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1 de dez. de 2012
O Envelope
Pelo correio chegou um envelope, e por uma semana o comportamento de minha esposa foi ficando cada vez mais incompreensível. Tão estranho que eu notava a diferença, primeiro em seu modo de andar e de responder aos meus chamados, e depois na maneira como me dizia boa noite antes de dormir e a expressão em seus olhos logo quando acordava.
Não pareciam mais se abrir em um sorriso, eram mais como buracos, que me encaravam como se eu tivesse culpa de algo.
É claro que a memória prega peças, e eu imediatamente voltei para aquela noite logo quando começamos a namorar e ela ainda não dizia que me amava mas eu já sabia (pois sempre soube), e mesmo assim um pouco de álcool foi o suficiente pra me deixar cair em tentação e na noite seguinte eu a encarei de frente e pensei "ela sabe, é impossível que não saiba quando me atravessa com o olhar" mas fiquei calado e engoli o champagne pra hidratar a garganta, não funcionou.
Agora era como se eu a atravessasse, mas ao invés de vê-la por dentro, só enxergo o outro lado. Dá pra assistir televisão mantendo contato visual cinematográfico. Uma carta, talvez? Não tinha remetente, que tipo de carta não tem remetente?
Chegava do trabalho sorrindo e tentava dividir com ela toda a excitante rotina da escola, de como as crianças estavam ficando insuportáveis e parecia que os próprios pais não tinham educação, e ficava aguardando que ela me mostrasse os dentes e suspirasse e no meio do seu suspiro eu ouvisse mesmo sem ela dizer "sofia", mas dessa vez não disse nada. Serviu a janta e sentou-se na cadeira diretamente oposta a mim, nem tocou na comida e acendeu um cigarro.
Talvez essa fosse a dica.
Cinco anos antes numa estrada qualquer rumo ao sul eu encontrei, por um acaso extremamente improvável e literalmente no meio do nada, uma amiga de adolescência que há muito perdera totalmente o contato. Quase não nos reconhecemos, precisando de duas ou mais trocas de olhares pra reativar a memória. E depois reativá-la de novo, seguido de um sonoro "ahhhh" mental quando lembramos onde exatamente tínhamos deixado as coisas da última vez que nos vimos. Éramos muito bom em despedidas.
Em reencontros também.
Voltando pra casa, dias depois, recebo a notícia de que deveria fumar lá fora, pois ela decidira abandonar os cigarros. Por um milésimo de segundo passou pela minha cabeça que o timing da decisão era estranho, mas o pensamento logo foi substituído pela palavra "coincidência" e até hoje acredito que tenha sido, mas e se dessa vez não for? E se for "lembra, amor, quando eu parei de fumar? É, chegaram umas fotos".
Mas nem abriu a boca, só para tragar lentamente o cigarro, me fitando com seus olhos de buraco mas sendo bela da cabeça aos pés. Tirou os longos cabelos de um dos ombros e se recostou na cadeira, cruzando as pernas e cerrando os olhos para aproveitar mais a fumaça e eu tentava comer o mais rápido possível para escapar de sua beleza pois deus, era absurdamente bonita, tão mais que a vizinha que se mudou ano passado e que dava aula na mesma escola que eu e as salas de aula pareciam exalar um cheiro afrodisíaco ou talvez fosse o perfume dela.
Nem era bonita, só safada.
E por incrível que pareça, ou cretino que pareça, isso sempre me abalava quando eu abria a porta de casa e a via arrumada sem motivo algum, maquiada e usando suas melhores roupas e perguntava "onde vamos?" e ela respondia "jantar" e me levava pra cozinha onde a comida me esperava. Quase sentia vergonha de misturar aquele cheiro doce de mulher com o aroma da cozinha e as vezes teimei que ela também sentia, mas não sentia, sei que não. Se eu pudesse chegar perto do envelope, talvez reconhecesse o cheiro, mas ele mudava de lugar constantemente e sempre desaparecia quando não estava sob a vista da destinatária.
Por mais duas, quase três semanas eu tive que aguentar esse sofrimento, de ter a certeza que algo estava terrivelmente errado mas eu não sabia o que era e eu precisava muito saber o que era pois eu sentia culpa, mas culpa de tudo, e isso não é saudável. Vê-la sentada na varanda com seus cigarros, e agora adotara uma taça de vinho também, e eu perguntava "como vai o trabalho?" e ela só dava outro gole.
Mas acabou. Ela foi embora, pegou suas coisas e simplesmente desapareceu. Não satisfeita, levou consigo o envelope.
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