todos os ratos se foram e levaram consigo as ratoeiras, lembranças daquela velha casa empoeirada que já servira a tantos fidalgos e bedéis, onde hoje já nem as pestes ousam habitar. as aranhas morreram de fome (exceto por uma, mais esperta, que comera as outras que se davam por vencidas) e a lagartixa que morava atrás do quadro hoje era um fóssil estampado na parede descascada.
o vento as vezes entrava pela janela, percorria cada canto da sala e dos quartos a procura de alguém pra contar suas aventuras no sul, lá pelos pampas (mas nunca realmente nos pampas, ele só vira de longe).
- alô ô ô ô. - uivava o vento.
- alô ô ô - ele ouvia responder. Ficava animado e partia a correr pelos corredores a procura de seu interlocutor. Mas tinha a memória fraca, sempre se esquecia que seu eco o respondia. E saía triste da casa, rondava as árvores idosas que surdas não davam bola pras suas aventuras de menino. E voltava a correr pelos gramados até encontrar vida que não tivesse sido tocada por aquela casa amaldiçoada, logo encontrando as formigas que ele nem incomodava e só cantava de longe pra que não atrapalhasse suas longas horas de trabalho.
mas de que importa o vento? é a casa que te incomoda, as paredes irregulares da sala onde, na tentativa de marcar um centro, se posicionava uma cadeira de balanço roída pelo tempo e pelas criaturas que já não tinham mais ossos pra morder, que se movia lentamente e gemia como se pedisse socorro pro vento que já tinha ido embora. e chorava e pedia pra que a morte a levasse, mas a morte se divertia não longe dali com afazeres mais dignos de sua presença.
os quartos vazios (haviam quantos, não sei) cheiravam uma mistura de amargo com baratas, de infiltração com casa-abandonada-que-serve-de-motel e um dia suas paredes muito conversaram e espalharam pros vizinhos (não de casa, mas de vegetação, pois a próxima casa estava bem distante dali) todas as fofocas que terminavam em casamentos mais amargos que os próprios quartos. e elas ficavam felizes e riam, esperando as próximas vítimas daquela cama infernal (que já nem gemia com os sobes e desces, pois as paredes faziam questão de cobri-la com seus gritos como hienas).
os banheiros, que eram três, há muito haviam deixado a casa. pouco a pouco foram levados pelos sem teto que montavam suas valas ou vendiam as porcelanas a troco de nada. alguns até tentaram dormir ali e estabelecer morada, mas toda noite ouviam os roncos das assombrações asmáticas. elas acabaram por ir embora, mas ninguém nunca ficou sabendo.
peço mil perdões por não descrever a cozinha, mas nem eu nem qualquer criatura que já vira aquelas janelas se recorda se um dia houve uma cozinha ali. talvez estivesse, sim, acoplada a sala de jantar. talvez cozinhassem a lareira, ou ninguém jamais comera nada e viveram uns dos outros até que a morte os separava (voltando a se ocupar com coisas mais interessantes).
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Gostei muito desse conto. Parabéns e abraços.
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