7 de ago. de 2012

O Cão Nosso de Cada Dia

O sol iluminava seus óculos escuros sem ousar tocar seus olhos. O conforto fazia valer a perda das cores naturais que normalmente via ali, quando as nuvens ou o entardecer lhe protegiam. Mas hoje era dia de luz fervente às 11 da manhã, e naquele campo aberto não havia camada de ozônio que protegesse quem era atingido pela impiedosa estrela.

Convenceu-se de que um dos muros era mais frio e sentou-se contra ele, sem conseguir o mínimo de sombra utilizável. Um brisa fria vinha do sul e tentava balancear a temperatura, mas ao mesmo tempo atrapalhava o manuseio do isqueiro. Alguns tragos e uma queimadura no dedo depois, conseguiu acender o cachimbo e ficou ali admirando o horizonte do ponto mais alto que podia encontrar sem invadir a propriedade alheia.

A pouca circulação o agradava, mas não demorou muito pra se incomodar com a presença de um grupinho a uns 50 metros dele e da fumaça. O observavam curiosos e ele fingia não prestar atenção, mas seus tragos eram mais curtos e menos esporádicos e já nem saboreava o tabaco irlandês. Considerou jogar o resto fora, mas que desperdício seria! Contentou-se com o desconforto.

Semi-satisfeito, pôs-se a caminho de casa. Teve que encontrar-se com o grupo, dois garotos e uma garota de aparência surrada, não aparentavam ser mais velhos que ele próprio. O mais baixo e barbado dos três pediu um cigarro. "Não tenho cigarro", respondeu automaticamente, sem parar sua empreitada. Se perguntava se eram burros, se lhe pedissem o cachimbo não teria recusado, mas cigarro realmente não tinha.

Tendo certeza de estar fora da vista dos três, cheirou as mangas da blusa, torcendo o nariz ao reparar que levava todo o odor do tabaco consigo. Se tivesse tomado banho com o fumo não federia tanto, como entraria em casa cheirando assim? Resolveu tomar um caminho diferente, mais longo, aproveitar o vento e tomar um ar. Respirar. Atravessou a rua sem olhar e seguiu rumo por ruas conhecidas mas pouco frequentadas.

Encontrou uma quadra vazia. Sentou-se atrás do muro, numa curta divisão entre grama molhada e cimento seco, próximo a uma das traves. Se preparava para aproveitar os últimos tragos, feliz em encontrar um raro lugar desocupado, longe de barulho e de olhos, e conferia o cachimbo a procura de resquícios de fumo. Uma quantidade razoável ainda se mantinha, acendeu-o com o isqueiro numa única e longa tragada, de olhos fechados e sorriso no rosto.

Soprou a fumaça assistindo-a dissolver-se no vento, um leve branco poluente em meio ao vasto azul do céu. Recostava a cabeça pra trás e pra esquerda afim de proteger a chama, engasgando e tossindo duas ou três vezes ao ver um enorme cachorro preto que o encarava com a mandíbula aberta, sua língua e baba salvam pra fora penduradas sem sustentação.

Teve que arrumar os óculos que se deslocaram no susto. O canino nem parecia ameaçador, tinha mais cara de abandonado, cansado e faminto, mas sua presença ali alertara seus sentidos. Levantou-se, amargurado, desistindo do cachimbo e da rua, já estava na hora de enfrentar a porta.

Vestiu o capuz enquanto caminhava aquela longa rua ensolarada, de um lado acompanhado de árvores e um córrego, do outro de casinhas que na maré alta inundavam de marrom e lixo. A latinha prateada no bolso balançava, fazendo barulho ao chocar-se com seu conteúdo de madeira, o fornilho constantemente se soltava da piteira e dançava livremente pela lata. Tec tec tec tec tic tec tic tic tec tec. Não reconhecia o tic. Olhou pra trás e viu o corpo negro do cachorro se aproximando, podia jurar que desviava o olhar ao reparar que percebera.

Continuou seu caminho e logo voltou a ouvir o barulhinho. Novamente se virou, dando de cara com o canino que chegara mais perto, quase tocando seu traseiro. "Xô, sai daqui, sai" ordenou, se esforçando pra engrossar a voz, espantando o animal com as mãos - que recuou alguns passos, seguindo na direção contrária. Continuou seu caminho até ouvir o som inconfundível, novamente estava lá o maldito!

"Sai cachorro do caralho", já estava furioso, "se eu pudesse te dava um tiro". Nem sabia de onde vinha tanto ódio, mas aquele bicho que o seguia já lhe corroía os nervos como uma furadeira que nunca é desligada - cansou-se de olhar pra trás, cansou-se do som das patas, cansou-se daquela rua inacabável. O cachorro não latia, não ameaçava, não avançava, mantinha o olhar abatido disfarçado sempre que se via observado, mas o odiava simplesmente por segui-lo.

Aproveitou que um carro saía da garagem para contorná-lo e despistar a sombra negra, acelerando o passo e se contentando em não mais ouvir nada. Seguiu contente até o fim da rua, feliz em poder virar a esquina e dar adeus ao "DESGRAÇADO, VAI TOMAR NO CUUU", lá estava ele de novo, cheirando folhas a três ou quatro passos largos de si. Aparentemente aprendera a disfarçar suas passadas. Cerrando os pulsos, xingou os antepassados do cão e, quase correndo, virou uma esquina e sua vizinha, finalmente livre do perseguidor.

Ainda respirava curto, trotando sem querer, concentrado no barulhinho do cachimbo em seu bolso. Carros, pessoas, vendedores, ouvia cada som na rua e de muito, muito longe já enxergava um grupo de cachorros numa casinha no morro. Já se sentia tranquilo quando ouviu um suspeito "arf arf" próximo. O sangue subiu a cabeça, virou-se pronto pra gritar, espantar o animal aos berros e, se necessário, aos socos e pontapés e mordidas e enfrentaria seus dentes e suas patas nem que saísse ferido nem que fosse pro hospital nem que sangrasse mas meu deus pára pára de vir atrás de mim.

Olhou pra trás e não havia nada.

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