Era bonito em pelos e em focinho, mas o tempo e a vida na rua o haviam transformado em uma sombra do cão esbelto e inteligente que comia ração de marca. Hoje se contentava com restos, lixo, animais mortos e raras doações.
Doações vinham na forma de pães velhos, comida do almoço ou, como (felizmente) agora, ração de marca. A gordinha achava que os cães a amavam, mal sabia que muitos – não todos, mas uma parcela da população – simplesmente enxergavam bem fundo no seu coração.
Bem fundo mesmo.
Pra termos uma noção bem estabelecida, aquele cão que agora se esbaldava em ração de marca sabia muito bem que a senhora que o alimentava – e ela odiava que a chamassem de senhora, se considerava jovem (não era) – não fazia isso pelos cães. Queria encontrar um homem.
Tipo “procura-se um amor que goste de cachorros.”
Alguém que a aceitasse como ela era. Que não ligasse pro seu peso, ou julgasse quando ela acordasse descabelada. Ou qualquer um. Que goste de cachorros, ela tinha três.
Alguém alto, forte e sarado, como o Cauã Reymond. Que goste de cachorros.
Ninguém gosta de ser usado, nem ele. Mas era ração. Era muito boa. Ela podia ter trazido água também, mas as pessoas normalmente esquecem que cães também não têm uma fonte de hidratação muito confiável.
Ela ameaçou acariciar seus pelos, mas desistiu.
Pegou o saquinho vazio de ração e guardou na bolsa, provavelmente traria mais amanhã. Ok, traria mais amanhã, ele sabia disso. Tipo “procura-se um...”, acho que deu pra entender.
0 comentários:
Postar um comentário