26 de set. de 2012

Palha

Acho que era tarde quando topei com o homem. Grisalho, os olhos fundos como garrafas esverdeadas, tinha as bochechas secas e o pescoço flácido. Vestia um terno negro e caminhava com as mãos juntas, esfregando-as devagar. Olhava pra todas as casas e pra todos os rostos, sempre atento a menor movimentação, até mesmo do ar. Ali ninguém tinha um nome pra ele.

Duas vilas adiante, porém, lhe viam com outros olhos. Os mesmos, de medo e submissão, mas algo mais. Se atreviam. Alguns não ousavam respirar pra não sentir o cheiro acre dos seus passos. Baixavam as cabeças a visão de sua fronte enrugada e, depois que ele passava, contavam histórias sobre quem era aquele ser. Ali lhe davam nome. Ali era o Homem Sério.

Parou em frente a uma casinha humilde, pintada a uma mão de azul claro (provavelmente aguado), onde uma mãe tentava inutilmente colocar as crianças pra dentro. Alisou os bigodes desprovidos de cor  e sorriu, fazendo-as chorar baixinho. Voltou a sua expressão usual e, enfiando as mãos nos bolsos, pôs um sapato frente ao outro em direção ao escuro.

Eu não estava muito atrás. Tinha certeza que ele já sabia de minha presença há pelo menos um quilômetro, mas não deixaria de persegui-lo. Seus passos lentos me davam agonia e tenho certeza que os mantinha só pra provocar e ver-me sofrer atrás de si. Uma das crianças que brincava na terra com suas bolinhas de gude olhou pra mim desconfiada, como se eu não devesse estar fazendo o que estava fazendo.

Peste, tire os olhos de mim.

Meus olhos falavam mais que meus lábios, e a criança voltou aos assuntos que cabiam a ela. Mal sabia que sua própria mãe estava, na noite anterior, suplicando a Mãe Ana pra que eu a ajudasse. Era tarde e eu vasculhava as gavetas a procura dos restos de qualquer coisa que pudesse afastar o tédio, mesmo uma bituca de cigarro faria bem, quando recebi uma ligação.

Em cinco minutos percorri todo o trajeto, só percebendo minha aparência desagradável quando caíram sobre mim os olhares das duas, de espanto e dúvida da negra, de reprovação de Mãe Ana.

"Perdoe-o, sabe o que faz." Tive a impressão de já ter ouvido tais palavras. "Mas esquece que deve estar apresentável na frente de minhas clientes." Seu rosto fino e delicado de menina não combinava com a imponência e aura que possuía atrás de uma mesa e sob o odor de incensos espalhados pelos cantos mais improváveis da casa. Quase chutei um ao sentar.

Repeti o usual gesto de arranhar a bola falsa, que ela odiava, mas não comentou nada. A mulher ao seu lado vestia roupas tão surradas quanto as minhas, por isso me espantou o desgosto. Hipócrita. Suas mãos eram de lavadeira e tinha o corpo de quem já parira vezes demais. Os cabelos trançados eram descoloridos nas pontas, um trabalho mal feito por mãos destreinadas. Apertava a bolsa contra o peito e parecia tremer na cadeira.

Cruzei os braços e esperei.

"Vá em frente, Elaine."
"Eu..."

Já tinha aprendido a dar tempo ao tempo. Uma coisa era confiar em Ana, normalmente conhecida de longa data de suas clientes, apesar da aparência jovial. Já eram meses que meu celular só tocava pra atendê-la, e normalmente com histórias difíceis de contar.
Aquela era simples.

"Três, três...três ou quatro mês atrás...mudou pra vila, pra vila lá em cima, perto do morro, um homem muito velho...idoso, entende?. Digo, ele parecia idoso, mas era elétrico e vivia andando pra cima e pra baixo. Era simpático e fazia as crianças rir, então você entende que ele logo ganhou a simpatia de todoo mundo...Alguns...alguns mais que outros..."

Não me encarava mais e apertava os panos do vestido com seus dedos gordos. Se concentrava num ponto do chão num esforço pra não chorar.

"E então...ele entrou em nas casa da gente. Conheceu a gente e...ofereceu ajuda...disse que apesar das aparência era um homem moribundo, morrendo sabe, que gostava de ajudar as pessoas. Pagou tanta coisa, deus...brinquedos, roupas, perfumes...pras crianças, pras mulheres..."

"Pras mulheres solteiras." Concluí. Ela me olhou com uma expressão de culpa. "Não acuso ninguém." Se as pernas de Mãe Ana fossem mais longas, certeza que me chutaria. Deixei que a mulher continuasse sua história.

"Eu não sou fácil, ..."
Nesse momento travou.

"Pode me chamar de Caleb." Ana ainda não aprendera a disfarçar o riso a cada nome novo que eu apresentava.

"Caleb. Qualquer nome é nome hoje em dia. Mas não sou fácil, Caleb, e só aceitei as coisas que ele me oferecia pois dizia que não tinha filhas ou netas, parente algum na Terra, e não levaria dinheiro nenhum pro além vida." Limpou a garganta com uma tosse falsificada. "Tudo ia muito bem...as crianças viviam felizes e ele tomava café em casa, ou com a vizinha. Ou com a dona Lurdes também. A gente confiava tanto nele, tanto..."

"Um dia ele começou a levar as crianças lá pra cima, pra sua casa." Observando minha expressão, se corrigiu; "não é pra pensar besteira, sempre tinha uma mãe acompanhando...As crianças diziam que ele cuidava de cavalos e deixava que brincassem com eles, voltavam com as roupas cheias de palha. Mas aí começou os problemas..."

Aproximei mais o rosto com interesse.

"As mães, quando voltavam...não eram mais as mesma mãe. Euzinha nunca subi porque sou muito atarefada com todas as crianças e a casa, mas as que voltavam não  falavam muita coisa...só que tudo ia bem, que ele era um homem gentil. Ninguém duvidava, até que..."

"Até..."

"Até que ele começou a não ser gentil. Quando a gente cumprimentava ele não respondia...só encarava com seu rosto cada vez mais comido e magro. As crianças não gostavam mais dele, mas mesmo assim o seguiam, acompanhadas da mãe de uma ou de outra mais lá de cima. Quem sabe por que..."

Nesse momento não conteve um soluço.

"E sempre voltavam cada vez mais tristes...cada vez menos crianças...com um vazio na alma e no coração que a gente consegue ver nos olhos. Hoje, quando o velho passa, parece que a morte passou e levou a felicidade do lugar. O Homem Sério, elas falam..."

"Parece que a morte passou." Olhei pra Mãe Ana, deixando morrerem os braços ao lado do corpo. "O Inumano está fora de questão." Ela mudou seu semblante, que se mantinha neutro, pra profunda indignação. Baixou as mãos pálidas e juntou as unhas mal pintadas sobre a mesa. me olhando nos olhos com os seus, mais negros que qualquer buraco.

"É só um livro, Caleb." Bateu uma unha impaciente na mesa.
"Um livro que arruinou minha vida."
"Não há mais nada nele."
"Há memórias nele." Mantive firmeza, não queria tocá-lo.
"Onde está?"

Silêncio.

"Embaixo da minha cama. Da minha antiga cama." Na verdade estava enterrado no jardim.
"Você já voltou lá por menos." O que era uma verdade.
"Mas não irei por isso."
"Então vá sem. Mas avisado. É por sua conta e risco."
"Eu me viro sem ele."

Dizem que cada pessoa que um dia toca o desconhecido está destinada a um livro, e o Inumano foi o que caiu em minhas mãos. Presente da Cigana, que deixou bem claro que não sabia porque me dava, mas que acordou precisando se livrar daquela coisa e só eu poderia recebê-la.

Não existe autor em sua capa ou em qualquer página, e uma assinatura ilegível pode ser identificada ao fim da última folha. Escrito a mão, começa descrevendo uma inocente mistura entorpecente de sangue, ossos e ópio até um ritual de invocação pra Espíritos Aliados, tão úteis em seus desbravamentos junto com os antigos amigos. Só restavam quatro, contando com ele, de sete. Quatro de sete, dois anos, não tão mal.

Decidi não tocá-lo desde o Incidente na Casa Empoeirada, e era minha absoluta vontade manter tal promessa, mesmo que Mãe Ana me mandasse olhar nos olhos de um demônio.
Naquele dia, foi quase a mesma coisa.

Segui o Homem Sério até sua casa, que era a última do morro que dividia a vila baixa da alta - diferença que só era conhecida entre os moradores, experts em fazer divisões. Uma das mães me olhou com visível terror no olhar e subiu o morro correndo, agarrando meu casaco e jogando-se ao chão, implorando que eu não desse mais um passo.

Chutei-a.

Não conseguia ver vida em seus olhos e já começava a suspeitar o motivo.

Avancei atrás do homem malcheiroso e o vi entrar em sua casa, olhando fixamente em minha direção ao se virar pra trancar o portão. Deu meia volta e passou pela porta de madeira pintada, girando a maçaneta com as mãos finas e magras como ossos e correndo pra fechar as cortinas. Senti que era observado ao me aproximar e, numa ideia repentina, passei direto pela casa e fui direto ao estábulo.

Demorou um tempo até que percebesse o que eu fazia.

Disparou atrás de mim, trazendo em uma das mãos um fêmur dos mais limpos e gritava pra quem quisesse ouvir que eu jamais deveria abrir aquela porta, com seus dentes amarelos e imundos aparecendo por entre os fios de sua barba arenosa que cobria o buraco ressonante que chamava de boca. Uma sombra negra decrépita que me alcançava, enquanto eu tirava tábua que selava portal e entrava.

Devia tê-lo deixado fechado.

Lá dentro havia pelo menos quinze pessoas,cinco mulheres adultas e algumas incontáveis crianças. Se arrastavam, nuas e imundas, pelo chão do estábulo, ingerindo toda a palha que conseguiam até estufarem, parando de se mexer. Convulsionavam  no chão enlameado e suas pupilas, sem vida como as dos bonecos que os representavam lá embaixo, pareciam se abrir e fechar na esperança de que algo entrasse. Qualquer coisa. Mas ali, no topo do morro, só um homem vivia.

Virei-me a tempo de evitar o golpe que ele desferira ferozmente com o fêmur. Agarrei o osso pela cabeça e puxei de sua mão, sem esperar que ele reagisse enfiando os próprios dedos de agulha em meu rosto. Um entrou pela minha boca enquanto o polegar tentava pressionar meu olho esquerdo, e pude sentir o gosto salgado de seu suor. Caímos no chão e senti-me inútil por estar perdendo em uma luta física contra um velho.

Dei um jeito de acotovelar sua cara amassada e me levantei, correndo pelo estábulo em busca da marca que os trancava ali. Não foi difícil, pro número de pessoas ela devia ser consideravelmente visível, e empurrando os grandes cubos de palha seca encontrei, pintado na parede, o selamento que precisava destruir.

Me esqueci do Homem Sério e este me atacou com um pulo.

Tentava me golpear com o fêmur e tudo que eu conseguia fazer era proteger o rosto, a madeira quebrada sob minhas costas furava levemente minha pele e entrava em conflito armado com minhas costelas. Levei uma ossada bem batida na testa. Já tinha dado a luta como perdida quando, sem razão aparente, não mais fui golpeado por um osso lixado.

Abri os olhos e lá estavam os corpos cheios de palha, arrastando o corpo do homem pra dentro da floresta. Ele se debatia e gemia, gritando alguns encantamentos que tenho certeza de já ter ouvido falar, ou lido em algum lugar. Talvez no Inumano. Me levantei pra segui-los, mas percebi que era inútil: ele teria o que merecia nas mãos de quem mais podia julgar sua culpa.

Voltaria direto pra reportar à Mãe Ana tudo que ocorreu, mas a luzinha acesa da casa de Alice me seduziu. Bati três vezes na porta e o marido atendeu.

"Oi?"
"Alice, por favor."
"Da parte de quem?", perguntou desconfiando e levantando consideravelmente os ombros.
"Eu trabalho pra Mãe Ana."
Imediatamente abriu a porta e me deixou entrar. A mulher veio correndo da cozinha me receber, assim que soube quem visitava.
"Caleb, ainda bem que você está aqui! As crianças sumiram! Oito meninas e nove meninos, todos desapareceram, e umas mães..."
Caiu no choro.
"Eles...eles já não estavam entre nós há muito tempo."
"Então o homem?"
"Vivia deles. Empalhava-os."
Ela olhou pras próprias crianças, engolindo em seco. Tenho certeza que pensava na tristeza das famílias, quebradas após o desaparecimento das mães ou das crianças. Mas seu coração estava feliz por ter as suas ali. "Como? Por quê?"
Respirei fundo pra tentar explicar.
"A palha enfeitiçada entra, a alma sai. Ele se alimenta. Respira, vive. Mas fede a morte."
Ela olhava pra mim, ou além de mim. Precisei completar:
"As pessoas fazem cada coisa pra se agarrar a esse mundo...um dia eu encontrei uma mulher que pendurou o marido com pregos num pentagrama desenhado no teto. Todo dia de manhã bebia da goteira que..."

Me convidaram pra jantar, mas era tarde. Deixei a casa sem sensação alguma de dever cumprido. Se o coração dela estava feliz, o meu era pura palha.

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