22 de jul. de 2012
Redhead
"Could you tell me how can I get to Pinheiros subway station?" O que sabia de inglês aprendera com seriados e músicas, resultado de anos pesquisando traduções e prestando atenção em legendas. Mesmo assim se atrapalhava com as palavras, gaguejava enquanto falava e era consciente de sua pronúncia engraçada. Ele olhou pra baixo, encabulado, sempre tinha medo de errar e passar vergonha, quem dirá encarando aquela linda ruiva de olhos esmeralda que, se não era uma deusa, certamente roubara o rosto de uma. Suas sardas ansiosas contornavam seu sorriso, ainda a espera de uma resposta. "É...você...sorry, you can take the súbway going to Vila Madalena. Then you get off at Consolation, er, Consolação. There you transfér to the yellow line going Butantã, you can't really miss it." Respirou como se tivesse dito tudo num fôlego (e tinha). "Oh, thanks, you're so kind", she smiled beautifully, quer dizer, ela sorriu...deus, esqueceu qualquer palavra em português que descrevesse aquela visão.
"You're welcome", respondeu friamente, disposto a sair dali e contar pros amigos que legal tinha sido conhecer aquela menina que não conheceu. Já se virava pra ir embora, sem encará-la no rosto (ela era tão tímida de nada e ninguém, o olharia nos olhos de novo!), quando uma voz lhe deteve a atenção. "Thought you'd say de nada, was kinda expecting it." Que menina atrevida, brincando assim com ele! "Sorry to disappoint you", respondeu mentindo uma expressão triste. A primeira vez que riram juntos.
"To be honest, I am pretty lost. Would you mind taking me there?" Mal acreditava naquelas palavras. "Just a moment", respondeu, sem querer mimetizando um atendente de telemarketing. Fingia consultar o celular enquanto refletia suas escolhas. Nem se lembrava pra onde ela ia, mas queria segui-la nem que fosse o inferno. Lembrou-se da lenda urbana onde uma linda mulher seduzia um desconhecido e roubava seus rins, mas aquelas mãos não lhe roubariam nada. Tinha aula, não poderia. Prejudicaria os outros do seu grupo.
Naquele dia visitaram a Pinacoteca. "C'mmon, you even said it's free today", implorava puxando seu braço em direção ao trem. "I really have to go, I have a jób you know". Já perdera as aulas passeando com ela. Se imaginava ligando pra avisar que adoecera, ficaria um ou dois meses sem ir porque encontrara sua musa ou gripe do frango, não importa. Ligou. "Amanhã eu explico direitinho, meu pai não está muito bem". Sem nem saber o que falava ao celular, ela já dava pulinhos lhe abraçando pelas costas, "Let's go! We'll miss the subway train!".
Ela adorava tudo que via, lhe cutucando como uma criança perdida num parque que é na verdade outro país. "What do you call that?" Lhe contou que resolvera tirar um ano de férias, pra viajar pelo mundo e "fuck this shit". Os pais tinham dinheiro e não tinham pressa, com certeza a filha se tornaria uma mulher incrível e, se não, qual o problema? "Seriously, they even told me to take my time travelling. "It's kinda like they don't want me there.", disse cerrando os olhos numa expressão de desconfiança. "And you wêren't afraid, like, with all the violénce and shit? Someone can, you know, hijack you." Ela deu de ombros, "Meh, who would hijack me? I'M ANNOYING", gritou, chamando a atenção de todos no trem. E corria, e brincava, como uma criança perdida. Que só ele encontrou.
Como não derrubava os quadros do lugar era um mistério. Pulava e o puxava sem avisá-lo, movendo-se entre portas e obras como se elas nem existissem. Pedia que ele lhe ensinasse palavras em português, cobria seus olhos com as mãos, "this way you can't cheat", enquanto ele apalpava uma obra da Galeria Tátil. Não sabia o que sentir, só conseguia pensar na pele que o tocava. "Do you promise you won't open them?", perguntou baixinho em seu ouvido. "Eu prometo", respondeu, e ela repetiu no sotaque mais delicioso que ele já ouvira ("Eo prometô"). Tiradas as mãos, já não sentia mais nada, só saudade, e só via o escuro de suas pálpebras. Suddenly, all he could think about was her soft cherry-flavoured lips, his breath so close to hers as she kissed him like she was his first. Her arms gently folding his neck, não conseguiu deixar de puxá-la pra si, sem nunca abrir os olhos, não precisava ver mais nada.
Os próximos minutos e dias passaram como um corte cinematográfico. Agora estão ali, logo mais estão lá, claquete, outro lugar, queria dizer que se apaixonaram em todos. Levou-a pra conhecer a cidade, a de mentira (que só é visitada pelos turistas) e a de verdade, que precisava de ônibus e coragem. Seu pai estranhou a ideia de passar seus dias acompanhando uma garota americana da qual só sabia o nome, por isso o apoiou de primeira. "Divirta-se", disse, assistindo o filho empacotar as malas, passaria uma semana num hotel da Avenida Paulista, sozinho com a ruiva hiperativa. "I'll take good care of him", ela piscou ao pai, "divírtasê, right?" Ganhou a simpatia do coroa com os olhos.
A faculdade e o trabalho poderiam esperar. Ou não, mas sua vida era mais importante, e no momento era só ela. Chegou a apresentá-la a alguns amigos, visitando o cinema juntos. Propôs que vissem um filme legendado, pra que todos entendessem. A ruiva quis um nacional, queria a experiência completa, mesmo que precisasse ouvi-lo contar toda a história. "I'll listen to english only if it's coming out of your mouth.", jurou, tapando os ouvidos sempre que, passeando pelos canais da TV do hotel, caíam na CNN.
Em seu caderno brincava com palavras, arriscou uns versos em inglês. Na cama, na noite da derradeira despedida, ele os lia. Ela sorria, sorria pra tudo! Mas lhe recriminava, queria que lesse seus poemas em português, que escrevia escondido no final do caderno acreditando que ela não fuçaria. "But you don't really understand them...", justificava. "It's just that you sound much more beautiful when not trying to impress me". Não resistia aquele olhar. Limpou a garganta e leu:
"Eu não sei quando foi que percebi
que já não via minha vida sem você estar ali
quejá não via a mim mesmo sem te ter em coração
que já não atravessava a rua sem tentar te dar a mão
Eu não sei quando foi que acordei
procurando o seu cheiro em travesseiros que você nem nunca usou
ainda lembro aquele dia, com os dedos me calou
e disse "por favor, chega mais perto"
Eu me perdi em algum lugar do seu deserto".
"Is it about me?", perguntou ela, mal movendo seus lábios pra falar. "Does it sound like it?", respondeu frio, sabendo que ela entenderia o sim nas entrelinhas. Seus olhos brilhavam, mais que nunca, encarando os dele. "You can ask me to stay". O tempo parecia congelar suas palavras, não poderia, não faria isso com ela. "I can't, I would not, I could not let you throw away your life for me", queria tanto, desejava ir com ela, ela com ele, pra qualquer canto do mundo. "For us. What are you so afraid of?" Tentava, poderia jurar pelo universo que tentava, mas as palavras que queria não saíam. "What if it ends?" A pergunta que o assombrava, e o assombraria pro resto da vida.
Não fosse a resposta.
"We'll start again. Eo prometô."
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Um agradecimento especial a Juliana Takeshita, que ajudou a minha ruiva a soar como uma gringa de verdade. <3
ResponderExcluirSuperbe, exceptionnel, remarquable.
ResponderExcluirA tale worth a new smile every line. And you just can't stop smiling throughout the entirety of it. Amazing. I thank you for have written it, c'est un chef-d'oeuvre. My congrats.
Love takeshito. Miss you, like, for real.
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