Um apito incessante ecoava em sua cabeça, batendo nas paredes do seu crânio e se amplificando mais e mais, cobrindo todos os outros sons, lhe prendendo a atenção. Já era a terceira vez que chamavam seu nome quando finalmente atendeu. Respondeu qualquer coisa pois a pergunta não importava. Nada importava.
Assistiu as mãos da esposa servirem o jantar. O tempo e o trabalho desgastaram suas mãos, que já não eram delicadas e macias como antes, e há muito não o tocavam como antes. Parecia haver um quê de automático em suas carícias, e isso o sufocava. Era apaixonado pela imprevisibilidade desde criança, amava demais o próprio livre arbítrio. O garfo movia-se devagar no omelete enquanto previa todos os movimentos da amada.
Vai olhar pro meu prato e perguntar por que não estou comendo. Tai. Vai se levantar pra pegar suco porque não serviu o suficiente da primeira vez, esquecendo que dois meios copos somam um inteiro. Vai perguntar se o menino quer alguma coisa. Aí. Reclamar que a perua está demorando. A buzina. Lá vai ele. Lá vou eu.
Saiu de casa dando passos de gigante. Conhecia aquelas calçadas como conhecia o teto do quarto, suas noites insones lhe garantiam que cada sulco mal iluminado estivesse tatuado em sua cabeça. No canto oposto a cama uma teia era construída depressa, a aranha trabalhava como se fosse ano de eleição. Não via a hora de destruí-la, encontrava um certo conforto em pisar nos sonhos dela.
Atravessou sempre na faixa de pedestres. Parou na sua banca de jornal favorita, comprou balas e um maço de cigarros. Vermelho ou Light, dependendo do dia, a esposa provavelmente nem sabia que ele fumava - tinha uma habilidade natural com o vento e raramente chegava com odor em suas roupas. O maço do dia acabava na rua ou era guardado fundo na maleta.
Cumprimentou os colegas fumantes mas não ficou pra conversar, sentia-se como um cão de rua tendo que manter seus hábitos no meio da avenida. Isso sem contar os preços...quase chorou da última vez que calculou o quanto gastava em nicotina no ano, e isso foi antes do aumento. Pegou o elevador e passou direto pelo seu andar, seguindo pro estacionamento na cobertura.
Sentou-se na beirada, acendeu um Marlboro. Conseguia ver toda a cidade, alta e triste naquele dia cinza. Vasculhou a memória procurando dias ensolarados, mas por algum motivo não se recordava deles. Era sempre cinza lá em cima. Tragava sem batê-lo, girando a bituca entre os dedos sem deixar a cinza cair. Jogou-a lá de cima, torcendo pra que se acertasse alguém do escritório ao lado.
Na entrada do elevador cruzou com um homem de meia idade que vestia preto, realçando o azul de sua gravata e do adorno em seu chapéu. Passou por ele com um aceno de cabeça, respondido com um cumprimento de chapéu. Apertou o 22 e tentou curtir o jazz suave que tocava na viagem, mas sentia um aperto molesto no peito. Talvez fosse o cigarro.
O dia passou num piscar de olhos e antes que desse por si já estava praticamente na rua de casa, o último de seus vícios brilhando suave contra o escuro da calçada mal iluminada, pequena lanterna laranja que quase iluminava sua aliança. Dizia a si mesmo que era por acaso que dava passos menores na viagem de volta. Percorreu em vinte minutos um percurso de cinco e arremessou o filtro até o portão do vizinho, abrindo o portão sem fazer barulho.
Antes de sentir o cheiro da comida já sabia qual era o jantar, preferiu não pensar nisso. Sentou-se a mesa e ouviu o filho falar sobre a escola, havia aprendido hoje que o cedilha dava som de "ça ço çu". O ce e o ci não precisavam de cedinha, explicou com ligeira confusão no olhar. Resolveu morder a isca e perguntou por que, o filho não sabia responder. Sugeriu que perguntasse a professora.
Lembrava de ter tido a mesma conversa com o próprio pai, mas nunca chegou a levar a dúvida adiante. Aceitou que as coisas eram daquele jeito e pronto. A panela de pressão soltou um apito agudo que lembrava uma locomotiva e logo estavam todos servidos. Comeu sem falar mais nada, só ouvia os relatórios da esposa e observava desatento enquanto ela questionava o menino.
Logo lembrou que ele existia. A dispensa já estava quase vazia e precisava comprar comida. O carro precisava de uma revisão. O pequeno precisava de roupas novas, já estava grande demais pras suas, inclusive o uniforme que comprou no começo do ano. Precisava ligar pra sua mãe, os avós são figuras importantes no crescimento de uma criança. Precisava ligar pros seus irmãos, nem era necessário explicar o motivo.
Uma viagem, precisavam de uma viagem. Mudar um pouco a rotina, esquecer o ar poluído da cidade. Não mencionava que passara as três últimas viagens reclamando dos passeios, do comportamento das pessoas, da comida, das compras. "Que lugar feio, que gente mal educada, que comida intragável, que lojas caras!" Era como se a panela de pressão estivesse prestes a explodir.
Continuou listando tudo que havia de consertável no universo enquanto ele focava os olhos na pequena mosca que pousara em seu prato, no canto onde restava uma ou duas colheres de feijão. Lembrou daquela música odiosa, onde ao invés de caldo era uma sopa, jamais sairia de sua cabeça agora. Ela parecia caminhar sobre o líquido, um messias artrópode, mas talvez fosse uma impressão causada pelo prato raso.
O apito continuava a aumentar de volume, e ela continuava a falar. Cansou-se. Levantou num pulo e, questionado sobre seu destino, respondeu sem pensar: "eu vou comprar cigarros". A esposa passou os próximos minutos encarando a porta, como se ele fosse mudar de ideia e voltar sem entender o que havia feito. Ela não entendia. Olhou pro filho, mas ele ainda comia distraído, murmurava "ça ço çu".
Nunca havia saído pra fumar tão tarde da noite, então agora precisava encontrar um lugar pra comprá-los. De preferência um que aceitasse cartão. Ficou mais tranquilo quando achou uma nota de vinte no bolso, suas chances acabavam de ser aumentadas. Virou uma esquina que não conhecia e avistou, de longe, uma luzinha acesa e o que parecia ser uma mesa de sinuca.
O bar mal iluminado tinha poucos fregueses, todos homens. Usavam chapéus negros que combinavam com as gravatas e os paletós, bebiam copos de Whisky cheios até a metade, sem gelo. Um deles, que carregava uma bengala apesar de não aparentar idade, conversava com o barbado sobre o verão de 96, quando conheceu sua esposa. A praia era um lugar magnífico, dizia ele.
Puxou uma cadeira junto ao balcão e pediu uma dose de qualquer coisa, acompanhada de um maço do cigarro mais barato que tivesse. Foi prontamente servido pelo dono de gravata azul, que tossia mais com o pulmão que com a garganta, assobiando a música que tocava no Jukebox. O lugar tinha um Jukebox. Analisava de longe seus contornos dourados sem dar ouvidos ao que lhe era perguntado, até que foi cutucado no ombro.
"Não prefere um charuto? São quase cubanos, só que um e oitenta", perguntou o dono, só desmanchando o sorriso pra tossir. Olhou em volta e viu que todos fumavam ou tinham maços deitados ao lado de seus copos, os cinzeiros transbordando com as bitucas e as conversas que os enchiam. Ninguém fumava charutos, recusou a oferta.
Atravessou o pequeno salão até o Jukebox, namorando seus botões e sua seleção musical. Tateou os bolsos em busca do isqueiro, mas o deixara na maleta. Um jovem sentado ao lado lhe ofereceu o seu, um Zippo de chama acesa. Deu um trago longo e agradeceu, voltando a namorar os títulos, abrindo um sorriso infantil.
Quando era criança tinha uma vitrola que o pai encontrou na rua. Inteira. Trouxe pra casa animado, mas não tinham vinis pra escutar. No outro dia chegou em casa com os olhos brilhando. De dentro da mochila sacou um disco negro, pôde ler o nome "Al Martino". A primeira música que se lembrava de ouvir na vida, saindo daquele objeto estranho e bonito, onde girava o disco, tão suave, tão hipnótico. Se seu pai podia trazer algo tão impressionante pra casa, podia fazer qualquer coisa.
Colocou uma moeda na máquina e pressionou os botões até encontrar o motivo de sua alegria. Selecionou "Here In My Heart", e saiu em direção à calçada ouvindo o som se espalhar pelo barzinho. A fumaça se espalhava pelo caminho. Pela primeira vez em muito tempo se sentia feliz, completo, livre. Podia deixar o tempo passar, ouvir uma boa música, jogar conversa fora. "Here in my heart I'm alone, I'm so lonely ♪"
Ouvia todas as histórias com interesse biográfico. Pedia detalhes, referências, conectava os relatos com os anteriores. O de bengala tinha um problema no joelho, "como aconteceu? quando?", o barbado era judeu. "Hold you so near, ever close to my heart ♪". Nunca havia conhecido um e perguntava sobre sua crença, dando ouvidos àquelas palavras como um verdadeiro devoto.
O assunto se espalhou e em minuto todos discutiam suas próprias convicções. Admitiam a incerteza, só queriam que aquela vela não se apagasse, a "esperança de um lugar melhor depois desse aqui", nas palavras do jovem com o Zippo. O dono, assim como ele, não acreditava muito em nada. "Say that you care, take these arms I give gladly ♪". Aquela música parecia repetir, mas não se importava, podia ouvi-la pra sempre.
Finalmente estava cansado. A cabeça já pesava com o Whisky e o vinho, e os cantos de sua boca doíam de tanto rir e cantar, como amava aquele lugar. Pegou o paletó e procurou o relógio pra calcular, baseado no tempo em que estivera fora, quão alto a mulher gritaria com ele. Não o encontrou, talvez tivesse o perdido ou guardado junto ao isqueiro. Olhou em volta e não encontrou nenhuma indicação de tempo, saiu pela porta.
"Here in my heart I'm alone, I'm so lonely ♪". A música o envolvia, parecia vir de dentro. Nem se lembrava como havia voltado ali, ou do seu dia, ou de sequer ter estado em casa. Não sabia o que tinha feito no trabalho. Será que tinha trazido dinheiro? Encontrou vinte reais no bolso. Tomava tudo que encontrava na mesa, "o álcool é comunitário", disse um ruivo que não estava lá no dia anterior mas já era companheiro de todos. Também não aceitou o charuto.
Será que a esposa desconfiava do seu comportamento? Não saberia dizer, novamente estava parado em frente ao bar, sem saber onde passara a noite. Devia ter descansado, pois estava revigorado, justificavelmente cansado após mais um dia de trabalho. Que ele também não se lembrava. Tinha vinte reais no bolso, parecia ter virado um costume. "Talvez um alcoólatra se sinta assim", pensou.. "Please be mine and stay here in my heart ♪". A música era seu lar. Podia ouví-la pra sempre.
Prestou atenção ao sair pela porta, mas não sabia se havia estado em casa. Reparou que vestia as mesmas roupas, mas não expressou sua preocupação a ninguém. Ali era um lugar de sorrisos, de despreocupação, jamais traria problemas pro lugar. Não importava se não conseguia se lembrar do rosto da esposa, ou da última lição que o filho aprendera. Deus, o que era? Cedilha? É, talvez fosse isso. Sentia saudades do filho.
Comprou cigarros e uma dose de qualquer coisa. Al Martino tocava. Um homem parecia confuso e perdido ao entrar pela porta, sentou-se ao seu lado e pediu um maço, o mais barato. Observou enquanto ele namorava a Jukebox e, prevendo a necessidade, lhe ofereceu o isqueiro. Contou-lhe sobre a primavera de 98, quando conheceu sua esposa, os parques eram magníficos, dizia.
A polícia suspendeu as buscas logo na primeira semana. A mulher se recusava a acreditar, mas essa era a história mais velha de todos os tempos. O homem se sente acuado, sai pra comprar cigarros, nunca mais volta. Provavelmente tinha outra ou fugiu, foi viver uma nova vida em outro lugar. Não, ele era diferente. Ele amava o filho, ele a amava. "Desculpe, senhora".
O pequeno mal dormia nos últimos dias, pouco falava. Comia devagar encarando a cadeira vazia, onde sempre depositava seu caderno antes de jantar. Nunca chorava. Procurava palavras pra explicar, queria que ele entendesse, mas ela mesma tinha mais dúvidas que respostas.
Duas semanas se passaram e ela secou as lágrimas rapidamente ao ouvir a buzina da perua. O filho entrou correndo em casa, vestindo um sorriso e com o caderno na mão. Contou sobre seu dia, que tinha uma nova professora de artes, que inventaram uma brincadeira muito legal no pátio. Comeu e subiu pra brincar com seu videogame, esquecendo os materiais largados na cozinha.
Abriu o caderno e foi olhando as lições do filho, ficava orgulhosa com a facilidade que tinha pra aprender. Lia e escrevia muito bem pra sua idade, cometendo os errinhos ocasionais de criança. Encontrou um papel, meio dobrado e meio amassado, guardado entre as folhas da semana anterior. Leu com a garganta em nó.
A "ç", ou cedilha, é um z pequeninho, por isso também podemos chamalo de "zedilha". Tem o som de z suavizado. Hoje só três idiomas usam ela, o português, o francês e o catalão. Lembrar de contar ao papai.
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