21 de ago. de 2012

Telemarketing

Uma incomum mas bem vinda coruja piava lá fora, seus olhos amarelos bem abertos, faróis do céu noturno que iluminavam a janela de madeira. O trinco quebrado pendia molenga, e o vento preguiçoso forçava as dobradiças devagar, abrindo e fechando o portal mágico pro quarto dela. Mal podia encontrá-la em sua cama bagunçada, livros e mais livros, headphones, bichos de pelúcia - podia arrumar o quanto quisesse, em uma semana tudo voltava a fazer parte de seu leito.

Sob o peso dos dois travesseiros dormiam suas sapatilhas - mal se lembrava que existiam e nem as sentia ali, mas eram sempre as primeiras a procurá-la ao cair da noite. Tinham vida própria. Queriam brincar, sentiam-se nostálgicas só de tocar seus dedos em meio a pesadelos conturbados que resultavam em espasmos mentirosos. Voltavam a contentar-se com os próprios sonhos, esperando que também estivessem nos dela.

Não estava tão errada. Em meio as suas mãos pequenas, de unhas pintadas com zelo frente a tela do computador, de olhos bem fechados e enebriada sob o aroma do lençol amaciado, sonhava com tempos mais fáceis. Quando cantava, e seu dia era cantar. Dançava, e seu dia era dançar. Amava mas não dedicava seus dias a tal frivolidade.

Uma traça mais curiosa podia encontrar nas páginas do diário relatos dos mil e um talentos que tinha. Os vizinhos lhe traziam doces pois os alegrava logo de manhã treinando em seu piano. Os amigos não faltavam a nenhuma das suas apresentações nos fins de semana. Os pais rasgavam sorrisos tagarelando a última empreitada da menina que podia fazer tudo, tudo!

Centenas de páginas vazias ainda restavam, pois nem isso levou em frente. Os rabiscos da última falavam sobre como se sentia perdida, como todos ao seu redor pareciam ter lido um manual de instruções que ela não recebeu. Defeito de fabricação. Como explicar que não se sentia completa e feliz em nada, e que se não sabia quem era agora, não poderia decidir quem queria ser o resto da vida?

Mas o diário não se alimentava há anos, vivendo de poeira e o ocasional papel importante que lhe é conferida a tarefa de guardar. Tão importante que acabava esquecido e, sem querer, virava página do caderno, parte da história.O mesmo processo acontecia com os tantos que ela largava jogados, de desenhos ou de partituras, romances que nunca terminou, revistas que não conseguia se desfazer.

Acordou com um barulho cego, procurando os óculos pra verificar o que havia acontecido. Não conseguia encontrá-los e já bufava feroz, jogando as coisas pro lado na crença de que havia adormecido com eles no rosto. De repente lembrou-se que os deixara ao lado da televisão e levantou o corpo com tremendo esforço, tropeçando no edredom lilás e quase atingindo a cômoda com a cabeça.

Suspirando a aventura matinal, correu até a janela semicerrada, encontrando algumas penas cor de mel como seus cabelos sob a luz do sol. Olhou pro chão e encontrou, atônita, uma coruja que mal se movia enquanto afundava as dores na grama baixa. Quem cronometrasse sua viagem chegaria a conclusão de que pulara até lá embaixo.

Com uma toalha envolveu o pássaro, tomando cuidado para não feri-la mais que a batida. Nunca havia visto uma coruja e mal sabia dizer muito sobre elas, mas não imaginava a espécie como o tipo de kamikazear contra janelas. Aninhou o bicho numa caixa de sapatas feita cama de hospital e deixou um bilhete pra sua mãe explicando tudo, junto com vinte reais para despesas alimentícias do convidado.

Colocou qualquer roupa coletada em meio as pilhas no chão (só ela sabia distinguir as limpas das sujas), calçou uma sandália, perfumou-se e saiu apressada. O celular já lhe gritava que eram nove e meia, e ela precisava estar no trabalho as dez. No caminho, a televisão do ônibus exibia seu horóscopo. "Câncer: evite culpar os outros pelos seus problemas. Presságios podem cruzar o seu caminho". Pensou na coruja por um instante, mas uma lombada sacudiu a ideia pra longe, estava mais preocupada em se segurar.

Sentia-se com sorte, fazia muito tempo desde a última vez que vira a Faria Lima livre de trânsito. Entrou dando bom dias expressos e, ardilosamente, contrabandeou uma rosquinha da mesa de café para seu cubículo. Não sobreviveria sem comer e, se parasse ali, ouviria por estar atrasada. Era melhor ouvir por estar trabalhando, dedos doces ou não.

A senha era uma lembrança constante. Um nome seguido de um número. Nunca conseguiu mudá-la, mas não sabia o motivo; o número era randômico. Era, então, obrigada a pausar 5 segundos toda vez que digitava a bendita sequência, duas ou três memórias cada dia mais distantes, mais amarelas. Vestiu o Headset e atendeu uma ligação.

Todo cliente pensa ser único, mas é sempre o mesmo: ou não sabe, ou pensa que sabe. Os graus variam, mas seu comportamento também: estresse agudo, estresse moderado, calmo, aberto a aprendizado, opinativo, "fiz um técnico" e o novo Steve Jobs. Claro que há aquele preocupado, o reclamador, o perguntador, o feliz, o depressivo, o piadista. São eles as chaves .1 a .6, sem ordem, no meio de tantas outras. Apertou o 4.2.3.3, só mais um antes do almoço.

- Cara, cê não tá entendendo. - Era como se seu coração dominasse o ritmo de suas palavras. -  Eu tô sem internet há três dias, eu preciso desse negócio funcionando!
- Senhor, no nosso sistema consta que sua conexão está operando perfeitamente. O senhor já tentou um anti-vi...
- Meu. Computador. Não tem. Vírus. - Disse entre os dentes, em jatos calculados de ar. Ouviu o barulho de um tapa, bem perto do fone. - A minha internet não está funcionando e eu preciso que alguém resolva isso imediatamente!
- Só um minuto senhor.

Apertou o botão de mudo. Respirou fundo, odiava quando era tratada em tons. Verificou o sistema outra vez e tudo parecia estar como deveria, verde como os semáforos a caminho do trabalho. Continuava ouvindo-o resmungar, "caralho que merda, que droga, o que eu faço, o que eu faço". Pressionou o botão rapidamente, "só um minutinho, senhor", e voltou a checar os registros.

Já estava prestes a oferecer a visita de um técnico quando reparou algo estranho. "Senhor, eu vou precisar de cinco minutos para conferir um possível erro no sistema. O senhor aguarda?"  Podia ouvi-lo respirar pausadamente, o pulmão rouco e arranhado fazia-se presente a cada exalada. Acelerou. "Posso, mas rápido", respondeu. Foi rápido.

O seu chefe era um homem estranho. Calvo, bem calvo, do tipo que nasceu pra ser um Globetrotter mas sofreu rápido os efeitos da erosão causada pelo vento, chuva e estresse. Tinha uns tiques que indicavam o uso de algo além da cafeína, mas ela não se importava. Na melhor ou pior das hipóteses o compreendia. Olhou pra ela com as pupilas bem abertas, deitou-as sobre as letras miúdas do papel impresso.

- É...eu não sei o que fazer.
- Como não sabe?
- Esse é caso de polícia. A federal grampeou a casa de um hacker aí, parece que o cara é um gênio. Agorafóbico. Mas é viciado nuns negócios pesados, fez umas dívidas grandes e foi pegando cada vez mais. Chamou atenção. Acho que bloquearam a conexão dele sem perceber, e agora o cara tá ilhado.
- E o que eu...?
- Ai...ai...Ah...diz que vai mandar um técnico, eu vou ver se consigo achar o mandato disso aqui pra avisar alguém.
- Eu mando o técnico?
- Não, não. Claro que não.

Saiu de lá sem saber o que sentir. Por um lado entendia que não podia fazer nada, mas odiava mentiras. Vez ou outra precisou mentir, quem não? Mas chegava a machucar os outros evitando mascarar a verdade. O que podia fazer? Se mandasse o técnico não estaria mentindo, mas não era perigoso enviá-lo pra casa de um viciado?

- Senhor? - Havia esquecido de colocá-lo no mudo e sentia-se feliz por isso, a música que tocava era infernal e ele provavelmente a mataria a essa altura do loop.
- Eu...eu...e aí?
- Senhor...há mesmo um problema com sua internet e nós vamos enviar um técnico...
- E qual é o problema? - perguntou decidido.
- Não entendi, senh...
- Eu perguntei qual é o problema. Qual. É. O. Problema? - sentia que ele apertava o fone com os dedos, como se envolvesse sua cabeça com a voz.
- O problema...err...um dos cabos...
- Eu verifiquei os cabos.
- ...ele não funciona e....
- Eles funcionam.

O mouse tremia enquanto procurava o perfil dele. 4..2.3.3.4, não. 4.2.3.3.6, não. Volta. 4.5.2.2.1.1, ficava nervosa quando mentia. Ainda mais se era pega mentindo. Esqueceu o tempo que gastou fazendo as unhas e roía as da mão esquerda, pedaço a pedaço, cuspindo-as contra o monitor.

- Senhor... - começou, sem saber o que dizer em seguida.
- Olha, foda-se. Manda a porra do técnico, mas arruma essa... - parou ao ouvir barulhos na porta. Ela prestava o máximo de atenção, apertando os fones contra os ouvidos, acreditava que era a polícia.  Ouvi-o abrir a porta devagar, depois de uma vez. Som de algo caindo no chão. Logo alguém choramingava alto, em gritos desafinados que ziguezagueavam entre o apelo e a lamentação.

- Cara, eu vou te pagar! Eu juro! Não fui eu, a porra da operadora zuo minha internet cara, sério! Eu vou te pagar, não é minha culpa! Foi essa vagabunda dessa operadora, que não me ajuda, eu vou te pagar cara! Coruja, cara!

Bang. Bang. Pulou duas vezes na cadeira, pressionando ainda mais o acolchoado contra as orelhas. Bang. Bang. Bang. Silêncio. "Cinco" repetia na sua cabeça como se num coro de torcida. Podia jurar que ouviu passos ao longe, e o doce piar de uma coruja. Tirou o Headset e o depositou na mesa com cuidado. Levantou-se e saiu pra almoçar, sem olhar pra ninguém.

Nunca mais voltou.

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