22 de set. de 2012

Cobalto

Naquele dia eu estava uma pilha de lixo e panos velhos. Após a última recaída, vaguei pelas ruas durante dias, sob efeito de alguma coisa estranha, muito cinza e muito roxa, vendida perto do cemitério.
"Você tem uma tatuagem?" A pergunta era válida, admiti respondê-la.
"Tenho. É uma foice, no peito."
"Misture com água e passe sobre ela."
"Só isso?"
"Só."
Dei um adeus agradecido e desconfiado ao homem cujas feições nem hipnose me fariam lembrar, tamanho foi o efeito de suas instruções e do óleo farelento. Acho que eu devia ter posto mais água. Visões e devaneios não são importantes de serem relatados ao menos que signifiquem algo, portanto registro que os esqueci.

Meu reflexo na janela me assustava. Estava muito magro e a cabeça era pura barba, como uma vassoura ao contrário. Os cabelos, castanho claros, avermelhados como se os sol os queimasse, haviam crescido um pouco desde a última vez que vi minha própria imagem.

As roupas eram todas emprestadas por tempo indeterminado, por sorte pretas. E eu não costumava me sujar muito, mesmo passando dias vagando pelo Lapa. Até teria um aspecto respeitável, não fosse a barba.

Fiz a barba.
Pedi uns trocados no farol e comprei um barbeador, quase me cortando no banheiro do terminal quando o celular em meu bolso tocou, fazendo minha perna vibrar. Acho que a única prova de eu não ser só um retardado suicida é esse celular, do qual não corto vínculos por dinheiro algum.

Fui chamado à casa de Mãe Ana e passei trinta ou trinta e três minutos em sua cozinha, lendo qualquer coisa que achei jogada ao entrar. Passei direto pelo corredor ao ver que estava acompanhada, na certeza de que me convidaria quando pudesse. O fez e entrei.

Era estranho olhá-la nos olhos após tanto tempo só ouvindo a sua voz. "Sente-se", disse com a voz áspera de bruxa mística, que só usava sob baixa iluminação. A mulher ao seu lado aparentava uns trinta e poucos, de longos cabelos loiros escorridos até quase a cintura. Era feia e já aparentava o desgaste do tempo, típico das que perdem a esperança muito novas e se deixam destruir.

Não era comum que Mãe Ana instruísse suas clientes a se sentarem ao seu lado, por isso estranhei a proximidade das duas. Puxei a cadeira oposta a elas, arranhando com a unha a pequena bola de cristal no centro da mesa. "Você guardou a verdadeira de novo?" Ela me olhou por cima dos óculos, endireitando-os em seguida. "Ladrões, agora ao que interessa." Coloquei os cotovelos sobre a mesa e fiz cara de quem queria ouvir.

"Alice, se você puder repetir a ele o que me contou, por favor." Tinha um leve sorriso confiante no rosto e lançava as mãos na minha direção. "Ele é só um garoto", protestou a mulher. "Sabe o que faz", respondeu, perdendo o sorriso e assumindo uma feição mais severa. Eu adorava quando ela fazia isso.

"Eu não..." ela começou incerta, mas logo desatou a falar; "...eu não sei exatamente quando isso começou. Eu pensei que fosse Alzheimer, sei lá."
"Comece do começo. Eu não sei quem tem Alzheimer."
"Minha mãe. E eu não sei se ela tem, ela só...dias atrás eu comecei a reparar que sempre que eu saía pra trabalhar ela já estava de pé. Ela é uma senhora de idade, sabe? Tem quase sessenta anos."
"Sessenta?"
"59"
"Continue."
"Então...desde que minha avó morreu, a filha dela, Andréia, minha mãe, não foi a mesma pessoa. Eu sei que os idosos são assim mesmo, eles acordam cedo e dormem cedo, mas ela era uma mulher tão ativa e de bem com a vida. Hoje eu saio e ela está...fazendo crochê...ela nunca fez crochê!"
"Crochê?" Olhei com dúvida pra Mãe Ana, que riu disfarçada. Adorava minha ignorância.
"É tipo tricô. Com uma agulha só e barbante."
"Entendi. Continue."
"É...então...eu chego do trabalho tarde, sabe? Eles estão com poucos funcionários e...eu saio cedo de manhã, então tomo banho e durmo. Só que ela também está fazendo crochê. Pergunto se ela vai dormir, e ela responde que logo...só que há dias eu não a vejo dormindo. As vezes chamei seu nome, sem sucesso, sem resposta...nem mesmo um aceno. Depois acorda e diz que já vai, que precisa terminar o crochê..."
"E nunca termina."
"Nunca..."
"Você pensou em levá-la prum hospital, sei lá?" Mãe Ana não gostou dessa pergunta. Alice me olhou triste.
"Eu iria...eu juro que eu iria, mas no trabalho eles... eles..."
Desatou a chorar e não me disse mais nada de útil por algum tempo, durante o qual pedi a Mãe Ana que me desse licença. Fui até a cozinha e trouxe um pouco de água com açúcar, que Alice ingeriu sem delongas.
"Hoje...hoje eu cheguei e..."
Soluçou mais algum tempo, procurei moscas nos cantos da sala enquanto esperava.
"Hoje eu cheguei..." continuou de súbito, me dando um leve susto "...e ela estava..."

Sua voz ia ficando mais triste e seus olhos mais virados pra dentro, como se fechassem. Jurava que ela estava lá de novo, enfrentando o horror que vira. "Havia crochê por toda a parte...nas paredes e...no chão, no teto, cobria as janelas...e nos cantos...um de cada lado..."
Desatou a chorar e tinha certeza que não pararia jamais.

"Ela não foi a polícia, entende? É sua avó, e ela sabe que ela jamais faria algo assim. Os homens...Alice, vá pra cozinha por um minuto por favor. Os homens ela não sabe se estão mortos, um parecia se mexer um pouco, mas ambos estavam amarrados e pendurados à parede...como moscas."
"Posso me ausentar por um instante?"
"De todo modo."

Minha viagem não durou muito. Com manha, arrombei  a janela do meu antigo quarto (há muito não era bem vindo em casa) e peguei um dos livros escondidos no cesto, embaixo dos cadernos e livros didáticos do colégio (que devia ter devolvido e esqueci).

Voltei a casa com o livro em mãos e mostrei a página em questão pra Mãe Ana, ao passo que ela chamou Alice de volta. Estava soluçando na cozinha até agora e nem notara minha ausência, a qual a mística não fez questão de noticiar, não era do tipo que gostava de choro.

Fechei o livro ao vê-la passar pela porta, sou ciumento com algumas de minhas coisas. "Alice..." comecei, procurando com o olhar a aprovação da Mãe. Ela confirmou com um aceno de cabeça e prossegui "...sua mãe teve contato com alguma aranha ultimamente?"

"Tá brincando?" Não resisti a brincar com o espanto.
"Havia homens pendurados na sua parede minha senhora. Responda a pergunta."
"Perdão...não, não...minha avó tinha aranhas de estimação, mas eu as odiava tanto que as guardou em seu quarto. Minha mãe conhece e compartilha do meu pavor. Você pensa que ela foi...picada?" Tento descrever seus olhos como um misto de dúvida genuína e incredulidade total.
"Não. Preciso ir a sua casa, o mais cedo possível." Deixei o livro sob a mesa pra que Mãe Ana o guardasse até meu retorno.

O sobrado onde morava era humilde e vencido pela chuva, a tinta desgastada sugeria que há muito não vivia um homem ali. Garoava de leve. Ela abriu a fechadura e se afastou, obviamente não queria entrar. Girei a maçaneta e empurrei a pesada porta de aço, fechando-a atrás de mim. Acendi a luz e me deparei com a senhora Andréia no centro da sala, sentada numa larga poltrona de couro reclinável, na frente da televisão nova que pouco aparecia sob os fios que corriam sobre ela.

Tudo estava coberto do mesmo branco, que se sujava em algumas partes e adquiria um acinzentado fosco. Nos cantos mais afastados da sala, quase emoldurando a televisão, dois corpos eram sustentados uns bons quarenta centímetros acima do chão, as cabeças pendendo em direção à barriga, o que só adivinhava pelos volumes de linha.

Abriu a porta novamente e colocou a cabeça pra fora.
"Ei, Alice. Qual seu sobrenome mesmo?"
"Camargo. Alice Camargo."
"De mãe?"
"Sim, claro."
"Agradeço."

Voltei pra sala e chamei pela velha.
"Senhora Camargo. Ei, senhora Camargo."
Ela tecia.
"Senhora Camargo, eu gostaria de saber se a senhora tem um bicho de estimação."

Não sei dizer o que aconteceu em seguida, só posso especular.Algum barbante deve ter enroscado e puxado meu pé, de modo que caí pra trás e bati fortemente a cabeça no chão. Alguém poderia ter me golpeado ou qualquer coisa, mas essa é a explicação que encontrei pra ter acordado pendurado no terceiro dos quatro cantos do recinto.

A velha tecia e as linhas iam se tornando cada vez mais presentes e fortemente agarradas ao meu corpo. A cabeça ainda estava livre, então tentei dialogar novamente.

"Ei, senhora Camargo. SENHORA CAMARGO!", gritei, finalmente. Ela se virou como se eu tivesse sido o mais gentil dos garotos.
"Posso ajudá-lo, jovem?"
"Eu estou com sede. Gostaria de alguma coisa pra beber."
"Na cozinha jovem," respondeu educada, "no armário da pia. Pode pegar um copo, tem água na geladeira." Esperei, mas ela voltou a tricotar.
"Senhora Camargo. Se-nho-ra-ca-mar-go. SENHORA!"
"Sim, meu jovem. Pegou sua água?"
"Não, talvez a senhora pudesse pegar pra mim."
"Estou ocupada fazendo crochê, filho, mas juro que ao terminar faço isso pra você!" Deu uma risadinha boba de idosa e voltou a tarefa infinita.

Bufou.

"SENHORA!"
"Diga, meu filho." Sua calma já me dava nos nervos.
"Eu gostaria, MUITO de saber se a SENHORA tem um BICHO DE ESTIMAÇÃO, ENTENDEU?"
"Tenho sim, jovem, um cão muito bonito. O nome dele é Murphy, pode brincar com ele, é bonzinho!" Já ia se virar pro crochê, mas eu não deixaria,.as linhas já esmagavam minhas bolas.

"NÃO. NÃO NÃO NÃO. UMA ARANHA, TEM QUE SER UMA ARANHA!"
"Eu não tenho aranhas filho!" Respondeu assustada, os olhos arregalados fixos na televisão. "Alice não gosta de aranhas!"
"CHEGA! EU SEI QUE A SENHORA TEM UMA ARANHA AZUL, AGORA ME FALA ONDE ELA TÁ PRA GENTE ACABAR LOGO COM ISSO!"
A mão que eu vinha tentando soltar estava quase livre, a velha não respondeu nada. Olhou pro quarto com profunda lamentação no olhar e voltou a tecer.
"Eu vou queimar essa vagabunda."

Finalmente me livrei do crochê, usando a mão livre pra alcançar um prego. Quando vi, o retrato que eu havia derrubado pra alcançar o instrumento era da avó, a visivelmente severa Linda Camargo. Tinha no ombro um cefalotórax e um abdômen esbranquiçados que acoplavam quatro pares de patas cor de cobalto. Um belo exemplar.

Chutei a porta do quarto sem necessidade, já que estava aberta. Tirei todas as gavetas e quadros do lugar, jogando-as na sala na esperança de que esvaziando tudo eu encontraria a bendita. Levantei o colchão e procurei entre as fronhas e lençóis, sem sucesso.
Até que eu me fiz a pergunta imbecil que devia ter feito desde o começo.
"Da onde vem todo o barbante?"

Corri até a sala e penso que talvez a besta tenha me sentido, pois a velha olhou desesperada em minha direção. Retirei de seu colo o cone e, sem pensar duas vezes, corri pra cozinha e o atirei no forno, acendendo-o com os fósforos sob a pia. Através do vidro podia ver, caminhando calmamente como se aceitasse seu trágico fim, a bela aranha azul em sua última, quente e úmida morada.

Alice não sabia de quem eram aqueles corpos. Provavelmente homens que a senhora Camargo chamara pra ajudá-la em algo e que, generosamente, adentraram a casa sem saber o que encontrariam. Mãe Ana deu um jeito de se livrar dos corpos na surdina e, pra minha surpresa, me ofereceu um emprego. "Consegue fazer isso?"
"O que?"
"Isso. Resolver as coisas."
"Consigo. Acho que consigo."

Cheguei a visitar a Senhora Camargo meses depois. Não havia se recuperado totalmente, as vezes ainda murmurava sozinha alguma coisa sobre cobalto e sua mãe, a doce Linda. Alice me agradeceu com os olhos cheios de lágrimas. Saí da casa sem deixar de ouvir, de canto de ouvido, "você fez o que pôde." 

Ingrata, que virasse comida de aranha. 

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