É em
cidadezinhas afastadas e calmas, de um português mais pausado e
sincero, que acontecem as verdadeiras histórias de amor. A
extinção dos amores da cidade se dá devido a
diversos fatores socioambientais que não me demoro
desenvolvendo aqui.
Joana e Pardo eram
apaixonados.
Ela era filha do dono
da farmácia, do mercadinho e, não surpreendentemente,
da pizzaria. Ele era um ninguém. Na verdade trabalhava de
motoboy no estabelecimento alimentício falsamente italiano do
sogro Seu Minas, o único do lugar. Conseguia atender
todo mundo no domingo e ainda chegar em casa a tempo de pegar o final
do Big Brother.
Joana estudava o dia
todo, e tinha pouco tempo antes do pôr-do-sol pra andar
livremente pela rua antes que Seu Minas, ciumento como era, a
chamasse pra dentro de casa a chineladas mentais (eram desferidas com
o olhar).
Os dois obviamente eram
apaixonados.
Todos os dias se
encontravam pontualmente às 16h15, hora ainda proclamada
naquela cidade como quatro e quinze, na linguagem arcaica de nossos
avôs. Ela levava doces, ele levava flores.
No começo o
local de encontro variava. Um dia na porta da escola, mas decidiram
que era muito perigoso – nunca se sabe o que os outros falam ou
ouvem de ti. Acharam uma lanchonete, mas logo descobriram que o dono
era amiguíssimo do pai da garota – e foi esse o primeiro
erro do casal.
A desconfiança
nasceu.
Mas nada que uma
mudança não resolvesse, e logo se amavam num campinho
de futebol. O único problema é que lá, pro seu susto, sempre aparecia alguém
que queria – acredite ou não – jogar futebol.
Joana e Pardo
encontraram um terreno.
O terreno era grande e
poderia ter dado uma das casas mais bonitas da cidade, com andares e
piscina e tudo. Ela imaginava um casarão de tijolinhos
laranja, todo decorado a mãos de tinta branca com pequenos
arvoredos espalhados frente ao portão. Talvez um balanço
pras crianças perto – mas não muito perto – da
piscina.
Ele construiria uma
garagem pra colocar suas motos.
O terreno era cercado
de muretas altas e eles mesmo pouco sabiam como entravam ali. Talvez
tivesse uma fresta em algum lugar, talvez não. Era coberto por
uma grama cor de lesma que em alguns pontos cutucava os joelhos da
quase despida Joana.
Ele vestia jeans então
não tinha problema.
Foi ali que fizeram
suas maiores confissões e promessas de amor. Mas como todos os
amantes, ficavam cada vez mais relaxados. Joana chegava em casa tarde
e não tinha explicações, ou repetia as que já
tinha usado. Arfava. Tinha grama em seus cabelos ou em seu tênis
preto e rosa.
Seu Minas não
gostava nada disso.
Alguma coisa estava
acontecendo, não era burro e jamais deixaria que sua tão
amada filha terminasse como a, peço perdão pela
palavra, prostituta que era sua mãe. Não que ela usasse
o corpo como profissão, mas pior, era uma vagabunda que
abandonou a filha pra ele cuidar. Mas Joana nada sabia, cresceu
acreditando que a mãe havia morrido.
Talvez seja difícil
acompanhar o raciocínio de Seu Minas.
Dona Maria, a ex-esposa
ideologicamente falecida de Seu Minas, era muito disputada pelos
garotos da região em seus tempos de adolescência e
puberdade. Tinha cheiro de experiência mesmo sendo tão
nova e imaculada. Só tinha olhos pra um homem.
Jorge de Minas era o
homem mais apaixonado da cidade. Faria tudo pra ter aquela sereia em
seus braços. Naquele tempo, mulher bonita era sereia, pergunte
ao Seu Minas.
Maria só tinha
olhos pro Pardo.
O Pardo era um ser
desprezível. Um garoto que cresceu rápido demais,
cultivava a barba e trabalhava, tinha o próprio carro e sabia
conversar como ninguém. Não demorou muito pra que ela
se apaixonasse.
Seu Minas enxergava no
Pardo da filha o Pardo da mãe. Não tinha a barba nem o
carro, mas o cabelo despenteado e a motocicleta – mesmo que fosse
pra entregar pizzas. Entristecia-se todas as tardes quando o filho do
vizinho, Antonio, batia palmas no portão e chamava seu nome,
perguntando se Joana podia sair pra passear.
Enxergava no Antonio da
filha o Jorge da mãe. O que teria acontecido se o Pardo não
a tivesse deixado? Se ela nunca o tivesse conhecido? Talvez fosse uma
mulher direita. Talvez não fosse estragada.
Seu Minas não
achava que a filha amava o Pardo, mas ela amava.
Joana e Pardo se
encontraram no terreno e trocaram juras de amor, repetidas em eco
pelo espaço demarcado pelas muretas desgastadas. O sol já
se abaixava, mas ela estava tão hipnotizada pelos olhos dele
que jamais se lembraria que logo seu pai estaria em casa e notaria
sua falta e ela teria que ouvir um sermão novamente e ele
faria perguntas sobre um possível caso com o motoboy.
Pardo pensava se tinha
dinheiro pra gasolina.
Abraçavam-se e
logo ele diria que precisava ir, não fosse a interrupção.
- Oi.
Olharam em volta
procurando a fonte daquele som.
- Ooooi.
Olharam um pro outro.
- Oi. Sou eu. Eu sou o
terreno, meu nome é Baldio.
Pardo ergueu as
marquinhas em sua testa.
- Baldio, tai um nome
que não se vê
- Verdade. Sumindo. Me
sinto até raro. A moça tem frio.
Pardo verificou que
Joana realmente tremia um pouco, e lhe ofereceu a jaqueta. Ela
aceitou e corou e piscou os olhos trezentas e cinqüenta e três
vezes.
- Bom, Baldio, foi um
prazer. Vou indo pro trabalho. No caminho eu te deixo perto de casa,
ta? – completou em direção a Joana, que subiu na
garupa apertada da moto, entre o namorado e a caixa de pizza.
Baldio não
gostou de ser desprezado. Passara tanto tempo ouvindo suas conversas,
prestando atenção nos mínimos detalhes pra nunca
errar. Os dois se casariam e construiriam sobre ele uma bela casa de
tijolos laranja! Não podia estar enganado, ouvira com seus
muros que um dia o vento há de erosar.
Seu Minas tinha um
segredo. Ele tinha uma namorada.
Não era nada
sério. Uma jovem, irmã da esposa de um amigo, que
morava na cidade há pouco tempo. Tinha quase trinta pros seus
quase cinqüenta, e acendia sua juventude como nunca outra o
fazia ou fez antes dela. Quem dirá Dona Maria, aquela vespa.
Os dois se encontravam
por aí. Nos fundos da farmácia, no estoque do
mercadinho. Na pizzaria não, pois Seu Minas não
confiava no Pardo e sua filha tinha reagido muito mal as tentativas
anteriores de estabelecer um relacionamento com uma nova mulher.
Seu Minas e sua
namorada encontraram um terreno.
Por sorte os fusos dos
casas não se batiam.
Naquela noite, umas
oito e quinze, os dois pararam suas carícias pra conversar.
Seu Minas estava um pouco agitado, pois começava a desconfiar
de verdade do relacionamento da filha e se pudesse arrancava os olhos
do guri. Contou tudo à namorada e pediu conselhos, ao passo
que ela concordava com a cabeça – era o melhor que podia
fazer, não entendia muito de homens.
Uma interjeição
veio do nada, mas nenhum se surpreendeu quando ele se apresentou.
- Oi. Eu sou o terreno,
meu nome é Baldio.
- Olá, Baldio!
Nome incomum. Eu sou Jorge, mas todo mundo me chama de Seu Minas. O
que faz aqui, sozinho, no meio do nada? – perguntou.
- Fui deixado aqui. A
moça tem frio.
Seu Minas deu sua
jaqueta pra namorada, que agradeceu e cruzou os braços pra
se aquecer.
- Agradeço,
maldade minha não ter percebido. Posso ajudá-lo?
Baldio gostou da
atenção.
- Pode. Eu posso
ajudá-lo também. Telefone sem fio.
- O que sugere?
Seu Minas adorava ser
ajudado.
- Ouvi seu problema.
Posso te dizer onde ela guarda as rosas dele, e todas as cartas que
recebeu. A senha do cadeado que guarda seus diários. Acho que
a mãe nasceu em abril.
Fazia sentido Joana
manter o aniversário da mãe como senha, e se perguntava
como nunca pensou nisso antes. Fez sinal com a cabeça pra que
o terreno continuasse, e esse lhe contou tudo.
- Patife! Pilantra!
Esse garoto vai pra rua, e pra bem longe de qualquer lugar onde
saibam meu nome.
Se ao menos conseguisse
tirá-lo de perto da filha.
- Venha amanhã,
quatro e quinze, eles estarão aqui. O garoto tem medo, traga
um fuzil. – o terreno era muito eficiente em não guardar
segredos.
Seu Minas gostou da
idéia de assustar o patife.
- E o que quer em
troca?
- Eu quero ser
construído. Pode ser uma casinha de tijolos laranja. Uma
igrejinha abandonada. Até uma semi construção
que nunca é terminada. Eu só cansei de ser vazio.
- Se tudo der certo,
pode ter certeza que logo você será um palácio! –
garantiu Seu Minas.
- Promete?! –
exclamou imediatamente, quase cortando-o.
- Prometo.
Baldio nunca foi tão
feliz em toda sua vida.
Não imaginou que
eles fossem chegar mais cedo.
Joana chorava e
abraçava Pardo com os braços da blusa molhados de tanto
enxugar as lágrimas. Ele havia sido demitido e ela ouvira
palavras que nunca imaginou seu pai proferindo pra falar de alguém,
ainda mais do homem que ela amava!
Pardo já tinha
se cansado daquela vida pacata de cidade pequena.
- Olha, Jô –
ela o olhou com suas lágrimas -, sem emprego eu não
consigo ficar aqui. Não dá pra pagar as contas,
entende? Meu tio disse que me arranja alguma coisa lá em São
Paulo, então eu to indo pra lá sabe, pelo menos por
enquanto.
Ela chorava mais.
E chorava.
Ele não sabia o
que fazer.
Ela chorava.
E parou de chorar.
- Me leva com você?
– disse, com firmeza.
- Quê?
- Me leva. Eu pego
minhas coisas, coloco tudo numa mala. – ele a olhou estranho –
Uma mochila até. Amanhã a gente se encontra aqui e vai.
Uma pausa.
- Tá bem. –
respondeu.
- Mesmo? – Tentou não
soar desesperada, carente ou extremamente feliz. Falhou.
- Mesmo.
- Promete? – Falhou
mais ainda.
- Prometo.
- Pardo. Pardo da
Silva, você jura que vem me buscar? – Já falhava
litros.
- Juro. Juro. Eu, Pardo
da Silva, juro vir te buscar, Joana de Minas.
Ela falharia mais e ele
talvez se arrependesse e mudasse de idéia, quando ouviram
tiros. Na verdade um só.
Pá.
Pardo, que era pardo,
ficou branco ao ver a figura de Seu Minas se aproximar com uma
espingarda na mão. Nem disse adeus, sequer olhou pra menina,
pulou na moto e zarpou antes que pudessem lembrar que já
esteve ali.
Ela se
jogou nos braços do pai, desde já pedindo perdão.
Baldio não disse
nada, mas estava extremamente feliz.
Não foi difícil pra Joana
arrumar as roupas escondida durante a noite, nem mesmo arranjar uma
desculpa pra sair. O pai perdoava rápido e aceitava desculpas
intrincadas como a que inventou naquele dia. Às quatro e
quinze estava lá, de mochila nas costas e tênis no pé,
pronta pra seguir viagem ao desconhecido.
Ela e o terreno baldio.
Foi pra casa e
nem fez questão de fingir mais nada, passou pelo portão
com a mochila e se jogou no sofá, gastando suas calorias em
lágrimas. Em um mês secou. O pai não sabia se
ficava triste ou feliz.
Em anos de terreno,
Baldio esperou o mesmo que Joana esperou Pardo até desistir.
Dormia imaginando acordar sendo escavado, preparado pra receber todo o
material que lhe tornaria o rei da cidade, enfeitado e belo. Uma grande casa, ou uma igrejinha, um estabelecimento comercial, talvez?
Nunca
virou nada.
Não se cumprem
promessas feitas em terrenos baldios.
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