30 de set. de 2012

Sentado


cinco, dez, quinze, quinze não. vinte e cinco. cinquenta. um real. pilha, pilhinha, três, uma, duas. contava o ouro ganhado estendendo as mãos aos céus e pedindo, pelo amor de deus que os abençoa e lhes dá o teto e a comida que colocam em suas mesas por favor, ó sombras teatrais que fingem não olhar quando olham e fingem não ter pena quando tem, e fingem não tem nada quando carregam e que doam pra ter motivos pra dizer amém quando se encerra o dia.

ó. máscaras mal encaixadas em espetos de pau. de sebo. que sorriem e pintam lágrimas em seus olhos corados de sol e de espelhos, quisera deus que vocês pudessem estar deixando aqui nessa esquina esquecida por todos os santos uma mísera e vã demonstração de que ainda se importam.

mas por quê se importariam se não conhecem minha história?

eu não teria que estar aqui sentado abraçando minhas pernas não fossem eles, eles que vieram das sombras e me arrancaram do conforto do lar. tinham dentes mal escovados e cheiravam a álcool, mas estávamos muito longe das escavadeiras de petróleo. muito, muito longe. mas eu senti o cheiro do oceano e o cheiro de seu bafo, e fui levado pras paredes cimentadas dum lugar muito baixo e ao mesmo tempo muito, muito alto.

lá em cima eu esqueci quem era. quis gritar.

quis dizer ao mundo que eu conseguia sozinho apesar de lá no fundo eu ter certeza de que não. mas é a areia que molda os seus pés, filhos, e se eu cresci foi porque a terra me alimentou com seus nutrientes espalhados pelo chão.

o que é um prato de comida pra quem já roeu cimento.

e é bebendo do que a chuva já lavou que você vai se tornando sombra, aprendendo a enxergar, falar e escutar como sombra. como os três macacos mais o tato que você ganha não porque deve, mas porque pode. e tateia até não poder mais. daí te levam, cheirando a álcool em seu bafo e de dente mal escovado e te tiram do conforto do seu lar.

ou eu estou me repetindo.

em algum cruzamento eu devo ter pego a curva errada. ou pior, peguei a viela, pensando que chegaria bem mais rápido do outro lado e acabei saindo onde não conhecia. acho que nunca encarei de verdade um mapa. daí eles vêm e te tiram do conforto do lar, eles, do álcool, dos dentes. eu, vocês, eles e elas. somos todos parte de um ciclo e se eu estou aqui, é porque vocês estão aí e vice-versa.

mas por quê se importariam.

enfiou as mãos nos bolsos e ficou mais um tempo parado encarando o mendigo que contava suas poucas moedas, sujo da cabeça aos pés, vestindo trapos que deixavam exposto tudo que tentavam cobrir. mal tinha dentes e quando tentava falar, grunhia. mas gostava de imaginar que lá dentro ainda funciona uma engrenagem e que se havia um problema, era de comunicação. girou nos próprios tornozelos e partiu, sem dar nenhuma moeda, afinal detinha todos os direitos daquela história.

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