3 de out. de 2012

Baldio, o Terreno


É em cidadezinhas afastadas e calmas, de um português mais pausado e sincero, que acontecem as verdadeiras histórias de amor. A extinção dos amores da cidade se dá devido a diversos fatores socioambientais que não me demoro desenvolvendo aqui.

Joana e Pardo eram apaixonados.

Ela era filha do dono da farmácia, do mercadinho e, não surpreendentemente, da pizzaria. Ele era um ninguém. Na verdade trabalhava de motoboy no estabelecimento alimentício falsamente italiano do sogro Seu Minas, o único do lugar. Conseguia atender todo mundo no domingo e ainda chegar em casa a tempo de pegar o final do Big Brother.

Joana estudava o dia todo, e tinha pouco tempo antes do pôr-do-sol pra andar livremente pela rua antes que Seu Minas, ciumento como era, a chamasse pra dentro de casa a chineladas mentais (eram desferidas com o olhar).

Os dois obviamente eram apaixonados.

Todos os dias se encontravam pontualmente às 16h15, hora ainda proclamada naquela cidade como quatro e quinze, na linguagem arcaica de nossos avôs. Ela levava doces, ele levava flores.

No começo o local de encontro variava. Um dia na porta da escola, mas decidiram que era muito perigoso – nunca se sabe o que os outros falam ou ouvem de ti. Acharam uma lanchonete, mas logo descobriram que o dono era amiguíssimo do pai da garota – e foi esse o primeiro erro do casal.

A desconfiança nasceu.

Mas nada que uma mudança não resolvesse, e logo se amavam num campinho de futebol. O único problema é que lá, pro seu susto, sempre aparecia alguém que queria – acredite ou não – jogar futebol.

Joana e Pardo encontraram um terreno.

O terreno era grande e poderia ter dado uma das casas mais bonitas da cidade, com andares e piscina e tudo. Ela imaginava um casarão de tijolinhos laranja, todo decorado a mãos de tinta branca com pequenos arvoredos espalhados frente ao portão. Talvez um balanço pras crianças perto – mas não muito perto – da piscina.

Ele construiria uma garagem pra colocar suas motos.

O terreno era cercado de muretas altas e eles mesmo pouco sabiam como entravam ali. Talvez tivesse uma fresta em algum lugar, talvez não. Era coberto por uma grama cor de lesma que em alguns pontos cutucava os joelhos da quase despida Joana.

Ele vestia jeans então não tinha problema.

Foi ali que fizeram suas maiores confissões e promessas de amor. Mas como todos os amantes, ficavam cada vez mais relaxados. Joana chegava em casa tarde e não tinha explicações, ou repetia as que já tinha usado. Arfava. Tinha grama em seus cabelos ou em seu tênis preto e rosa.

Seu Minas não gostava nada disso.

Alguma coisa estava acontecendo, não era burro e jamais deixaria que sua tão amada filha terminasse como a, peço perdão pela palavra, prostituta que era sua mãe. Não que ela usasse o corpo como profissão, mas pior, era uma vagabunda que abandonou a filha pra ele cuidar. Mas Joana nada sabia, cresceu acreditando que a mãe havia morrido.

Talvez seja difícil acompanhar o raciocínio de Seu Minas.

Dona Maria, a ex-esposa ideologicamente falecida de Seu Minas, era muito disputada pelos garotos da região em seus tempos de adolescência e puberdade. Tinha cheiro de experiência mesmo sendo tão nova e imaculada. Só tinha olhos pra um homem.

Jorge de Minas era o homem mais apaixonado da cidade. Faria tudo pra ter aquela sereia em seus braços. Naquele tempo, mulher bonita era sereia, pergunte ao Seu Minas.

Maria só tinha olhos pro Pardo.

O Pardo era um ser desprezível. Um garoto que cresceu rápido demais, cultivava a barba e trabalhava, tinha o próprio carro e sabia conversar como ninguém. Não demorou muito pra que ela se apaixonasse.

Seu Minas enxergava no Pardo da filha o Pardo da mãe. Não tinha a barba nem o carro, mas o cabelo despenteado e a motocicleta – mesmo que fosse pra entregar pizzas. Entristecia-se todas as tardes quando o filho do vizinho, Antonio, batia palmas no portão e chamava seu nome, perguntando se Joana podia sair pra passear.

Enxergava no Antonio da filha o Jorge da mãe. O que teria acontecido se o Pardo não a tivesse deixado? Se ela nunca o tivesse conhecido? Talvez fosse uma mulher direita. Talvez não fosse estragada.

Seu Minas não achava que a filha amava o Pardo, mas ela amava.

Joana e Pardo se encontraram no terreno e trocaram juras de amor, repetidas em eco pelo espaço demarcado pelas muretas desgastadas. O sol já se abaixava, mas ela estava tão hipnotizada pelos olhos dele que jamais se lembraria que logo seu pai estaria em casa e notaria sua falta e ela teria que ouvir um sermão novamente e ele faria perguntas sobre um possível caso com o motoboy.

Pardo pensava se tinha dinheiro pra gasolina.

Abraçavam-se e logo ele diria que precisava ir, não fosse a interrupção.

- Oi.

Olharam em volta procurando a fonte daquele som.

- Ooooi.

Olharam um pro outro.

- Oi. Sou eu. Eu sou o terreno, meu nome é Baldio.

Pardo ergueu as marquinhas em sua testa.

- Baldio, tai um nome que não se vê
- Verdade. Sumindo. Me sinto até raro. A moça tem frio.

Pardo verificou que Joana realmente tremia um pouco, e lhe ofereceu a jaqueta. Ela aceitou e corou e piscou os olhos trezentas e cinqüenta e três vezes.

- Bom, Baldio, foi um prazer. Vou indo pro trabalho. No caminho eu te deixo perto de casa, ta? – completou em direção a Joana, que subiu na garupa apertada da moto, entre o namorado e a caixa de pizza.

Baldio não gostou de ser desprezado. Passara tanto tempo ouvindo suas conversas, prestando atenção nos mínimos detalhes pra nunca errar. Os dois se casariam e construiriam sobre ele uma bela casa de tijolos laranja! Não podia estar enganado, ouvira com seus muros que um dia o vento há de erosar.

Seu Minas tinha um segredo. Ele tinha uma namorada.

Não era nada sério. Uma jovem, irmã da esposa de um amigo, que morava na cidade há pouco tempo. Tinha quase trinta pros seus quase cinqüenta, e acendia sua juventude como nunca outra o fazia ou fez antes dela. Quem dirá Dona Maria, aquela vespa.

Os dois se encontravam por aí. Nos fundos da farmácia, no estoque do mercadinho. Na pizzaria não, pois Seu Minas não confiava no Pardo e sua filha tinha reagido muito mal as tentativas anteriores de estabelecer um relacionamento com uma nova mulher.

Seu Minas e sua namorada encontraram um terreno.

Por sorte os fusos dos casas não se batiam.

Naquela noite, umas oito e quinze, os dois pararam suas carícias pra conversar. Seu Minas estava um pouco agitado, pois começava a desconfiar de verdade do relacionamento da filha e se pudesse arrancava os olhos do guri. Contou tudo à namorada e pediu conselhos, ao passo que ela concordava com a cabeça – era o melhor que podia fazer, não entendia muito de homens.

Uma interjeição veio do nada, mas nenhum se surpreendeu quando ele se apresentou.

- Oi. Eu sou o terreno, meu nome é Baldio.

- Olá, Baldio! Nome incomum. Eu sou Jorge, mas todo mundo me chama de Seu Minas. O que faz aqui, sozinho, no meio do nada? – perguntou.

- Fui deixado aqui. A moça tem frio.

Seu Minas deu sua jaqueta pra namorada, que agradeceu e cruzou os braços pra se aquecer.

- Agradeço, maldade minha não ter percebido. Posso ajudá-lo?

Baldio gostou da atenção.

- Pode. Eu posso ajudá-lo também. Telefone sem fio.

- O que sugere?

Seu Minas adorava ser ajudado.

- Ouvi seu problema. Posso te dizer onde ela guarda as rosas dele, e todas as cartas que recebeu. A senha do cadeado que guarda seus diários. Acho que a mãe nasceu em abril.

Fazia sentido Joana manter o aniversário da mãe como senha, e se perguntava como nunca pensou nisso antes. Fez sinal com a cabeça pra que o terreno continuasse, e esse lhe contou tudo.

- Patife! Pilantra! Esse garoto vai pra rua, e pra bem longe de qualquer lugar onde saibam meu nome.

Se ao menos conseguisse tirá-lo de perto da filha.

- Venha amanhã, quatro e quinze, eles estarão aqui. O garoto tem medo, traga um fuzil. – o terreno era muito eficiente em não guardar segredos.

Seu Minas gostou da idéia de assustar o patife.

- E o que quer em troca?
- Eu quero ser construído. Pode ser uma casinha de tijolos laranja. Uma igrejinha abandonada. Até uma semi construção que nunca é terminada. Eu só cansei de ser vazio.
- Se tudo der certo, pode ter certeza que logo você será um palácio! – garantiu Seu Minas.
- Promete?! – exclamou imediatamente, quase cortando-o.
- Prometo.

Baldio nunca foi tão feliz em toda sua vida.

Não imaginou que eles fossem chegar mais cedo.

Joana chorava e abraçava Pardo com os braços da blusa molhados de tanto enxugar as lágrimas. Ele havia sido demitido e ela ouvira palavras que nunca imaginou seu pai proferindo pra falar de alguém, ainda mais do homem que ela amava!

Pardo já tinha se cansado daquela vida pacata de cidade pequena.

- Olha, Jô – ela o olhou com suas lágrimas -, sem emprego eu não consigo ficar aqui. Não dá pra pagar as contas, entende? Meu tio disse que me arranja alguma coisa lá em São Paulo, então eu to indo pra lá sabe, pelo menos por enquanto.

Ela chorava mais.
E chorava.

Ele não sabia o que fazer.

Ela chorava.
E parou de chorar.

- Me leva com você? – disse, com firmeza.
- Quê?
- Me leva. Eu pego minhas coisas, coloco tudo numa mala. – ele a olhou estranho – Uma mochila até. Amanhã a gente se encontra aqui e vai.

Uma pausa.

- Tá bem. – respondeu.
- Mesmo? – Tentou não soar desesperada, carente ou extremamente feliz. Falhou.
- Mesmo.
- Promete? – Falhou mais ainda.
- Prometo.
- Pardo. Pardo da Silva, você jura que vem me buscar? – Já falhava litros.
- Juro. Juro. Eu, Pardo da Silva, juro vir te buscar, Joana de Minas.

Ela falharia mais e ele talvez se arrependesse e mudasse de idéia, quando ouviram tiros. Na verdade um só.
Pá.

Pardo, que era pardo, ficou branco ao ver a figura de Seu Minas se aproximar com uma espingarda na mão. Nem disse adeus, sequer olhou pra menina, pulou na moto e zarpou antes que pudessem lembrar que já esteve ali.

Ela se jogou nos braços do pai, desde já pedindo perdão.

Baldio não disse nada, mas estava extremamente feliz.

Não foi difícil pra Joana arrumar as roupas escondida durante a noite, nem mesmo arranjar uma desculpa pra sair. O pai perdoava rápido e aceitava desculpas intrincadas como a que inventou naquele dia. Às quatro e quinze estava lá, de mochila nas costas e tênis no pé, pronta pra seguir viagem ao desconhecido.

Ela e o terreno baldio.

Foi pra casa e nem fez questão de fingir mais nada, passou pelo portão com a mochila e se jogou no sofá, gastando suas calorias em lágrimas. Em um mês secou. O pai não sabia se ficava triste ou feliz.

Em anos de terreno, Baldio esperou o mesmo que Joana esperou Pardo até desistir. Dormia imaginando acordar sendo escavado, preparado pra receber todo o material que lhe tornaria o rei da cidade, enfeitado e belo. Uma grande casa, ou uma igrejinha, um estabelecimento comercial, talvez?

Nunca virou nada.

Não se cumprem promessas feitas em terrenos baldios.




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