25 de dez. de 2012

Chiado leve

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Viajo em minhas próprias histórias e adormeço.

Em um labirinto de pedra uma menina de cabelos castanhos me encara de baixo pra cima e pergunta "e se você sonhar demais?", acordo com seu rosto gravado na cabeça mas antes da primeira mordida já o esqueço.

A cozinha tem mais comida que o usual mas nada realmente satisfaz meu apetite, nem mesmo as coisas fechadas. Com um amor contido pelos alimentos que vêem em caixas agarro qualquer coisa entre uma viagem e outra pelos cômodos da casa.

Comia um pedaço de panetone quando reparei no embrulho debaixo da árvore. Nunca fui do tipo que liga para embrulhos mas era de bom gosto, com listras em diversos tons. De azul.

Não tinha nome, nem mesmo o meu.

Arrisquei um chute e ele não se moveu, o que foi uma surpresa agradável. Passei alguns minutos procurando um relógio, na tentativa de descobrir quanto tempo fiquei apagado, mas os de ponteiro estavam todos sem pilha, o celular marcava 01:00 da manhã.

O computador não ligava.

Abri a janela do quarto e Apolo entrou castigando meus olhos, podia ser dez da manhã de um dia sem nuvens ou uma supernova estacionada do lado de fora da janela. Tudo parecia mais amarelo que o normal e a vista já era feia em dias nublados.

A caixa de remédios vazia não era surpresa. Talvez o embrulho azul fosse uma imensa caixa de remédios.

Um cheiro estranho se espalhava e parecia originar-se na cozinha, mas não havia nada além de comida. nem podridão, nem fungos, nada que explicasse o odor de rato assado que caminhava sentido leste. Talvez o vizinho.

O vizinho era suspeito de cozinhar ratos porque era um homem muito estranho de meia idade que provavelmente não tomava muitos banhos e vivia do INSS e quando você não tem muito o que fazer a mente fica criativa. Talvez ele até tivesse mandado o embrulho.

Sentei no sofá e encarei os azuis e ele certamente era muquirana demais para enviar um presente pesado então aquela caixa que emitia um chiado devia vir de outra pessoa.

Aproximei os ouvidos tentando identificar o chiado e é claro que eu pensei em "bomba" ou em "pegadinha do malandro" mesmo sabendo dentro da alma que não sou ninguém o suficiente para ser alvo de uma bomba, quem dirá uma pegadinha elaborada (meus amigos trabalham).

Arrisquei levantá-la com as mãos mas como era pesada repousei-a no sofá e fui tomar um banho pois talvez o cheiro de rato fosse eu. Um pouco de sabonete e desodorante me convenceram que não e o cheiro aumentava e talvez eu devesse ir falar com o vizinho, mas primeiro devia abrir o presente que chiava mais e as luzes de natal estavam acesas.

Eu não gosto de pisca-piscas.

Quando era pequeno na casa de um amigo seus avós brigaram e era bem perto do natal. A árvore estava montada e acabou despencando na confusão e ela nem tinha pisca piscas, mas esse mesmo menino no dia seguinte colocou um no olho.

O psicologo disse que havia uma relação.

Ele é bem normal hoje em dia apesar do olho esquerdo ser uma bolota inútil e das fantasias de pirata no carnaval estarem perdendo a graça, costumava comprar presentes caros e eu até queria que fosse dele, o que significaria um videogame ou uma batedeira maneira, mas ele não gosta de azul.

Um gosto metálico cobre meus dentes e a validade do panetone está completamente aceitável (mês que vem está muito longe) e a coca-cola pode ter tomado sol mas que azar seria, tomo outro gole e o gosto parece normal.

Nada mais está fora de lugar e me pergunto que tipo de pessoa liga os pisca-piscas e deixa um presente mas não um bilhete.

A chave não está na fechadura e demoro para encontrá-la no meio das almofadas do sofá, o tapete está posicionado segundo manda o feng shui e o trinco que deveria estar caído obstrui tranquilamente qualquer invasor e decido abrir logo o embrulho pois não aguento mais o chiado mas um estalo acusa que o computador está ligando.

Corro e praticamente abraço o teclado e após a mensagem de abertura do Windows o relógio acusa 00:00 e o computador é praticamente novo. Ignoro, a internet funciona, verifico meus emails é natal e talvez ela tenha recebido meu presente e me perdoado mesmo não tendo nenhuma mensagem no celular.

Dos dois emails novos só um é de Lilian e ele não tem assunto, abro com o coração acelerado que pára logo nas primeiras palavras "adorei o presente, por favor não me procure mais", dou dois socos na porta e procuro a caixa de remédios mas ela continua vazia.

O resto do texto é alguma baboseira sobre estar tudo melhor agora e é melhor ler o outro e-mail mesmo sem conhecer o remetente, talvez seja spam mas um motivo de ódio sobrando não faz mal a ninguém.

O e-mail diz "não abra o embrulho".

Eu levanto e a caixa de remédios escondida - não a que estava vazia, a de emergência - também se encontra vazia então eu ligo para meu farmacêutico e ele diz que me consegue Subutex e eu digo que estarei lá em algumas horas, pergunto se ele não me mandou um presentão de natal, ele responde que não tem clientes favoritos e que vai estar no poste de sempre.

O chiado incomoda a ligação e eu já estou chutando o embrulho de novo e o e-mail continua ecoando na cabeça "não abra" e é óbvio que uma mensagem de não abra significava que eu teria que abri-lo, talvez não se eu o jogasse fora.

O que era impossível.

Na minha cabeça eu rasgo um pouco do embrulho e ele tem buracos então eu estava chutando uma coisa viva e sinto de novo o coração mas agora ele é amargo, toco o embrulho no chão e ele parece vibrar mas pode muito bem ser eu. O chiado continua.

Eu penso em caminhar pois poderia muito bem clarear a cabeça, não sei se é a falta ou o excesso, soluço uma única vez e rasgo o papel com o pouco que sobrou de minhas unhas.

Um som vem do quarto e eu tenho um novo e-mail, ele diz "você abriu a caixa" e eu olho pro embrulho e ele está fechado embaixo da árvore, nem mesmo em cima do sofá onde eu o abri.

Olho novamente pra tela e tudo que eu vejo é um labirinto e talvez eu consiga encontrar a saída. Uma menina tenta me ajudar mas ela não sabe meu nome, tento dizer mas não tenho voz então ela finalmente me encara com o olhar triste e diz "talvez você esteja sonhando demais", acordo com a pior dor de cabeça da minha vida.

Debaixo da árvore o embrulho azul está aberto, a caixa dentro dele é preta. Volto ao computador e o e-mail aberto diz "vamos tentar outra vez" e resolvo abrir a caixa. Dentro dela há um espelho e meu reflexo parece tão confuso quanto eu.

O telefone toca e a voz me pergunta se eu vou buscar o Subutex ainda hoje pois ele tem mais o que fazer, não entra luz alguma pela janela então deve ser tarde da noite, digo pra ele que algo muito errado está acontecendo e ele responde "sim você não devia me deixar esperando" e desliga a ligação.

Raciocino que alguém deve estar brincando comigo e a caixa de remédios continua vazia, o e-mail não diz absolutamente nada e um chiado interminável acompanha o cheiro podre da casa, retorno a caixa que não tem mais nada além do espelho e uma nota "pensando melhor, pode ficar com seu presente".

Vomito um pouco no banheiro e quando retorno não há nota alguma. O espelho continua lá e eu desejo muito que ele seja outra coisa, algo que me conforte. Coloco minha jaqueta e saio de casa calçando os piores chinelos que encontrei.

Uma viagem de ônibus tremida depois e estou vinte minutos mais velho tomando garoa em meu boné, normalmente não uso mas essas bandas requerem certas precauções, um menino de uns 15 anos me encara e eu não tenho medo de nada na garoa.

Atrás do poste marcado com uma bandeira só consigo ver um cigarro aceso, o cheiro não é de tabaco ou cravo e eu não peço um trago pois estou com pressa. Acho que ouço um sermão mas um chiado leve nos meus ouvidos me impede de prestar atenção em qualquer coisa, minhas mãos tremem um pouco e eu pergunto o que mais ele tem.

Volto pra casa e não ouço chiados e minha cabeça está mais clara do que nunca, mas o presente continua lá pelo menos o cheiro se foi, talvez o vizinho tenha se mudado mas a esperança é sempre maior que a realidade.

Ligo pra Lilian e digo que a amo mas nem cheguei a falar com ela, ouço o barulho seis vezes e disco novamente, ninguém atende.

Abro o presente e ele ainda é um espelho, a caixa de e-mails continua vazia mas a de remédios está cheia e tudo começa a fazer mais sentido menos o espelho, meu presente de natal é acreditar em papai noel.
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1 de dez. de 2012

O Envelope

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Pelo correio chegou um envelope, e por uma semana o comportamento de minha esposa foi ficando cada vez mais incompreensível. Tão estranho que eu notava a diferença, primeiro em seu modo de andar e de responder aos meus chamados, e depois na maneira como me dizia boa noite antes de dormir e a expressão em seus olhos logo quando acordava.

Não pareciam mais se abrir em um sorriso, eram mais como buracos, que me encaravam como se eu tivesse culpa de algo.

É claro que a memória prega peças, e eu imediatamente voltei para aquela noite logo quando começamos a namorar e ela ainda não dizia que me amava mas eu já sabia (pois sempre soube), e mesmo assim um pouco de álcool foi o suficiente pra me deixar cair em tentação e na noite seguinte eu a encarei de frente e pensei "ela sabe, é impossível que não saiba quando me atravessa com o olhar" mas fiquei calado e engoli o champagne pra hidratar a garganta, não funcionou.

Agora era como se eu a atravessasse, mas ao invés de vê-la por dentro, só enxergo o outro lado. Dá pra assistir televisão mantendo contato visual cinematográfico. Uma carta, talvez? Não tinha remetente, que tipo de carta não tem remetente?

Chegava do trabalho sorrindo e tentava dividir com ela toda a excitante rotina da escola, de como as crianças estavam ficando insuportáveis e parecia que os próprios pais não tinham educação, e ficava aguardando que ela me mostrasse os dentes e suspirasse e no meio do seu suspiro eu ouvisse mesmo sem ela dizer "sofia", mas dessa vez não disse nada. Serviu a janta e sentou-se na cadeira diretamente oposta a mim, nem tocou na comida e acendeu um cigarro.

Talvez essa fosse a dica.

Cinco anos antes numa estrada qualquer rumo ao sul eu encontrei, por um acaso extremamente improvável e literalmente no meio do nada, uma amiga de adolescência que há muito perdera totalmente o contato. Quase não nos reconhecemos, precisando de duas ou mais trocas de olhares pra reativar a memória. E depois reativá-la de novo, seguido de um sonoro "ahhhh" mental quando lembramos onde exatamente tínhamos deixado as coisas da última vez que nos vimos. Éramos muito bom em despedidas.

Em reencontros também.

Voltando pra casa, dias depois, recebo a notícia de que deveria fumar lá fora, pois ela decidira abandonar os cigarros. Por um milésimo de segundo passou pela minha cabeça que o timing da decisão era estranho, mas o pensamento logo foi substituído pela palavra "coincidência" e até hoje acredito que tenha sido, mas e se dessa vez não for? E se for "lembra, amor, quando eu parei de fumar? É, chegaram umas fotos".

Mas nem abriu a boca, só para tragar lentamente o cigarro, me fitando com seus olhos de buraco mas sendo bela da cabeça aos pés. Tirou os longos cabelos de um dos ombros e se recostou na cadeira, cruzando as pernas e cerrando os olhos para aproveitar mais a fumaça e eu tentava comer o mais rápido possível para escapar de sua beleza pois deus, era absurdamente bonita, tão mais que a vizinha que se mudou ano passado e que dava aula na mesma escola que eu e as salas de aula pareciam exalar um cheiro afrodisíaco ou talvez fosse o perfume dela.

Nem era bonita, só safada.

E por incrível que pareça, ou cretino que pareça, isso sempre me abalava quando eu abria a porta de casa e a via arrumada sem motivo algum, maquiada e usando suas melhores roupas e perguntava "onde vamos?" e ela respondia "jantar" e me levava pra cozinha onde a comida me esperava. Quase sentia vergonha de misturar aquele cheiro doce de mulher com o aroma da cozinha e as vezes teimei que ela também sentia, mas não sentia, sei que não. Se eu pudesse chegar perto do envelope, talvez reconhecesse o cheiro, mas ele mudava de lugar constantemente e sempre desaparecia quando não estava sob a vista da destinatária.

Por mais duas, quase três semanas eu tive que aguentar esse sofrimento, de ter a certeza que algo estava terrivelmente errado mas eu não sabia o que era e eu precisava muito saber o que era pois eu sentia culpa, mas culpa de tudo, e isso não é saudável. Vê-la sentada na varanda com seus cigarros, e agora adotara uma taça de vinho também, e eu perguntava "como vai o trabalho?" e ela só dava outro gole.

Mas acabou. Ela foi embora, pegou suas coisas e simplesmente desapareceu. Não satisfeita, levou consigo o envelope.
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3 de out. de 2012

Alguns cães

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Era bonito em pelos e em focinho, mas o tempo e a vida na rua o haviam transformado em uma sombra do cão esbelto e inteligente que comia ração de marca. Hoje se contentava com restos, lixo, animais mortos e raras doações.

Doações vinham na forma de pães velhos, comida do almoço ou, como (felizmente) agora, ração de marca. A gordinha achava que os cães a amavam, mal sabia que muitos – não todos, mas uma parcela da população – simplesmente enxergavam bem fundo no seu coração.

Bem fundo mesmo.

Pra termos uma noção bem estabelecida, aquele cão que agora se esbaldava em ração de marca sabia muito bem que a senhora que o alimentava – e ela odiava que a chamassem de senhora, se considerava jovem (não era) – não fazia isso pelos cães. Queria encontrar um homem.

Tipo “procura-se um amor que goste de cachorros.”

Alguém que a aceitasse como ela era. Que não ligasse pro seu peso, ou julgasse quando ela acordasse descabelada. Ou qualquer um. Que goste de cachorros, ela tinha três.
Alguém alto, forte e sarado, como o Cauã Reymond. Que goste de cachorros.

Ninguém gosta de ser usado, nem ele. Mas era ração. Era muito boa. Ela podia ter trazido água também, mas as pessoas normalmente esquecem que cães também não têm uma fonte de hidratação muito confiável.
Ela ameaçou acariciar seus pelos, mas desistiu.

Pegou o saquinho vazio de ração e guardou na bolsa, provavelmente traria mais amanhã. Ok, traria mais amanhã, ele sabia disso. Tipo “procura-se um...”, acho que deu pra entender.

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Baldio, o Terreno

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É em cidadezinhas afastadas e calmas, de um português mais pausado e sincero, que acontecem as verdadeiras histórias de amor. A extinção dos amores da cidade se dá devido a diversos fatores socioambientais que não me demoro desenvolvendo aqui.

Joana e Pardo eram apaixonados.

Ela era filha do dono da farmácia, do mercadinho e, não surpreendentemente, da pizzaria. Ele era um ninguém. Na verdade trabalhava de motoboy no estabelecimento alimentício falsamente italiano do sogro Seu Minas, o único do lugar. Conseguia atender todo mundo no domingo e ainda chegar em casa a tempo de pegar o final do Big Brother.

Joana estudava o dia todo, e tinha pouco tempo antes do pôr-do-sol pra andar livremente pela rua antes que Seu Minas, ciumento como era, a chamasse pra dentro de casa a chineladas mentais (eram desferidas com o olhar).

Os dois obviamente eram apaixonados.

Todos os dias se encontravam pontualmente às 16h15, hora ainda proclamada naquela cidade como quatro e quinze, na linguagem arcaica de nossos avôs. Ela levava doces, ele levava flores.

No começo o local de encontro variava. Um dia na porta da escola, mas decidiram que era muito perigoso – nunca se sabe o que os outros falam ou ouvem de ti. Acharam uma lanchonete, mas logo descobriram que o dono era amiguíssimo do pai da garota – e foi esse o primeiro erro do casal.

A desconfiança nasceu.

Mas nada que uma mudança não resolvesse, e logo se amavam num campinho de futebol. O único problema é que lá, pro seu susto, sempre aparecia alguém que queria – acredite ou não – jogar futebol.

Joana e Pardo encontraram um terreno.

O terreno era grande e poderia ter dado uma das casas mais bonitas da cidade, com andares e piscina e tudo. Ela imaginava um casarão de tijolinhos laranja, todo decorado a mãos de tinta branca com pequenos arvoredos espalhados frente ao portão. Talvez um balanço pras crianças perto – mas não muito perto – da piscina.

Ele construiria uma garagem pra colocar suas motos.

O terreno era cercado de muretas altas e eles mesmo pouco sabiam como entravam ali. Talvez tivesse uma fresta em algum lugar, talvez não. Era coberto por uma grama cor de lesma que em alguns pontos cutucava os joelhos da quase despida Joana.

Ele vestia jeans então não tinha problema.

Foi ali que fizeram suas maiores confissões e promessas de amor. Mas como todos os amantes, ficavam cada vez mais relaxados. Joana chegava em casa tarde e não tinha explicações, ou repetia as que já tinha usado. Arfava. Tinha grama em seus cabelos ou em seu tênis preto e rosa.

Seu Minas não gostava nada disso.

Alguma coisa estava acontecendo, não era burro e jamais deixaria que sua tão amada filha terminasse como a, peço perdão pela palavra, prostituta que era sua mãe. Não que ela usasse o corpo como profissão, mas pior, era uma vagabunda que abandonou a filha pra ele cuidar. Mas Joana nada sabia, cresceu acreditando que a mãe havia morrido.

Talvez seja difícil acompanhar o raciocínio de Seu Minas.

Dona Maria, a ex-esposa ideologicamente falecida de Seu Minas, era muito disputada pelos garotos da região em seus tempos de adolescência e puberdade. Tinha cheiro de experiência mesmo sendo tão nova e imaculada. Só tinha olhos pra um homem.

Jorge de Minas era o homem mais apaixonado da cidade. Faria tudo pra ter aquela sereia em seus braços. Naquele tempo, mulher bonita era sereia, pergunte ao Seu Minas.

Maria só tinha olhos pro Pardo.

O Pardo era um ser desprezível. Um garoto que cresceu rápido demais, cultivava a barba e trabalhava, tinha o próprio carro e sabia conversar como ninguém. Não demorou muito pra que ela se apaixonasse.

Seu Minas enxergava no Pardo da filha o Pardo da mãe. Não tinha a barba nem o carro, mas o cabelo despenteado e a motocicleta – mesmo que fosse pra entregar pizzas. Entristecia-se todas as tardes quando o filho do vizinho, Antonio, batia palmas no portão e chamava seu nome, perguntando se Joana podia sair pra passear.

Enxergava no Antonio da filha o Jorge da mãe. O que teria acontecido se o Pardo não a tivesse deixado? Se ela nunca o tivesse conhecido? Talvez fosse uma mulher direita. Talvez não fosse estragada.

Seu Minas não achava que a filha amava o Pardo, mas ela amava.

Joana e Pardo se encontraram no terreno e trocaram juras de amor, repetidas em eco pelo espaço demarcado pelas muretas desgastadas. O sol já se abaixava, mas ela estava tão hipnotizada pelos olhos dele que jamais se lembraria que logo seu pai estaria em casa e notaria sua falta e ela teria que ouvir um sermão novamente e ele faria perguntas sobre um possível caso com o motoboy.

Pardo pensava se tinha dinheiro pra gasolina.

Abraçavam-se e logo ele diria que precisava ir, não fosse a interrupção.

- Oi.

Olharam em volta procurando a fonte daquele som.

- Ooooi.

Olharam um pro outro.

- Oi. Sou eu. Eu sou o terreno, meu nome é Baldio.

Pardo ergueu as marquinhas em sua testa.

- Baldio, tai um nome que não se vê
- Verdade. Sumindo. Me sinto até raro. A moça tem frio.

Pardo verificou que Joana realmente tremia um pouco, e lhe ofereceu a jaqueta. Ela aceitou e corou e piscou os olhos trezentas e cinqüenta e três vezes.

- Bom, Baldio, foi um prazer. Vou indo pro trabalho. No caminho eu te deixo perto de casa, ta? – completou em direção a Joana, que subiu na garupa apertada da moto, entre o namorado e a caixa de pizza.

Baldio não gostou de ser desprezado. Passara tanto tempo ouvindo suas conversas, prestando atenção nos mínimos detalhes pra nunca errar. Os dois se casariam e construiriam sobre ele uma bela casa de tijolos laranja! Não podia estar enganado, ouvira com seus muros que um dia o vento há de erosar.

Seu Minas tinha um segredo. Ele tinha uma namorada.

Não era nada sério. Uma jovem, irmã da esposa de um amigo, que morava na cidade há pouco tempo. Tinha quase trinta pros seus quase cinqüenta, e acendia sua juventude como nunca outra o fazia ou fez antes dela. Quem dirá Dona Maria, aquela vespa.

Os dois se encontravam por aí. Nos fundos da farmácia, no estoque do mercadinho. Na pizzaria não, pois Seu Minas não confiava no Pardo e sua filha tinha reagido muito mal as tentativas anteriores de estabelecer um relacionamento com uma nova mulher.

Seu Minas e sua namorada encontraram um terreno.

Por sorte os fusos dos casas não se batiam.

Naquela noite, umas oito e quinze, os dois pararam suas carícias pra conversar. Seu Minas estava um pouco agitado, pois começava a desconfiar de verdade do relacionamento da filha e se pudesse arrancava os olhos do guri. Contou tudo à namorada e pediu conselhos, ao passo que ela concordava com a cabeça – era o melhor que podia fazer, não entendia muito de homens.

Uma interjeição veio do nada, mas nenhum se surpreendeu quando ele se apresentou.

- Oi. Eu sou o terreno, meu nome é Baldio.

- Olá, Baldio! Nome incomum. Eu sou Jorge, mas todo mundo me chama de Seu Minas. O que faz aqui, sozinho, no meio do nada? – perguntou.

- Fui deixado aqui. A moça tem frio.

Seu Minas deu sua jaqueta pra namorada, que agradeceu e cruzou os braços pra se aquecer.

- Agradeço, maldade minha não ter percebido. Posso ajudá-lo?

Baldio gostou da atenção.

- Pode. Eu posso ajudá-lo também. Telefone sem fio.

- O que sugere?

Seu Minas adorava ser ajudado.

- Ouvi seu problema. Posso te dizer onde ela guarda as rosas dele, e todas as cartas que recebeu. A senha do cadeado que guarda seus diários. Acho que a mãe nasceu em abril.

Fazia sentido Joana manter o aniversário da mãe como senha, e se perguntava como nunca pensou nisso antes. Fez sinal com a cabeça pra que o terreno continuasse, e esse lhe contou tudo.

- Patife! Pilantra! Esse garoto vai pra rua, e pra bem longe de qualquer lugar onde saibam meu nome.

Se ao menos conseguisse tirá-lo de perto da filha.

- Venha amanhã, quatro e quinze, eles estarão aqui. O garoto tem medo, traga um fuzil. – o terreno era muito eficiente em não guardar segredos.

Seu Minas gostou da idéia de assustar o patife.

- E o que quer em troca?
- Eu quero ser construído. Pode ser uma casinha de tijolos laranja. Uma igrejinha abandonada. Até uma semi construção que nunca é terminada. Eu só cansei de ser vazio.
- Se tudo der certo, pode ter certeza que logo você será um palácio! – garantiu Seu Minas.
- Promete?! – exclamou imediatamente, quase cortando-o.
- Prometo.

Baldio nunca foi tão feliz em toda sua vida.

Não imaginou que eles fossem chegar mais cedo.

Joana chorava e abraçava Pardo com os braços da blusa molhados de tanto enxugar as lágrimas. Ele havia sido demitido e ela ouvira palavras que nunca imaginou seu pai proferindo pra falar de alguém, ainda mais do homem que ela amava!

Pardo já tinha se cansado daquela vida pacata de cidade pequena.

- Olha, Jô – ela o olhou com suas lágrimas -, sem emprego eu não consigo ficar aqui. Não dá pra pagar as contas, entende? Meu tio disse que me arranja alguma coisa lá em São Paulo, então eu to indo pra lá sabe, pelo menos por enquanto.

Ela chorava mais.
E chorava.

Ele não sabia o que fazer.

Ela chorava.
E parou de chorar.

- Me leva com você? – disse, com firmeza.
- Quê?
- Me leva. Eu pego minhas coisas, coloco tudo numa mala. – ele a olhou estranho – Uma mochila até. Amanhã a gente se encontra aqui e vai.

Uma pausa.

- Tá bem. – respondeu.
- Mesmo? – Tentou não soar desesperada, carente ou extremamente feliz. Falhou.
- Mesmo.
- Promete? – Falhou mais ainda.
- Prometo.
- Pardo. Pardo da Silva, você jura que vem me buscar? – Já falhava litros.
- Juro. Juro. Eu, Pardo da Silva, juro vir te buscar, Joana de Minas.

Ela falharia mais e ele talvez se arrependesse e mudasse de idéia, quando ouviram tiros. Na verdade um só.
Pá.

Pardo, que era pardo, ficou branco ao ver a figura de Seu Minas se aproximar com uma espingarda na mão. Nem disse adeus, sequer olhou pra menina, pulou na moto e zarpou antes que pudessem lembrar que já esteve ali.

Ela se jogou nos braços do pai, desde já pedindo perdão.

Baldio não disse nada, mas estava extremamente feliz.

Não foi difícil pra Joana arrumar as roupas escondida durante a noite, nem mesmo arranjar uma desculpa pra sair. O pai perdoava rápido e aceitava desculpas intrincadas como a que inventou naquele dia. Às quatro e quinze estava lá, de mochila nas costas e tênis no pé, pronta pra seguir viagem ao desconhecido.

Ela e o terreno baldio.

Foi pra casa e nem fez questão de fingir mais nada, passou pelo portão com a mochila e se jogou no sofá, gastando suas calorias em lágrimas. Em um mês secou. O pai não sabia se ficava triste ou feliz.

Em anos de terreno, Baldio esperou o mesmo que Joana esperou Pardo até desistir. Dormia imaginando acordar sendo escavado, preparado pra receber todo o material que lhe tornaria o rei da cidade, enfeitado e belo. Uma grande casa, ou uma igrejinha, um estabelecimento comercial, talvez?

Nunca virou nada.

Não se cumprem promessas feitas em terrenos baldios.




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30 de set. de 2012

Sentado

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cinco, dez, quinze, quinze não. vinte e cinco. cinquenta. um real. pilha, pilhinha, três, uma, duas. contava o ouro ganhado estendendo as mãos aos céus e pedindo, pelo amor de deus que os abençoa e lhes dá o teto e a comida que colocam em suas mesas por favor, ó sombras teatrais que fingem não olhar quando olham e fingem não ter pena quando tem, e fingem não tem nada quando carregam e que doam pra ter motivos pra dizer amém quando se encerra o dia.

ó. máscaras mal encaixadas em espetos de pau. de sebo. que sorriem e pintam lágrimas em seus olhos corados de sol e de espelhos, quisera deus que vocês pudessem estar deixando aqui nessa esquina esquecida por todos os santos uma mísera e vã demonstração de que ainda se importam.

mas por quê se importariam se não conhecem minha história?

eu não teria que estar aqui sentado abraçando minhas pernas não fossem eles, eles que vieram das sombras e me arrancaram do conforto do lar. tinham dentes mal escovados e cheiravam a álcool, mas estávamos muito longe das escavadeiras de petróleo. muito, muito longe. mas eu senti o cheiro do oceano e o cheiro de seu bafo, e fui levado pras paredes cimentadas dum lugar muito baixo e ao mesmo tempo muito, muito alto.

lá em cima eu esqueci quem era. quis gritar.

quis dizer ao mundo que eu conseguia sozinho apesar de lá no fundo eu ter certeza de que não. mas é a areia que molda os seus pés, filhos, e se eu cresci foi porque a terra me alimentou com seus nutrientes espalhados pelo chão.

o que é um prato de comida pra quem já roeu cimento.

e é bebendo do que a chuva já lavou que você vai se tornando sombra, aprendendo a enxergar, falar e escutar como sombra. como os três macacos mais o tato que você ganha não porque deve, mas porque pode. e tateia até não poder mais. daí te levam, cheirando a álcool em seu bafo e de dente mal escovado e te tiram do conforto do seu lar.

ou eu estou me repetindo.

em algum cruzamento eu devo ter pego a curva errada. ou pior, peguei a viela, pensando que chegaria bem mais rápido do outro lado e acabei saindo onde não conhecia. acho que nunca encarei de verdade um mapa. daí eles vêm e te tiram do conforto do lar, eles, do álcool, dos dentes. eu, vocês, eles e elas. somos todos parte de um ciclo e se eu estou aqui, é porque vocês estão aí e vice-versa.

mas por quê se importariam.

enfiou as mãos nos bolsos e ficou mais um tempo parado encarando o mendigo que contava suas poucas moedas, sujo da cabeça aos pés, vestindo trapos que deixavam exposto tudo que tentavam cobrir. mal tinha dentes e quando tentava falar, grunhia. mas gostava de imaginar que lá dentro ainda funciona uma engrenagem e que se havia um problema, era de comunicação. girou nos próprios tornozelos e partiu, sem dar nenhuma moeda, afinal detinha todos os direitos daquela história.
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26 de set. de 2012

Palha

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Acho que era tarde quando topei com o homem. Grisalho, os olhos fundos como garrafas esverdeadas, tinha as bochechas secas e o pescoço flácido. Vestia um terno negro e caminhava com as mãos juntas, esfregando-as devagar. Olhava pra todas as casas e pra todos os rostos, sempre atento a menor movimentação, até mesmo do ar. Ali ninguém tinha um nome pra ele.

Duas vilas adiante, porém, lhe viam com outros olhos. Os mesmos, de medo e submissão, mas algo mais. Se atreviam. Alguns não ousavam respirar pra não sentir o cheiro acre dos seus passos. Baixavam as cabeças a visão de sua fronte enrugada e, depois que ele passava, contavam histórias sobre quem era aquele ser. Ali lhe davam nome. Ali era o Homem Sério.

Parou em frente a uma casinha humilde, pintada a uma mão de azul claro (provavelmente aguado), onde uma mãe tentava inutilmente colocar as crianças pra dentro. Alisou os bigodes desprovidos de cor  e sorriu, fazendo-as chorar baixinho. Voltou a sua expressão usual e, enfiando as mãos nos bolsos, pôs um sapato frente ao outro em direção ao escuro.

Eu não estava muito atrás. Tinha certeza que ele já sabia de minha presença há pelo menos um quilômetro, mas não deixaria de persegui-lo. Seus passos lentos me davam agonia e tenho certeza que os mantinha só pra provocar e ver-me sofrer atrás de si. Uma das crianças que brincava na terra com suas bolinhas de gude olhou pra mim desconfiada, como se eu não devesse estar fazendo o que estava fazendo.

Peste, tire os olhos de mim.

Meus olhos falavam mais que meus lábios, e a criança voltou aos assuntos que cabiam a ela. Mal sabia que sua própria mãe estava, na noite anterior, suplicando a Mãe Ana pra que eu a ajudasse. Era tarde e eu vasculhava as gavetas a procura dos restos de qualquer coisa que pudesse afastar o tédio, mesmo uma bituca de cigarro faria bem, quando recebi uma ligação.

Em cinco minutos percorri todo o trajeto, só percebendo minha aparência desagradável quando caíram sobre mim os olhares das duas, de espanto e dúvida da negra, de reprovação de Mãe Ana.

"Perdoe-o, sabe o que faz." Tive a impressão de já ter ouvido tais palavras. "Mas esquece que deve estar apresentável na frente de minhas clientes." Seu rosto fino e delicado de menina não combinava com a imponência e aura que possuía atrás de uma mesa e sob o odor de incensos espalhados pelos cantos mais improváveis da casa. Quase chutei um ao sentar.

Repeti o usual gesto de arranhar a bola falsa, que ela odiava, mas não comentou nada. A mulher ao seu lado vestia roupas tão surradas quanto as minhas, por isso me espantou o desgosto. Hipócrita. Suas mãos eram de lavadeira e tinha o corpo de quem já parira vezes demais. Os cabelos trançados eram descoloridos nas pontas, um trabalho mal feito por mãos destreinadas. Apertava a bolsa contra o peito e parecia tremer na cadeira.

Cruzei os braços e esperei.

"Vá em frente, Elaine."
"Eu..."

Já tinha aprendido a dar tempo ao tempo. Uma coisa era confiar em Ana, normalmente conhecida de longa data de suas clientes, apesar da aparência jovial. Já eram meses que meu celular só tocava pra atendê-la, e normalmente com histórias difíceis de contar.
Aquela era simples.

"Três, três...três ou quatro mês atrás...mudou pra vila, pra vila lá em cima, perto do morro, um homem muito velho...idoso, entende?. Digo, ele parecia idoso, mas era elétrico e vivia andando pra cima e pra baixo. Era simpático e fazia as crianças rir, então você entende que ele logo ganhou a simpatia de todoo mundo...Alguns...alguns mais que outros..."

Não me encarava mais e apertava os panos do vestido com seus dedos gordos. Se concentrava num ponto do chão num esforço pra não chorar.

"E então...ele entrou em nas casa da gente. Conheceu a gente e...ofereceu ajuda...disse que apesar das aparência era um homem moribundo, morrendo sabe, que gostava de ajudar as pessoas. Pagou tanta coisa, deus...brinquedos, roupas, perfumes...pras crianças, pras mulheres..."

"Pras mulheres solteiras." Concluí. Ela me olhou com uma expressão de culpa. "Não acuso ninguém." Se as pernas de Mãe Ana fossem mais longas, certeza que me chutaria. Deixei que a mulher continuasse sua história.

"Eu não sou fácil, ..."
Nesse momento travou.

"Pode me chamar de Caleb." Ana ainda não aprendera a disfarçar o riso a cada nome novo que eu apresentava.

"Caleb. Qualquer nome é nome hoje em dia. Mas não sou fácil, Caleb, e só aceitei as coisas que ele me oferecia pois dizia que não tinha filhas ou netas, parente algum na Terra, e não levaria dinheiro nenhum pro além vida." Limpou a garganta com uma tosse falsificada. "Tudo ia muito bem...as crianças viviam felizes e ele tomava café em casa, ou com a vizinha. Ou com a dona Lurdes também. A gente confiava tanto nele, tanto..."

"Um dia ele começou a levar as crianças lá pra cima, pra sua casa." Observando minha expressão, se corrigiu; "não é pra pensar besteira, sempre tinha uma mãe acompanhando...As crianças diziam que ele cuidava de cavalos e deixava que brincassem com eles, voltavam com as roupas cheias de palha. Mas aí começou os problemas..."

Aproximei mais o rosto com interesse.

"As mães, quando voltavam...não eram mais as mesma mãe. Euzinha nunca subi porque sou muito atarefada com todas as crianças e a casa, mas as que voltavam não  falavam muita coisa...só que tudo ia bem, que ele era um homem gentil. Ninguém duvidava, até que..."

"Até..."

"Até que ele começou a não ser gentil. Quando a gente cumprimentava ele não respondia...só encarava com seu rosto cada vez mais comido e magro. As crianças não gostavam mais dele, mas mesmo assim o seguiam, acompanhadas da mãe de uma ou de outra mais lá de cima. Quem sabe por que..."

Nesse momento não conteve um soluço.

"E sempre voltavam cada vez mais tristes...cada vez menos crianças...com um vazio na alma e no coração que a gente consegue ver nos olhos. Hoje, quando o velho passa, parece que a morte passou e levou a felicidade do lugar. O Homem Sério, elas falam..."

"Parece que a morte passou." Olhei pra Mãe Ana, deixando morrerem os braços ao lado do corpo. "O Inumano está fora de questão." Ela mudou seu semblante, que se mantinha neutro, pra profunda indignação. Baixou as mãos pálidas e juntou as unhas mal pintadas sobre a mesa. me olhando nos olhos com os seus, mais negros que qualquer buraco.

"É só um livro, Caleb." Bateu uma unha impaciente na mesa.
"Um livro que arruinou minha vida."
"Não há mais nada nele."
"Há memórias nele." Mantive firmeza, não queria tocá-lo.
"Onde está?"

Silêncio.

"Embaixo da minha cama. Da minha antiga cama." Na verdade estava enterrado no jardim.
"Você já voltou lá por menos." O que era uma verdade.
"Mas não irei por isso."
"Então vá sem. Mas avisado. É por sua conta e risco."
"Eu me viro sem ele."

Dizem que cada pessoa que um dia toca o desconhecido está destinada a um livro, e o Inumano foi o que caiu em minhas mãos. Presente da Cigana, que deixou bem claro que não sabia porque me dava, mas que acordou precisando se livrar daquela coisa e só eu poderia recebê-la.

Não existe autor em sua capa ou em qualquer página, e uma assinatura ilegível pode ser identificada ao fim da última folha. Escrito a mão, começa descrevendo uma inocente mistura entorpecente de sangue, ossos e ópio até um ritual de invocação pra Espíritos Aliados, tão úteis em seus desbravamentos junto com os antigos amigos. Só restavam quatro, contando com ele, de sete. Quatro de sete, dois anos, não tão mal.

Decidi não tocá-lo desde o Incidente na Casa Empoeirada, e era minha absoluta vontade manter tal promessa, mesmo que Mãe Ana me mandasse olhar nos olhos de um demônio.
Naquele dia, foi quase a mesma coisa.

Segui o Homem Sério até sua casa, que era a última do morro que dividia a vila baixa da alta - diferença que só era conhecida entre os moradores, experts em fazer divisões. Uma das mães me olhou com visível terror no olhar e subiu o morro correndo, agarrando meu casaco e jogando-se ao chão, implorando que eu não desse mais um passo.

Chutei-a.

Não conseguia ver vida em seus olhos e já começava a suspeitar o motivo.

Avancei atrás do homem malcheiroso e o vi entrar em sua casa, olhando fixamente em minha direção ao se virar pra trancar o portão. Deu meia volta e passou pela porta de madeira pintada, girando a maçaneta com as mãos finas e magras como ossos e correndo pra fechar as cortinas. Senti que era observado ao me aproximar e, numa ideia repentina, passei direto pela casa e fui direto ao estábulo.

Demorou um tempo até que percebesse o que eu fazia.

Disparou atrás de mim, trazendo em uma das mãos um fêmur dos mais limpos e gritava pra quem quisesse ouvir que eu jamais deveria abrir aquela porta, com seus dentes amarelos e imundos aparecendo por entre os fios de sua barba arenosa que cobria o buraco ressonante que chamava de boca. Uma sombra negra decrépita que me alcançava, enquanto eu tirava tábua que selava portal e entrava.

Devia tê-lo deixado fechado.

Lá dentro havia pelo menos quinze pessoas,cinco mulheres adultas e algumas incontáveis crianças. Se arrastavam, nuas e imundas, pelo chão do estábulo, ingerindo toda a palha que conseguiam até estufarem, parando de se mexer. Convulsionavam  no chão enlameado e suas pupilas, sem vida como as dos bonecos que os representavam lá embaixo, pareciam se abrir e fechar na esperança de que algo entrasse. Qualquer coisa. Mas ali, no topo do morro, só um homem vivia.

Virei-me a tempo de evitar o golpe que ele desferira ferozmente com o fêmur. Agarrei o osso pela cabeça e puxei de sua mão, sem esperar que ele reagisse enfiando os próprios dedos de agulha em meu rosto. Um entrou pela minha boca enquanto o polegar tentava pressionar meu olho esquerdo, e pude sentir o gosto salgado de seu suor. Caímos no chão e senti-me inútil por estar perdendo em uma luta física contra um velho.

Dei um jeito de acotovelar sua cara amassada e me levantei, correndo pelo estábulo em busca da marca que os trancava ali. Não foi difícil, pro número de pessoas ela devia ser consideravelmente visível, e empurrando os grandes cubos de palha seca encontrei, pintado na parede, o selamento que precisava destruir.

Me esqueci do Homem Sério e este me atacou com um pulo.

Tentava me golpear com o fêmur e tudo que eu conseguia fazer era proteger o rosto, a madeira quebrada sob minhas costas furava levemente minha pele e entrava em conflito armado com minhas costelas. Levei uma ossada bem batida na testa. Já tinha dado a luta como perdida quando, sem razão aparente, não mais fui golpeado por um osso lixado.

Abri os olhos e lá estavam os corpos cheios de palha, arrastando o corpo do homem pra dentro da floresta. Ele se debatia e gemia, gritando alguns encantamentos que tenho certeza de já ter ouvido falar, ou lido em algum lugar. Talvez no Inumano. Me levantei pra segui-los, mas percebi que era inútil: ele teria o que merecia nas mãos de quem mais podia julgar sua culpa.

Voltaria direto pra reportar à Mãe Ana tudo que ocorreu, mas a luzinha acesa da casa de Alice me seduziu. Bati três vezes na porta e o marido atendeu.

"Oi?"
"Alice, por favor."
"Da parte de quem?", perguntou desconfiando e levantando consideravelmente os ombros.
"Eu trabalho pra Mãe Ana."
Imediatamente abriu a porta e me deixou entrar. A mulher veio correndo da cozinha me receber, assim que soube quem visitava.
"Caleb, ainda bem que você está aqui! As crianças sumiram! Oito meninas e nove meninos, todos desapareceram, e umas mães..."
Caiu no choro.
"Eles...eles já não estavam entre nós há muito tempo."
"Então o homem?"
"Vivia deles. Empalhava-os."
Ela olhou pras próprias crianças, engolindo em seco. Tenho certeza que pensava na tristeza das famílias, quebradas após o desaparecimento das mães ou das crianças. Mas seu coração estava feliz por ter as suas ali. "Como? Por quê?"
Respirei fundo pra tentar explicar.
"A palha enfeitiçada entra, a alma sai. Ele se alimenta. Respira, vive. Mas fede a morte."
Ela olhava pra mim, ou além de mim. Precisei completar:
"As pessoas fazem cada coisa pra se agarrar a esse mundo...um dia eu encontrei uma mulher que pendurou o marido com pregos num pentagrama desenhado no teto. Todo dia de manhã bebia da goteira que..."

Me convidaram pra jantar, mas era tarde. Deixei a casa sem sensação alguma de dever cumprido. Se o coração dela estava feliz, o meu era pura palha.
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25 de set. de 2012

Nuvem

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Na frente da minha casa tinha um louco.

Não que ele ficasse exatamente em frente a minha casa, mas ele tinha maior apreço por aquela rua e passava boa parte dos seus dias ali. Não era hostil nem nada, não incomodava ninguém e as vezes até o cumprimentavam e o alimentavam. .

Talvez estivesse ali antes e não o percebi simplesmente por ser criança demais pra absorver a informação. Mas um dia, na minha inocência infantil, me aproximei dele pra conversar. Não consigo lembrar suas palavras, mas ouvi interessado até o som ser sobreposto pelos gritos de meu pai, que surtava mandando eu voltar pra casa.

Lá dentro deu uns tapas na minha mão e eu nem sabia o que tinha feito de errado. Disse que eu não devia falar com estranhos, ainda mais com loucos. "O que é um louco?", perguntei e disso me lembro claramente. "É uma pessoa que se perdeu, meu filho." Desde esse dia eu tive medo de soltá-lo um minuto sequer quando saíamos, pois poderia acabar virando um louco.

Em Santo Amaro então, agarrava sua mão como se quisesse prensá-la.

Foram anos até que eu interagisse com ele novamente. Eu já era moleque e corria pra todo lugar, sem existir pressa. Alguns dos meninos da rua gostavam de caçoar do cara, tirar sarro do seu cabelo-barba, suas roupas e situação. Quando os respondia era com longos monólogos que ninguém entendia. Eu até tentava refletir sobre suas palavras, mas as achava vazias. De qualquer modo, o respeitava o suficiente pra não tomar parte dos hábitos alheios e, se a brincadeira da vez era atormentar o louco, eu entrava pra jogar videogame.

Meu horário era diferente de todo mundo. Estudava de manhã e por isso tinha a tarde inteira livre, muitas vezes sem o que fazer até os outros chegarem. Curtia feliz o meu tédio, mas as vezes era demais e eu saía pra explorar os arredores, levando só meu tênis e a vontade de deixar a casa.

Talvez algo mais.

Era umas quatro da tarde e eu ainda trajava o uniforme da escola, tinha preguiça de tirá-lo. Vinha descendo a rua quando vi que uma das árvores tinha umas frutinhas alaranjadas que bem podiam ser laranjas, não era tão bom com frutas. Arrisquei uma escalada e peguei umas cinco, se ficassem boas voltaria pra pegar mais.

Desci, colocando as frutas nos bolsos da blusa quando, ao levantar meu queixo distraído, dei de cara com o rosto de um homem.

Tinha os cabelos e a barba num emaranhado só, com nós visíveis aqui e ali. As sobrancelhas eram grossas só pra acompanhar o resto do rosto. O que podia enxergar de suas bochechas estava coberto de cicatrizes, e o pescoço terminava num vermelho vivo incomum aquela pele. Os olhos eram claros como a grama que pisavam, e o encaravam lividamente como a mais sã das pessoas o encararia.

"Belas laranjas."
Eu tremi um pouco nas pernas. Ele vestia calças marrons que podiam já ter sido brancas, e uma camisa do Hard Rock Cafe que minha mãe não usaria de pano de chão. Mas belas laranjas, não tão louco.
"Sim. Quer uma?"
"Não, eu pego quando quero. Faz bem, a saúde, sabe. Corpo. Não dá pra comprar a amizade."
"É, vou fazer um suco."
"Suco, isso, suco. Você parece bem. Vivido. Sadio. Faz bem."
"Obrigado." Sorri e dei dois passos pra esquerda.
"Ei."
"Oi?" Virei só o pescoço na esperança de seguir caminho.
"Posso te contar uma história?"

Não sabia o que responder.
Por instinto já teria dito não logo em seguida, talvez não de forma tão brusca e grosseira. "Tenho que espremer essas laranjas!", diria, e seguiria caminho arrancando um sorriso dele também. Pelo menos era assim que tudo transcorria na minha cabeça, mas lá estava eu parado, encarando o louco nos olhos, sem resposta.

Caminhei pro lado dele e me sentei no chão.

Ele fez o mesmo, e começou a falar.

"Cara, faz bem. Laranjas. Mas deixa eu te contar. Eu nasci poeira."
"Poeira?"
"Sim, poeira. Nasci poeira e fui poeira durante muito, muito tempo. Até que um dia eu virei outra coisa, virei água."
"Água?" Minhas perguntas me incomodavam.
"Sim, água. Acompanha. Água corre, desce montanha, desce rio. Não se compra amizade e ninguém se perde sozinho, só muda de casa. Mas o que importa é a água, que desceu e virou outra coisa. Eu virei. Virei vegetal."
Ele ficou esperando, os olhos cor de vegetal me encarando como se esperasse a óbvia pergunta. Vendo que eu não cedia, continuou.
"Isso, vegetal. Eu era um repolho, dos mais bonitos e promissores dos repolhos, até que um dia splash. Fui pisado. Virei animal."
Levantei as sobrancelhas.
"Animal. Sobrevivente, na floresta, primeiro pequeno depois grande. Cada caminho que você percorre, deixou pra trás outros trinta que podia ter percorrido e não deixa isso afetar seu dia a dia, deixa? Mas animal eu era, e os vegetais eram meus amigos porque sabiam que um dia eu já tinha sido vegetal. Aí um dia..."
"Um dia você virou homem."
Ele me olhou com espanto em cada músculo da face, abrindo e fechando a boca sem pronunciar som algum.
"N-n-n-n-n-ããaãããao."
"Não?"
"Claro que não. Aí eu virei máquina."
"Máquina?"
Ele riu e eu percebi que fazia de novo.
"Isso, máquina" continuou, ainda rindo, "ah, como era bom ser máquina! Inocentes somos, somos tolos, achando que viemos primeiro e que as construímos. Você já viu, você já viu uma árvore virar um chip? Ha hah ha ha ha, você já? Ninguém sabe onde elas nascem, só as montamos na maternidade. E elas montam a gente."
"As máquinas fazem a gente?"
"As máquinas fazem tudo."
Virou pra frente e eu acompanhei o gesto. Ficamos acompanhando um carro passar, era um Gol, pelo menos estava escrito. Gostei dali, de ficar em silêncio observando o veículo, girando uma laranja nas mãos e sentindo o vento do lado do rosto. Quase não me lembrava da história.

"Aí as maquinas me refizeram. Me refizeram homem. Eu era homem e não me sentia homem, queria ser algo mais. Quero ser algo mais."
"E o que você quer ser?"
"Eu quero ser nuvem. Fazer nublar esse lugar todo, e depois chover."

O sol estava se pondo e as poucas nuvens no céu daquele verão intenso se tingiam de um vermelho azulado, como as telas que encontrava nos livros da escola. Falamos mais um pouco, mas acho que só sobre laranjas.

Nos dias que se seguiram cheguei a procurá-lo, mas não o encontrei. Toda tarde saía pra caminhar e pegava laranjas no caminho, sentava um pouco à sombra da árvore e voltava desanimado pra casa. Nunca mais o vi.

No quinto dia soquei o despertador e não me movi da cama, a escola não mudaria de lugar até amanhã. Só me levantei quando a claridade, mais fraca que o normal, já atingia meus olhos. Os ouvidos eram poluídos de um úmido barulho de goteira.

Acordei tão rápido que minha mãe se assustou quando passei pela cozinha. Corri até a rua com as roupas que dormi e nem pensei em calçar meus chinelos. Voei do portão pra rua e imaginei que nadava na cachoeira que o céu derramava, pulando em todas as poças que encontrava em meu caminho.

A cabeça do meu pai apareceu no portão e começou a berrar.
"Menino! Sai da chuva! Enlouqueceu?!"
E, parando um segundo pra respirar e retomar o fôlego, respondi:
"Enlouqueci, pai. Enlouqueci."
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22 de set. de 2012

Cobalto

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Naquele dia eu estava uma pilha de lixo e panos velhos. Após a última recaída, vaguei pelas ruas durante dias, sob efeito de alguma coisa estranha, muito cinza e muito roxa, vendida perto do cemitério.
"Você tem uma tatuagem?" A pergunta era válida, admiti respondê-la.
"Tenho. É uma foice, no peito."
"Misture com água e passe sobre ela."
"Só isso?"
"Só."
Dei um adeus agradecido e desconfiado ao homem cujas feições nem hipnose me fariam lembrar, tamanho foi o efeito de suas instruções e do óleo farelento. Acho que eu devia ter posto mais água. Visões e devaneios não são importantes de serem relatados ao menos que signifiquem algo, portanto registro que os esqueci.

Meu reflexo na janela me assustava. Estava muito magro e a cabeça era pura barba, como uma vassoura ao contrário. Os cabelos, castanho claros, avermelhados como se os sol os queimasse, haviam crescido um pouco desde a última vez que vi minha própria imagem.

As roupas eram todas emprestadas por tempo indeterminado, por sorte pretas. E eu não costumava me sujar muito, mesmo passando dias vagando pelo Lapa. Até teria um aspecto respeitável, não fosse a barba.

Fiz a barba.
Pedi uns trocados no farol e comprei um barbeador, quase me cortando no banheiro do terminal quando o celular em meu bolso tocou, fazendo minha perna vibrar. Acho que a única prova de eu não ser só um retardado suicida é esse celular, do qual não corto vínculos por dinheiro algum.

Fui chamado à casa de Mãe Ana e passei trinta ou trinta e três minutos em sua cozinha, lendo qualquer coisa que achei jogada ao entrar. Passei direto pelo corredor ao ver que estava acompanhada, na certeza de que me convidaria quando pudesse. O fez e entrei.

Era estranho olhá-la nos olhos após tanto tempo só ouvindo a sua voz. "Sente-se", disse com a voz áspera de bruxa mística, que só usava sob baixa iluminação. A mulher ao seu lado aparentava uns trinta e poucos, de longos cabelos loiros escorridos até quase a cintura. Era feia e já aparentava o desgaste do tempo, típico das que perdem a esperança muito novas e se deixam destruir.

Não era comum que Mãe Ana instruísse suas clientes a se sentarem ao seu lado, por isso estranhei a proximidade das duas. Puxei a cadeira oposta a elas, arranhando com a unha a pequena bola de cristal no centro da mesa. "Você guardou a verdadeira de novo?" Ela me olhou por cima dos óculos, endireitando-os em seguida. "Ladrões, agora ao que interessa." Coloquei os cotovelos sobre a mesa e fiz cara de quem queria ouvir.

"Alice, se você puder repetir a ele o que me contou, por favor." Tinha um leve sorriso confiante no rosto e lançava as mãos na minha direção. "Ele é só um garoto", protestou a mulher. "Sabe o que faz", respondeu, perdendo o sorriso e assumindo uma feição mais severa. Eu adorava quando ela fazia isso.

"Eu não..." ela começou incerta, mas logo desatou a falar; "...eu não sei exatamente quando isso começou. Eu pensei que fosse Alzheimer, sei lá."
"Comece do começo. Eu não sei quem tem Alzheimer."
"Minha mãe. E eu não sei se ela tem, ela só...dias atrás eu comecei a reparar que sempre que eu saía pra trabalhar ela já estava de pé. Ela é uma senhora de idade, sabe? Tem quase sessenta anos."
"Sessenta?"
"59"
"Continue."
"Então...desde que minha avó morreu, a filha dela, Andréia, minha mãe, não foi a mesma pessoa. Eu sei que os idosos são assim mesmo, eles acordam cedo e dormem cedo, mas ela era uma mulher tão ativa e de bem com a vida. Hoje eu saio e ela está...fazendo crochê...ela nunca fez crochê!"
"Crochê?" Olhei com dúvida pra Mãe Ana, que riu disfarçada. Adorava minha ignorância.
"É tipo tricô. Com uma agulha só e barbante."
"Entendi. Continue."
"É...então...eu chego do trabalho tarde, sabe? Eles estão com poucos funcionários e...eu saio cedo de manhã, então tomo banho e durmo. Só que ela também está fazendo crochê. Pergunto se ela vai dormir, e ela responde que logo...só que há dias eu não a vejo dormindo. As vezes chamei seu nome, sem sucesso, sem resposta...nem mesmo um aceno. Depois acorda e diz que já vai, que precisa terminar o crochê..."
"E nunca termina."
"Nunca..."
"Você pensou em levá-la prum hospital, sei lá?" Mãe Ana não gostou dessa pergunta. Alice me olhou triste.
"Eu iria...eu juro que eu iria, mas no trabalho eles... eles..."
Desatou a chorar e não me disse mais nada de útil por algum tempo, durante o qual pedi a Mãe Ana que me desse licença. Fui até a cozinha e trouxe um pouco de água com açúcar, que Alice ingeriu sem delongas.
"Hoje...hoje eu cheguei e..."
Soluçou mais algum tempo, procurei moscas nos cantos da sala enquanto esperava.
"Hoje eu cheguei..." continuou de súbito, me dando um leve susto "...e ela estava..."

Sua voz ia ficando mais triste e seus olhos mais virados pra dentro, como se fechassem. Jurava que ela estava lá de novo, enfrentando o horror que vira. "Havia crochê por toda a parte...nas paredes e...no chão, no teto, cobria as janelas...e nos cantos...um de cada lado..."
Desatou a chorar e tinha certeza que não pararia jamais.

"Ela não foi a polícia, entende? É sua avó, e ela sabe que ela jamais faria algo assim. Os homens...Alice, vá pra cozinha por um minuto por favor. Os homens ela não sabe se estão mortos, um parecia se mexer um pouco, mas ambos estavam amarrados e pendurados à parede...como moscas."
"Posso me ausentar por um instante?"
"De todo modo."

Minha viagem não durou muito. Com manha, arrombei  a janela do meu antigo quarto (há muito não era bem vindo em casa) e peguei um dos livros escondidos no cesto, embaixo dos cadernos e livros didáticos do colégio (que devia ter devolvido e esqueci).

Voltei a casa com o livro em mãos e mostrei a página em questão pra Mãe Ana, ao passo que ela chamou Alice de volta. Estava soluçando na cozinha até agora e nem notara minha ausência, a qual a mística não fez questão de noticiar, não era do tipo que gostava de choro.

Fechei o livro ao vê-la passar pela porta, sou ciumento com algumas de minhas coisas. "Alice..." comecei, procurando com o olhar a aprovação da Mãe. Ela confirmou com um aceno de cabeça e prossegui "...sua mãe teve contato com alguma aranha ultimamente?"

"Tá brincando?" Não resisti a brincar com o espanto.
"Havia homens pendurados na sua parede minha senhora. Responda a pergunta."
"Perdão...não, não...minha avó tinha aranhas de estimação, mas eu as odiava tanto que as guardou em seu quarto. Minha mãe conhece e compartilha do meu pavor. Você pensa que ela foi...picada?" Tento descrever seus olhos como um misto de dúvida genuína e incredulidade total.
"Não. Preciso ir a sua casa, o mais cedo possível." Deixei o livro sob a mesa pra que Mãe Ana o guardasse até meu retorno.

O sobrado onde morava era humilde e vencido pela chuva, a tinta desgastada sugeria que há muito não vivia um homem ali. Garoava de leve. Ela abriu a fechadura e se afastou, obviamente não queria entrar. Girei a maçaneta e empurrei a pesada porta de aço, fechando-a atrás de mim. Acendi a luz e me deparei com a senhora Andréia no centro da sala, sentada numa larga poltrona de couro reclinável, na frente da televisão nova que pouco aparecia sob os fios que corriam sobre ela.

Tudo estava coberto do mesmo branco, que se sujava em algumas partes e adquiria um acinzentado fosco. Nos cantos mais afastados da sala, quase emoldurando a televisão, dois corpos eram sustentados uns bons quarenta centímetros acima do chão, as cabeças pendendo em direção à barriga, o que só adivinhava pelos volumes de linha.

Abriu a porta novamente e colocou a cabeça pra fora.
"Ei, Alice. Qual seu sobrenome mesmo?"
"Camargo. Alice Camargo."
"De mãe?"
"Sim, claro."
"Agradeço."

Voltei pra sala e chamei pela velha.
"Senhora Camargo. Ei, senhora Camargo."
Ela tecia.
"Senhora Camargo, eu gostaria de saber se a senhora tem um bicho de estimação."

Não sei dizer o que aconteceu em seguida, só posso especular.Algum barbante deve ter enroscado e puxado meu pé, de modo que caí pra trás e bati fortemente a cabeça no chão. Alguém poderia ter me golpeado ou qualquer coisa, mas essa é a explicação que encontrei pra ter acordado pendurado no terceiro dos quatro cantos do recinto.

A velha tecia e as linhas iam se tornando cada vez mais presentes e fortemente agarradas ao meu corpo. A cabeça ainda estava livre, então tentei dialogar novamente.

"Ei, senhora Camargo. SENHORA CAMARGO!", gritei, finalmente. Ela se virou como se eu tivesse sido o mais gentil dos garotos.
"Posso ajudá-lo, jovem?"
"Eu estou com sede. Gostaria de alguma coisa pra beber."
"Na cozinha jovem," respondeu educada, "no armário da pia. Pode pegar um copo, tem água na geladeira." Esperei, mas ela voltou a tricotar.
"Senhora Camargo. Se-nho-ra-ca-mar-go. SENHORA!"
"Sim, meu jovem. Pegou sua água?"
"Não, talvez a senhora pudesse pegar pra mim."
"Estou ocupada fazendo crochê, filho, mas juro que ao terminar faço isso pra você!" Deu uma risadinha boba de idosa e voltou a tarefa infinita.

Bufou.

"SENHORA!"
"Diga, meu filho." Sua calma já me dava nos nervos.
"Eu gostaria, MUITO de saber se a SENHORA tem um BICHO DE ESTIMAÇÃO, ENTENDEU?"
"Tenho sim, jovem, um cão muito bonito. O nome dele é Murphy, pode brincar com ele, é bonzinho!" Já ia se virar pro crochê, mas eu não deixaria,.as linhas já esmagavam minhas bolas.

"NÃO. NÃO NÃO NÃO. UMA ARANHA, TEM QUE SER UMA ARANHA!"
"Eu não tenho aranhas filho!" Respondeu assustada, os olhos arregalados fixos na televisão. "Alice não gosta de aranhas!"
"CHEGA! EU SEI QUE A SENHORA TEM UMA ARANHA AZUL, AGORA ME FALA ONDE ELA TÁ PRA GENTE ACABAR LOGO COM ISSO!"
A mão que eu vinha tentando soltar estava quase livre, a velha não respondeu nada. Olhou pro quarto com profunda lamentação no olhar e voltou a tecer.
"Eu vou queimar essa vagabunda."

Finalmente me livrei do crochê, usando a mão livre pra alcançar um prego. Quando vi, o retrato que eu havia derrubado pra alcançar o instrumento era da avó, a visivelmente severa Linda Camargo. Tinha no ombro um cefalotórax e um abdômen esbranquiçados que acoplavam quatro pares de patas cor de cobalto. Um belo exemplar.

Chutei a porta do quarto sem necessidade, já que estava aberta. Tirei todas as gavetas e quadros do lugar, jogando-as na sala na esperança de que esvaziando tudo eu encontraria a bendita. Levantei o colchão e procurei entre as fronhas e lençóis, sem sucesso.
Até que eu me fiz a pergunta imbecil que devia ter feito desde o começo.
"Da onde vem todo o barbante?"

Corri até a sala e penso que talvez a besta tenha me sentido, pois a velha olhou desesperada em minha direção. Retirei de seu colo o cone e, sem pensar duas vezes, corri pra cozinha e o atirei no forno, acendendo-o com os fósforos sob a pia. Através do vidro podia ver, caminhando calmamente como se aceitasse seu trágico fim, a bela aranha azul em sua última, quente e úmida morada.

Alice não sabia de quem eram aqueles corpos. Provavelmente homens que a senhora Camargo chamara pra ajudá-la em algo e que, generosamente, adentraram a casa sem saber o que encontrariam. Mãe Ana deu um jeito de se livrar dos corpos na surdina e, pra minha surpresa, me ofereceu um emprego. "Consegue fazer isso?"
"O que?"
"Isso. Resolver as coisas."
"Consigo. Acho que consigo."

Cheguei a visitar a Senhora Camargo meses depois. Não havia se recuperado totalmente, as vezes ainda murmurava sozinha alguma coisa sobre cobalto e sua mãe, a doce Linda. Alice me agradeceu com os olhos cheios de lágrimas. Saí da casa sem deixar de ouvir, de canto de ouvido, "você fez o que pôde." 

Ingrata, que virasse comida de aranha. 

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22 de ago. de 2012

Cedilha

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Um apito incessante ecoava em sua cabeça, batendo nas paredes do seu crânio e se amplificando mais e mais, cobrindo todos os outros sons, lhe prendendo a atenção. Já era a terceira vez que chamavam seu nome quando finalmente atendeu. Respondeu qualquer coisa pois a pergunta não importava. Nada importava.

Assistiu as mãos da esposa servirem o jantar. O tempo e o trabalho desgastaram suas mãos, que já não eram delicadas e macias como antes, e há muito não o tocavam como antes. Parecia haver um quê de automático em suas carícias, e isso o sufocava. Era apaixonado pela imprevisibilidade desde criança, amava demais o próprio livre arbítrio. O garfo movia-se devagar no omelete enquanto previa todos os movimentos da amada.

Vai olhar pro meu prato e perguntar por que não estou comendo. Tai. Vai se levantar pra pegar suco porque não serviu o suficiente da primeira vez, esquecendo que dois meios copos somam um inteiro. Vai perguntar se o menino quer alguma coisa. Aí. Reclamar que a perua está demorando. A buzina. Lá vai ele. Lá vou eu.

Saiu de casa dando passos de gigante. Conhecia aquelas calçadas como conhecia o teto do quarto, suas noites insones lhe garantiam que cada sulco mal iluminado estivesse tatuado em sua cabeça. No canto oposto a cama uma teia era construída depressa, a aranha trabalhava como se fosse ano de eleição. Não via a hora de destruí-la, encontrava um certo conforto em pisar nos sonhos dela.

Atravessou sempre na faixa de pedestres. Parou na sua banca de jornal favorita, comprou balas e um maço de cigarros. Vermelho ou Light, dependendo do dia, a esposa provavelmente nem sabia que ele fumava - tinha uma habilidade natural com o vento e raramente chegava com odor em suas roupas. O maço do dia acabava na rua ou era guardado fundo na maleta.

Cumprimentou os colegas fumantes mas não ficou pra conversar, sentia-se como um cão de rua tendo que manter seus hábitos no meio da avenida. Isso sem contar os preços...quase chorou da última vez que calculou o quanto gastava em nicotina no ano, e isso foi antes do aumento. Pegou o elevador e passou direto pelo seu andar, seguindo pro estacionamento na cobertura.

Sentou-se na beirada, acendeu um Marlboro. Conseguia ver toda a cidade, alta e triste naquele dia cinza. Vasculhou a memória procurando dias ensolarados, mas por algum motivo não se recordava deles. Era sempre cinza lá em cima. Tragava sem batê-lo, girando a bituca entre os dedos sem deixar a cinza cair. Jogou-a lá de cima, torcendo pra que se acertasse alguém do escritório ao lado.

Na entrada do elevador cruzou com um homem de meia idade que vestia preto, realçando o azul de sua gravata e do adorno em seu chapéu. Passou por ele com um aceno de cabeça, respondido com um cumprimento de chapéu. Apertou o 22 e tentou curtir o jazz suave que tocava na viagem, mas sentia um aperto molesto no peito. Talvez fosse o cigarro.

O dia passou num piscar de olhos e antes que desse por si já estava praticamente na rua de casa, o último de seus vícios brilhando suave contra o escuro da calçada mal iluminada, pequena lanterna laranja que quase iluminava sua aliança. Dizia a si mesmo que era por acaso que dava passos menores na viagem de volta. Percorreu em vinte minutos um percurso de cinco e arremessou o filtro até o portão do vizinho, abrindo o portão sem fazer barulho.

Antes de sentir o cheiro da comida já sabia qual era o jantar, preferiu não pensar nisso. Sentou-se a mesa e ouviu o filho falar sobre a escola, havia aprendido hoje que o cedilha dava som de "ça ço çu". O ce e o ci não precisavam de cedinha, explicou com ligeira confusão no olhar. Resolveu morder a isca e perguntou por que, o filho não sabia responder. Sugeriu que perguntasse a professora.

Lembrava de ter tido a mesma conversa com o próprio pai, mas nunca chegou a levar a dúvida adiante. Aceitou que as coisas eram daquele jeito e pronto. A panela de pressão soltou um apito agudo que lembrava uma locomotiva e logo estavam todos servidos. Comeu sem falar mais nada, só ouvia os relatórios da esposa e observava desatento enquanto ela questionava o menino.

Logo lembrou que ele existia. A dispensa já estava quase vazia e precisava comprar comida. O carro precisava de uma revisão. O pequeno precisava de roupas novas, já estava grande demais pras suas, inclusive o uniforme que comprou no começo do ano. Precisava ligar pra sua mãe, os avós são figuras importantes no crescimento de uma criança. Precisava ligar pros seus irmãos, nem era necessário explicar o motivo.

Uma viagem, precisavam de uma viagem. Mudar um pouco a rotina, esquecer o ar poluído da cidade. Não mencionava que passara as três últimas viagens reclamando dos passeios, do comportamento das pessoas, da comida, das compras. "Que lugar feio, que gente mal educada, que comida intragável, que lojas caras!" Era como se a panela de pressão estivesse prestes a explodir.

Continuou listando tudo que havia de consertável no universo enquanto ele focava os olhos na pequena mosca que pousara em seu prato, no canto onde restava uma ou duas colheres de feijão. Lembrou daquela música odiosa, onde ao invés de caldo era uma sopa, jamais sairia de sua cabeça agora. Ela parecia caminhar sobre o líquido, um messias artrópode, mas talvez fosse uma impressão causada pelo prato raso.

O apito continuava a aumentar de volume, e ela continuava a falar. Cansou-se. Levantou num pulo e, questionado sobre seu destino, respondeu sem pensar: "eu vou comprar cigarros". A esposa passou os próximos minutos encarando a porta, como se ele fosse mudar de ideia e voltar sem entender o que havia feito. Ela não entendia. Olhou pro filho, mas ele ainda comia distraído, murmurava "ça ço çu".

Nunca havia saído pra fumar tão tarde da noite, então agora precisava encontrar um lugar pra comprá-los. De preferência um que aceitasse cartão. Ficou mais tranquilo quando achou uma nota de vinte no bolso, suas chances acabavam de ser aumentadas. Virou uma esquina que não conhecia e avistou, de longe, uma luzinha acesa e o que parecia ser uma mesa de sinuca.

O bar mal iluminado tinha poucos fregueses, todos homens. Usavam chapéus negros que combinavam com as gravatas e os paletós, bebiam copos de Whisky cheios até a metade, sem gelo. Um deles, que carregava uma bengala apesar de não aparentar idade, conversava com o barbado sobre o verão de 96, quando conheceu sua esposa. A praia era um lugar magnífico, dizia ele.

Puxou uma cadeira junto ao balcão e pediu uma dose de qualquer coisa, acompanhada de um maço do cigarro mais barato que tivesse. Foi prontamente servido pelo dono de gravata azul, que tossia mais com o pulmão que com a garganta, assobiando a música que tocava no Jukebox. O lugar tinha um Jukebox. Analisava de longe seus contornos dourados sem dar ouvidos ao que lhe era perguntado, até que foi cutucado no ombro.

"Não prefere um charuto? São quase cubanos, só que um e oitenta", perguntou o dono, só desmanchando o sorriso pra tossir. Olhou em volta e viu que todos fumavam ou tinham maços deitados ao lado de seus copos, os cinzeiros transbordando com as bitucas e as conversas que os enchiam. Ninguém fumava charutos, recusou a oferta.

Atravessou o pequeno salão até o Jukebox, namorando seus botões e sua seleção musical. Tateou os bolsos em busca do isqueiro, mas o deixara na maleta. Um jovem sentado ao lado lhe ofereceu o seu, um Zippo de chama acesa. Deu um trago longo e agradeceu, voltando a namorar os títulos, abrindo um sorriso infantil.

Quando era criança tinha uma vitrola que o pai encontrou na rua. Inteira. Trouxe pra casa animado, mas não tinham vinis pra escutar. No outro dia chegou em casa com os olhos brilhando. De dentro da mochila sacou um disco negro, pôde ler o nome "Al Martino". A primeira música que se lembrava de ouvir na vida, saindo daquele objeto estranho e bonito, onde girava o disco, tão suave, tão hipnótico. Se seu pai podia trazer algo tão impressionante pra casa, podia fazer qualquer coisa.

Colocou uma moeda na máquina e pressionou os botões até encontrar o motivo de sua alegria. Selecionou "Here In My Heart", e saiu em direção à calçada ouvindo o som se espalhar pelo barzinho. A fumaça se espalhava pelo caminho. Pela primeira vez em muito tempo se sentia feliz, completo, livre. Podia deixar o tempo passar, ouvir uma boa música, jogar conversa fora. "Here in my heart I'm alone, I'm so lonely ♪"

Ouvia todas as histórias com interesse biográfico. Pedia detalhes, referências, conectava os relatos com os anteriores. O de bengala tinha um problema no joelho, "como aconteceu? quando?", o barbado era judeu. "Hold you so near, ever close to my heart ♪".  Nunca havia conhecido um e perguntava sobre sua crença, dando ouvidos àquelas palavras como um verdadeiro devoto.

O assunto se espalhou e em minuto todos discutiam suas próprias convicções. Admitiam a incerteza, só queriam que aquela vela não se apagasse, a "esperança de um lugar melhor depois desse aqui", nas palavras do jovem com o Zippo. O dono, assim como ele, não acreditava muito em nada. "Say that you care, take these arms I give gladly ♪". Aquela música parecia repetir, mas não se importava, podia ouvi-la pra sempre.

Finalmente estava cansado. A cabeça já pesava com o Whisky e o vinho, e os cantos de sua boca doíam de tanto rir e cantar, como amava aquele lugar. Pegou o paletó e procurou o relógio pra calcular, baseado no tempo em que estivera fora, quão alto a mulher gritaria com ele. Não o encontrou, talvez tivesse o perdido ou guardado junto ao isqueiro. Olhou em volta e não encontrou nenhuma indicação de tempo, saiu pela porta.

"Here in my heart I'm alone, I'm so lonely ♪". A música o envolvia, parecia vir de dentro. Nem se lembrava como havia voltado ali, ou do seu dia, ou de sequer ter estado em casa. Não sabia o que tinha feito no trabalho. Será que tinha trazido dinheiro? Encontrou vinte reais no bolso. Tomava tudo que encontrava na mesa, "o álcool é comunitário", disse um ruivo que não estava lá no dia anterior mas já era companheiro de todos. Também não aceitou o charuto.

Será que a esposa desconfiava do seu comportamento? Não saberia dizer, novamente estava parado em frente ao bar, sem saber onde passara a noite. Devia ter descansado, pois estava revigorado, justificavelmente cansado após mais um dia de trabalho. Que ele também não se lembrava. Tinha vinte reais no bolso, parecia ter virado um costume. "Talvez um alcoólatra se sinta assim", pensou.. "Please be mine and stay here in my heart ♪".  A música era seu lar. Podia ouví-la pra sempre.

Prestou atenção ao sair pela porta, mas não sabia se havia estado em casa. Reparou que vestia as mesmas roupas, mas não expressou sua preocupação a ninguém. Ali era um lugar de sorrisos, de despreocupação, jamais traria problemas pro lugar. Não importava se não conseguia se lembrar do rosto da esposa, ou da última lição que o filho aprendera. Deus, o que era? Cedilha? É, talvez fosse isso. Sentia saudades do filho.

Comprou cigarros e uma dose de qualquer coisa. Al Martino tocava. Um homem parecia confuso e perdido ao entrar pela porta, sentou-se ao seu lado e pediu um maço, o mais barato. Observou enquanto ele namorava a Jukebox e, prevendo a necessidade, lhe ofereceu o isqueiro. Contou-lhe sobre a primavera de 98, quando conheceu sua esposa, os parques eram magníficos, dizia.

A polícia suspendeu as buscas logo na primeira semana. A mulher se recusava a acreditar, mas essa era a história mais velha de todos os tempos. O homem se sente acuado, sai pra comprar cigarros, nunca mais volta. Provavelmente tinha outra ou fugiu, foi viver uma nova vida em outro lugar. Não, ele era diferente. Ele amava o filho, ele a amava. "Desculpe, senhora".

O pequeno mal dormia nos últimos dias, pouco falava. Comia devagar encarando a cadeira vazia, onde sempre depositava seu caderno antes de jantar. Nunca chorava. Procurava palavras pra explicar, queria que ele entendesse, mas ela mesma tinha mais dúvidas que respostas.

Duas semanas se passaram e ela secou as lágrimas rapidamente ao ouvir a buzina da perua. O filho entrou correndo em casa, vestindo um sorriso e com o caderno na mão. Contou sobre seu dia, que tinha uma nova professora de artes, que inventaram uma brincadeira muito legal no pátio. Comeu e subiu pra brincar com seu videogame, esquecendo os materiais largados na cozinha.

Abriu o caderno e foi olhando as lições do filho, ficava orgulhosa com a facilidade que tinha pra aprender. Lia e escrevia muito bem pra sua idade, cometendo os errinhos ocasionais de criança. Encontrou um papel, meio dobrado e meio amassado, guardado entre as folhas da semana anterior. Leu com a garganta em nó.

A "ç", ou cedilha, é um z pequeninho, por isso também podemos chamalo de "zedilha". Tem o som de z suavizado. Hoje só três idiomas usam ela, o português, o francês e o catalão. Lembrar de contar ao papai.
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21 de ago. de 2012

Telemarketing

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Uma incomum mas bem vinda coruja piava lá fora, seus olhos amarelos bem abertos, faróis do céu noturno que iluminavam a janela de madeira. O trinco quebrado pendia molenga, e o vento preguiçoso forçava as dobradiças devagar, abrindo e fechando o portal mágico pro quarto dela. Mal podia encontrá-la em sua cama bagunçada, livros e mais livros, headphones, bichos de pelúcia - podia arrumar o quanto quisesse, em uma semana tudo voltava a fazer parte de seu leito.

Sob o peso dos dois travesseiros dormiam suas sapatilhas - mal se lembrava que existiam e nem as sentia ali, mas eram sempre as primeiras a procurá-la ao cair da noite. Tinham vida própria. Queriam brincar, sentiam-se nostálgicas só de tocar seus dedos em meio a pesadelos conturbados que resultavam em espasmos mentirosos. Voltavam a contentar-se com os próprios sonhos, esperando que também estivessem nos dela.

Não estava tão errada. Em meio as suas mãos pequenas, de unhas pintadas com zelo frente a tela do computador, de olhos bem fechados e enebriada sob o aroma do lençol amaciado, sonhava com tempos mais fáceis. Quando cantava, e seu dia era cantar. Dançava, e seu dia era dançar. Amava mas não dedicava seus dias a tal frivolidade.

Uma traça mais curiosa podia encontrar nas páginas do diário relatos dos mil e um talentos que tinha. Os vizinhos lhe traziam doces pois os alegrava logo de manhã treinando em seu piano. Os amigos não faltavam a nenhuma das suas apresentações nos fins de semana. Os pais rasgavam sorrisos tagarelando a última empreitada da menina que podia fazer tudo, tudo!

Centenas de páginas vazias ainda restavam, pois nem isso levou em frente. Os rabiscos da última falavam sobre como se sentia perdida, como todos ao seu redor pareciam ter lido um manual de instruções que ela não recebeu. Defeito de fabricação. Como explicar que não se sentia completa e feliz em nada, e que se não sabia quem era agora, não poderia decidir quem queria ser o resto da vida?

Mas o diário não se alimentava há anos, vivendo de poeira e o ocasional papel importante que lhe é conferida a tarefa de guardar. Tão importante que acabava esquecido e, sem querer, virava página do caderno, parte da história.O mesmo processo acontecia com os tantos que ela largava jogados, de desenhos ou de partituras, romances que nunca terminou, revistas que não conseguia se desfazer.

Acordou com um barulho cego, procurando os óculos pra verificar o que havia acontecido. Não conseguia encontrá-los e já bufava feroz, jogando as coisas pro lado na crença de que havia adormecido com eles no rosto. De repente lembrou-se que os deixara ao lado da televisão e levantou o corpo com tremendo esforço, tropeçando no edredom lilás e quase atingindo a cômoda com a cabeça.

Suspirando a aventura matinal, correu até a janela semicerrada, encontrando algumas penas cor de mel como seus cabelos sob a luz do sol. Olhou pro chão e encontrou, atônita, uma coruja que mal se movia enquanto afundava as dores na grama baixa. Quem cronometrasse sua viagem chegaria a conclusão de que pulara até lá embaixo.

Com uma toalha envolveu o pássaro, tomando cuidado para não feri-la mais que a batida. Nunca havia visto uma coruja e mal sabia dizer muito sobre elas, mas não imaginava a espécie como o tipo de kamikazear contra janelas. Aninhou o bicho numa caixa de sapatas feita cama de hospital e deixou um bilhete pra sua mãe explicando tudo, junto com vinte reais para despesas alimentícias do convidado.

Colocou qualquer roupa coletada em meio as pilhas no chão (só ela sabia distinguir as limpas das sujas), calçou uma sandália, perfumou-se e saiu apressada. O celular já lhe gritava que eram nove e meia, e ela precisava estar no trabalho as dez. No caminho, a televisão do ônibus exibia seu horóscopo. "Câncer: evite culpar os outros pelos seus problemas. Presságios podem cruzar o seu caminho". Pensou na coruja por um instante, mas uma lombada sacudiu a ideia pra longe, estava mais preocupada em se segurar.

Sentia-se com sorte, fazia muito tempo desde a última vez que vira a Faria Lima livre de trânsito. Entrou dando bom dias expressos e, ardilosamente, contrabandeou uma rosquinha da mesa de café para seu cubículo. Não sobreviveria sem comer e, se parasse ali, ouviria por estar atrasada. Era melhor ouvir por estar trabalhando, dedos doces ou não.

A senha era uma lembrança constante. Um nome seguido de um número. Nunca conseguiu mudá-la, mas não sabia o motivo; o número era randômico. Era, então, obrigada a pausar 5 segundos toda vez que digitava a bendita sequência, duas ou três memórias cada dia mais distantes, mais amarelas. Vestiu o Headset e atendeu uma ligação.

Todo cliente pensa ser único, mas é sempre o mesmo: ou não sabe, ou pensa que sabe. Os graus variam, mas seu comportamento também: estresse agudo, estresse moderado, calmo, aberto a aprendizado, opinativo, "fiz um técnico" e o novo Steve Jobs. Claro que há aquele preocupado, o reclamador, o perguntador, o feliz, o depressivo, o piadista. São eles as chaves .1 a .6, sem ordem, no meio de tantas outras. Apertou o 4.2.3.3, só mais um antes do almoço.

- Cara, cê não tá entendendo. - Era como se seu coração dominasse o ritmo de suas palavras. -  Eu tô sem internet há três dias, eu preciso desse negócio funcionando!
- Senhor, no nosso sistema consta que sua conexão está operando perfeitamente. O senhor já tentou um anti-vi...
- Meu. Computador. Não tem. Vírus. - Disse entre os dentes, em jatos calculados de ar. Ouviu o barulho de um tapa, bem perto do fone. - A minha internet não está funcionando e eu preciso que alguém resolva isso imediatamente!
- Só um minuto senhor.

Apertou o botão de mudo. Respirou fundo, odiava quando era tratada em tons. Verificou o sistema outra vez e tudo parecia estar como deveria, verde como os semáforos a caminho do trabalho. Continuava ouvindo-o resmungar, "caralho que merda, que droga, o que eu faço, o que eu faço". Pressionou o botão rapidamente, "só um minutinho, senhor", e voltou a checar os registros.

Já estava prestes a oferecer a visita de um técnico quando reparou algo estranho. "Senhor, eu vou precisar de cinco minutos para conferir um possível erro no sistema. O senhor aguarda?"  Podia ouvi-lo respirar pausadamente, o pulmão rouco e arranhado fazia-se presente a cada exalada. Acelerou. "Posso, mas rápido", respondeu. Foi rápido.

O seu chefe era um homem estranho. Calvo, bem calvo, do tipo que nasceu pra ser um Globetrotter mas sofreu rápido os efeitos da erosão causada pelo vento, chuva e estresse. Tinha uns tiques que indicavam o uso de algo além da cafeína, mas ela não se importava. Na melhor ou pior das hipóteses o compreendia. Olhou pra ela com as pupilas bem abertas, deitou-as sobre as letras miúdas do papel impresso.

- É...eu não sei o que fazer.
- Como não sabe?
- Esse é caso de polícia. A federal grampeou a casa de um hacker aí, parece que o cara é um gênio. Agorafóbico. Mas é viciado nuns negócios pesados, fez umas dívidas grandes e foi pegando cada vez mais. Chamou atenção. Acho que bloquearam a conexão dele sem perceber, e agora o cara tá ilhado.
- E o que eu...?
- Ai...ai...Ah...diz que vai mandar um técnico, eu vou ver se consigo achar o mandato disso aqui pra avisar alguém.
- Eu mando o técnico?
- Não, não. Claro que não.

Saiu de lá sem saber o que sentir. Por um lado entendia que não podia fazer nada, mas odiava mentiras. Vez ou outra precisou mentir, quem não? Mas chegava a machucar os outros evitando mascarar a verdade. O que podia fazer? Se mandasse o técnico não estaria mentindo, mas não era perigoso enviá-lo pra casa de um viciado?

- Senhor? - Havia esquecido de colocá-lo no mudo e sentia-se feliz por isso, a música que tocava era infernal e ele provavelmente a mataria a essa altura do loop.
- Eu...eu...e aí?
- Senhor...há mesmo um problema com sua internet e nós vamos enviar um técnico...
- E qual é o problema? - perguntou decidido.
- Não entendi, senh...
- Eu perguntei qual é o problema. Qual. É. O. Problema? - sentia que ele apertava o fone com os dedos, como se envolvesse sua cabeça com a voz.
- O problema...err...um dos cabos...
- Eu verifiquei os cabos.
- ...ele não funciona e....
- Eles funcionam.

O mouse tremia enquanto procurava o perfil dele. 4..2.3.3.4, não. 4.2.3.3.6, não. Volta. 4.5.2.2.1.1, ficava nervosa quando mentia. Ainda mais se era pega mentindo. Esqueceu o tempo que gastou fazendo as unhas e roía as da mão esquerda, pedaço a pedaço, cuspindo-as contra o monitor.

- Senhor... - começou, sem saber o que dizer em seguida.
- Olha, foda-se. Manda a porra do técnico, mas arruma essa... - parou ao ouvir barulhos na porta. Ela prestava o máximo de atenção, apertando os fones contra os ouvidos, acreditava que era a polícia.  Ouvi-o abrir a porta devagar, depois de uma vez. Som de algo caindo no chão. Logo alguém choramingava alto, em gritos desafinados que ziguezagueavam entre o apelo e a lamentação.

- Cara, eu vou te pagar! Eu juro! Não fui eu, a porra da operadora zuo minha internet cara, sério! Eu vou te pagar, não é minha culpa! Foi essa vagabunda dessa operadora, que não me ajuda, eu vou te pagar cara! Coruja, cara!

Bang. Bang. Pulou duas vezes na cadeira, pressionando ainda mais o acolchoado contra as orelhas. Bang. Bang. Bang. Silêncio. "Cinco" repetia na sua cabeça como se num coro de torcida. Podia jurar que ouviu passos ao longe, e o doce piar de uma coruja. Tirou o Headset e o depositou na mesa com cuidado. Levantou-se e saiu pra almoçar, sem olhar pra ninguém.

Nunca mais voltou.
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19 de ago. de 2012

Dia de Hoje

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Eu não sei quantos corações acelerados são necessários pra se montar uma orquestra, mas naquele quarto haviam quatro. A loira magrinha chorava no chão, seus braços finos apertados com um punhado de corda. sua boca mordia um pano sujo e molhado. Suava pequenos diamantes de sal e talvez sentisse o gosto das lágrimas se a água suja não atrapalhasse o sabor.

Tinha os olhos fixos num cato mais a frente. Prateado, recentemente polido, na sua cabeça era bem maior do que pensava. Os ponteiros do relógios a perseguiam, tic, tac, ressoavam como tambores num acústico majestosamente infernal. 14:26. Podia explodir a qualquer momento. O cano zumbia, tal qual um bicho no silêncio da árvore pedro no quintal. Seu dono também suava.

"Da onde veio essa porra?" Nem todos percebiam que ele ofegava, a loira certamente não. Estava distraída em seus próprios pensamentos. Ajeitou o cabelo crespo com a mão direita, a outra nem se movia. Mantinha  o indicador no gatilho, a unha mal roída encardida de tabaco e pó. Prensou os dentes, nem os sentia, fechando os olhos por um milésimo de segundo. Respirou fundo, voltou a perguntar. "De onde veio essa porra, caralho?!"

Com um gesto ameaçou atirar. Ela deu um grito abafado. O cachorro lá fora latia com raiva, odiava o cheiro de estranhos. Aqueles tinham um odor amargo, intragável, e ele queria rasgá-los por isso, mas a corrente se recusava a romper. Pulava contra a janela, podia ver claramente uma das fontes do seu ódio e precisava se livrar dele. Imaginava-se arrancando os cabelos da sua nuca, ah que satisfação traria afiar os seus dentes nos ossos daquela cabeça! Que o desafiava com o olhar!

"Seu cachorro é irritante", respondeu com confiança na voz. Encarava o pitbull sem se alterar com seus latidos, "que ladra não morde, não é? Imagino que a corrente aguenta um trator."  Olhou de volta pro dono do cano, ajeitou os óculos caídos. "Essa porra veio da gente, meses de trabalho duro. Muito duro."

"O caralho. Criança não fabrica remédio, guri. Onde tu arranjou esse bagulho?" Levantou a camisa, revelando outro cano, mas esse não era de prata. Pouco importava. "Ou fala ou eu canto pra ela dormir. Depois a cuca lá fora vem pegar o resto". O cachorro pulava agitado a menção de seu nome.

"Eu...eu que fiz, cara" engoliu em seco em resposta ao olhar que recebeu. Algum jogo de futebol acontecia na sala e podia-se ouvi-lo dali, narrado pelo cão e pelo Bueno. Suas mãos pálidas apertavam a mesa em que se recostava, tentava manter uma postura. Parecia acabado, cansado das escadas e do sol ofuscante que parecia refletir  em cada superfície alaranjada.Se corrigiu imediatamente. "mano, irmão", sentia que errava, "senhor, ai caralho". A bombinha deixou na mochila lá fora, seu peito reclamava disso. Uma pontada no pulmão esquerdo lhe impedia de pensar direito. 

"Cara...é, a gente demorou um tempo pra aprender...e depois pra fazer mas...mas é nosso." A loira engasgava, impedida de respirar pela boca e pouco sobrevivendo às custas do que inalava pelo nariz, entupido de areia branca e entorpecido pelo cal e o cheiro de chorume. Passou a palma da mão  por seus cabelos castanhos, "é nosso, a gente não tem porque mentir".

"É nosso" repetiu o outro, sem gaguejar, sem se incomodar com a prata. Acendeu um cigarro despreocupado, a fumaça batia contra seus cachos, pesava o mesmo que o ar na temperatura vulcânica daquela casa que parecia construída a tijolos de lava. "Ele faz, a gente ajuda" apontou com o cigarro na direção do irmão e da menina, afastando as 4700 substancias tóxicas de seus cabelos mais negros que o azul.

 O jeito que o crespo respirava sugeria que não estava convencido. Mordeu o lábio superior impaciente, quem é que morde o lábio superior? Olhou pro chão, pra loira, pro castanho, pro negro. Atirou na parede. "DA ONDE" atirou na parede, "VEIO" atirou na parede. "ESSA" atirou na parede "PORRA?". Quatro buracos pouco acima dela, que já secara de lágrimas e agora recorria a um silêncio mortal, desistido. 

Bateu o cigarro com o indicador. "Eu vou falar pela última vez." Amaldiçoava cada som que tocava seus tímpanos, lhe impediam de pensar. Tentava manter os pés no chão, acreditando fielmente nos dez metros por segundo ao quadrado. Ajeitou os óculos com a mão livre da fumaça. "Ele faz, a gente ajuda. Tem mais dois caras que entram no serviço, cada um do seu jeito. Pesquisa, planejamento, aquisição de material. Ele é o Edu Guedes e a gente lava a louça, os três fazem trabalho de campo. Cê sabe, quem usa conhece."

"Vocês não conhecem nada." Devia ter se cansado da pergunta, finalmente se moveu para a próxima. "O que eu vou querer com isso? Quem vai comprar essa merda?" Deixou de apontar pra loira, o cano agora indicava o saco de lixo na mesa, confortavelmente cheio. A mochila em que veio continuava lá fora atiçando o cão. De sua boca aberta vazavam pedaços de um cristal esbranquiçado, neblinado. Facilmente quebrável, perfeito pra ser inalado ou fumado.

"Quem você quiser que compre." Acenou com a cabeça pro outro, confirmando em silêncio que tinha controle da situação. "Os caras da lojinha empurraram 50 gramas em um dia. A gente te consegue 350 por semana, pra começar. Você vende por cem reais a grama...("ninguém vai pagar cem por essa...")...vão pagar o que você quiser que paguem. Você não tem custo nenhum, recebe da nossa mão, 40% é nosso."

"E depois?" Ainda mantinha a firmeza de quem segura uma arma na voz. "E depois o quê?" O tom de desafio na voz do moleque lhe coçava o dedo. "O branquelo perdeu o medinho, foi?", disse apontando a arma pro seu peito asmático. A loira se debatia no chão, recuperando a vida ao ver a mudança de direção. Antes ela que ele. "Eu, aponta pra mim!", tentou gritar, mas só saíram "hums". 

Bateu o cigarro outra vez. "E depois a gente investe. Aumenta a produção. Trazendo de fora até dá pra distribuir, mas até criar-se um mercado, é mais fácil com o pó. E acho que os caras lá de cima também tão satisfeitos com o jeito que as coisas estão. Mas isso aqui?" Bateu com a brasa num dos cristais em cima da mesa."Isso é feito no quintal de casa. Cê tem que ver, da pra vir de ônibus da onde a gene cozinha. Até o leva e o traz é por nossa conta."

"Eu não confio em criança." Um último trago no cigarro e o arremessou pela janela, quase atingindo o animal. "Confie nos números." O relógio, o cão, a televisão, os quatro corações. Odiava todos os sons. A arma agora era apontada pra sua cabeça e não conseguia tirar os olhos dela. Bem em frente ao seu rosto, podia ouvi-la cantar. Vibra sob cada palpitar do crespo. O dedo a centímetros do seu nariz se mexia, fazia força contra o resto do corpo. Contra o gatilho. Silêncio. "Click".

A mochila largada na sala contava uma boa quantia em dinheiro, um pouco já gasto em favor de licor e cigarros. Algumas outras coisas pra passar a noite em claro. A loira e o castanho sentavam no chão da casa vazia, desmobiliada, abraçados sem dizer nada.O outro preparava um pouco do próprio produto. Já era tarde, quase na parte desinteressante da madrugada, e ainda vestiam as mesmas roupas e a mesma sujeira do resto do dia. Faltavam forças pra se lavar, comer e dormir. 

Ela ainda sentia o gosto de sujeira, mesmo tendo escovado os dentes por quase uma hora. O castanho ainda tremia. O negro não soltara uma palavra desde que desceram o morro, fumando um cigarro após o outro, sua língua já havia se esquecido o que era água. Seu irmão quebrou o silêncio. "E agora?" Deitou o cartão de lado, inalou seu trilho e passou a bandeja. "Agora...agora a gente cozinha".
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