20 de jul. de 2014

Memória Fotográfica

"Dos momentos mais felizes não tenho registro algum", disse gentilmente à moça do caixa, apontando a câmera fotográfica que descansava no vidro transparente. Ao lado dela haviam outras, das mais bonitas e poderosas, que podiam captar seus poros a um quilômetro se fosse necessário, lhe explicoou a boa moça. "Quando isso é necessário?", perguntou com rispidez. Não foi a intenção, mas aprendera que intenções não importavam, só as consequências de suas ações; aqui as maçãs rubras da mulher que agora evitava os olhos de sua cliente, ainda que caso os encontrassem talvez descobrisse seu real conteúdo.

Elenira não era, por jamais, uma mulher grosseira. Quem dera! A grosseria é qualidade de gente presumida e cheia de si, e ela só estava cabisbaixa e em busca de uma câmera. Devia dizer a atendente que ela não devia se preocupar, que só estava emburrada.

"Todo mundo é meio babaca", lhe escapou o pensamento à boca, constrangendo ainda mais a pobre atendente que só queria mesmo uma comissão e um bom frappé a caminho de casa, estavam em fim de tarde e este era obviamente mais um daqueles dias em que ninguém compra nada mas fazem muitas perguntas.

A culpa não era de nenhuma delas, mas das circunstâncias. Estivesse Elenira em sua juventude, encantada com as novas tecnologias e possibilidades infinitas da fotografia, não teria incomodado a atendente com sua tristeza intimidadora. Ou a intimidado com sua tristeza incômoda.

Verdade é, percebeu Elenira, que se afastava da loja deixando-se entrar em piloto automático no caminho do Shopping para casa, que pouca gente sabia realmente reagir a tristeza dos outros. É necessário um certo nível de tato, de abnegação talvez? Algumas pessoas devem nascer sabendo. Lembrou-se da amiga que teve lá longe, quando professores a encaravam de cima; uma menina de cabelos crespos e o perfume mais cheiroso do mundo, que mascava chicletes em sala de aula mesmo quando a repreendiam e que tinha permissão dos pais para atravessar a rua em frente à escola e comprar ela mesma seus geladinhos - coisa que só as crianças do ginásio podiam fazer! Como era seu nome? Forçou a memória até encontrar um J, mas J poderia muito bem ser a professora. O sentimento já havia lhe escapado os dedos, mas o momento ainda lhe era vívido: Elenira encolhida no último degrau de uma escada que não levava a lugar nenhum, exceto um quartinho escuro onde guardavam os livros e as baratas conhecidas da escola. Sentia o rosto salgado e grudento e tinha medo de ser vista ali, mas as lágrimas não paravam de cair.

Por que você chora, Elenira? - perguntou a si mesma, física em sua própria e vaga memória, agachando-se ao lado de seu eu criança e passando a mão nos cabelos acastanhados que oscilavam entre possíveis cortes que poderia ter na época. A pequena não respondia, incapaz de manter o fôlego, nem mesmo expressou surpresa ao ouvir os passos na escada. J nasceu sabendo, estava há muito procurando pela amiga e pressentia que havia algo de errado. Elenira não tinha nem certeza se chegou a confidenciar à amiga o motivo de tantas lágrimas. Só lembra do beijo que recebeu em sua bochecha úmida e todo o tempo desprendido ali, em silêncio, deixando-se sentir o choro e a companhia.

"Que boa memória! Se pudesse a guardaria numa caixa!" pensou, e abraçou fortemente a lembrança de modo a mantê-la consigo tempo suficiente até que finalmente, dessa e só dessa vez, encontrasse a tempo uma fonte de tinta e qualquer papel, ou lhe passasse pela cabeça escrever em seu celular!

Por muito, muito pouco, não bateu de cara com um poste.

Era uma esquina totalmente reconhecível e refeita milhares de vezes sem nenhum empecilho. No susto, ainda saiu-lhe da boca um pequeno grito. "Ah!" Tarde demais. Elenira tinha problemas sinápticos que ela mesma não compreendia. Como se nunca tivesse existido, já não estava mais lá a memória. Em que mesmo estava pensando? Tinha algo a ver com grosseria. Fora rude hoje mais cedo, mas só estava triste, pois dos momentos mais felizes não tinha registro algum, e sentia que mais uma vez havia se esquecido de algo muito importante à ela.

Conseguia se lembrar perfeitamente do jantar de ontem, mas não conseguia distinguir entre seus livros quem presenteou o que. Exercia sua profissão com admirável competência mas não tinha certeza se a última festa do escritório havia sido uma comemoração de aniversário ou a despedida de um colega. Em verdade, nesse momento, nem se lembrava mais que existira uma festa, onde vários convidados - até mesmo os embriagados - poderiam jurar que ela se divertiu.

Já ouvira chamarem sua condição de memória seletiva, mas gostaria muito de conhecer quem estava selecionando por ela e dar-lhe uma boa demissão e uns sopapos!

Não alarmava especialista algum, pelo contrário! Todos acreditavam ter a solução. "Se alimente melhor, tome esses remédios, bastante água e seja mais de bem com a vida pelo amor de deus!" O problema nunca foi esse, doutores! O cérebro de Elenira apaga as memórias felizes! "Codeína é a solução, a dor é a fonte de seus problemas!"

Nem era tão doída assim. Sabia muito bem disfarçar sua condição, rindo a cada referência àquele churrasco de amigos onde o João pulou na piscina vestido e, como esperado do João, puxou-a junto! A visão da Elenira lá, toda molhada, num misto de vergonha e riso, isso foi marcante!

Mas Elenira não lembra de riso, água ou churrasco, mas nesses muitos anos de convivência social aprendeu a interpretar o papel perfeitamente. Era sempre colocada em apuros, quando lhe pediam para que repetisse uma anedota ou que nomeasse quem mais estava naquele glorioso passeio de barco do noivado de Clarissa. "Poxa, mas e a Clarissa ein, como anda?" Era esguia, Elenira!

Mas hoje acordou bundada. Uma insatisfação entorpecente condicionada por vários anos dessas pequenas perdas e saudades sem nome. Conhecia esses dias, nele assumia uma cara de bunda inegável e rastejava pela cidade meio zumbi, meio decidida, já que em sua viagem tentava ao menos buscar uma cura ou solução, frequentando aqueles doutores chatos ou bares também chatos mas onde podia fingir que não se lembrava de nada por motivos ébrios. "Eu não acredito que te venci na sinuca!", exclamava com verídica surpresa, quando lhe contavam suas simples façanhas noturnas. Todos riam, "é, você disse mesmo que estava muito bêbada".

Estava mesmo? Ou só procurava um álibi prum encontro como esse?

Mas sempre ficava feliz quando a reconheciam. Prometeu ligar pro moreno tatuado e pro irmão dele também, mas nunca soube que eram parentes - e nem eles souberam dela. Nem cairia mal um pouquinho de romance. Tinha algumas relações desgostosas e poderia falar horas sobre elas, e nem se perdendo nelas conseguia resgatar alguma lembrança alegre e viva. Caíam todas antes de chegar ao consciente.

Comprou uma câmera uma vez, parecia uma solução ideal. Mas quando revelava as fotos só se sentia triste de não reconhecer os sorrisos, as danças e os abraços que aparecia distribuindo. Passou a fotografar só os outros, mas aí nem reconhecia aqueles quadros como os seus. Repetia-se então de quando em quando, procurando um recomeço através de lentes melhores e mais poderosas, mas agora nem nisso encontrava sentido. Hoje estava realmente bundada.

Que pessimista é essa Elenira, diziam em dias assim. Não queria nem pensar em quando tentou filmar sua vida toda.

"Ei! Ei! Senhora!" Elenira já estava quase em casa mas não reconheceu o ambulante que gritava por ela. "Senhora! Venha cá!"

Elenira se aproximou desanimada, quase arrastando as mãos no chão. Reconhecia algumas quinquilharias sobre o balcão do homem, capas e carregadores de celular, lanternas e isqueiros, chaveiros e abridores de garrafas. Esperava outro reencontro, será que fora ao bar noite passada? Isso explicaria muito. O álcool deprime. Não deprime?

"Eu não sei senhora, mas posso te ajudar!" disse o ambulante. Elenira arregalou os olhos! Estivera recitando tudo que pensava? Não parecia sair som algum de sua boca! "Calma, calma minha senhora!" E ela não conseguia responder, mais arregalada e sem palavras! Um leitor de mentes, seria possível? "Jamais minha cara, essas coisas não existem! Eu sou só um exímio praticante de uma arte muito boa em vendas e festas universitárias. Eu pratico a arte de ler rostos!"

Elenira ficou imediatamente mais calma, já que seu rosto era, ao seu ver, um livro aberto.

"E realmente é!", continuou o vendedor, "mas não é pra falar disso que a chamei hoje! A senhora me parece ter problemas para se recordar de boas memórias. E vou além! Diria que dos momentos mais felizes você não tem registro algum."

Concordava com a cabeça, realmente um livro aberto.

"Eu tenho a solução dos seus problemas minha senhora, a oportunidade de negócios que lhe trará felicidade e boas lembranças pro resto da vida."

Nesse ponto ela já estava conquistada e mal conseguia conter sua ansiedade. Será que os céus sorririam para ela?

"Pois estão sorrindo, minha senhora, pois eu tenho aqui...memória fotográfica!" O vendedor tirou uma caixa por detrás do balcão, to tamanho exato das caixas de câmeras fotográficas que possuía, mas de papelão e com "Memória Fotográfica" escrito de canetinha. Ele abriu a tampa e retirou de dentro...uma câmera fotográfica.

Elenira mal conseguia conter sua decepção.

"Minha senhora, essa câmera faz fotos, filmes, toca mp3, acessa a internet e o mais importante...tem uma bateria de carga infinita!"

Muita decepção. Já sabia onde ele queria chegar. Balançava a cabeça negativamente ouvindo o vendedor descrever os megapixels e a memória interna com expansão por cartão de memória.

"E a senhora poderá filmar o tempo todo! Memória Fotográfica! Lembrança constante a distância de um play!" Elenira podia ver onde, na câmera, havia um Tecpix riscado e o Memória Fotográfica escrito embaixo, em letras tortas, também de canetinha.

"Me desculpe senhor, mas você não leu minha cara muito bem. Eu estava tentando não pensar nisso agorinha. Eu já tentei filmar o tempo todo e sim, trocar e bateria toda hora é desgastante e até aí você teria ganho a venda, mas nada é tão desgastante quanto as pessoas me tachando de maluca."

O vendedor, cuja face Elenira não conseguia ler, mas que assumia uma expressão descontente, não se demorou a iluminar-se de novo num sorriso. "Mas se você gostar disso, minha senhora, nem irá se lembrar!"

~~

Só por essa câmera Elenira precisava pagar um real por dia pelo resto de sua vida, sem contar os gastos com cartões de memórias e suas outras armazenagens. Tinha um quarto só de rolos de película. Todas as outras máquinas também tinham baterias de longuíssima duração, e seus nomes riscados substituídos por "Memória Fotográfica", nas mesmas letras tortas e na mesma tinta, pois as comprava com o ambulante leitor de rostos.

Não escondia a natureza de seu hábito, nem o que sacrificava pra mantê-lo, e não costumava discutir com os olhares ou perguntas que surgiam das pessoas aparentemente incomodadas com sua filmagem incessante. Ao final de dias bundados, deitava-se de qualquer jeito no sofá, uma câmera ligada apoiada num tripé, e assistia a sua vida passar. Depois se assistia asisstindo. E se assistia assistindo a ela assistir. Mas era sempre bom ver-se de novo, ver-se feliz de novo e reconhecer-se ali.

De vez em quando encontrava, nas filmagens de um show ou evento qualquer, um mal amado exclamando aos ouvidos em volta o quanto essa sociedade boboca não conseguia aproveitar o momento, e que ela estava obviamente "perdendo a vida atrás da câmera". "O problema é todo meu", dizia sua voz no vídeo, e Elenira concordava e ria de si mesma.

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