7 de ago. de 2012

Só Uma Fala

"A segurança tem um problema que jamais admitirá, pois por mais que tente (e vem tentado desde o início dos tempos), não conseguirá resolvê-lo: a imprevisibilidade. Por quê alguém é assaltado com uma caneta? Espancado com lâmpadas fluorescentes? Morto a tiros no cinema? Não se pode prever o improvável, impedir o inesperado, somos todos reféns da loucura que uma mente perturbadamente criativa dá a luz. (...)".

Não era um de seus melhores dias. Já se cansava de ficar em pé, mantendo a postura, mantendo a feição. "É só pegar a senha, senhora, vai ser chamada num minuto". Só podia ser simpático com as grávidas e os idosos, e mesmo esses abusavam da boa vontade. Se perguntava se devia fazer outra coisa, gostava de biologia mas odiava dar aulas, como havia chego aqui? Ajeitou o chapéu na cabeça e o coldre na cintura. 

Um estouro do lado de fora lhe chamou a atenção. Saiu pela porta, só acenando de cabeça à moça que frequentemente soava o alarme, e não encontrou nada além dos carros estacionados e o tráfego usual de pessoas. Olhou pra baixo e viu uma casca de banana. Sem pensar duas vezes, puxou um lenço do bolso e abaixou-se para pegá-la, caindo de cara sobre seu corpo amarelo podre. 

"Tudo começou com uma bombinha e uma casca de banana. Pode perguntar pro guarda, se é que ele ainda está vivo, não tive tempo ou vontade de ver. Talvez outra pessoa tenha visto. Ele saiu, abaixou pra pegar a banana, bum! Caiu. Nem viu o que o atingiu. Depois foi o vidro, ah essa foi a melhor parte! Ver todo aquele vidro vindo abaixo (...)".

Odiava portas giratórias. Praticamente precisava ficar nua toda vez que entrava em um banco. Celular, chaves, brincos, às vezes até seu salto apitava o alarme. Depositava tudo na caixinha. Dessa vez tinha pressa, não perdeu tempo, "já sei o que fazer" disse ao guarda antes que ele pudesse se oferecer pra ajudar. Jogou a bolsa, o relógio e todos os seus pertences direto na caixa. Já se abaixava pra remover os sapatos, preferia o embaraço que o estresse, quando ouviu dois estalos seguidos do barulho de vidro se quebrando. 

Foi atingida no rosto por estilhaços que explodiram, pequenos mas perfurantes, caindo de costas enquanto reagia de reflexo a dor causada. Bateu a cabeça de leve no chão, mas o suficiente pra deixá-la tonta. Levou a mão à nuca e tremeu de leve ao senti sua palma molhar-se. Desmaiou ao ver o sangue que a banhava, em pouca quantidade, mas ela tinha um histórico.

"(...) de uma vez, pow pow! trim, caiu, a mulher caiu junto. As coisas dela estavam na caixinha, foi abaixo também. A porta não aguentou um, nem precisei girar. Primeiro apontei pra velhinha que retirava a senha, ela olhou estranho pra mim, não tinha ideia do que estava acontecendo. A essa altura acho que nem eu. Pow (...)".

Odiava ir ao banco. Seus filhos pagavam todas as contas pela internet, o que facilitava muito sua vida, e não era inútil a ponto de não saber usar um cartão de débito. Por quê a única cabeleireira que confiava só aceitava dinheiro? Que trabalho. Nenhum caixa eletrônico próximo, precisou ir sacar dinheiro. Iria aproveitar pra conversar com o gerente sobre uns investimentos, queria saber como passá-los aos filhos, já era hora de começar a pensar no que deixaria pra trás. 

Porta giratória. Perguntou ao guarda como poderia conversar com o gerente, aparentemente tudo precisava de senha hoje em dia. De longe avistou um bom lugar pra se sentar, já estava com dor nas costas de ter que caminhar até ali, ainda bem que não trouxera os netos, imagina ter que ficar correndo atrás dos pequenos! Estouros, vidro, abandonou a senha pra se virar e foi atingida por algo na perna. Sentiu sua carne ser atravessada, o o fêmur doía como se tivesse sido atingido por uma bigorna. A máquina de senhas explodiu ao seu lado.

"(...) pow, cai a velha, bum a máquina. Tem três caixas ali naquele horário, certo? Duas mulheres e um homem. Eu aponto pra homem, ele vê além de mim. Me teme mais que todos os outros, olha pra arma como se previsse a morte. É o mais novo ali, só tem alguns meses e só agora está se acostumando. Às vezes ainda deixa cair alguma coisa, nervoso. Parece até coisa de filme, haha. (...)".

Mal conseguia acreditar no que via. Ele era tão comum, calmo, tranquilo... Onde havia conseguido uma arma? E como ousava entrar ali e disparar contra aquelas pessoas? No que estava pensando, o que queria? O guarda, a senhora, queria gritar. Ele falou e reconheceu sua voz, tentava disfarçá-la mas alguém atento certamente a perceberia. Queria gritar seu nome, ordenar que retirasse a mascara e caísse de joelhos, parasse com toda aquela loucura imediatamente. Não conseguia fazer nada.

"Gritei contra ele, cala a boca! Até forcei minha voz na garganta, parecia gutural, sabe? Dava medo. Apontei pra morena, toda bonita com seu brinco e sua maquiagem colorida, seu decote e sua saia todo dia se oferecendo pros clientes burros o suficiente pra acreditar que ela queria alguma coisa. Não percebiam que ela só fazia isso com quem tinha um bom relógio. (...)"

Se sentia anormalmente bonita quando acordou aquela manhã, admirando as próprias curvas no espelho. Vestiu sua melhor roupa social e maquiou-se, teria um encontro logo após o serviço - tinha que ir com a roupa do corpo pois teria que fazer hora extra, culpa da falta de funcionários. O filho de dois anos estava com o pai, finalmente tinha uma semana de sossego sem se preocupar com a criança. Não que fosse uma mãe ruim, mas era bom que o pai cumprisse com suas obrigações de vez em quando.

Estava confusa e não sabia como reagir àqueles baques e gritos, levou as mãos à cabeça e entrou no coro.  Sua língua quase irrompia da boca, Afastou a cadeira pra trás e ia se jogar no chão, como aprendera no treinamento, mas congelou ao encarar a arma. Levantou-se e calou-se como ele mandava, soluçava e tremia, pensava no filho e no ex marido, daria tudo pra estar na sua cama agora, assistindo TV como normalmente faziam todas as tardes antes dela conseguir esse maldito emprego. 

"(...) Gritava como a vagabunda que era. Fiz calar a boca também, ficar de pé, tremia só de me olhar. Nem sabia que eu a odiava por todas as vezes que me ignorou ali, pelo jeito que me desprezava, mas agora ela me via.  A outra putinha ainda gritava. Atirei no vidro dela, pow, trim, calou rapidinho. (...)"

Não via a hora de ir pra faculdade. Cansou-se daquelas pessoas, de gente mal informada e mal humorada. Que custa ler? Que custa ser educado? "O atendimento está demorando um pouquinho mais porque estamos com poucos funcionários, senhor". Sentia-se furiosa por metade das informações que dava estarem completamente disponíveis em folhetos coloridos convenientemente disponíveis em vários cantos daquela sala. Queria um cigarro, talvez uma cerveja, provavelmente mataria aula. Com certeza alguém mais precisava de um descanso, e nada que uns tragos e álcool não ajudem a resolver. 

Imaginava que matérias perderia e orientava um homem que sabia muito bem ler e claramente só tinha preguiça. Tanto dinheiro e nunca precisou suar na vida, sabia pois normalmente ele vinha acompanhado do pai, grande empresário do ramo imobiliário. Diria um Bugatti e ela um Uno, e odiava o universo por isso. De repente só via o cabelo cheio de gel enquanto ele se arremessava da cadeira em resposta ao barulho de tiros. Sua única reação foi gritar. Ouviu a máscara negra gritar duas vezes, pulou quando o vidro logo a sua frente explodiu em pedacinhos, a bala atravessou a mesa e atingiu seu pé, gritou com tanta força que sua voz sumiu. Outro tiro, pensou que estava morta, outro tiro, queria já estar. 

"(...) Pow. Mais um, no playbozinho que se jogou no chão, rastejando devagar com as mãos na cabeça. Certeza que o papai que o ensinou a fazer isso, mas valeu de que? Pow. Mais um, pra aprender. Um na coxa, um nas costas, tomara que viva pra contar a história. (...)"

Chega de ser humilhado, de não alcançar expectativas, de não ser tão inteligente nem tão bonito quanto seu pai queria. Quantas noites virou acordado e não conseguiu boas notas? Chegava em casa e apanhava sob luz fraca e cheiro de whisky. Não conseguiu melhorar, foi punido indo estudar o ensino médio numa escola pública. Curiosamente gostava do lugar, as pessoas eram mais simples, seus problemas menos imbecis e suas personalidades mais interessantes. Um dia o pai o buscou na escola, apanhou porque guardara as roupas caras na mochila, queria se vestir como todo mundo. 

Já adulto ainda mantinha as aparências. Tentou várias vezes sair do negócio da família, mas nascera pra herdar as coisas do pai. Era seu único filho, seu único e melhor legado, e precisava ser o melhor de todos. A vida inteira aguentando os gritos e o alcoolismo de seu progenitor, não mais. Levaria o seu dinheiro embora, fugiria, iria estudar e trabalhar o que quisesse, onde quisesse.  Perguntava a moça caixa como poderia tornar sua conta conjunta uma pessoal, barulho de tiros, lembrou-se do segurança do pai, atirou-se da cadeira com as mãos na cabeça. Nem ouvia nada, seu pensamento gritava mais alto. Hoje não, hoje não, hoje não. Eu vou mudar minha vida, eu vou embora, eu vou ser quem eu quiser, hoje não. Sentiu uma dor aguda na perna e outra no peito, pra depois não sentir mais nada. 

"Mandei o caixa filho da puta calar a boca. Todo aquele trabalho inútil, dia após dia, e o que aprendeu? O que tinha pra oferecer ao mundo? Nada! Pra que se vestia daquele jeito, pra que falava daquele jeito, pra que existia? NADA! Nem precisou dizer nada, eu sabia que queria falar pelo jeito que me me encarava, mas que calasse a boca também!".

Observava tudo com terror nos olhos. Aquela voz não saía da sua cabeça, todos os "cala a boca" grunhidos mais reconhecíveis do que sua música favorita. Precisava mandá-lo parar, precisava entender o motivo de tudo aquilo. Por que matar alguém? Não teve uma infância difícil e não precisava de nada, pra quê a máscara e a violência e os tiros e o sangue? Tentava o máximo que podia exclamar seu nome, mas se sentia inútil, imóvel, incorpóreo. Queria ajudar as pessoas, seus colegas de trabalho, mas era impossível. Outro cala a boca. Meu deus aquela voz.

"Só tinha mais três lá dentro, se encolhiam num canto, juntos como animais fugindo de um trovão. E eu era o trovão, eu era o deus do som, da vida e da morte. Pow pow pow e iriam pro saco, tomar chá com Hades e seus cão de três cabeças, uma pra cada alma. Mas eu só apontava, e eles só tremiam. Um perguntou o que eu queria, disse que eu pegasse o dinheiro e fosse embora logo. (...)"

Fazia tempo que não tinha uma boa oportunidade de sair com os filhos. Claro que se divertiam em casa, jogando videogame ou contando histórias, mas queria levá-los ao zoológico, ao parque, a rua! Criança não foi feita pra ficar presa. Tirou uma folga, seu bom trabalho nos últimos meses agradava ao chefe e lhe permitia algumas mordomias. Acordou cedo e preparou um bom café da manhã, arrumando-os pra percorrerem uma trilha. Os dois irmãos pareciam mais felizes que nunca, ansiosos, perguntavam se chegariam logo. "Logo, só preciso passar no banco", respondeu pelo retrovisor do carro.

Deixou as crianças no carro trancado, o vidro levemente abaixado, voltaria logo. O caixa eletrônico não deixou que sacasse. "Droga!", exclamou, voltando ao carro pra buscar as crianças, não sabia quanto tempo demoraria até que conseguisse falar com alguém que resolvesse seu problema. E agora aquilo, um louco com uma arma e ele agachado, apertando os filhos tão forte que poderia quebrar seus ossos. Mas não importa, os protegeria até o fim da vida, jurava por deus e por tudo que tinha na vida. Por que não ia embora? "Por que não pega o dinheiro e vai!?"

"(...) Pow, pow, pow, eu pensei. Click, click, click, eu ouvi. Acabaram minhas balas. Nem conseguia ver os menores, o maior chorava como um bebê. Virei as costas e fui embora, correndo, sob o olhar chocado do caixa. Ele me conhecia, me olhava mais fundo que todos, queria me seguir e me bater. Mas não iria, porque concordava comigo. Sabia o que eu sabia.

Sabia como se sentiriam. Que quem acordasse amanhã teria o dia mais bonito de sua vida. O primeiro café da manhã teria um sabor melhor que qualquer coisa que já provaram. No fim, acho que era sobre isso, sobre abraçar sua vida, o que você faz, o que é."

Correu pelo buraco onde era a parede de vidro do banco, o barulho de sirenes e a confusão explodia seus ouvidos, ignorava os cacos no chão e os gritos, sabia que a polícia se aproximava. Mas não importava, precisava saber, correu o máximo que seu pulmão aguentava. Seu corpo inteiro tremia. Chegou em casa mais rápido que qualquer outra vez na vida. Atravessou a porta sem falar com a mãe, entrando no quarto quase sem abrir a porta, levou-a com o corpo. Tudo estava no lugar, a cama bem feita, o som, o espelho. Irrompeu-se a gritar. 

"POR QUE? POR QUE?" Berrava, chorava. "Por que você fez isso, quem você pensa que é? Seus pais te deram tudo na vida, sua mãe mais ainda. Nunca chorou por nada a não ser por coração partido. Não é burro, não é feio, não sofreu bullying, NADA! POR QUE?!"

"Eu escrevi essa carta", respondeu. A lia com toda atenção, cada linha, cada parágrafo, meu deus aquela voz. Queria morrer a cada onomatopeia,  não aguentava mais tremer, seu olho esquerdo deixou cair uma lágrima. Quando chegou ao último parágrafo seu coração quase parou. Sentia ódio dele, do mundo, de si mesmo. "Tudo isso...tudo...as pessoas...os tiros...gente morreu...por uma fala de Clube da luta?"

Aquele sorriso irônico foi apagado a base de socos. Nunca colocara tanta força em seus punhos, nunca sentiu tanta dor. A mãe encontrou o filho desacordado, seu rosto amassado a pancadas e coberto de sangue, exceto por seu olho esquerdo que chorava. A cobertura do jornal local acompanhava o trabalho da polícia enquanto buscavam o funcionário do banco que faltou naquele dia. 

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