Vasculhavam a caixa empoeirada a procura da foto que provaria a coincidência. Ou era mesmo coincidência? Sabiam que não eram os únicos a relatar tal história pois tinham na cabeça o ressoar daquelas palavras, mas não conseguiam estabelecer quem exatamente as dissera, ou se as suas memórias eram só mímicas de histórias alheias mal guardadas em seus cérebros confusos.
Lá estava, no meio de outras dezenas de registros daquele churrasco, a foto que provava o improvável: tinha cabelo liso na infância. Cortado em cuia, como um indiozinho perdido na civilização, vestia uma camisa dos Power Rangers e fazia pose de luta pra câmera. Pedro quase esfregou a foto na cara de Felipe, que já mordia os lábios em contragosto, antes acreditava fielmente que estavam enganados.
Uma semana depois se encontraram novamente, dessa vez era Felipe quem trazia uma fotografia. Não tinha nem seis anos de idade e sentava-se confortável na moto do pai, calçando os reconhecíveis tênis que acendiam pequenas luzes ao contato com o solo. Os cabelos lisos cobriam a testa, não os cortava há meses na época da foto. "Tá vendo, eu não disse!" Mas o que isso significava? Precisavam de mais informações.
O ponto de encontro em suas histórias é que os incomodava. Ambos foram fatalmente afetados por um corte de cabelo em específico, que arruinou suas madeixas pelo resto de suas vidas. Uma amiga de Pedro jurava ter ouvido algo similar de sua mãe, sobre um menino que tinha cabelos lisos na infância, mas após uma tesourada encrespou-se como palha de aço.
Visitaram juntos a casa da menina, ela os recebeu no portão descalça e descabelada. Assim que se sentaram na sala foi repreendida pela mãe, "seja apresentável na frente das visitas! Por isso nunca arruma um namorado". Contou a eles que era seu sobrinho a vítima do corte, e que ele não morava tão longe, poderiam visitá-lo no mesmo dia.
Acompanharam a simpática senhora até a casa de Jorge, que respondeu suas perguntas curioso e animado. Não tinha fotografias, mas jurava de pés juntos que seus cabelos negros e e banhados a "Johnson Para Cabelos Cacheados" um dia foram como os de uma gueixa. Se lembrava de um senhor que cortou seu cabelo, fez um trabalho terrível (ficou feio por meses) e depois disso cresceu completamente diferente. A mesma história que os outros se lembravam.
Agradeceram a senhora e ao rapaz, "você não se lembra de mais nada?" Ele parou um momento, pensativo, e exclamou como se recuperasse a memória do fundo do abismo: "ele não trabalhava lá!" Se entreolharam confusos. "Eu cortava o cabelo ali regularmente, mas aquela foi a única vez que era ele o cabeleireiro". Felipe levou a mão a cabeça num tapa que foi sentido pela sala toda. "Isso mesmo! Eu sempre cortava com uma mulher, ela morava na mesma rua que eu, e naquele dia foi um homem que ela disse ter contratado, mas nunca mais o vi!"
Mas uma coisa não batia: apesar de morarem na Zona Sul de São Paulo, não haviam passado a infância no mesmo lugar. Felipe cresceu ali, Pedro em Foz do Iguaçu e Jorge em Minas Gerais. Mas estavam esperançosos, alguma coisa não cheirava bem e precisavam descobrir o que. Jorge retirou as linguiças do fogo, quase as esquecera queimando no óleo, por pouco não pôs fogo na casa. Se despediram ainda mais confiantes.
Por um mês não tiveram novidades, até que Pedro conseguiu localizar sua antiga cabeleireira. Ainda morava em Foz, então se comunicaram algumas vezes por e-mail, perguntando sobre alguém que contratara uns 11, 12 anos atrás. Apesar de estranhar as perguntas, respondeu-as assim que pôde, o melhor que sua memória lhe permitia. Não lembrava o nome, mas contratara sim um senhor naquela época que só cortava o cabelo de meninos. Se surpreendera pois ele havia trabalhado em vários salões, quase um nômade dos cortes masculinos.
Conseguiram os telefones e e-mails de alguns dos contratantes do misterioso homem. Todos diziam a mesma coisa, que um dia ele apareceu pedindo um emprego e que mostraria suas habilidades durante sua estada, trabalhando até de graça de fosse necessário. A única condição é que só atenderia crianças, o que ninguém estranhava pois realmente precisavam de alguém que passasse um tempo com as tagarelas.
Cada relato parecia suportar a ideia de que alguém estava viajando o país arruinando cabeças infantis, como um saci que trocou o cachimbo pela tesoura ou um curupira que ao invés de caçadores odiava fios continuamente planos. Conseguiram outros depoimentos e mais fotos pro seu mural da chapinha natural, já organizavam uma verdadeira investigação.
A pista mais valiosa veio na forma de uma ligação, uma mãe procurou sobre mudanças no crescimento capilar infantil num buscador virtual e encontrou citações a sua empreitada. Estava tudo fresquinho na memória, "num salão perto de casa um senhor de meia idade cortou o cabelo do meu filho mais novo, era tão bonito! Castanho claro e escorrido, nem precisava de shampoo! Agora ele mais lembra um pintinho molhado", em suas palavras. "Eu voltei pra reclamar e já não estava lá, mas o chamavam de Tuco".
Ela morava numa cidade próxima, se dirigiram até lá de trem. Nos arredores de Pirituba, procuravam salão a salão por um tal de "Tuco" que cortava cabelos. Os que o conheciam não tinham seu contato, só aparecia, ficava umas semanas e desaparecia como se nunca tivesse existido. Exaustos, pararam num café local pra acalmar seus estômagos. Decidiram que um último salão e voltariam pra casa, poderiam procurar outro dia.
Umas três casas pra baixo, um moradora havia transformado sua garagem, com algumas pias e espelhos e voilá!, cortava cabelos. Baixinha e falante, lhes disse que Tuco devia estar prestes a chegar, começara ali ontem e já estava atrasado. Trocaram um olhar animado e surpreso e, assim que iam se sentando pra esperar, um senhor entrou pela porta.
Seu bigode cobria parcialmente os lábios inchados, meio grisalho assim como seus cabelos. Usava um óculos que aumentava seus olhos exponencialmente, somando ao suéter e sapatos bem engraxados na mistura que lhe dava a aparência de um idoso, fora sua postura ou modo de andar, que se mantinham joviais. Como um túnel do tempo, cada um se lembrava exatamente daquele rosto refletido no espelho quando eram praticamente girinos.
"Em que posso ajudar os rapazes?" Perguntou sereno, indicando que o acompanhassem até os fundos. Sentaram-se num sofá no que as revistas em cima da mesa denunciavam ser uma sala de espera improvisada. Foi Felipe que quebrou o silêncio. "Você...aparentemente você cortou o meu cabelo...em 1996 no meu bairro e...", o outro o olhava numa expressão indecifrável, "e o dele também, não é? Não é Pedro? E nossos cabelos eram lisos e..."
O velho interrompeu seu discurso, "na verdade a maioria das pessoas passam por mudanças hormonais na adolescência e..." Felipe também não deixou que terminasse. "Nós sabemos disso, mas é na adolescência, e os nossos e o de muita gente mudou na infância, bem no início até, e essas coisas realmente só ocorrem na maturação sexual e..."
"Tudo bem, estou convencido. Vocês realmente sabem do que falam, irei contar a verdade. O Universo erra. Nem tudo é criado como deve ser. Vocês já ouviram falar em teoria do caos? Vejo pelas sobrancelhas que já. Um farfalhar de asas de uma borboleta...ok não irei continuar. Mas entendam essa parte: a mínima das coisas é criada diferente do que o pretendido e bum, o Universo pode morrer. Deixar de existir Não me interrompam, já estou chegando lá! Não são só cabelos. Existe gente pra consertar tudo, tudo nesse mundo que pode vir um pouco pra esquerda demais, colorido demais, liso demais. Vocês não nasceram pra ter cabelos lisos, eu consertei. Você brincava com a toalha, fingia que era um fantasma, não é Felipe? E você, Pedro, chorou porque tinha medo de tesouras. Acho que esse detalhe você tinha esquecido".
Alisava o bigode enquanto os encarava, boquiabertos e confusos. Pedro estava maravilhado e mal conseguia desviar o olhar. Felipe ergueu uma sobrancelha. "Espera mesmo que acreditemos nisso?", perguntou em total sinceridade. O velho riu, limpou os óculos com um lenço azul umedecido e ajeitou-se na cadeira. Com um olhar decidido, respondeu: "seja a lenda urbana que você quer ver no mundo."
Assinar:
Postar comentários (Atom)
0 comentários:
Postar um comentário