9 de ago. de 2012

Sobrevivente

Sempre fora distraído e meio desligado, mas nunca perigosamente. Naquele dia o ônibus parou fora do ponto, odiava quando faziam isso; teria que atravessar aquele mar de gente pra chegar ao seu destino. Ele próprio não era o mais magro, e tinha um certo problema com pessoas. Era social, claro, mas tinha certa aversão a estranhos. Talvez uma fobia, mas nunca procurou saber, conseguia viver normalmente com uma ou outra mania.

Viu a avenida livre agora que o caixote público já tinha seguido viagem e, sem pensar duas vezes, pulou dos quadradinhos pintados na forma de São Paulo pro asfalto negro e amarelo recém renovado. Ajeitou os headphones com as mãos, soltaram-se um pouco no impacto, caminhou oito ou dez passos e, satisfeito, pulou parte de si de volta pra calçada. A outra parte, sua perna, foi levada pra frente com o impacto do ônibus que vinha sem frear.

De algum jeito conseguiu não cair. Os fones se penduravam em torno de seu pescoço, pesando no capuz vermelho. O veículo ainda buzinava e poderia muito bem ter ouvido um "sai da rua" em câmera lenta, mas não tinha certeza. De nada. Não tinha ar ou sangue em seu corpo. Pensou em si quando era criança, descia as escadas correndo e, pisando num carrinho que deixou jogado, rolou abaixo. A cabeça primeiro. Quantos anos tinha? Quatro, cinco? Dois?

Entre um buzinar e outro tudo voltou ao normal. As nuvens já se mexiam, as pessoas já davam sinal e o farol estava verde pra que ele atravessasse. Marchou numa só velocidade até o portão da escola, o sinal já prestes a tocar, fumou um cigarro enquanto esperava. Trazia-o pra perto dos olhos, examinava a brasa e a fumaça, nunca antes as assistia tão de perto. O fogo parecia tão...fácil. Apagou o cigarro num sopro e o trouxe pra perto dos olhos, "o que falta? Por que não queima...agora?" A brasa voltou a queimar.

Não era de fumar colchão, mas naquele dia merecia. Pisou na bituca e entrou na escola já esperando as reclamações que ouviria da professora de Educação Física. Quem mais no mundo daria tanta importância pra que calças ele usava enquanto jogava qualquer coisa? Basquete, futebol, vôlei, até natação faria com seu jeans azul escuro se lhe permitissem e, é claro, se a escola tivesse uma piscina. 

Passou no banheiro pra lavar as mãos, odiava coçar o nariz e cheirar fumaça, coisa que fazia constantemente. Guardou os fones na mochila e ligou a torneira, deixando a água escorrer entre seus dedos, cada vez mais fria, cada vez mais quente. Fez uma concha e bebeu um pouco, encostando a ponta do nariz na água e criando pequenas ondulações. A fez cair pra cima.

Saiu do banheiro com uma calça esportiva, próprias pro basquete, mas o suficiente mesmo sendo vôlei a prática daquela aula. A professora fez o favor de ignorá-lo o dia inteiro. Naquela manhã jogava melhor que o normal, parecia sempre saber pra onde a bola iria, sempre conseguir alcançá-la... Ao soar o sino trocou de camiseta e se dirigiu ao bebedouro, esperando ao lado da menina mais quieta da sala.

Ela enchia sua garrafinha, rosa como seus cabelos lisos, quase líquidos de tão escorridos. Aproximou-se e, com um cutucão do lado direito do corpo, chamou sua atenção. Pouco piscava enquanto mantinha o olhar fixo naqueles pequenos olhos, que quase se fechavam quando sorria, esperou o suficiente pra que ela se intrigasse. "Sei lá...se eu te oferecesse algo, você aceitaria?", intensificando a interrogação em seu rosto. "Tipo o que?", conseguiu formular em meio a dúvida."Ah, cê sabe, cabular essa aula. A gente vai até o pátio e fica lá até o próximo sinal". Mexia a cabeça conforme ziguezagueava entre as possíveis intenções do garoto, pronunciando algumas silabas enquanto tentava encontrar palavras mas sem saber o que dizer. "Vão nos pegar", finalmente soltou. "Não, não vão", respondeu ele, pegando em sua mão.

Sentaram-se num canto afastado onde dificilmente seriam vistos, ele ainda mudo distraído com os cortes que as unhas dela faziam no vento. Pegou o isqueiro e o maço. "Isso mata, sabia?" Levantou uma sobrancelha e acendeu um cigarro mesmo assim, ela não reclamou. "Hoje..." começou, esperou até confirmar que tinha sua atenção. "...hoje eu quase morri. Atropelado. Claro que eu poderia ter sobrevivido, quebrado umas costelas, o rádio, talvez meu fone quebrasse, minha mochila rasgasse. Mas não, eu senti...", deu um longo trago, ela não desviava os olhos. Soltou a fumaça enquanto falava. "...eu senti que foi a minha hora, sabe? Eu devia ter ido, mas não fui".

Ela riu baixinho com expressa confusão nos olhos orientais. "Não esperava que risse", brincou. "Desculpa, é que sei lá, por um momento eu achei que você tinha me chamado aqui pra sei lá...se declarar, tentar me convencer a ficar com você, qualquer coisa menos isso". Manuseava o cigarro com a mão esquerda pra que a fumaça não chegasse nela. "Quem disse que não é esse meu plano?" Percebendo que ela não o levara a sério, continuou.

"Imagina que, e preciso que você me siga nessa parte", ela concordou com a cabeça, "eu tivesse dado um passo a menos. Estaria completamente a salvo, ignorante da minha condição, certo?" Uhum. "Dois, também, infinitos! Eu nem precisava passar por ali!" Outro trago, outra pausa. "Mas...mas um pra frente, um só, e eu teria me ferido. Ou estaria morto, estrumbicado pelo ônibus". Ela arregalou os olhos momentaneamente e murmurou "um ônibus?" baixinho, mas ele ignorou a intervenção. "Só um! E por quê eu não dei?"

O encarou sem resposta, esperando que continuasse, mas o silêncio se manteve por diversos segundos. Podiam ouvir uma aula de geografia pela janela do andar de cima. Ele jogou o cigarro longe, a bituca apagou-se no ar e caiu no lixo. "Eu não sei", respondeu finalmente cansada de esperar. Voltou a olhá-la, coçando os arredores do nariz com as costas da mão esquerda, visivelmente incomodado com o cheiro de cigarro. Mas a outra já segurava a dela.

"Porque eu sou o certo. Entende? Tô vendo que não... OK, imagina que existe um eu que, sim, deu um passo a menos. E outro que deu um passo a mais". Cada vez menos entendia o rumo da conversa. "Da mesma forma que existe um eu que está morto e outro que está...normal, talvez?" Apontou pra uma movimentação perto da cantina, arrastaram-se um pouco para junto da parede.

 "Não importa... O que acontece é...se eu te beijar agora, existe uma você que vai me bater. Outra que vai me empurrar, uma que vai me odiar pra sempre, ou sair correndo, ou deixar que aconteça. Entende?". Ela tremia desde o "se eu te beijar agora", engoliu em seco. Sem saber de onde e com que coragem, perguntou: "e qual delas eu sou?"

Não sabia como exatamente fora afetado por aquela experiência. Talvez seus olhos estavam abertos e podia fazer o que quisesse, porque a realidade era seu brinquedo. Talvez tivesse tanta confiança em si mesmo que nada mais o afetava. Talvez só acreditava que aquilo acontecia, tudo uma ilusão. Talvez tivesse dado um passo a mais. Só sabia que, certamente, não era mais o mesmo.

"A certa", respondeu, e não precisou dizer mais nada. 

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