19 de ago. de 2012

Dia de Hoje

Eu não sei quantos corações acelerados são necessários pra se montar uma orquestra, mas naquele quarto haviam quatro. A loira magrinha chorava no chão, seus braços finos apertados com um punhado de corda. sua boca mordia um pano sujo e molhado. Suava pequenos diamantes de sal e talvez sentisse o gosto das lágrimas se a água suja não atrapalhasse o sabor.

Tinha os olhos fixos num cato mais a frente. Prateado, recentemente polido, na sua cabeça era bem maior do que pensava. Os ponteiros do relógios a perseguiam, tic, tac, ressoavam como tambores num acústico majestosamente infernal. 14:26. Podia explodir a qualquer momento. O cano zumbia, tal qual um bicho no silêncio da árvore pedro no quintal. Seu dono também suava.

"Da onde veio essa porra?" Nem todos percebiam que ele ofegava, a loira certamente não. Estava distraída em seus próprios pensamentos. Ajeitou o cabelo crespo com a mão direita, a outra nem se movia. Mantinha  o indicador no gatilho, a unha mal roída encardida de tabaco e pó. Prensou os dentes, nem os sentia, fechando os olhos por um milésimo de segundo. Respirou fundo, voltou a perguntar. "De onde veio essa porra, caralho?!"

Com um gesto ameaçou atirar. Ela deu um grito abafado. O cachorro lá fora latia com raiva, odiava o cheiro de estranhos. Aqueles tinham um odor amargo, intragável, e ele queria rasgá-los por isso, mas a corrente se recusava a romper. Pulava contra a janela, podia ver claramente uma das fontes do seu ódio e precisava se livrar dele. Imaginava-se arrancando os cabelos da sua nuca, ah que satisfação traria afiar os seus dentes nos ossos daquela cabeça! Que o desafiava com o olhar!

"Seu cachorro é irritante", respondeu com confiança na voz. Encarava o pitbull sem se alterar com seus latidos, "que ladra não morde, não é? Imagino que a corrente aguenta um trator."  Olhou de volta pro dono do cano, ajeitou os óculos caídos. "Essa porra veio da gente, meses de trabalho duro. Muito duro."

"O caralho. Criança não fabrica remédio, guri. Onde tu arranjou esse bagulho?" Levantou a camisa, revelando outro cano, mas esse não era de prata. Pouco importava. "Ou fala ou eu canto pra ela dormir. Depois a cuca lá fora vem pegar o resto". O cachorro pulava agitado a menção de seu nome.

"Eu...eu que fiz, cara" engoliu em seco em resposta ao olhar que recebeu. Algum jogo de futebol acontecia na sala e podia-se ouvi-lo dali, narrado pelo cão e pelo Bueno. Suas mãos pálidas apertavam a mesa em que se recostava, tentava manter uma postura. Parecia acabado, cansado das escadas e do sol ofuscante que parecia refletir  em cada superfície alaranjada.Se corrigiu imediatamente. "mano, irmão", sentia que errava, "senhor, ai caralho". A bombinha deixou na mochila lá fora, seu peito reclamava disso. Uma pontada no pulmão esquerdo lhe impedia de pensar direito. 

"Cara...é, a gente demorou um tempo pra aprender...e depois pra fazer mas...mas é nosso." A loira engasgava, impedida de respirar pela boca e pouco sobrevivendo às custas do que inalava pelo nariz, entupido de areia branca e entorpecido pelo cal e o cheiro de chorume. Passou a palma da mão  por seus cabelos castanhos, "é nosso, a gente não tem porque mentir".

"É nosso" repetiu o outro, sem gaguejar, sem se incomodar com a prata. Acendeu um cigarro despreocupado, a fumaça batia contra seus cachos, pesava o mesmo que o ar na temperatura vulcânica daquela casa que parecia construída a tijolos de lava. "Ele faz, a gente ajuda" apontou com o cigarro na direção do irmão e da menina, afastando as 4700 substancias tóxicas de seus cabelos mais negros que o azul.

 O jeito que o crespo respirava sugeria que não estava convencido. Mordeu o lábio superior impaciente, quem é que morde o lábio superior? Olhou pro chão, pra loira, pro castanho, pro negro. Atirou na parede. "DA ONDE" atirou na parede, "VEIO" atirou na parede. "ESSA" atirou na parede "PORRA?". Quatro buracos pouco acima dela, que já secara de lágrimas e agora recorria a um silêncio mortal, desistido. 

Bateu o cigarro com o indicador. "Eu vou falar pela última vez." Amaldiçoava cada som que tocava seus tímpanos, lhe impediam de pensar. Tentava manter os pés no chão, acreditando fielmente nos dez metros por segundo ao quadrado. Ajeitou os óculos com a mão livre da fumaça. "Ele faz, a gente ajuda. Tem mais dois caras que entram no serviço, cada um do seu jeito. Pesquisa, planejamento, aquisição de material. Ele é o Edu Guedes e a gente lava a louça, os três fazem trabalho de campo. Cê sabe, quem usa conhece."

"Vocês não conhecem nada." Devia ter se cansado da pergunta, finalmente se moveu para a próxima. "O que eu vou querer com isso? Quem vai comprar essa merda?" Deixou de apontar pra loira, o cano agora indicava o saco de lixo na mesa, confortavelmente cheio. A mochila em que veio continuava lá fora atiçando o cão. De sua boca aberta vazavam pedaços de um cristal esbranquiçado, neblinado. Facilmente quebrável, perfeito pra ser inalado ou fumado.

"Quem você quiser que compre." Acenou com a cabeça pro outro, confirmando em silêncio que tinha controle da situação. "Os caras da lojinha empurraram 50 gramas em um dia. A gente te consegue 350 por semana, pra começar. Você vende por cem reais a grama...("ninguém vai pagar cem por essa...")...vão pagar o que você quiser que paguem. Você não tem custo nenhum, recebe da nossa mão, 40% é nosso."

"E depois?" Ainda mantinha a firmeza de quem segura uma arma na voz. "E depois o quê?" O tom de desafio na voz do moleque lhe coçava o dedo. "O branquelo perdeu o medinho, foi?", disse apontando a arma pro seu peito asmático. A loira se debatia no chão, recuperando a vida ao ver a mudança de direção. Antes ela que ele. "Eu, aponta pra mim!", tentou gritar, mas só saíram "hums". 

Bateu o cigarro outra vez. "E depois a gente investe. Aumenta a produção. Trazendo de fora até dá pra distribuir, mas até criar-se um mercado, é mais fácil com o pó. E acho que os caras lá de cima também tão satisfeitos com o jeito que as coisas estão. Mas isso aqui?" Bateu com a brasa num dos cristais em cima da mesa."Isso é feito no quintal de casa. Cê tem que ver, da pra vir de ônibus da onde a gene cozinha. Até o leva e o traz é por nossa conta."

"Eu não confio em criança." Um último trago no cigarro e o arremessou pela janela, quase atingindo o animal. "Confie nos números." O relógio, o cão, a televisão, os quatro corações. Odiava todos os sons. A arma agora era apontada pra sua cabeça e não conseguia tirar os olhos dela. Bem em frente ao seu rosto, podia ouvi-la cantar. Vibra sob cada palpitar do crespo. O dedo a centímetros do seu nariz se mexia, fazia força contra o resto do corpo. Contra o gatilho. Silêncio. "Click".

A mochila largada na sala contava uma boa quantia em dinheiro, um pouco já gasto em favor de licor e cigarros. Algumas outras coisas pra passar a noite em claro. A loira e o castanho sentavam no chão da casa vazia, desmobiliada, abraçados sem dizer nada.O outro preparava um pouco do próprio produto. Já era tarde, quase na parte desinteressante da madrugada, e ainda vestiam as mesmas roupas e a mesma sujeira do resto do dia. Faltavam forças pra se lavar, comer e dormir. 

Ela ainda sentia o gosto de sujeira, mesmo tendo escovado os dentes por quase uma hora. O castanho ainda tremia. O negro não soltara uma palavra desde que desceram o morro, fumando um cigarro após o outro, sua língua já havia se esquecido o que era água. Seu irmão quebrou o silêncio. "E agora?" Deitou o cartão de lado, inalou seu trilho e passou a bandeja. "Agora...agora a gente cozinha".

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