3 de ago. de 2012

Aquário

De todos era o mais bonito e tinha total consciência disso. Um dos menores, mas o intenso vermelho e roxo de suas escamas lhe garantia atenção sempre que alguém se aproximava do vidro. De vez em quando se escondia atrás das pedras ou do baú do tesouro, só pra ouvir perguntarem por ele. "E aquele pequeno, vermelho, onde está? Ele é lindo!" Fazia um pouco mais de cena e entrava dramaticamente, espreguiçando as barbatanas como se acabasse de acordar.

Alguns dos outros o achavam metido, sempre dançante enquanto pegava ração, um exibicionista, mas isso não impedia que continuasse com suas piruetas. Um dia sua vida mudou. O novo tinha pinta de academia, grande, forte e rápido, era como um relâmpago laranja e azul. Suas barbatanas imponentes eram cobertas por listras pretas que lhe aumentavam a impressão de aerodinamismo de seu corpo esguio, só impressão, mas era isso que importava!

Continuava a fazer piruetas e a orquestrar sua dança-do-almoço, mas suas cores já não eram assistidas ou admiradas. Nas perguntas foram substituídas por "laranja, com listras, aquele sim é bonito!" Parecia uma cópia melhorada, com as mesmas danças, fintas e entradas dramáticas, o metido fitava o vidro do aquário por horas, fazendo bolhas perfeitamente esféricas e seguindo os dedos dos espectadores.

Agora que era um deles os outros peixes lhe aceitavam melhor, colocando-o nas conversas e a par das novidades do aquário. Foi um dos primeiros a saber quando chegou uma caveira de plástico para acompanhar o baú, e correu pra avisá-los quando viu sacolinhas de plástico misteriosamente posicionadas do outro lado da mesa. Alarme falso, só limpeza, mas o agradeceram mesmo assim.

Mas seu ego já tinha sido acariciado demais. Sentia falta dos olhares, de brincar com os dedos, de estar nas conversas! Passou dias se preparando, usando as pedras e falsos corais como ginásio. Nadava o mais rápido que podia, subindo e descendo, controlando a respiração. Só teria uma tentativa, se fosse forte o suficiente chegaria até a pia e liberdade! Finalmente conheceria os rios, o mar, os oceanos, tudo que os outros peixes diziam estar além dos canos!

Quando finalmente se sentiu preparado contou seu plano aos outros peixes. Lhe chamaram de louco, os que haviam tentado antes morreram! Jamais conseguiria! Mas estava decidido. Despediu-se e, com uma última abanada de rabo ao metido laranja, tomou distância e pulou em direção ao seu destino. Sentiu o ar tocando suas escamas, cada vez mais devagar enquanto subia e, em seguida, cada vez mais rápido em direção ao chão. Por pouco não alcançou a pia, pouquíssimo!

Atingiu o solo com um "plaft" do impacto e um "ghur" da água sendo expelida de seu corpo. Sabia que era o fim, que as luzes se apagariam e teria que dizer adeus a esse mundo. Nem pulava, não daria essa satisfação aos outros, aceitou as circunstâncias. Já havia perdido as esperanças quando, logo após a escuridão cobri-lo, seu corpo foi outra vez envolto em água. Viu seus antigos companheiros e pensou estar no Maraíso, mas uma olhada ao redor lhe trouxe de volta a realidade. Sua dona o espiava com uma mistura de curiosidade, espanto e riso. "Você tem nadadeira pra nadar, não pra voar! Louquinho, vou ter que prestar mais atenção em você".

E nadou o resto da vida.

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