25 de set. de 2012

Nuvem

Na frente da minha casa tinha um louco.

Não que ele ficasse exatamente em frente a minha casa, mas ele tinha maior apreço por aquela rua e passava boa parte dos seus dias ali. Não era hostil nem nada, não incomodava ninguém e as vezes até o cumprimentavam e o alimentavam. .

Talvez estivesse ali antes e não o percebi simplesmente por ser criança demais pra absorver a informação. Mas um dia, na minha inocência infantil, me aproximei dele pra conversar. Não consigo lembrar suas palavras, mas ouvi interessado até o som ser sobreposto pelos gritos de meu pai, que surtava mandando eu voltar pra casa.

Lá dentro deu uns tapas na minha mão e eu nem sabia o que tinha feito de errado. Disse que eu não devia falar com estranhos, ainda mais com loucos. "O que é um louco?", perguntei e disso me lembro claramente. "É uma pessoa que se perdeu, meu filho." Desde esse dia eu tive medo de soltá-lo um minuto sequer quando saíamos, pois poderia acabar virando um louco.

Em Santo Amaro então, agarrava sua mão como se quisesse prensá-la.

Foram anos até que eu interagisse com ele novamente. Eu já era moleque e corria pra todo lugar, sem existir pressa. Alguns dos meninos da rua gostavam de caçoar do cara, tirar sarro do seu cabelo-barba, suas roupas e situação. Quando os respondia era com longos monólogos que ninguém entendia. Eu até tentava refletir sobre suas palavras, mas as achava vazias. De qualquer modo, o respeitava o suficiente pra não tomar parte dos hábitos alheios e, se a brincadeira da vez era atormentar o louco, eu entrava pra jogar videogame.

Meu horário era diferente de todo mundo. Estudava de manhã e por isso tinha a tarde inteira livre, muitas vezes sem o que fazer até os outros chegarem. Curtia feliz o meu tédio, mas as vezes era demais e eu saía pra explorar os arredores, levando só meu tênis e a vontade de deixar a casa.

Talvez algo mais.

Era umas quatro da tarde e eu ainda trajava o uniforme da escola, tinha preguiça de tirá-lo. Vinha descendo a rua quando vi que uma das árvores tinha umas frutinhas alaranjadas que bem podiam ser laranjas, não era tão bom com frutas. Arrisquei uma escalada e peguei umas cinco, se ficassem boas voltaria pra pegar mais.

Desci, colocando as frutas nos bolsos da blusa quando, ao levantar meu queixo distraído, dei de cara com o rosto de um homem.

Tinha os cabelos e a barba num emaranhado só, com nós visíveis aqui e ali. As sobrancelhas eram grossas só pra acompanhar o resto do rosto. O que podia enxergar de suas bochechas estava coberto de cicatrizes, e o pescoço terminava num vermelho vivo incomum aquela pele. Os olhos eram claros como a grama que pisavam, e o encaravam lividamente como a mais sã das pessoas o encararia.

"Belas laranjas."
Eu tremi um pouco nas pernas. Ele vestia calças marrons que podiam já ter sido brancas, e uma camisa do Hard Rock Cafe que minha mãe não usaria de pano de chão. Mas belas laranjas, não tão louco.
"Sim. Quer uma?"
"Não, eu pego quando quero. Faz bem, a saúde, sabe. Corpo. Não dá pra comprar a amizade."
"É, vou fazer um suco."
"Suco, isso, suco. Você parece bem. Vivido. Sadio. Faz bem."
"Obrigado." Sorri e dei dois passos pra esquerda.
"Ei."
"Oi?" Virei só o pescoço na esperança de seguir caminho.
"Posso te contar uma história?"

Não sabia o que responder.
Por instinto já teria dito não logo em seguida, talvez não de forma tão brusca e grosseira. "Tenho que espremer essas laranjas!", diria, e seguiria caminho arrancando um sorriso dele também. Pelo menos era assim que tudo transcorria na minha cabeça, mas lá estava eu parado, encarando o louco nos olhos, sem resposta.

Caminhei pro lado dele e me sentei no chão.

Ele fez o mesmo, e começou a falar.

"Cara, faz bem. Laranjas. Mas deixa eu te contar. Eu nasci poeira."
"Poeira?"
"Sim, poeira. Nasci poeira e fui poeira durante muito, muito tempo. Até que um dia eu virei outra coisa, virei água."
"Água?" Minhas perguntas me incomodavam.
"Sim, água. Acompanha. Água corre, desce montanha, desce rio. Não se compra amizade e ninguém se perde sozinho, só muda de casa. Mas o que importa é a água, que desceu e virou outra coisa. Eu virei. Virei vegetal."
Ele ficou esperando, os olhos cor de vegetal me encarando como se esperasse a óbvia pergunta. Vendo que eu não cedia, continuou.
"Isso, vegetal. Eu era um repolho, dos mais bonitos e promissores dos repolhos, até que um dia splash. Fui pisado. Virei animal."
Levantei as sobrancelhas.
"Animal. Sobrevivente, na floresta, primeiro pequeno depois grande. Cada caminho que você percorre, deixou pra trás outros trinta que podia ter percorrido e não deixa isso afetar seu dia a dia, deixa? Mas animal eu era, e os vegetais eram meus amigos porque sabiam que um dia eu já tinha sido vegetal. Aí um dia..."
"Um dia você virou homem."
Ele me olhou com espanto em cada músculo da face, abrindo e fechando a boca sem pronunciar som algum.
"N-n-n-n-n-ããaãããao."
"Não?"
"Claro que não. Aí eu virei máquina."
"Máquina?"
Ele riu e eu percebi que fazia de novo.
"Isso, máquina" continuou, ainda rindo, "ah, como era bom ser máquina! Inocentes somos, somos tolos, achando que viemos primeiro e que as construímos. Você já viu, você já viu uma árvore virar um chip? Ha hah ha ha ha, você já? Ninguém sabe onde elas nascem, só as montamos na maternidade. E elas montam a gente."
"As máquinas fazem a gente?"
"As máquinas fazem tudo."
Virou pra frente e eu acompanhei o gesto. Ficamos acompanhando um carro passar, era um Gol, pelo menos estava escrito. Gostei dali, de ficar em silêncio observando o veículo, girando uma laranja nas mãos e sentindo o vento do lado do rosto. Quase não me lembrava da história.

"Aí as maquinas me refizeram. Me refizeram homem. Eu era homem e não me sentia homem, queria ser algo mais. Quero ser algo mais."
"E o que você quer ser?"
"Eu quero ser nuvem. Fazer nublar esse lugar todo, e depois chover."

O sol estava se pondo e as poucas nuvens no céu daquele verão intenso se tingiam de um vermelho azulado, como as telas que encontrava nos livros da escola. Falamos mais um pouco, mas acho que só sobre laranjas.

Nos dias que se seguiram cheguei a procurá-lo, mas não o encontrei. Toda tarde saía pra caminhar e pegava laranjas no caminho, sentava um pouco à sombra da árvore e voltava desanimado pra casa. Nunca mais o vi.

No quinto dia soquei o despertador e não me movi da cama, a escola não mudaria de lugar até amanhã. Só me levantei quando a claridade, mais fraca que o normal, já atingia meus olhos. Os ouvidos eram poluídos de um úmido barulho de goteira.

Acordei tão rápido que minha mãe se assustou quando passei pela cozinha. Corri até a rua com as roupas que dormi e nem pensei em calçar meus chinelos. Voei do portão pra rua e imaginei que nadava na cachoeira que o céu derramava, pulando em todas as poças que encontrava em meu caminho.

A cabeça do meu pai apareceu no portão e começou a berrar.
"Menino! Sai da chuva! Enlouqueceu?!"
E, parando um segundo pra respirar e retomar o fôlego, respondi:
"Enlouqueci, pai. Enlouqueci."

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