrompiam daquele lugar, gritando socorro com suas garras, seu odor, seus corpos imateriais já pútridos como os cadáveres banhados em formol dos,saudosos laboratórios de anatomia. Ah como sentia falta do formol! Não enxergava nada, dentro ou fora de sua cabeça, visões mudando tão rápido que mal as percebia, enquanto sentia que um milhão de facas cortavam toda a extensão de sua pele em uníssono, devagar e sempre.
Acordou com um baque. Juliana agarrava seu braço como se tentasse atravessá-lo.
- Podemos entrar. Eu os ouvi...os vi... eles estão em paz agora.
- Man up. Vamos entrar - disse Carlos, jogando a bituca do cigarro ao chão. Com a mão livre, William tentava tomar o resto do vinho para livrar sua boca daquele gosto imundo. A menina ainda tentava aleijá-lo, até que perdeu as forças e o soltou.
- Vai ficar tudo bem, prometo - assegurou ele.
- Eu não confio - ainda resmungava, recuando passos para trás como se os atraísse pra saída.
- Nós viemos aqui pra isso, não? Entremos.
E ele entrou.
E eles não estavam em paz.

Carlos foi o primeiro. Puxado por uma força que não viam, caiu ao chão, batendo a cabeça na madeira grossa. Foi arremessado prum canto, onde uma sombra brincava sozinha com suas bonecas e seu conjunto de facas. William atirou-se na direção do amigo, mas não conseguiu alcançá-lo - um homem de seus quarenta e tantos, vestindo trajes de médico, lhe segurava os braços. "Vai ficar tudo bem, só a recuperação dói", assegurou-lhe. Não acreditava.

Juliana tentara voltar ao menor sinal de perigo eminente. Agarrou a lateral da porta, que bateu violentamente contra o trinco, prensando sua mão direita. Sentiu um ou dois dedos quebrarem, doíam todos. Abriu os olhos a tempo de retirar o braço, a porta já intencionada a esmagá-la de novo. Por impulso, jogou-se contra o livro de William, abriu as páginas marcadas. Pronunciava palavras que não compreendia, com toda sinceridade que existia em seu coração. Objetos eram atirados contra ela, machucando seu corpo aqui e a li, a runa em suas costas fervia como brasa. William, deitado numa maca ao fim do quarto, ecoava suas palavras, tendo decorado os rituais do livro. As janelas e a porta batiam em protesto, tentando abafar os gritos dos dois com mais gritos, profundos, desesperados, mortos. Silêncio. Nada.

William levantou-se num pulo, correndo até ela e ajudando-a a se levantar. Procuravam Carlos pelo quarto, sem encontrar sinal algum, exceto por uma mancha de sangue onde antes estava seu corpo e o espectro da menina louca. O colar estava perto da porta, desprendeu-se logo na queda, mas o osso do pai sumira. Tentaram abrir a porta, sem sucesso. Socavam-a, chutavam-a, pediam a Deus. Os gritos voltavam, ecoando cada vez mais alto. O doutor reapareceu, sorrindo maliciosamente pra Juliana. William pegou-a pela mão e atirou-se pela janela.

Não sabiam quanto tempo dormiram, mas acordaram com o nascer do sol. Era mais fácil dizer o quanto doía do que onde. Alguns ossos fraturados na queda, mais em William pois amortecera a menina, era um verdadeiro cavalheiro. Juliana sentou-se ao seu lado, respirando devagar, sem palavras pra descrever o que sentia. Ficaram assim em silêncio durante algum tempo, assistindo o sol nascer naquela casa. À luz do dia nem parecia tão terrível, corroída e morta, só exalava tristeza e podridão. Deram as mãos e foram embora quietos, imaginando o que fariam na próxima sexta-feira.

No quarto, uma análise mais minuciosa revelava uma parede falsa. Além dela, imagens de estupro e morte torturavam Carlos dia após dia, fome após fome, sede após sede. Engolira o osso de seu pai para que assim não pudessem tocá-lo, mas nunca o deixariam sair dali.

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18 de jul. de 2012

Atma

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Só nos damos conta de que perdemos as esperanças quando nos cansamos de sonhar. Quando a cama é um fardo, e as imagens antes inundadas com promessas e surpresa já, se não viraram pesadelos, incomodam por serem tediosas, sem vida, sem cor. Tremia sempre que pensava em si logo antes de dormir, tinha medo de cair em outro abismo. 

De repente não temia mais nada. Estava num lugar que certamente já vira, mas não se recordava. O chão e as paredes de madeira, o cheiro de verde, o eco do canto dos pássaros. Por uma das janelas só conseguia ver folhas, a outra tinha a vista de um lago e, além no horizonte, duas montanhas cobertas de neve. O interior da casinha brilhava esbranquiçado, frio e um pouco opaco (como as almas de consumidores alienados), e os tapetes azul marinho só realçavam essa impressão gelada. 

O chão era de um verniz mais escuro que o das paredes. No canto oeste, um alçapão aberto revelava uma escada de corda que descia uma provável dezena de metros até o chão, onde parecia estar pregada. Paralela a ela, o tronco de uma gigantesca árvore se estendia, velho e cascudo, se desprendendo em galhos menores um pouco abaixo da altura da casinha. Suas folhas pareciam sóbrias e sensatas, como um homem avarento. 

Caminhava pelo quartinho procurando detalhes nos móveis e enfeites que lhe ativassem a memória. A mesinha baixa claramente era destinada àqueles que se sentavam no chão, e as revistas em quadrinhos jogadas não eram suas, mas teria gostado de lê-las. Seus ouvidos, acostumados com o som do vento que uivava triste as presas do holocausto, pularam ao reconhecer o tinguinir de chaves que se aproximava. 

Pelo alçapão se ergueram duas mãos macias, de unhas bem feitas e coloridas, seguidas de um gorro azul claro que combinava com os olhos do monte de agasalhos que surgia. Colocou-se de pé, mais parecido com um cesto de roupa suja do que um ser humano, e pôs-se a falar por entre o cachecol.

"MehHmm nhôhmm hm ahthmm, pfhhmzer". Não respondeu nada, não tinha ideia do que a criatura havia dito e ainda tentava traduzi-la mentalmente. Talvez percebendo sua confusão, removeu o cachecol e a gola do casaco que cobriam sua boca, revelando um sorriso pra acompanhar aquele belo par de olhos azuis. Seu rosto parecia esculpido, arredondado mas em perfeita simetria com sua boca - perto da qual uma única pinta tingia seu rosto pálido, como se o universo deixasse derramar nanquim enquanto desenhava suas sobrancelhas.

"Meu nome é Atma, prazer". Aquele nome ecoou em seus pensamentos como ondas se espalhando pela água, fugindo da pedrada que acabaram de receber. Procurava em pensamento a palavra, mas não a reconhecia de lugar algum. Removendo seus casacos, o perfume da garota preenchia o quarto, um misto de orvalho e canela. "Prazer", disse entre um suspiro e outro. Não conseguia disfarçar que respirava fundo.

"Há muito que não recebo uma visita, sinto se o deixei esperando". Engoliu em seco. O que fazia ali? E a teria chamado? "Não, nem um pouco" foi a única resposta que encontrou, se perguntando se ela percebia seus olhos vidrados enquanto percorria com os dedos do coração os cabelos negros da pintura viva que lhe recebia. Por instinto, sentou-se perto da pequena mesa, não surpreso dela te-lo acompanhado. Em sua cabeça formulava suas próximas palavras, observando atento enquanto Atma apanhava duas xícaras e uma garrafa térmica num armarinho próximo.

Por um momento o tempo pareceu parar. Sua pele, mesmo pálida, parecia brilhar mais quente e colorida, expulsando as sombras que a neve trazia. Um pouco do frio se mantinha, o suficiente para apreciar um chá e biscoitos. Não obstante, ela os servia chá - os biscoitos faltavam, mas já tinha se alimentado o suficiente com os olhos. Estava prestes a desenhá-la em seu peito com as unhas, quando novamente irrompeu-se a falar.

"Não sou tão bonita assim, mas agradeço o elogio." Talvez ela lesse seus pensamentos, resolveu fazer alguns testes; está ouvindo? Eu sou um graaaande idiota, ouviu? Ela só ria, sem responder a seus apelos mentais. Voltou a tarefa de admirá-la, queria beijá-la, mas manteve distância. "Você pode pegar em minha mão", disse sorrindo. Aceitou.

Apoiavam as mãos sobre a mesa, saboreando aos poucos o chá de canela. Imaginava se o perfume era do chá, mas tinha certeza absoluta que era ela. Perguntava sobre sua vida, ele tentava não ser sincero. Tarefa impossível, alguma coisa no jeito que ela entortava a cabeça denunciava que sabia exatamente quando ele mentia. Talvez o achasse patético, com seus problemas simples e temores bestas.

"Nenhum problema é simples, e nenhum temor é besta". Já ouvira essas palavras, mas elas só faziam sentido em sua voz. Não se sentia tão só, não lembrava mais o rosto do abismo, queria preencher seus sonhos com visões dela e só dela. Mais um gole e o chá se encerraria. Olhou fundo nos seus olhos, "obrigado", agradeceu e o tomou.
Acordou com frio, mas sem forças para pegar o edredom caído no chão do quarto, talvez pelo cansaço mas com certeza pelo medo de perder a imagem que vira em seu derradeiro sonho. Apertava o travesseiro com os dedos, como se envolvessem sua mente lhe pedindo desesperadamente "me leva de volta". Não era o suficiente, precisava de mais cinco, dez minutos ali com ela pra poder gravar seu cheiro e sua voz, registrar em suas sinapses tão exaustas aquele toque diferente e o sorriso que, mesmo não sendo pra ele (ou algum dia tendo sido), lhe confortavam e o enchiam de uma felicidade que há muito tempo não sentia. Dormiu, sonhou, mas nunca mais a viu.


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17 de jul. de 2012

la mort en rouge et bleu

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Lá estava outra vez sentado frente aos quadradinhos pretos e brancos que o governo fez questão de repintar para ele nesse ano de eleição. A praça estava bonita, verde, multicolorida, cheia de crianças e sorrisos que na madrugada eram substituídos por adultos e sorrisos. Estendeu as mãos enrugadas à caixinha de madeira que cuidava com carinho, posicionando as peças em cima da mesa. Ao invés de xadrez, preferia damas. Tinha dores de cabeça quando pensava demais, e seus neurônios queriam curtir a aposentadoria. Colocava, sem pressa, as peças azuis. Uma a uma, azul a azul.

Ouvia Edith Piaf no aparelhinho que o filho lhe deu de natal, Je revois la ville en fête et en délire ♪, tudo que sabia era que precisava recarregá-lo. Quando se lembrava de seus artistas preferidos o ligava, e ele conseguia na internet. Esse tempos, quanta facilidade. Qui éclatent et rebondissent autour de moi ♪ . Ainda gostava mais do som de seus vinis, do arranhado gostoso que se escutava entre as faixas, mas não podia trazê-los até a praça. Étourdie, désemparée, je reste là ♪

Peças vermelhas, uma a uma. Uma menina o cutucava; devia estar falando com ele já há algum tempo, mas a má audição e os fones de ouvido lhe surdavam, retirou-os. "Posso jogar?", disse a garotinha, não tinha mais que 10 anos de idade. "Claro que pode minha filha, sente-se", respondeu apontando o outro lado da mesa. "Qual seu nome?"

Azul. Tinha um sorriso malicioso incomum as meninas da sua idade, mas não se espantava. Crianças hoje em dia. Vermelho. A tiara em laço combinava com o vestido negro enfeitado de bolinhas, ressonando com o tabuleiro que jogavam. Azul. "Como é ser velho?" Vermelho. Azul. "Não muito diferente de ser jovem. Nada pra fazer, nada pra esperar, nada pra lembrar". Vermelho. Azul.  Vermelho. "Hm. Eu tenho um avô, e uma avó. Mamãe diz que eles vão morrer um dia". Azul. Vermelho. Azul. Vermelho. Azul come vermelho. Azul come vermelho. "Eles vão. Eu também".

Algumas nuvens teimosas insistiam em tampar o sol, o que causava certo êxodo da praça; as mães temiam que seus filhos caíssem enfermos sob a poderosa "friagem", e os colocavam pra conversar com os amigos na internet. Vermelho come azul. Azul. "Você sabe como vai morrer?" Vermelho. Azul. Vermelho. Azul. Vermelho. "Não". Azul come vermelho. Vermelho come azul. Vermelho come azul. Dama. "Gostaria de saber?"

Levantou uma sobrancelha. Olhou a garotinha de cima a baixo, seus longos cabelos ruivos (só agora notou que eram ruivos?) esvoaçando na brisa que passava devagar. "Acho que não". Azul. Vermelho come azul. Vermelho come azul. Dama. "Eu gostaria de saber. Me preparar". Não conseguiu disfarçar um suspiro, por um momento achou que a menina tivesse algo mais sinistro além do sorriso. Medos de velho bobo, superstições de interior. Azul.

"Você é uma moça jovem, não deve se preocupar com isso", confortou-a. Imaginava que tipo de programa os pais a deixavam assistir pra que dissesse essas coisas. Vermelho. Azul. Vermelho. Azul. Mal conseguia se concentrar no jogo, havia algo sobre aquela menina... Vermelho. Azul."Não me preocupo. Mas tudo tem um fim. Até eu". De repente sentiu um arrepio, como se aquelas palavras significassem mais do que vestiam. Vermelho come azul. Não tinha resposta, optou o silêncio. Azul. Na sua cabeça, do vazio, nasceu uma pergunta. Não sabia por quê, mas sabia que ela a responderia. Vermelho come azul. Dama. Azul. Vermelho. Dama. 

"E o criador?" Azul come vermelho. Vermelho. Ela sorriu. "Ocupado com seus próprios problemas. Cada um está a mercê de suas escolhas".  Azul. Vermelho. Azul. De algum modo aquilo o confortava. Vermelho. Seu peito esvaziou, suspirou pra baixo. "Destino?"Azul come vermelho. Dama."Um milhão deles, e um milhão de você pra cada um deles". Vermelho. Azul. Vermelho. "Isso não responde nada".  Azul. Vermelho. "Então não é seu destino saber". Azul. Dama.

"É hora?" Vermelho. Dama. Azul. Vermelho. Azul. "Pode ser". Baixou os olhos pra mesa, pensativo. "E depois?"Já se incomodava com o jogo, xadrez teria sido bem mais emocionante; vermelho, azul, vermelho, azul come vermelho, vermelho come azul, sempre a mesma coisa! "Depois não há". E é azul, e o vermelho faz dama e agora fica andando pra trás também, uma lástima. "E se eu vencer?" Azul. "Você não pode vencer a morte". Vermelho come azul, vermelho come azul. Dama.

Uma sucessão de azuis e vermelhos, fugia como se sua vida dependesse disso. E acreditava que sim. Um oponente comum já teria declarado um empate, só pela chateação. Queria cansá-la, esperar até que errasse, sem saber se um dia iria. Azul come vermelho. Azul come vermelho. Vermelho come azul. Azul. Vermelho. Azul. Vermelho. Azul come vermelho. Azul come vermelho. Suas mãos suavam, tremia. Por dentro chorava. Não queria, não queria, viveu muito mas sangrava porque não queria! Vermelho. E não iria.

A menina se levantou, em momento algum despindo-se do sorriso em seu rosto. Azul come vermelho. Sentiu o seu olhar tocá-lo, esperava frieza, dor, solidão. Só sentiu o terno calor do nada, o torpor da inexistência. Vermelho. "Foi um prazer conhecê-lo".

Azul come vermelho.

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16 de jul. de 2012

Em Seus Cabelos Um Dragão Dourado.

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Sonhou que era uma barata. Seu primeiro pensamento ao acordar foi em Kafka, como reagiria se visse o terror que sentira ao verificar que era um artrópode. Seu segundo pensamento tinha como assunto o despertador, que gritava e berrava como se ela tivesse que trabalhar ontem. Socou o botão do celular afim de pará-lo e não teve como conter a surpresa: estava três horas atrasada. Os próximos dez minutos foram um borrão que nem ela, nem a ciência conseguem explicar. Tomou banho, arrumou-se, fez uma boquinha e correu até o ponto de ônibus em velocidade recorde; cada tropeção, cada coisa que não estava em seu lugar, cada pessoa que demorava pra pagar a passagem pareciam adicionar uma eternidade a sua chegada tardia injustificável.

A Rebouças estava um caos. Nada se movia, nem carro, nem gente, tinha a impressão que mesmo o ar havia parado só de solidariedade àquelas pessoas. Já tinha problemas o suficiente em manter-se num emprego sem toda aquela gente tentando chegar no mesmo lugar. De pé, abraçava a bolsa com uma mão enquanto a outra apertava firmemente o celular, esperando a derradeira ligação. Cada solavanco do ônibus, num esforço para deslocar-se alguns metros, mandava uma corrente de eletricidade por seu corpo que lhe fazia acreditar que o celular havia tocado. Vibrado. SMS. Ligação. Nada. Desceu no segundo ponto da Avenida Paulista, como fazia todos os dias quatro ou cinco horas antes.

Já estava aos pés do edifício onde trabalhava quando ouviu o som da igreja; ou Maroon Five tocando no último volume. Atendeu o celular apreensiva.
- Alô, biscoita?
- Eu, eu mesma - já pensava em como pagaria suas contas. De volta ao InfoJobs pra ela.
- Err...você sabe que eu gosto muito de você e...
- Desembucha, homem - se sentia mal por ser fria com a única pessoa que lhe tratava bem naquele escritório, mas não aguentava o suspense.
- É que o chefe acredita que tem gente mais interessada...e pontual...eu tentei conversar, mas...
- Eu sei. Sei mesmo. Tudo bem. Eu estou aqui na frente, vou subir.
- Acho melhor você passar amanhã pra pegar suas coisas. Hoje tem uma visita importante e o chefe já está roxo sem ter que olhar pra você.
- É, faz sentido. Ei, obrigada - disse, desligando o celular antes mesmo que ele pudesse responder. Com lágrimas nos olhos continuou sua caminhada, sem destino ou direção, imaginando ir até onde alcançasse pra simplesmente deixar-se morrer lá.

Deteu-se a entrada do parque Trianon. Todos os dias passava por ali, seguindo seu rumo inabalado e decidido, precisava de seu ônibus, precisava ir pra casa. Nunca havia entrado, e quer saber? Foda-se. Entrou. O pequeno parque - pequeno em tamanho, extensão, volume de pessoas e de árvores, mas gigante em volume de aranhas - era até convidativo, com suas curvas e ninhos, casais e hipsters, seguranças e jovens que insistiam em se utilizar dos brinquedos - expressamente proibidos para maiores de 12 anos, pois a essa idade já perderam toda a magia e esperança e, se brincam no balanço, é só pra incomodar.

Caminhava distraída, pensava na vida, pensava em si mesma. Sentou-se num banco qualquer e observou ao redor, procurando qualquer coisa que a tirasse daquele estupor. Sentia-se cansada dessa rotina, de pular de subemprego a subemprego enquanto não conseguia realizar seus sonhos. Despenteou os cabelos. "Foda-se", pensava. Tirou o tênis, vestindo um par de meias que não combinava (entre si ou com o pacote completo da sua aparência) e deitou-se de barriga pra cima, mal se incomodando com a visão dos aracnídeos que domina o céu daquele lugar.

- Você sabe que só tem uns meses de vida, não é? - disse pra libélula dourada que pousou em seu umbigo. - Eu não sei o que faria se só tivesse uns meses de vida. Eu sei, eu sei, você vai falar que o tempo é ilusório, e que a vida é o que fazemos dela. Mas não é. Você não escolheu ser uma libélula, foi enganada pelo coiote e não minta pra mim, darias tudo pra voltar a ser dragão.

A libélula a encarava, mexendo suas asas devagar, concordava com a cabeça. Um homem de chapéu passou e viu aquela menina largada no banco. "Algumas se estragam de propósito", seguiu pensando. Morreu dois dias depois, de um atropelamento que em nada acrescenta a história, mas ele merecia!

- Tá, eu concordo, mas não consigo acreditar que tenho controle sobre a minha vida. Eu não tenho controle nem sobre o que eu como! Se eu quisesse comer fibras eu comprava alguma porcaria com fibras, não bolacha! - nesse ponto a libélula não a questionava, seu interesse nos hábitos alimentícios da menina variava entre o nada e o pouco nada.

Um casal de xadrez passou de mãos dadas. Combinavam dos pés da cabeça. Olharam a menina deitada que falava com o vento, sua voz mais cantada que enunciada, julgaram-na louca. Tão apaixonados, tão bonitos. Ele a traía, só porque podia. Ela há muito não o amava, gostava dos seus presentes. Se mereciam.

- Os dinossauros. Já parou pra pensar? O que é um dinossauro? Aliás, pulemos isso. Mas eles também não tiveram escolha. Eu não sei quando eu vou morrer, se um meteoro gigante vai cair na minha cabeça, nem se até lá eu vou ser mais feliz ou sei lá, vai que eu acordei mal no dia? E não me faça começar a falar de amor!

Uma cigana passou sem sequer olhar pros lados, caminhando apressada em direção ao MASP, mas sabia que a menina estava lá. Sabia também que ela não estava sozinha, mas quem está hoje em dia? Acendeu um cigarro e, no barulho de suas crepitações, ouviu um mal agouro. Abriu os olhos a tempo de evitar ser atingida por um carro que passava. Coincidência.

- Pura teimosia. Não tens ideia do que falas. Ilusões, sonhos, fuga da realidade. São necessários, dádivas dos deuses pra nos darem um tempo desse stress infernal. Cada um faz o que pode pra alcançar o máximo de felicidade possível, o resto são drogas. Acho que estão pulverizando os vegetais com Lítio, só assim pra explicar esse povo.

Não deu pra ver quem passou, mas essa pessoa, tomada de inspiração pelo perfume de lavanda que pousava ali, foi pra casa e vendeu tudo que tinha. Descobriu que, se abdicasse de alguns privilégios, poderia viver sem trabalhar por 30 anos só com o que juntou. Mudou-se pro interior, onde viveu uma vida feliz esculpindo insetos em madeira. 

- Não sei, não sei mesmo. Acho que eu preferia voar, como você. Viver alguns meses, mas viver livre, feliz, dourada. Não preciso ser vista, não preciso ser linda, não preciso ser ninguém. Acho que no fim você estava certa, nós é que criamos nossos muros, nossas barreiras, nossas ilusões.

Um garoto sorriu a visão daquela linda menina jogada no banco, sem preocupações, os olhos fechados num transe contente. Queria cair aos pés dela, dizer que era linda, que já a amava sem nem mesmo conhecê-la. Não teve coragem e seguiu, contando quantos passos se afastava do amor da sua vida. Três, quatro, cinco, seis, cinco. Arrependeu-se.Virou-se. O banco vazio. Suspirou enquanto continuava seu caminho, parando só um pouquinho pra admirar o casal de libélulas douradas que dançava ali.
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15 de jul. de 2012

Quatro Dias de Penas

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Segunda-feira. Jazia estático na cama já há algumas horas, meio acordado, meio preguiçoso. A cama de casal vazia lhe dava amplo espaço para seus braços e pernas, de modo que os mantinha abertos, como se imitasse uma estrela ou tentasse fazer anjos de neve no lençol amarrotado. Cansou-se do cheiro de suor noturno e resolveu se levantar, interrompendo o curto caminho até o chuveiro para admirar-se no espelho. Já se considerara bonito um dia, e outros compartilhavam tal opinião, mas a barba crescida se encontrava com seus cabelos desgrenhados e juntos lhe davam o aspecto de um neandertal em trajes de dormir. 


Suas unhas só não alcançavam o metro pois as roía incansavelmente ao menor sinal de tédio ou ansiedade. Por vezes sentia certo nojo ao lembrar-se que não as higienizava com tanta frequência, mas logo esquecia e voltava a devorá-las, provando inúteis as inúmeras tentativas empregadas por sua mãe de afastá-lo do vício logo na infância. As broncas, as chineladas e a pimenta hoje eram só uma vaga lembrança em sua mente entorpecida e vazia. "Flácido" era a palavra que melhor o descrevia, e sentia-se mal por isso; jamais fora atlético, mas o incomodava ter se deixado largar de tal maneira. Odiou seu reflexo mais um pouco e finalmente foi cumprir sua promessa de limpar-se.


A água quente escorrendo por seus cabelos sempre lhe abria os pensamentos, e dessa vez não foi diferente. Pensou na adolescência, nas oportunidades que perdera seguindo suas crenças e o desapontamento que trouxe a todos ao seu redor. O rosto de seus pais, "você não pode, não tem capacidade. não nasceu pra isso". O sorriso sem graça dos amigos, "é...legal...já pensou em fazer outra coisa?" As aulas que pagou com seu emprego na lanchonete, "talvez não se aprenda a escrever, meu filho". Mas gostava tanto, tinha tantas idéias! Talvez não tivesse o dom, mas buscava, Deus como buscava!

Secou-se, pegou pão na cozinha e recomeçou a rotina diária de encarar a tela do computador. Piscou algumas vezes frente a tela clara. Seus olhos já não eram mais os mesmos e logo teria que trocar de óculos, mas não tinha ideia de onde tiraria o dinheiro. Mal sabia se comeria no dia seguinte, se limitando a viver de pão, miojo e alguns temperos baratos pra atiçar o sabor. Se dizia fanático pra não admitir ser pobre.
A casa que herdara dos pais já fedia a ausência de sol e até pensava em abrir as janelas, mas tinha medo de que os vizinhos o encarassem.

No escuro, comia com uma mão e com a outra navegava a internet a procura de alguma inspiração, algo que o levasse a escrever mais uma de suas terríveis obras. A webcam caída de lado, o teclado oleoso, lia as notícias, lia as opiniões, lia sobre tudo e queria muito escrever também. Nada. Onde estava aquela força que lhe mantinha de pé anos atrás, que lhe fez lutar pelo diploma, lutar pra ser publicado, lutar pra viver do seu trabalho? Não tinha, não tinha nada. Não tinha admiradores, nem família, nem amigos, só a preguiça obesa e a solidão que a vergonha trouxe para dormir em casa. Levantou-se, realmente era hora de abrir as janelas. Já não aguentava mais o calor que fazia ali dentro e uma brisa não faria mal algum. Cortinas, trinco, ar.

Lá fora fazia um lindo dia ensolarado, o céu azul limpinho se enfeitava de algumas nuvens de algodão que apostavam corrida rumo ao norte. "Frente fria se aproximando", dizia a página do jornal local, "sol com poucas nuvens mas sensação térmica de 13° Celsius". Tinha lido em algum lugar que a expressão "sensação térmica" é utilizada errado, mas desconfiava da informação, pois realmente fazia um friozinho não compatível com a imponência de Rah sobre sua casa. No quintal, a árvore já seca até parecia ganhar um pouco mais de vida, um pouco mais marrom, um pouco mais verde, alguns assobios.

 Reconheceu o som como provindo de um ninho improvisado num dos buracos da anciã já morta. Anormalmente pretos pro tipo assobiador, e não achava uma árvore morta o melhor lugar pra se morar (mas também não era um expert em pássaros). Não deu importância e estava prestes a virar as costas quando percebeu que um deles parecia gordo demais. Nem mesmo se mexia, sua barriga inchada como se fosse explodir. O outro pulava em torno do maior, cantando, e voava trazendo consigo algum pedaço de fruta ou inseto. Ouviu um barulho na cozinha e virou-se rapidamente pra verificar, encontrando nada além de escuridão total.

Acordou com o corpo duro como se não se movesse há horas. Meio zonzo, meio preguiço, seus braços e pernas abertas de modo que imitavam uma estrela, ou um anjo de neve no lençol amarrotado. Cheirava a suor noturno, não se lembrava de nada do dia anterior. "Me olhei no espelho, tomei um banho..." sim... Deus, que calor deve ter feito, estava banhado em suor. E por que as janelas estavam fechadas? "Comi... Abri a porra das janelas, fiquei olhando os pássaros..." Levantou-se e olhou pra fora,  coçou os olhos pois o sol brilhava, aquecendo-lhe enquanto uma brisa fria adentrava o quarto. Os dois continuavam lá, o maior parecendo uma balão e o menor quieto, como se esperasse.  "O que eu fiz o resto do dia?"

Voltou pro espelho, fedia. Parecia mais imundo que no dia anterior e não se lembrava de nada além do barulho na cozinha. "A cozinha". Foi até lá verificar. Nada diferente, o saco de pão aberto do jeitinho que havia deixado. Será que sua pressão caiu e desmaiou? Será que o tempo não passou? O computador continuava ligado, mexeu o mouse pra que a tela se iluminasse.13:41, terça feira. Dormiu praticamente um dia todo? Impossível. Sentou-se e voltou a rotina de checar os sites e blogs que acompanhava, dessa vez ligando a TV pra que tivesse uma distração sonora. Colocou a webcam de pé, sentia-se torto com suas coisas tortas.

"Desabou. Dois jovens são condenados pela morte do estudante assassinado no estacionamento da Universidade de São Paulo no ano passado." Já não era sem tempo, pensava. Nada de interessante na internet, nada na tv,  pássaros. Só conseguia pensar em penas. "Você sabia que as infecções respiratórias podem causar problemas do coração?" Bom, sabia que as infecções podem causar problemas, claro. Colocou a cabeça pra fora da janela, ainda ouvindo o jornal com um certo ruído de barulho da vizinhança. "Nove pessoas foram baleadas, oito morreram". O menor havia trazido comida, mais fruta, mais inseto. O maior ia explodir. Reparou que atrás dele, reluziam as carcaças de um único ovo quebrado. Imaginou que o grande fosse a mãe e o pequeno, seu filho. Mas cresceu tão rápido? Já tem as penas negras e é forte a ponto de buscar comida...e voa..."Essa mulher ouviu os tiros, mas não percebeu que era um crime. Para a polícia a intenção dos bandidos era aproveitar o barulho dos". Silêncio. Sua TV se desligou com um "tsiu", olhou pra verificar e só viu escuridão.

Duro. Zonzo. Braços e pernas abertos, cheiro de suor. Seu pescoço e barriga doíam, um por rigidez, o outro parecia mais agudo, mais afiado. Quando conseguiu se mexer verificou o local da dor a luz da televisão, um corte retilíneo descia alguns centímetros começando logo abaixo do seu peito. Comprido, um pouco fundo, mas não sagrava e parecia completamente limpo. Acendeu o abajur, podia ver um pouco de vermelho, mas além da dor não parecia ter mais com o que se preocupar além do fato de que não sabia como ganhara o corte ou deitou novamente na cama. Ou fechou as janelas, "essas janelas, puta que pariu". Abriu-as. O sol brilhava, céu com nuvens, brisa fria. Dois pássaros. Olhou no espelho, imundo, faminto. Foi a cozinha fazer um chá, comeu o pão duro que ficou novinho após um tempo na grelha. Sentou-se frente ao computador, totalmente alheio ao barulho da televisão, o chá preto o aquecia por dentro. "Quarta-feira", pescou entre as palavras do apresentador. Pesquisou sobre desmaios, perda de memória, cortes. Assombrações, múltiplas personalidades, câncer. "Tudo é sintoma de câncer", pensou. Na TV uma reportagem sobre comer frutas e legumes, mas não achava que sua alimentação era motivo para alarme. "Deve haver alguma explicação", mentiu pra si mesmo. Um bom escritor é sempre um bom mentiroso.

No fundo não se sentia tão nervoso, o que devia temer? Não faria falta alguma, a ninguém! Quem noticiaria que adoecera ou morrera. "Não seja tão pessimista", pensava observando o pássaro gordo, "o outro deve ter saído pra caçar comida". Enquanto não voltava, a barriga da provável mãe se mexia, pequenas protuberâncias caminhando sob sua pele. As penas se moviam como ondas e ela gemia e miava, chamado que trouxe a atenção do filho. Não tinha comida dessa vez e parecia desesperado, assobiando cada vez mais alto enquanto pulava e batia as asas. O coro dos pássaros já lhe dava nos nervos, queria destruí-los por roubar seus preciosos dias, quando de súbito só se ouvia o menor. Segundos depois irrompeu em silêncio, como se também percebesse que era agora o único a cantar. A mãe permanecia gorda, estática, mantendo os olhos abertos enquanto fitava o nada. O pássaro sabia, ele sabia, só o pássaro cantava - voltou a assobiar um som triste e a pular em volta do defunto. Sentiu-se culpado por desejá-los a morte, essa nunca era algo bonito de ver. Estava oco, vazio, só conseguia assistir aquela cena e imaginar que o filho chorava enquanto assistia seus irmãos morrerem dentro da mãe sem nunca terem conhecido o mundo. Precisava fazer uma coisa, virou-se pra correr até a árvore e ajudar, mas nem saiu do lugar.

Dronzo. Brapernas, chuor. Sua cabeça pesava uma tonelada, mal conseguia pensar, mal conseguia se mexer. Sua barriga ardia uma dor que nunca sentira antes, funda, cortante, constante, descia até o umbigo. Enxergando nada, tateou em busca do abajur e ficou horrorizado assim que seus olhos se acomodaram a luz. O corte descera, mais fundo, maior, queriam rasgá-lo em dois. Penas e sangue cobriam o lençol e o chão, furos como bicadas cobriam seu corpo, pequenos socos pontudos que doíam em hematoma e carne. "O pássaro, o pássaro filho da puta". Ignorou o computador, abriu a janela, era noite. Forçou a vista e o encontrou a beira do ninho, coberto de sangue e parecendo machucado, ou exausto.

"Eu sabia", pensou, "o pássaro, foi ele o tempo todo!" Novamente queria rasgá-lo, matá-lo, destruí-lo, mas ainda pensava no dia anterior, em como por um momento sentiu por ele. Queria enxergar a mãe mas a escuridão o impedia, a luz da janela só iluminava o filho em luto. Procurou a lanterna que guardava na última gaveta da cômoda, só encontrou meias. "Talvez embaixo da cama", e lá estava bendita. Apontou para o ninho e observou, chocado, os restos mortais da mãe, sua barriga rasgada (certamente a bicadas) enquanto os sete ovos que caíam sobre o ninho (exceto um...), se quebravam, livres pra revelar as criaturas dentro de si. Seis pequenos irmãos recém nascidos, direto do forno da barriga materna, um parto digno de um mamífero. O mais velho assobiava orgulhoso, seu trabalho enfim concluído, o sacrifício de sua mãe ganhando propósito. O último ovo jazia quieto na gruta da carcaça materna, mas tinha esperança de que também se libertasse. Suspirou.

Nunca havia presenciado cena tão incomum. Queria escrever sobre aquele pássaro tão belo que, com todas as forças, abriu a bicadas a barriga da mãe buscando salvar seus semelhantes não-nascidos. Correu pro computador e foi engolido pela escuridão, pra nunca mais acordar.


No dia seguinte seu nome era conhecido em toda a internet. Seus três vídeos, onde relatava seus dias e a comovente história de dois pássaros que se instalaram em seu quintal, ficaram famosos quando, na quinta-feira a noite, uma exibição ao vivo terminou em tragédia. Proclamando estar dando a luz a maior obra de arte já feita, cortou seu tórax a navalha, assobiando sem nunca demonstrar dor enquanto se rasgava de fora pra dentro. 


Por Rodrigo Neflin.
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14 de jul. de 2012

Além do Muro Mal Pintado

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Apertava contra o peito a mochila onde guardava suas preciosas sapatilhas, que se moviam no mesmo ritmo e com a mesma força chorada de seu peito que inflava e desinflava enquanto corria pelas ruas daquela cidade vazia. Os garotos que o chamaram de "viado do cacete" vinham atrás, parecendo mais divertidos que ameaçadores, mas sabia que não compartilharia de seu riso. Corria mais rápido que suas pernas aceitavam, por temor de apanhar, por temor deles o virem chorar, por temor de ser mesmo tudo aquilo que eles o chamavam. Dobrou a esquina. Dobrou de ideia. Queria sumir, queria morrer, queria gritar mas ninguém nunca olhava, nunca! 

Aprendera num programa de TV que em situações de perigo era melhor gritar "fogo!" do que "socorro!", pois a curiosidade é muito maior do que o senso de justiça, ou a compaixão, ou talvez maior que o próprio medo. Mas tinha medo de tentar, não queria ser olhado, não queria ser julgado por mais daquela gente. Odiava aquela gente. Desviava de postes e pessoas com cachorros que até se assustavam por um momento, mas logo voltavam a sua rotina de catar cocô. 

Num momento de desespero ao olhar pra trás e ver seus perseguidores se aproximando, dobrou uma rua que não conhecia e, sem demora, percebeu seu erro. Havia dado de cara com um belo beco sem saída, uma grande muro de tijolos mal pintado de branco de onde por cima saltavam bananeiras e outras árvores que só servem pra dar moradia a tarântulas. Mas não parava de correr, não parava de chorar, há muito parara de respirar e talvez por isso um pensamento estúpido passou por sua cabeça: dos males, o melhor. Podia deixar que eles o alcançassem, que o batessem e o xingassem, que rissem como as hienas que verdadeiramente eram. De novo. Ou podia correr pra sempre, estatelar-se no muro mal branco e virar um amassado de viado do cacete, a mochila surrada e as sapatilhas pressionadas tão forte contra si que se fundiam com seu corpo. Um pouco de sangue pra variar, um pouco de dor pra variar. Talvez hoje ririam e, satisfeitos, lhe deixariam em paz com sua dor. Olhou pra trás e viu sua imagem nos olhos daqueles meninos, seu corpo espancado no chão, um pinto desenhado em sua cara. Olhou pra frente e viu o muro. Preferiu o muro e nunca, nunca, nunca parou de correr. 

Seu coração batia tanto que o sentia em cada extremidade do corpo, entalado em sua garganta e sufocando-o enquanto abria e fechava os olhos devagar, ora via tudo branco, ora via tudo preto. E viu o branco, e viu o preto, e o branco, e o preto, e o branco, e o preto, e o alaranjado de um jardim iluminado pelo entardecer que se cobria de flores jovens e sem-vergonha enquanto exalavam seu denso e viciante perfume de romãs. No susto que se seguira tropeçou, caindo de cara e coração (que continuava alojado em sua garganta) no chão mais-macio-do-que-imaginara-mas-ainda-muito-duro. Levantou a cabeça cuspindo vômito e sangue, um pouquinho de dentro da boca, um pouquinho escorria como um riacho nariz abaixo. A dor não lhe permitia enxergar e seu nariz só cheirava vermelho, lhe restando confiar no tato e no inconfundível sabor de grama molhada em sua boca para crer que estava sim naquele jardim que vira por alguns milésimos de segundo. 

Retirou a mochila ainda presa ao peito para tentar "respirar a maior parte da dor", exercício que aprendera após alguns hematomas e ossos fraturados. Aos poucos voltava a enxergar, aos poucos tinha a impressão de que havia perdido o juízo. Tudo que lhe tocava a vista era jardim, aquele sol refletido na grama viva em tons tão quentes quanto um abraço. Olhou pro caminho de onde viera em busca dos garotos, mas atrás de si só existia um enorme portão prateado trancado a correntes, que apesar de imponente e assustador tão quão velho e enferrujado, nada trancava, pois não estava conectado a muro ou cerca alguma. 

Levantou-se e contornou o portão, tocando-o admirado enquanto olhava em volta procurando outras sensações, inalando aquele ar tão doce que lhe cobria o cheiro vivo do sangue com um lençol de tranquilidade que aos poucos percorria seu corpo dolorido e, se não lhe curava as feridas da queda, pelo menos as anestesiava o suficiente pra que pudesse mover seu corpo graciosamente por aquele belo jardim. Dançava e pulava como nas aulas de balé, ao som do seu coração já sereno e do canto de pássaros que não enxergava, mas que imaginava por entre as árvores dançando contigo aquela peça tão fina. Se fechasse bem forte os olhos podia jurar que o vento o carregava e seus passos de menino que recém adquiriu as sapatilhas se tornavam os de um verdadeiro artista, como aqueles que via na TV, como aqueles que seus pais acreditavam e encorajavam que viesse a ser. "Você pode tudo", lhe diziam, "o mundo é de quem segue seus sonhos". E seguia sonhando pelo jardim adocicado, enquanto o sol se punha devagar e levava consigo o seu abraço. 

De repente não se sentia tão feliz, tão calmo, tão único. A pouca luz aquele jardim gradativamente se tornava só mais um mato escuro, o vento com inveja de seus passos levara consigo o cheiro das romãs e o portão que há muito deixara pra trás com suas piruetas e sissones, como num passe de mágica, jazia fincado fortemente ao solo dois passos atrás de si. Não queria que aquilo terminasse, não queria parar de dançar, aquele jardim era o único lugar que amara tão intensamente e por tão poucos minutos! Correu em busca da mochila, não se importando em tê-la  encontrado aberta, o zíper cuidadosamente corrido metade de seu trilho total. Procurava apressado pelas sapatilhas, imaginando que calçá-las certamente lhe devolveria toda aquela inspiração e desejo de viver que sentira há pouco quando o sol ainda não havia desfeito seus laços de amizade, indo embora em direção ao horizonte oeste. 

Com as solas devidamente vestidas, pôs-se de pé num pulo e logo foi executando um arabesque meio desajeitado, já não mais ouvindo a música dos pássaros que logo se calaram com medo dos morcegos que certamente ali rondavam. Decidido, continuou sua dança torta, fria e inculta, arrastando seu corpo suado e pesado por entre aqueles galhos ameaçadores e folhas que lhe fitavam a nuca. Se enjoava e vomitava aqui e ali, sentindo sua cabeça cada vez mais zonza enquanto perdia o ar em seus pulmões. Caiu ao chão, semiacordado, as sapatilhas fugindo e desnudando seus pés imundos. Num último esforço asmático, arrastou-se de volta aos calçados a tempo de ver, tão solitária e serena em sua forma esmagada, a tímida aranha armadeira que aparentemente se instalara em sua sapatilha esquerda. Chorou uma última gota salgada e fossilizou ali mesmo, pra sempre marcado ao chão do jardim na quinta posição.

Lá atrás ficou abandonado o muro mal branco, agora pintado com a imagem de um belo jardim. Os três garotos examinavam curiosos o detalhe da caixinha de música jogada, quase enterrada em meio ao verde-marrom, abandonada, triste, sozinha. Por algum motivo isso os incomodava, mas nunca entenderam qual - mesmo assim, naquela noite, não conseguiram dormir. 

Por Rodrigo Neflin. 
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13 de jul. de 2012

Uma Casa

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todos os ratos se foram e levaram consigo as ratoeiras, lembranças daquela velha casa empoeirada que já servira a tantos fidalgos e bedéis, onde hoje já nem as pestes ousam habitar. as aranhas morreram de fome (exceto por uma, mais esperta, que comera as outras que se davam por vencidas) e a lagartixa que morava atrás do quadro hoje era um fóssil estampado na parede descascada.

o vento as vezes entrava pela janela, percorria cada canto da sala e dos quartos a procura de alguém pra contar suas aventuras no sul, lá pelos pampas (mas nunca realmente nos pampas, ele só vira de longe).
- alô ô ô ô. - uivava o vento.
- alô ô ô - ele ouvia responder. Ficava animado e partia a correr pelos corredores a procura de seu interlocutor. Mas tinha a memória fraca, sempre se esquecia que seu eco o respondia. E saía triste da casa, rondava as árvores idosas que surdas não davam bola pras suas aventuras de menino. E voltava a correr pelos gramados até encontrar vida que não tivesse sido tocada por aquela casa amaldiçoada, logo encontrando as formigas que ele nem incomodava e só cantava de longe pra que não atrapalhasse suas longas horas de trabalho.

mas de que importa o vento? é a casa que te incomoda, as paredes irregulares da sala onde, na tentativa de marcar um centro, se posicionava uma cadeira de balanço roída pelo tempo e pelas criaturas que já não tinham mais ossos pra morder, que se movia lentamente e gemia como se pedisse socorro pro vento que já tinha ido embora. e chorava e pedia pra que a morte a levasse, mas a morte se divertia não longe dali com afazeres mais dignos de sua presença.

os quartos vazios (haviam quantos, não sei) cheiravam uma mistura de amargo com baratas, de infiltração com casa-abandonada-que-serve-de-motel e um dia suas paredes muito conversaram e espalharam pros vizinhos (não de casa, mas de vegetação, pois a próxima casa estava bem distante dali) todas as fofocas que terminavam em casamentos mais amargos que os próprios quartos. e elas ficavam felizes e riam, esperando as próximas vítimas daquela cama infernal (que já nem gemia com os sobes e desces, pois as paredes faziam questão de cobri-la com seus gritos como hienas).

os banheiros, que eram três, há muito haviam deixado a casa. pouco a pouco foram levados pelos sem teto que montavam suas valas ou vendiam as porcelanas a troco de nada. alguns até tentaram dormir ali e estabelecer morada, mas toda noite ouviam os roncos das assombrações asmáticas. elas acabaram por ir embora, mas ninguém nunca ficou sabendo. 

peço mil perdões por não descrever a cozinha, mas nem eu nem qualquer criatura que já vira aquelas janelas se recorda se um dia houve uma cozinha ali. talvez estivesse, sim, acoplada a sala de jantar. talvez cozinhassem a lareira, ou ninguém jamais comera nada e viveram uns dos outros até que a morte os separava (voltando a se ocupar com coisas mais interessantes).
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